Independentemente do resultado, esta será uma terça-feira histórica para o futebol na América do Sul. A rodada final das Eliminatórias para a Copa de 2018 promete cinco jogos cardíacos pelo continente. O Uruguai é quem tem a vida mais fácil, e mesmo se perder para a Bolívia no Estádio Centenario deve comemorar. Enquanto isso, a situação está completamente aberta no restante da tabela. O Brasil é o único garantido na Copa do Mundo. Já as outras duas vagas diretas e o lugar na repescagem serão uma briga de foice no escuro, entre Chile, Peru, Argentina e Paraguai.

Diante do momento único, aproveitamos para relembrar como foram as outras rodadas finais desde que as Eliminatórias na América do Sul adotaram o sistema de disputa atual, rumo a Copa de 1998 – o que as torna, segundo a opinião deste que vos escreve, o melhor torneio de pontos corridos do mundo. Exceção feita a 2014, em todas as outras edições havia um time correndo o risco de ficar fora do Mundial na última rodada. E, ainda que as doses não tenham sido tão cavalares quanto desta vez, a emoção sobrou. Abaixo, relembramos todas as campanhas.

Copa de 1998: Salas frustra os peruanos

Classificação final (Fonte: ogol.com.br)

Argentina, Paraguai e Colômbia chegaram garantidos à última rodada. Os argentinos não começaram tão bem a campanha, mas logo pegaram embalo no segundo turno, emendando cinco vitórias consecutivas. Terminaram na liderança. Os colombianos, ao contrário, dispararam logo de início e ganharam um fôlego enorme, suficiente para se segurarem quando passaram a oscilar. Já os paraguaios também se firmaram nas cabeças durante a primeira metade da competição, assegurando o retorno ao Mundial após 12 anos com certa segurança. A briga mesmo ficou para a quinta vaga.

Exceção feita à Venezuela, quase todos os times sonharam com a classificação ao Mundial de 1998. Mas se Bolívia, Equador e Uruguai chegaram a representar ameaças reais à Argentina na virada do turno, a arrancada de Chile e Peru na reta final mudou o cenário. Os rivais do Pacífico vinham em melhor momento e deixavam claro que seriam os candidatos à quinta vaga sul-americana – vale lembrar que o Brasil, campeão em 1994, já estava classificado. E o momento mais marcante aconteceu na penúltima rodada, com o clássico realizado em Santiago.

Ocupando a quarta colocação, com 22 pontos, o Peru dependia apenas de si. Com um empate, eliminaria o Chile e só precisaria ratificar a vaga em Lima, no último compromisso, contra o já garantido Paraguai. Três pontos atrás, o Chile se interessava apenas pela vitória. Enquanto isso, ainda tentavam correr por fora Equador, Uruguai e Bolívia. De qualquer maneira, o que aconteceu no Estádio Nacional de Santiago seria fundamental não só para aquelas Eliminatórias, mas também para a história da rivalidade. Inspirados por Marcelo Salas, autor de uma tripleta, os chilenos golearam os peruanos por 4 a 0. Assumiram a quarta colocação no saldo de gols, ficando com a vaga nas mãos.

Na última rodada, três seleções ainda tinham chances: Peru e Chile, com 22 pontos, além do Equador, um ponto atrás. Visitando o Uruguai, os equatorianos ficariam pelo caminho, derrotados por 5 a 3. O Peru fez a sua parte contra o Paraguai, com o triunfo por 1 a 0 em Lima, gol de Jorge Soto. Ainda assim, dependia de um tropeço dos rivais. E a festa seria mesmo do Chile. Rodrigo Barrera, Marcelo Salas e Juan Carreño anotaram os tentos na vitória por 3 a 0 sobre a Bolívia em Santiago. Depois de 16 anos, a Roja estaria no Mundial.

Copa de 2002: A noite eterna no Castelão

Classificação final (Fonte: ogol.com.br)

A Argentina sobrou naquela campanha. O time de Marcelo Bielsa foi líder de ponta a ponta, em campanha arrasadora que só o Brasil de Tite ficaria próximo de igualar. Somando 42 pontos, a Albiceleste chegou à última rodada com 12 de vantagem ao segundo colocado. No mais, a disputa era um pouco mais parelha. Paraguai e Equador também tinham se garantido, com direito à vaga inédita de La Tri. O drama residia entre Brasil, Uruguai e Colômbia, que competiriam por uma vaga direta e por outra na repescagem.

