Durante os 23 anos que já tem comandando times à beira do campo (era auxiliar desde 1986), Louis van Gaal sempre esteve sob os holofotes. Nem sempre se fazia notar pelos times que armava – afinal, teve fases ruins em sua carreira -, mas sempre pela personalidade viva, forte, temperamental. Não é à toa que uma das imagens que simbolizam o título do Ajax na Liga dos Campeões 1994/95 é a do técnico dando um voleio no ar, semelhante a um golpe de caratê, para reclamar de uma jogada em que Desailly chegara com o pé alto demais, durante a final entre Ajax e Milan.

Mas é preciso reconhecer que Van Gaal anda se segurando mais, nos últimos anos. Não que tenha deixado de ser temperamental: ainda reclama muito das coisas, ainda tem ares ligeiramente arrogantes, ainda tem preferência pelo coletivo ao invés do individual na sua concepção tática. Mas há tempos não se desentende duramente com ninguém. Nem mesmo teve reações à abortada contratação como diretor de futebol do Ajax, em 2012: ali, a ira veio mais de Johan Cruyff, desafeto assumido de Louis.

Talvez isso ocorra porque, desde a metade de 2012, Van Gaal assumiu a seleção holandesa com um pensamento: trazê-la à Copa do Mundo de 2014, até para apagar um forte trauma em sua carreira, com a eliminação ainda nas eliminatórias para 2002. Conseguiu, e o trauma foi apagado. E pelo visto, Van Gaal anda contando os dias para que junho de 2014 chegue, ele faça o trabalho com a seleção e a deixe, logo após o Mundial.

Foi, pelo menos, a impressão passada na entrevista dada por ele ao diário Algemeen Dagblad, no domingo passado. Na primeira pergunta, sobre a ansiedade pela Copa, ele mostrou sua autoconfiança gigantesca a ponto de parecer arrogância (“Eu estou ansioso é porque, após um ano e meio, estou quase onde sempre quis estar: no pódio de uma Copa do Mundo”). Mas também já exibiu um tipo de aborrecimento com o curto tempo de preparação que terá: “Só a uma semana da viagem para o Brasil é que terei o meu provável time titular completo para os treinos. A uma semana da viagem!”.

Mas a declaração que mais exibiu o certo enfado que Van Gaal tem atualmente veio com a pergunta sobre a razão de um anúncio tão precoce sobre sua saída da seleção (já em 2013, ele comunicou que deixaria a Holanda após a Copa): “É porque estou cansado de ser técnico da seleção. No último ano e meio, investi para a classificação à Copa o mais rápido possível, para poder fazer coisas que prefiro. Eu mal vi os últimos dois anos passarem. Aí, fui para minha casa em Portugal. Também sinto falta de momentos com os jogadores, mas tenho mais tempo para outras pessoas, as que estão ao meu lado”.

Não que isso seja inédito. Já durante o ano passado, Van Gaal dava a entender que assumir a seleção era apenas um capricho pessoal: “Eu prefiro treinar clubes. Tenho pouca influência [em como a seleção joga] porque só vejo os atletas oito ou nove vezes por ano, e também dependo [das decisões] dos técnicos nos times. Só estou fazendo isso [treinar a seleção holandesa] para saber como é estar numa Copa do Mundo”.

De quebra, o técnico ainda reclamou de não poder escalar a seleção em seu esquema favorito (“Jogaremos no 4-2-1-3 durante a Copa. Tem a ver com os adversários, mas também é porque nunca tive tempo de treinar o time no velho esquema do Ajax, um 3-4-3 com um típico armador no meio”). E por fim, já deixou claro que considera cerca de dez atletas como garantidos na Copa, “se estiverem em forma”. Mas, claro, aproveitou para reclamar mais: “O Ajax, o PSV, o Feyenoord até jogam como a seleção. Mas no exterior, não. Há o Bayern Munique, mas lá eu só tenho Robben. Strootman, por exemplo, é um dos garantidos, mas o esquema da Roma é muito diferente do meu”.

Enfim, a entrevista serviu para mostrar que Van Gaal está entediado do cotidiano da seleção, embora mantenha confiança alta (“Sou um vencedor, não faço isso por brincadeira. Vou à Copa para vencer, e sei o que é necessário para isso”). Seu pensamento, por enquanto, é a aposentadoria: “A princípio, paro depois da Copa, a menos que apareça um desafio incrível”. Mas perguntado sobre a hipótese de ir para o Tottenham, foi misterioso: “Posso falar sobre isso em outro momento. Agora não”. Quem sabe será mais um capítulo da história destacada de Alloysius Paulus Maria van Gaal.

Lá também tem

A invasão de torcedores corintianos ao centro de treinamento do clube, no sábado passado, repercutiu pesadamente nesta semana. Com toda justiça. Aí, olha-se para a Holanda. No último domingo, o PSV caiu para o RKC, que briga contra o rebaixamento (2 a 0). O que aconteceu? Cinco torcedores também foram a De Herdgang, o centro de treinamento do clube de Eindhoven.

Os torcedores queriam, sim, reclamar dos maus resultados: até usaram um megafone para gritar palavras de ordem durante o treino fechado, do lado de fora de De Herdgang. Aí, ao invés do caso corintiano, quem perdeu a cabeça foram os jogadores. Jeffrey Bruma chamou os adeptos de “mongoloides” e pediu que “calassem a boca”. O lateral direito Joshua Brenet ainda disse que eles “não entendiam nada de futebol”.

Na rodada do meio de semana, o time de Eindhoven superou o Cambuur, fazendo 2 a 1. E quem fez o gol de empate na virada? Ele, Bruma. De quebra, nesta quinta, Bruma e os torcedores encontraram-se para por panos quentes na discussão e esclarecer as coisas. Necessário, principalmente por parte do jogador, que exagerou contra torcedores que estavam protestando pacífica e justamente, até onde se sabe.

Diante de tudo isso que o PSV vive em sua crise, só cabe dizer: pelo menos não houve tentativa de agarrar ninguém pelo pescoço, ou roubo e agressão a funcionários do clube que nada tiveram a ver com a história.