Nem o fato de ser eliminada pela Argentina somente nas cobranças da marca do pênalti, nas semifinais da Copa do Mundo, amenizou a ressaca sentida na delegação holandesa. Sim, havia o orgulho, como a coluna passada já citou. Mas ele não era suficiente para tirar o gosto de cabo de guarda-chuva na boca que era visível nos jogadores, durante o treino da última quinta, ainda em São Paulo. Daí, Louis van Gaal e um de seus auxiliares, Patrick Kluivert, decidiram fazer do limão azedo uma limonada.

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O resultado: um time recomposto o suficiente para conseguir superar a atarantada Seleção Brasileira e ganhar o terceiro lugar da Copa, que lhe deixa de cabeça ainda mais erguida. Mas qual foi a atitude da comissão técnica para uma partida que desanimava a Oranje a ponto de Van Gaal defender que a decisão de 3º e 4º lugar deveria ser extinta? Segundo a imprensa holandesa, uma conversa bastou para recompor o ânimo dos 23 jogadores.

Nela, o técnico principal usou um discurso mais básico. Mas foi a palestra de Kluivert que contou mais. O ex-atacante lembrou aos jogadores que estava na partida contra a Croácia, dia 11 de julho de 1998, no Parc des Princes, em Paris. E que perder a decisão do terceiro lugar daquela Copa, na qual estivera em campo uma das melhores gerações holandesas de todos os tempos, eliminada dramaticamente nas semifinais, só piorara o baque.

Na verdade, outros fatores também colaboraram para a Oranje sacudir a poeira mais rapidamente. O primeiro é bem agradável: lembrar que o terceiro lugar da Copa sairia com dois milhões de dólares a mais do que o quarto colocado – e, óbvio, o lado financeiro sempre conta nestas horas (ainda mais para a federação). O segundo seria bem útil: uma vitória garantiria mais uns pontinhos para a seleção no ranking da Fifa. O que aumentaria a chance de um grupo mais fácil nas eliminatórias para a Copa de 2018, o que aproximaria desde já a possibilidade de ser cabeça-de-chave daqui a quatro anos etc. Ou seja, tratava-se de unir o útil ao agradável.

Por isso, a Holanda entrou mais animada do que o Brasil no Mané Garrincha, para a partida deste sábado. Não completamente animada, pois isso só aconteceria caso a equipe fosse uma das finalistas. Mas sem dúvida mais entusiasmada do que a brasileira, ainda em frangalhos após a goleada inqualificável sofrida para a Alemanha. Contudo, de nada adiantaria a maior vontade se os comandados de Louis van Gaal se comportassem mal tática e tecnicamente em campo.

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Esse perigo aumentou com a lesão muscular sofrida no aquecimento, que tirou Sneijder do jogo. Às pressas, Van Gaal teve de pensar quem colocaria na armação das jogadas. A princípio, Clasie poderia fazer esse papel, deixando o substituto De Guzman e Wijnaldum mais atrás. Só que o treinador preferiu lançar o jogador do PSV mais à frente. Acertou, como talvez acertaria com Clasie: Wijnaldum fez sua melhor partida na Copa, exibindo rapidez na armação das jogadas.

Mas foi o lance do primeiro gol que mostrou as principais qualidades holandesas no jogo. Aliás, talvez as grandes qualidades holandesas na Copa: organização tática e a capacidade de quem podia decidir. Mesmo com a pressão brasileira na saída de bola, a Oranje mantinha a troca de passes. A ligação direta aproveitou a desorganização tática crônica da Seleção: um desvio de cabeça de Van Persie, e Robben estava livre, à frente de Thiago Silva. O pênalti foi uma falta fora da área, é verdade, mas o problema aí é do árbitro argelino Djamel Haimoudi.

Van Persie converteu o pênalti, e comemorou até de modo entusiasmado, apontando para a câmera. Depois, justificou: “Foi para aquelas pessoas que só falam”. Indireto demais, o camisa 9 (que voltou a atuar bem, talvez seu melhor jogo na Copa desde a partida de estreia) logo deu nome ao boi. Isso mesmo, no singular: o ex-atacante Pierre van Hooijdonk, participante de uma mesa-redonda e crítico do jogador. “Ele visivelmente tem algo contra mim. Ele não tem boa vontade. Não entendo porque ele conseguiu um espaço assim para falar. Aceito críticas, mas quando você só quer agitar sem argumentos consistentes, aí não entendo. É melhor ele ir jogar golfe”. A rusga, por sinal, vem desde os tempos em que ambos eram colegas de clube no Feyenoord.

O segundo gol apresentou a mesma falha brasileira vista contra a Alemanha: o espaço gigantesco no meio-campo e a lentidão da zaga brasileira (sem contar a irresponsabilidade tática de David Luiz). De Guzman teve liberdade total para avançar e cruzar. Estava impedido, mas isso novamente é problema da arbitragem. Aproveitando o rebote errado, Blind fez o gol que merecia para coroar a ótima Copa que fez. Depois, o Brasil até atacou, principalmente nos avanços de Oscar e Ramires. Mas a Oranje manteve a organização na defesa, raramente correndo risco real de sofrer o empate ao longo da partida deste sábado.

Aliás, é preciso fazer um parêntese. O 5-3-2 deixou lições para os próximos anos da Oranje, mesmo que não vá ser o sistema tático preferencial da equipe. Vlaar, por exemplo, é reconhecidamente um zagueiro lento. Logo, deixá-lo no mano-a-mano com um atacante mais rápido seria quase suicídio tático. Nada mais óbvio do que escalá-lo como líbero, enquanto Martins Indi e De Vrij faziam o papel de “stoppers”. E aí, tendo noção de cobertura e bom tempo de bola, Vlaar fez ótima Copa – assim como De Vrij.

Parêntese feito, no segundo tempo o Brasil continuava tentando, mas de modo esparso, com chutes que iam para fora, ou que eram defendidos por Cillessen, com segurança. E enfim, o gol de Wijnaldum, já no final do jogo, foi a cereja no bolo da Oranje. Que esteve triste, sim. Que gostaria de estar no Maracanã e não em Brasília, como Robben comentou após o jogo. Mas que compensou isso com organização tática para aproveitar a “ajuda” que o Brasil novamente deu. E fez o 3 a 0 que lhe deixou invicta numa Copa do Mundo, pela primeira vez em sua história.

E a entrada do goleiro Michel Vorm, nos acréscimos, tornando este time holandês o único em uma Copa do Mundo a ter usado todos os jogadores de seu elenco desde 2002, quando cada seleção passou a levar 23 jogadores (a Grécia de 1994 e a França de 1978 usaram seus 22 convocados), exibiu claramente a união da equipe holandesa, que levou Van Gaal a repetir o elogio de que foi o melhor grupo com quem já trabalhou. Vindo de quem veio, é uma prova clara de que o terceiro lugar só aumentou o grande orgulho que a seleção da Holanda deu a seu país nesta Copa do Mundo.

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