São muitas bandeiras argentinas espalhadas pelo acampamento do Anhembi (Foto: Felipe Lobo/Trivela)

Somos mais parecidos com os argentinos do que pensamos

“O estádio custou muito caro. Foi construído só para a Copa do Mundo, mas é grande demais. Os clubes preferem jogar no seu estádio, que é menor. Tem menos torcida, mas é mais perto. No nosso estádio, cabem menos pessoas, mas a gente faz mais pressão. E o estádio fica lá, abandonado… Gastou um dinheirão e fica abandonado. É do governo, mas ninguém joga lá.”

A frase acima poderia ser sobre um dos estádios brasileiros da Copa, mas é sobre o estádio Malvinas Argentinas, antigo “Ciudad de Mendoza”, construído para a Copa do Mundo de 1978, o último Mundial disputado na América do Sul antes desta Copa, em 2014. A frase surgiu em uma conversa com um senhor acampado em São Paulo para acompanhar a sua Argentina, ao lado da mulher. “Somos iguais”, digo a ele, depois de ele contar a história da cancha de Mendoza, sua cidade. Ele contou a história quando falávamos sobre os excessivos gastos com esses gigantes de pedra onde se joga o futebol.

LEIA TAMBÉM: A Copa mostrou que São Paulo é também San Pablo

Não falo espanhol. Digo isso sem o menor orgulho. Meus pais se mataram para que eu aprendesse inglês, a língua estrangeira essencial. Nunca tive aula de espanhol na escola, nunca estudei por conta própria. Faço parte de um grupo simbólico de habitantes de São Paulo que entendem mais quando falam os americanos do que os vizinhos de América do Sul. Um péssimo exemplo de como muitos de nós estamos mais inseridos na cultura americana ou europeia do que na argentina, uruguaia, paraguaia ou boliviana. Como se não fôssemos latino-americanos. Como se não tivéssemos muito mais similaridades do que diferenças.

“O estádio [de Itaquera] é novo, né?”, ele pergunta. “É, inaugurou esse ano”, respondo. “Ouvi dizer que foi muito caro. E aí é dinheiro que pode ser gasto com hospital, escola. Mas os governos só querem saber de fazer obras, como vão roubar?”, disse, antes de rir, aquele simpático senhor. Poderia ser um morador de várias cidades brasileiras, mas era um morador de Mendoza, viajando desde 22 de junho, que passou por Porto Alegre antes de vir a São Paulo. Mas que não seguirá com a seleção depois. “Não tenho dinheiro”, ele justificou. “E preciso voltar a trabalhar”. E voltou para fazer o seu mate, quente, para aquecer no leve frio de São Paulo.

A invasão argentina em Porto Alegre foi consumada na semana passada. Estima-se que algo como 100 mil argentinos estiveram na capital do Rio Grande do Sul para o jogo da albiceleste contra a Nigéria. A Argentina jogará contra a Suíça na Arena Corinthians, em Itaquera, nesta terça-feira, e milhares de argentinos chegam a cada minuto à capital paulista para apoiar o time. As autoridades se preocuparam com a chegada dos vizinhos e tratou de preparar espaços para recebê-los. Abriu o estacionamento do Sambódromo do Anhembi e do Autódromo de Interlagos para que os argentinos estacionem seus carros, caminhões, trailers, ônibus, motorhomes ou o que quer que sejam os veículos que os trazem a São Paulo.

LEIA TAMBÉM: Na eterna dicotomia do torcedor, o Rio de Janeiro vive seu sonho de Copa… e o dos visitantes também

São muitos os argentinos em São Paulo. No Itaim, na esquina da Avenida Brigadeiro Faria Lima e Avenida Cidade Jardim, eles já apareciam, uniformizados. Longe dali, na zona norte da cidade, já próximo ao Sambódromo, mais argentinos, também uniformizados, andavam com sacolas de supermercado nas mãos. Eles perguntaram aos guardas onde poderiam comprar comida. Muitos deles trouxeram comida e especialmente mate. Muitos dos trailers têm o mate à vista e, no fim de tarde, muitos deles apreciavam a famosa bebida.

Ali, onde se tornou um acampamento argentino, faixas e mais faixas que fazem menção a clubes, cidades e a ídolos argentinos. Maradona, claro, é o mais lembrado. Um outro grupo, esse maior, também em um trailer, brincam com uma bola. O que me chamou a atenção foi o varal cheio de camisetas, a maioria da Argentina. Mascherano, Maradona, Messi e outras de clubes, como River Plate, do qual os garotos são torcedores, e duas da Colômbia. Exatamente, duas da Colômbia. Na conversa com os garotos, esses jovens, eles dizem que são de Buenos Aires. Vieram há dois dias da capital Argentina, direto para São Paulo. Dos nove integrantes do grupo, quatro possuem ingressos. Me perguntaram algumas vezes onde podem conseguir mais ingressos. São muitos deles que procuram por entradas para o jogo. A maioria chegou sem ter ingressos.

