Atualização: David Moyes acabou mesmo demitido nesta terça-feira pela manhã, segundo anunciado pelo Manchester United. Ryan Giggs foi apontado como técnico interino até o fim da temporada. A análise continua valendo.

Quando Alex Ferguson (não vou chamar de Sir, não, isso é pagação de pau) anunciou no ano passado que se aposentaria do United, só não apostei dinheiro que o escolhido para sucedê-lo seria José Mourinho porque ninguém propôs a aposta. Confiava nessa solução desde que o português treinou o Chelsea pela primeira vez. Apesar de ser “bocudo” com todo mundo, com Alex Ferguson e com o United ele pegava mais leve. Para mim, aquilo era calculado. Além disso, Mourinho é sem dúvida uma das estrelas do mercado mundial de técnicos, mesmo sem ter conseguido no Real Madrid o sucesso que conseguiu em outros lugares – não vamos nos esquecer, esse é um cara que ganhou a Champions com LÚCIO na zaga.

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Porém, não rolou. Desde praticamente o anúncio da aposentadoria, os rumores foram fortes de que o escolhido para suceder Fergie seria David Moyes. Também não eram rumores novos, o escocês sempre fez parte de uma lista (que teve Martin O’Neill e Mark Hughes, por exemplo) de treinadores que estavam “na espera” para assumir o United, e, de todos, era o único que não vinha de fracasso recente.

O problema é que, embora não tenha tido nenhum fracasso estrondoso no Everton, também não se pode dizer que sua passagem por Goodison Park tenha tido algum estrondoso sucesso. Sim, o time se solidificou perto da zona da Champions na tabela, chegou até a disputá-la, mas não ganhou absolutamente nada. Para comparar: no período em que Moyes dirigiu o Everton, Middlesbrough, Birmingham City e Swansea levantaram a taça da Copa da Liga.

Além disso, Moyes não era conhecido por nenhuma característica particular. Brendan Rodgers, que levou o Swansea a uma boa campanha na Premier League e que tem tudo para levar o Liverpool ao primeiro título inglês em 200 anos, por exemplo, era conhecido por ter um estilo “ousado”. Robert Martínez, que substituiu Moyes no Everton, idem, e, além disso, tinha a fama de extrair extrema dedicação de seus jogadores.

Ou seja: contratar David Moyes esperando que ele fosse conseguir sucesso em seu primeiro ano, teria sido uma tolice rematada. Contratá-lo, porém, para um “projeto de longo prazo” é simplesmente irreal para um clube que ocupa o espaço que o United ocupa no futebol moderno. Para um clube que tem donos que precisam ganhar todo ano para pagar sua dívida. Então, pergunta-se, por que contratar Moyes? E a única resposta parece ser: para agradar Alex Ferguson. A sombra do ex-treinador é de tal maneira gigantesca que é impossível escolher alguém que dela possa fugir. Uma coisa, entretanto, é ter a sombra de Ferguson; outra, tê-lo jogando contra. E quem acompanhou a carreira do escocês não pode ter dúvida de que a única maneira dele não jogar contra seria deixando que ele mesmo escolhesse seu sucessor.

Pois bem: contratar Moyes não fazia muito sentido, o time vem jogando mal e não deve pegar nem uma vaga na Liga Europa.  Não há motivo, portanto, para não demiti-lo, certo? Errado. Em primeiro lugar, é importante separar as coisas. O time não vem jogando bem, o que é indiscutível. O United, porém, não jogava bem desde que Cristiano Ronaldo foi embora. Os sucessos posteriores a isso provavelmente só aconteceram por uma soma de incompetência dos adversários com experiência e entrosamento do time de Ferguson. Isso tudo, porém, acaba. Se o Chelsea de hoje lembra o United de um par de anos atrás, o City não tinha como não melhorar, e se não fosse o Liverpool a crescer agora, seria outro. Além disso, os Red Devils contrataram pouco, e deram azar nos últimos anos. Não há quem possa substituir o que foi Ferdinand no auge. Não há laterais decentes. E Rooney, parece claro, nunca será o que se imaginou que um dia ele poderia ser, e não há “problemas externos” determinando isso, há falta de qualidade, mesmo.

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Outro técnico poderia estar fazendo melhor? Acredito que sim, que Mourinho, Ancelotti, Hiddink, alguém com mais “nome”, pelo menos neste momento não estaria tão “com a bunda na janela”, o elenco respeitaria por obrigação, e isso por si só faria o time jogar melhor. No longo prazo, porém, o time precisaria, como precisa, de um chacoalho radical no elenco. E, para isso, Moyes é tão bom quanto qualquer outro.