Enquanto a Argentina disparou, o início do segundo turno deixava claro que Venezuela, Bolívia, Peru e Chile também estariam fora da disputa desta vez. A indagação seria sobre quem sobraria. O Paraguai, que fez um primeiro turno consistente, manteve a toada e assegurou a classificação na penúltima rodada. O Equador veio em ritmo mais forte na metade final da competição, melhorou o seu aproveitamento e também carimbou o passaporte na penúltima rodada. De resto, desempenhos errantes, sobretudo do Brasil. Se o primeiro turno não tinha sido tão bom à Seleção, apesar das duas vitórias que alavancaram o time à vice-liderança ao final da nona rodada, o ambiente conturbado atrapalhava. Leão chegou e saiu, o desempenho na Copa América de 2001 foi risível e Felipão não conseguia fazer o time roubar pontos como visitante. Ao menos as vitórias sobre o Paraguai (em Porto Alegre) e o Chile (em Curitiba) davam fôlego aos brasileiros.

Na penúltima rodada, o Brasil viajou à Bolívia esperando pelo pior. Estava na zona de classificação, mas com o Uruguai na cola, como aconteceu durante toda a campanha. Em La Paz, La Verde venceu por 3 a 1, de virada, com direito a um gol de Julio César Baldivieso encobrindo Marcos em cobrança de falta da intermediária. A Celeste, por sua vez, empatou por 1 a 1 na visita ao Equador. E a Colômbia se aproximava ao superar o Chile por 3 a 1, em Bogotá.

O temor do Brasil era a repescagem. Com 27 pontos, estava um à frente do Uruguai e não tinha margem de erro. Ficar de fora da Copa parecia mais difícil, considerando que a Colômbia somava três pontos a menos e tinha pior saldo. Mesmo assim, a Seleção convocou a torcida em São Luís para lotar o Castelão. Brilhou “São” Luizão, que marcou dois gols nos primeiros 20 minutos e tranquilizou a situação, com Rivaldo fechando a conta. Os 3 a 0 sobre a Venezuela confirmavam os brasileiros rumo ao penta. O Uruguai teve que se contentar com a repescagem, empatando em casa com a Argentina por 1 a 1. Iria à Copa depois de vencer a Austrália. Já a Colômbia, por muito pouco, não protagonizou um milagre. Os Cafeteros golearam o Paraguai por 4 a 0 no Defensores del Chaco. Chegaram aos mesmos 27 pontos da Celeste, mas, por um gol no saldo, perderam a vaga.

Copa de 2006: Recoba, o herói insuficiente

Classificação final (Fonte: ogol.com.br)

Desta vez, Brasil e Argentina não tiveram quaisquer problemas para se classificar. Os dois gigantes do continente fizeram campanhas soberanas. Podem não ter sido tão arrasadores quanto a Albiceleste de 2008 ou a Canarinho de 2018, mas nada que ameaçasse a presença de ambos na Alemanha em 2006. Logo abaixo, Equador e Paraguai desfrutaram novamente de certa tranquilidade, se assegurando na penúltima rodada. Para o último compromisso, a luta se concentrava pela vaga na repescagem. Uruguai, Colômbia e Chile tinham esperanças de terminar na quinta colocação.

Desde o primeiro turno, Brasil e Argentina se mantiveram nas cabeças. O time de Carlos Alberto Parreira não sofreu tanto fora de casa, com apenas duas derrotas. Além disso, a boa fase do time recheado de craques auxiliava os brasileiros. A Argentina, que começou a campanha com Bielsa e viu José Pekerman assumir ao final de 2004, até conquistou mais vitórias, mas perdeu fôlego na reta final da campanha. Nada, porém, que atrapalhasse a classificação ao Mundial. Já Equador e Paraguai não demoraram a formar um segundo pelotão, consistentes principalmente pelos resultados dentro de casa. O ponto de interrogação ficou mesmo para o quinto lugar.