A Polícia Militar presente no local disse que recebeu a informação do consulado que 50 mil argentinos devem chegar a São Paulo, 45 mil com ingressos. Não é essa a impressão. Entre os que estão acampados no Anhembi, são poucos os que têm ingressos. A maioria veio sem se preocupar com isso. Os policiais passam de tempos em tempos orientando os torcedores argentinos orientando como ir ao estádio e dizendo que, se não tiver ingressos, para irem à Fan Fest.

O capitão Moisés, no comando da operação, parece à vontade à frente das câmeras. Conta que todos os principais canais de TV estiveram por ali nesta segunda-feira. Os argentinos se tornaram estrelas, dando entrevistas e mais entrevistas, sendo filmados, fotografados. Ali, naquele cercado protegido pela polícia, eles falam com alegria e o sotaque castelhano. Pergunto se estão gostando do Brasil. Um deles aponta para o trailer. “Um motoqueiro arrancou meu retrovisor”, disse, bravo. “Cara, ele arrancou meu retrovisor”, repetiu, dando ar de indignação, mas rindo em seguida. “Os brasileiros nos tratam muito bem”, disse um deles. “Tudo tranquilo. Somos bem tratados”, completou outro. A estrutura, contam, é boa. O local tem dois chuveiros, um para homens, outro para mulheres. Pergunto se não é pouco, mas eles balançam a cabeça dizendo que não. “Está tudo muito bom”.

Em todos os grupos, a conversa é sempre sobre futebol. De onde vem, para quem torce, pretende continuar seguindo o time. Quase todos falam em uma final com o Brasil. Digo a todos com quem falo que não estou confiante no Brasil, porque o futebol não tem sido bom. “Mas os árbitros vão ajudar vocês”, diz um dos rapazes de um grupo de uns oito, juntos, que riem e falam muitas coisas que eu não entendo. Lembram do jogo com a Croácia e do pênalti inventado em Fred.

“Vocês brasileiros estão falando muito isso”, disse, desconfiado, outro argentino, como se achasse que é uma estratégia brasileira dizer que o time não está bem, que não acredito que chegue até a final. Digo que a Colômbia está bem e James Rodríguez está jogando demais e que o Brasil passou pelo Chile por um golpe de sorte. “Mas vocês são os mandantes”, diz o argentino. “E a Colômbia pode sentir o peso da camisa”, continua. Não é o único. “Quanto mais avança, mais o Brasil cresce”, diz outro argentino, ao lado da mulher, antes de me perguntar como chegar ao metrô à noite e se era longe ir dali do Anhembi ao centro da cidade. Eles acreditam mais no Brasil que nós, críticos que somos com a seleção. E eles também desconfiam da Argentina, da defesa pouco confiável. Um deles fala que Demichelis deveria entrar no time. “A defesa argentina nunca é confiável”, reclama.

“Neymar ou Messi?”, um deles me pergunta. “Messi”, respondo, sem hesitar. “Hoje, Messi. No futuro, quem sabe…” e eles caem na risada. “Maradona ou Pelé?”. A pergunta fatal. “Pelé”, respondi. “No, no, no…”, riram. “Mas você viu Pelé jogar?”, indaga o argentino, obviamente sabendo a resposta. “Então como pode dizer que ele é melhor?”. Eu digo que mal vi Maradona jogar também, mas ele minimiza. “Mas Maradona tem vídeos, dá para assistir”. Confiança. Messi é o cara deles. “Neymar é o nosso. Se ele não jogar, estamos perdidos”. “O mesmo conosco se Messi não jogar”, disse outro. Diferenças e rivalidade existem, mas no fim, somos mais parecidos com os argentinos do que pensamos ou do que queremos admitir.

Alguns estão animados e já possuem inclusive ingresso para as quartas de final. Seguirão até Brasília, onde o time joga caso avance contra a Suíça. Outros pretendem ir para o Rio de Janeiro. O fato é que eles estarão pelo Brasil por um bom tempo ainda. Confiantes. Seguros que farão a final com o Brasil. Para isso, depois de Brasília, voltarão a São Paulo para a semifinal. E aí é de se esperar que venham ainda mais argentinos. E o portunhol será o nosso idioma oficial. É mais do que suficiente. O futebol nos une o suficiente para termos boas conversas sobre futebol.

VOCÊ PODE SE INTERESSAR TAMBÉM:

- Futebol é o ópio do povo? Então a Copa no centro de São Paulo é overdose coletiva

- Vila Madalena, com loucura e delírio, vira buraco negro em São Paulo

- Ninguém sabe dizer o que a arena da Copa trouxe de bom a São Lourenço da Mata