A figura do técnico no futebol, já defendi diversas vezes essa tese, é supervalorizada. Não fosse assim, o Chelsea não teria ganho a Champions League com Roberto di Matteo no comando. Paulo Autuori não seria campeão mundial. E por aí vamos. Há um fator só que é absolutamente determinante para o treinador que tenha um mínimo de noção (o que exclui, claro, Leão, Ney Franco e Tim Sherwood): o respeito do elenco. Quem joga bola é quem está em campo. Se o jogador não quer se esforçar pelo treinador, nem Jesus Cristo faz o time render. E é aí que entra o papel da direção do clube. A do United nunca deu segurança a Moyes. Nunca deixou claro ao grupo que ele é o técnico e será por mais pelo menos um par de anos. O escocês ainda não tem moral no futebol para se afirmar sem precisar disso. Se a direção não faz esse papel, nem há no elenco quem possa fazê-lo, o trabalho já começa capenga.

É por isso que é estúpido demitir Moyes. Poucos técnicos no mundo têm moral suficiente para encarar um vestiário como o do United. Klopp não tem. Blanc? Não tem. Van Gaal? Não. (Adendo: nosso holandês residente, Felipe Santos Souza, acha que Van Gaal, sim. Eu confesso que fiquei em dúvida, então acrescento aqui esse comentário.) Simeone? Talvez, na base da porrada. Mas nenhum funcionaria sem apoio firme e irrestrito da direção. E, se a direção vai dar apoio firme e irrestrito, Moyes é tão bom quanto qualquer outro.

O que o United precisa não é de um técnico novo, é de oito titulares novos. E um reserva decente para Van Persie. Precisa também arrumar alguém suficientemente trouxa pra dar um bom dinheiro por Wayne Rooney, mas essa não é uma prioridade, Rooney é supervalorizado, mas não é um líder, ou seja, por mais que não resolva os jogos que deveria resolver, não puxa o elenco para baixo. Mas o United precisa urgentemente de um zagueiro de primeira linha, de laterais que não sejam o Rafael, de um meia-defensivo que segure a bola – e o jogo. Já tem peças importantes em De Gea, Vidic (que, porém, deixará o time ao final da temporada), Mata, Van Persie e no próprio Fellaini, que tem as características necessárias para ser o dono do meio-campo, embora tenha se encolhido em sua primeira temporada.

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Uma nota importante aqui: tenho visto poucos jogos do United, e antes que alguém me xingue, notem que eu não comentei em nenhum momento o futebol que o time vem apresentando. Todas as impressões sobre jogadores são de gente que está aí há tempos. Não sei, porém, se os zagueiros que poderiam estar fazendo esse papel, especificamente Evans, Jones e Smalling, estão jogando bem ou mal. Sei o que Fellaini pode produzir com base no que fez no Everton, mas nada posso falar sobre o que tem feito no United. Da mesma forma, não sei se Evra ainda dá pra o gasto ou se já era, se Van Persie já tem que se aposentar, se De Gea continua falhando ou se evoluiu. De qualquer forma, mesmo que todos esses “ses” sejam positivos, acho que não há como discordar que Ferdinand já era, que Evra está velho, que Vidic estará em breve (mas aí será problema da Inter), que Rafael é ruim defensivamente. E que Chicharito, como eu avisei pra vocês há anos, não é, nem nunca será, um craque.

A direção do Manchester United tem que parar de queimar seu treinador e ir ao mercado. Tem que contratar os melhores que estiverem disponíveis. Não pode mais se contentar com os restos dos grandes da Espanha e dos milionários árabes. Falcão é “o cara”? Diego Costa (Sim, eu sei, ambos estão machucados)? Que se contrate eles, então. É desse tipo de “moral” que o United precisa agora. E de mais jogadores decentes para preencher as outras posições. Porque sem isso, mudar o técnico não resolverá nada.

Se considerarmos que a contratação de Moyes foi muito mais um gesto para apaziguar Ferguson do que algo pensado e estudado, a direção dos Glazer sofre neste momento seu primeiro grande teste. Os torcedores torcem com fervor para que os americanos façam o que tem ser feito, que é deixar a decisão na mão de alguém que entenda de futebol. Demitam Moyes ou não, há vários caminhos para que o United retome o bom caminho. Muitos podem funcionar, alguns podem funcionar rápido. Nenhum deles, porém, tem sucesso garantido. E os Glazer, capitalistas que são, têm “cultura empresarial” para entender isto. Que a apliquem a seu time de futebol.

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