[Copa do Brasil] Eles não querem ganhar, querem aparecer (e faturar uma grana)

O charme da Copa do Brasil, como de qualquer torneio mata-mata, e a possibilidade de um time pequeno, com um misto de sorte no chaveamento e um ou outro resultado inesperado, chegar em fases bastante avançadas. Mas nem sempre é o objetivo deles. Na maioria das vezes, eles preferem enfrentar os grandes, mesmo com poucas possibilidades de avançar. O dinheiro conquistado com a bilheteria pode ser suficiente para sanar as contas, pagar várias folhas salariais e resolver pendências financeiras.

Até o ano passado, o acaso tinha um papel muito pequeno nessa estratégia. Não havia sorteio, como houve na atual edição. As chaves do torneio eram montados ao bel-prazer da CBF. O Flamengo, do Piauí, pediu para jogar contra o Santos, que ainda tinha Neymar no seu elenco, um forte atrativo de público. A renda prevista pelo representante do clube Jankel Costa, que encontrou José Maria Marin na sede da Federação Paulista de Futebol, era de R$ 500 mil. Suficiente para três meses de salários. Seu desejo foi atendido.

A melhor escolha é um adversário forte ou um muito fraco para que o clube avance e ganhe mais dinheiro com cotas de TV e premiações. O Parnahyba, que completou 100 anos em 2013, também queria jogar contra um grande para celebrar a data. Fez o pedido, enviou até uma lista com ordem de preferência, mas acabou caindo com o ABC, que não atrairia público o bastante e seria difícil de ser derrotado.

Vários clubes devem fazer pedidos, mas os que a CBF decide atender variam da proximidade da federação com o presidente. Foi uma outra forma encontrada para ajudar financeiramente os clubes e afagar as federações. Um braço usado pela entidade para fortalecer seus interesses políticos.

Politicagem e torcida

Nas duas primeiras rodadas, a renda do jogo de ida é dividida entre os dois clubes caso o visitante vença por dois gols de diferença. Se houver partida de volta, ela é inteira do time da casa. Então, uma boa ideia é conciliar o interesse de receber um grande com uma região onde esse grande tenha vários torcedores.

O Flamengo não jogou oito edições das 25 que a Copa do Brasil teve entre 1989 e 2013. Nas 17 que jogou, estreou contra clubes do Norte e do Nordeste, regiões com muitos torcedores do clube carioca, 15 vezes. Apenas o Ivinhema, do Mato Grosso do Sul, em 2009, e o Linhares, do Espírito Santo, em 1996, fogem dessa regra. Os campeões são os estados da Paraíba, Piauí e Alagoas que, juntos, receberam a primeira rodada do Flamengo nove anos. O rubro-negro estreou três vezes contra o Ríver-PI, duas delas seguidas, em 2000 e 2001.

Com o Palmeiras aconteceu a mesma coisa. Entre 2003 e 2008, o clube alviverde jogou a Copa do Brasil quatro vezes. Começou três dessas campanhas contra uma equipe do Mato Grosso e do Mato Grosso do Sul, onde tem bastante torcida, tanto que levou o possível jogo do título da segunda divisão para lá.

Há, também, a politicagem. Um dos vice-presidentes da CBF é Fernando Sarney, filho do ex-presidente da República e líder político no Maranhão. Curiosamente, as equipes maranhenses pegaram dois grandes seguidos em 2004 e 2005 (Botafogo e Corinthians), justamente período em que o político do PMDB foi o chefe da Câmara.

Gustavo Dantas Feijó é presidente da Federação Alagoana desde 2008 e tem boas relações com a CBF. Foi o chefe da delegação da seleção brasileira na Copa das Confederações, ano passado, e é prefeito de Boca da Mata, pequeno município a 72 quilômetros de Maceió. Nos últimos três anos, as equipes de Alagoas estrearam contra o Flamengo (Murici, 2011), Palmeiras (Coruripe, 2012) e Cruzeiro (CSA, 2013).

O curioso caso do Remo
Coronel Nunes e José Maria Marin são muito próximos (Foto: CBF)

Coronel Nunes e José Maria Marin são muito próximos (Foto: CBF)

Coronel Nunes é o segundo mais velho presidente de federações do futebol brasileiro. Está no seu quinto mandato à frente da entidade paraense e também é amigo da CBF. Tanto que ano passado viajou ao Rio de Janeiro para tirar a Copa Verde do papel. Foi também avalista de um empréstimo de R$ 400 mil  da entidade para o Remo.

O Remo ganhou bons confrontos. Entre 2008 e 2010, estreou contra times mais fracos (Central-PE, Barras-PI e São Mateus-ES). Poderia vencer, deixar a torcida feliz, ganhar mais uma cota de TV e pegar, respectivamente, Palmeiras, Flamengo e Santos na segunda fase. Perdeu apenas dos pernambucanos. Ano passado, já começou contra o Flamengo.

Depois de garantir esses chaves favoráveis, não deve ter sido difícil fazer o clube pedir para dois torcedores retirarem as ações que entraram na justiça para que o Remo ficasse com a vaga do Genus, de Rondônia, na Série D do Campeonato Brasileiro do ano passado, que seria atrapalhada caso a disputa tramitasse na justiça comum.

É legítimo o desejo dos clubes pequenos. Pragmaticamente, vale mais a pena perder de um grande na primeira rodada e pagar as contas do que rolar o dado na chance de uma campanha histórica e pouco provável. O problema é quando essas situações são distribuídas como se fossem presentes de aniversários, dependendo da força política das federações. Porque estados com menos influência acabam sendo prejudicados porque quase nunca recebem os grandes. Isso aconteceu duas vezes com os clubes de Tocantins (o Atlético Mineiro, em ambas) e apenas uma com os do Amapá (Cruzeiro). Assim, a Copa do Brasil passa de um torneio empolgante para um instrumento político.

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