Campeão da Copa do Brasil em 2010, Santos não defendeu o título em 2011 por causa do regulamento (AP Photo/Cesar Olmedo)

[Copa do Brasil] Como o próprio regulamento sabotou a competição por tanto tempo

Atualmente a Copa do Brasil é um torneio bastante consolidado e que passou a construir uma imagem de relevância muito maior desde que foi determinado que, a partir da edição de 2013, as equipes que participassem da Libertadores poderiam também disputar a competição nacional. No entanto, ainda há quem veja a competição apenas como “um atalho para a Libertadores”. Não, a Copa do Brasil vale por ser um título importante, de âmbito nacional, e sua conquista deve ser comemorada pelo troféu levantado. A vaga é só o prêmio.

Bem, esse é o conceito, mas a própria Copa do Brasil não teve muita ajuda para ser vista como algo mais que uma competição seletiva. Foram vários problemas desde a criação da competição, de regulamentos que a desprestigiavam a falta de um tratamento mais nobre por parte da CBF. Nessa quarta parte de nosso especial sobre a Copa do Brasil, vamos falar sobre o que leva esse torneio a ainda não receber a importância que merece por parte de muita gente.

Uma taça ao alcance de todos, mas com uma disputa mal pensada
Antes de pegar o Grêmio na final de 1991, Criciúma enfrentou apenas um grande na caminhada: Atlético Mineiro

Antes de pegar o Grêmio na final de 1991, Criciúma enfrentou apenas um grande na caminhada: Atlético Mineiro

A Copa do Brasil foi pensada para ser uma competição que abrangesse todos os cantos do país e contava em suas primeiras edições com 32 participantes. Uma manobra política de Ricardo Teixeira para agradar às federações, que perderam força depois que o Brasileirão deixou de contar com mais de 40 clubes. Assim, se os estaduais não eram mais critério de classificação para o Campeonato Brasileiro, passaria a ser para essa nova competição nacional. Em seu primeiro ano, 1989, foram 22 campeões e 10 vices estaduais. Com o passar do tempo, até 1994, o número de estados contemplados foi aumentando, e naquele ano já havia 26 representados na disputa por seus campeões, mais seis vices.

O problema desse formato é que, no máximo, um estado teria dois participantes por edição, o que significaria inevitavelmente limitar o número de grandes equipes na Copa do Brasil. Rio de Janeiro e São Paulo, por exemplo, que contam, cada um, com quatro times de grande expressão, teriam clubes relevantes de fora da disputa. E, se um clube pequeno ou médio surpreendesse em um estadual como Rio Grande do Sul, Minas Gerais, Pernambuco, Bahia e Paraná, era mais gente graúda ficando de fora.

Uma ótima amostra disso é o caso do Santos, que participou da competição apenas em 1996, sete anos após sua criação. Além disso, os paulistas tiveram dois grandes na Copa do Brasil pela primeira vez apenas em 1992, com Corinthians e Palmeiras, vice e terceiro do Paulistão do ano anterior (o campeão São Paulo abriu mão da disputa para se dedicar à Libertadores, que acabaria vencendo), representando o estado. Antes, Corinthians e Guarani (1989), São Paulo e São José (1990) e Corinthians e XV de Piracicaba (1991) haviam sido os representantes.

Desde sua origem, a Copa do Brasil dava vaga para a Libertadores. Na época, apenas dois brasileiros disputavam a competição internacional a cada edição, com a outra vaga sendo preenchida pelo campeão do Brasileirão. Como a Copa do Brasil era composta majoritariamente por pequenas equipes, nasceu daí a tradição de se chamar o torneio de “atalho para a Libertadores”. Mas nem mesmo isso era um grande atrativo para se jogar o novo certame, já que a competição continental não tinha a mesma relevância que tem hoje.

Como a Libertadores contribuiu para a desvalorização da Copa do Brasil
No seu auge de conquistas, com três brasileiros, uma Libertadores e um Mundial, o São Paulo de Rogério Ceni não disputou a Copa do Brasil (Júnior Lago/UOL)

No seu auge de conquistas, com três brasileiros, uma Libertadores e um Mundial, o São Paulo de Rogério Ceni não disputou a Copa do Brasil (Júnior Lago/UOL)

O ano de 2000 foi o último em que a Copa do Brasil teve times que também disputavam a Libertadores antes da decisão de excluir a possibilidade de as equipes jogarem ambos os torneios. Naquela edição, Atlético Mineiro, Atlético Paranaense, Corinthians, Juventude e Palmeiras, que estavam no torneio continental, entraram no certame nacional a partir das oitavas de final. Como o campeão da Copa do Brasil garantia lugar na Libertadores do ano seguinte, a mudança no regulamento significava que nenhum vencedor poderia defenser seu título na edição posterior, algo que já tirava certa importância da disputa.

Além disso, normalmente, os clubes que estão na disputa da Libertadores de determinado ano são os mais fortes do país naquele período, então deixá-los de fora da Copa do Brasil inexoravelmente diminuía o nível da competição e os motivos para que ela fosse acompanhada.

Essa situação durou até o ano passado, quando enfim a CBF voltou a permitir a participação de clubes da competição continental também na nacional. Como ficou evidente, o torneio ganhou maior importância. Não tem como negar que foi muito mais legal ver Corinthians x Grêmio, Internacional x Atlético Paranaense, Goiás x Vasco e Botafogo x Flamengo nas quartas de final do ano passado que os confrontos de 2011 na mesma fase entre Flamengo e Ceará e Botafogo e Avaí, por exemplo.

Chaveamento arbitrário e político também não ajudou em nada
Edição passada teve sorteio, mas apenas para as oitavas de final (Rafael Ribeiro/CBF)

Edição passada teve sorteio, mas apenas para as oitavas de final (Rafael Ribeiro/CBF)

Como explicamos na segunda parte deste especial, até o ano passado o sorteio da primeira fase simplesmente não existia. O chaveamento das equipes nas partidas iniciais da Copa do Brasil era feito de forma arbitrária, normalmente estruturado com base em interesses de dirigentes e em trocas de favores. Equipes pequenas conseguiam jogos contra gigantes do futebol brasileiro, o que lhes permitia arrecadar grandes quantias de dinheiro e, em alguns casos, salvar seu ano financeiramente. É legítimo esse desejo dos times mais modestos, mas isso acabava tornando a competição um instrumento político, e não proporcionava confrontos com divisão mais justa.

Neste ano, de forma inédita, o sorteio foi feito, tendo critérios bem definidos e de maneira a proporcionar duelos equilibrados. Os 80 clubes participantes foram divididos em grupos de 10 equipes cada, de acordo com a classificação das agremiações no Ranking Nacional de Clubes da CBF. No Grupo A, do 1º ao 10º colocado; no B, do 11º ao 20º, e assim sucessivamente. A partir disso, ficou definido que equipes do Grupo A enfrentariam outras do Grupo E, Grupo B contra Grupo F, Grupo C contra Grupo G e Grupo D contra Grupo H. Desta forma, não teríamos duas equipes fortes se enfrentando e se eliminando logo de cara, mas também não haveria confrontos entre um time muito forte e outro imensamente mais fraco, com resultado mais que previsível e sem espaço para surpresas.

Este foi o ponto de equilíbrio encontrado para ter um melhor nivelamento logo no início da Copa do Brasil e aumentar sua qualidade. Todas as mudanças anteriores a essa resultaram em uma boa competição no ano passado, e não é ingenuidade esperar que o nível neste ano seja ainda melhor, com essa última melhoria.

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