Até o final do primeiro turno, o Chile parecia o principal candidato a retornar à Copa, mas logo cairia de rendimento. Deixando de ser o saco de pancadas de sempre, a Venezuela chegou a ameaçar, não por muito tempo. Já na reta final, além dos chilenos, estava claro que a disputa se concentraria também entre Uruguai e Colômbia. Por mais que os Cafeteros viessem em ascensão com Reinaldo Rueda, a Celeste conquistou uma vitória fundamental no confronto direto da antepenúltima rodada, com Marcelo Zalayeta decretando os 3 a 2 no Centenario aos 41 do segundo tempo. Já na penúltima rodada, com Colômbia e Chile empatando entre si em Barranquilla, o Uruguai sustentava o quinto lugar com um ponto de vantagem sobre os dois, ao segurar o 0 a 0 contra o Equador em Quito.

No papel, o Chile parecia o mais próximo da vitória. Recebia o Equador, que só tinha conquistado quatro pontos nos oito jogos anteriores como visitante. Pois La Roja conseguiu derrapar, empatando por 0 a 0. A Colômbia teria uma pedreira bem maior, visitando o Paraguai em Assunção. Luis Gabriel Rey, logo aos sete minutos, anotou o gol que deu a vitória por 1 a 0. Um resultado importantíssimo, mas frustrado por aquilo que aconteceria no Centenario, no clássico entre Uruguai e Argentina. Logo no primeiro minuto do segundo tempo, Álvaro Recoba anotou um gol acrobático que levou os charruas ao delírio e assegurou a vitória por 1 a 0, bem como a quinta colocação. O problema viria depois. Na repescagem, a Austrália venceria a disputa por pênaltis em Sydney e acabaria eliminando o time de Jorge Fossati.

Copa de 2010: A gratidão a Palermo e Bolatti

Classificação final (Fonte: ogol.com.br)

As Eliminatórias para o Mundial de 2010 foram razoavelmente atípicas. Não pelo Brasil, que mesmo sem empolgar sob as ordens de Dunga, garantiu a classificação com certa tranquilidade. A configuração de forças é que mudou. Desta vez, Paraguai e Chile é que carimbaram o passaporte com antecipação, ao lado dos brasileiros. Pela primeira vez desde que o sistema de pontos corridos foi adotado, a Argentina correu sérios riscos de não ir ao Mundial. Além de Albiceleste, também estavam na briga durante a última rodada Uruguai, Equador e Venezuela.

Sem convencer durante parte da campanha, especialmente na derrota para o Paraguai de Cabañas e no empate com a Bolívia no Engenhão, o Brasil tomou impulso no início do segundo turno, com direito a goleada no Centenario e a vitória sobre a Argentina no Gigante de Arroyito. Ultrapassou o Paraguai, fortíssimo em casa e que foi o melhor no primeiro turno, apesar da queda posterior. O Chile, por sua vez, melhorou seu desempenho na metade final, com grandes resultados fora de casa e somando mais pontos do que qualquer outra equipe no período. Restava o fardo para quem vinha abaixo.

A Argentina, ainda vice-líder após 11 jogos, despencou em seus compromissos seguintes. Foram quatro derrotas em cinco rodadas, com a derrocada tendo início após a emblemática goleada da Bolívia por 6 a 1 em La Paz. A Albiceleste deixou a zona de classificação direta apenas na antepenúltima rodada, mas o risco era iminente. O Equador assumira a quarta colocação, enquanto Uruguai e Colômbia seguiam no encalço. Já a grande surpresa era a Venezuela, que embalou e tinha chances reais de se classificar à primeira Copa do Mundo, apesar dos compromissos difíceis.

A penúltima rodada, todavia, acabou sendo preponderante. A Vinotinto perdeu em casa para o já garantido Paraguai e perdeu fôlego. A Colômbia caiu em casa diante do Chile e não tinha mais chances. Já a tensão tomou conta de Quito e Buenos Aires. O Equador abriu o placar contra o Uruguai aos 23 do segundo tempo, mas Luis Suárez arrancou o empate logo no minuto seguinte. E aos 48, Diego Forlán anotou o gol da vitória por 2 a 1, de importância gigantesca à Celeste. Emoção do mesmo tamanho que a vivida no Monumental. Gonzalo Higuaín colocou a Argentina em vantagem contra o Peru, até que Hernán Rengifo empatasse aos 44 do segundo tempo. Aquele placar deixava a Albiceleste em uma situação delicadíssima. Mas foi aí que Palermo se eternizou como herói, se redimindo por todo o trauma vivido na Copa América de 1999. O centroavante foi o salvador que determinou o triunfo por 2 a 1, para alívio imenso de Maradona.

A Argentina entrou na última rodada em quarto, com 25 pontos. O Uruguai vinha logo abaixo, com 24, e o Equador somava 23. As atenções, então, se voltaram ao Centenario. Mais uma vez o clássico entre uruguaios e argentinos tinha um peso imenso para as Eliminatórias. E quem sorriu foi a Albiceleste, quando Mario Bolatti marcou o gol decisivo aos 39 do segundo tempo, dando a vitória por 1 a 0 e assegurando a vaga direta na Copa. A Celeste só respirou aliviada porque o Equador perdeu na visita a Santiago, com Humberto Suazo possibilitando o triunfo do Chile por 1 a 0.  Por fim, coube aos charruas irem à repescagem, fazendo o serviço contra a Costa Rica.

Copa de 2014: Poucas emoções

Classificação final (Fonte: ogol.com.br)

Com o Brasil classificado antecipadamente como país-sede, as Eliminatórias da Copa de 2014 ofereciam ainda mais vagas à América do Sul. Os quatro lugares diretos e o outro na repescagem continuavam em voga, mas agora com nove seleções no páreo. O problema é que a definição aconteceu bem antes do esperado. Argentina e Colômbia nadaram de braçada a maior parte do tempo. O Equador fez uma campanha fantástica em Quito. O Chile voou baixo com Sampaoli. E o Uruguai, mesmo oscilando, se recuperou a tempo. Na última rodada, faltava apenas definir quem seria o país a disputar a repescagem, sem que ninguém pudesse se aproximar do quinteto.

Sob as ordens de Alejandro Sabella, a Argentina chegou a perder pontos bobos em casa, mas nada que atrapalhasse. Compensou com boas vitórias fora e carimbou o passaporte. A Colômbia foi a grande surpresa da vez. José Pekerman montou um ataque poderoso, que, combinado com a solidez defensiva, levou os Cafeteros de volta ao Mundial após 12 anos. A goleada por 4 a 0 sobre o Uruguai, sobretudo, é um marco. De resto, Equador, Chile e Uruguai chegaram aos momentos decisivos um passo à frente. O Paraguai fazia uma campanha horrenda, tanto quanto a da Bolívia. O Peru indicou ter força em alguns momentos, mas era só fogo de palha. Já a esperança era a Venezuela. A Vinotinto apareceu na zona de classificação até a 13ª rodada. Contudo, derrotas nos confrontos diretos com Uruguai e Chile na sequência deixaram os possíveis estreantes pelo caminho.

O triunfo em Ciudad Guayana pela 14ª rodada, aliás, foi o que revigorou a Celeste. Os uruguaios não haviam vencido um jogo sequer nas sete rodadas anteriores (em uma delas, folgaram) e, se perdessem para a Venezuela, praticamente dariam adeus ao Mundial. O gol de Cavani para decretar a vitória por 1 a 0 foi primordial. A partir de então, os charruas venceram Peru fora e Colômbia em casa, se aproximando de Chile e Equador na antepenúltima rodada. Já a Venezuela, que não entraria em campo na última data, quando já teria 16 jogos completados, tinha chances minúsculas.

Na penúltima rodada, o empate da Venezuela em casa contra o Paraguai tirou qualquer esperança da Vinotinto. O Equador venceu o Uruguai em Quito, abrindo três pontos de vantagem sobre os charruas e se aproximando da vaga direta. Já o Chile também somava 25 pontos, a mesma pontuação dos equatorianos, ao buscar o 3 a 3 contra a Colômbia em Barranquilla. Por fim, a Celeste entrava na última rodada precisando vencer a Argentina e, no confronto direto entre Chile e Equador, torcer por uma goleada que a ajudasse a tirar a diferença no saldo. O time do Maestro Tabárez até fez a sua parte, ao derrotar a Albiceleste por 3 a 2, mas o magro 2 a 1 dos chilenos em Santiago relegou os charruas à repescagem. Diante da Jordânia, não tiveram problemas para selar a classificação.