Seguindo os passos da Eurocopa, a Copa da Ásia também passará por uma expansão sensível em sua próxima edição, a ser realizada nos Emirados Árabes Unidos em janeiro de 2019. O principal torneio de seleções da AFC aumentou 33%, indo dos 16 participantes habituais a 24. E, obviamente, isso trouxe novidades com a definição dos classificados. A primeira fase qualificatória, integrada às Eliminatórias da Copa de 2018, nem apresentou tantas surpresas assim. Dentre os 12 primeiros confirmados, apenas Síria e Tailândia haviam se ausentado do certame em 2015, mas geralmente são figurinhas carimbadas. Os azarões passaram a pipocar a partir da etapa final de classificação, concluída nesta Data Fifa.

Serão três seleções rumo à sua segunda participação. A Palestina faz história pela segunda vez consecutiva, após estrear em 2015, e representa bem o desenvolvimento do futebol na nação; o Turcomenistão retorna após um hiato de 15 anos, quando surpreendeu com uma grande campanha classificatória em 2004; já o Líbano não figura no torneio desde 2000, quando foi sede, em evento que representava o reerguimento do país após atravessar uma sangrenta guerra civil nas décadas anteriores.

A classificação do Líbano, a primeira dentro de campo, merece um destaque à parte. O time já demonstrara certo potencial ao vender caro uma derrota para a Coreia do Sul nas Eliminatórias Asiáticas. Avançou à fase qualificatória da Copa da Ásia. E mesmo sorteado em um grupo com suas complicações, conseguiu se impor. Os libaneses enfrentaram Coreia do Norte, Hong Kong e Malásia – os dois últimos, a despeito dos resultados recentes, com certa tradição no futebol. Pois os Cedros protagonizaram a melhor campanha desta fase classificatória, com cinco vitórias e um empate, tropeçando apenas na visita aos norte-coreanos em Pyongyang – mas com o empate por 2 a 2 arrancado aos 49 do segundo tempo.

Vale dizer que o sucesso do Líbano não vem ao acaso. Desde 2014, a federação local tem investido de maneira massiva em sua seleção. Internamente, há um projeto conciliatório entre diferentes comunidades que dividem o poder no país, comparado ao da Bósnia-Herzegovina. Já no plano esportivo, os técnicos passaram a recrutar jogadores com origem libanesa espalhados por outros continentes. A base do elenco, de qualquer forma, se concentra no Campeonato Libanês. O nome mais tarimbado é de Hassan Maatouk, atacante de 30 anos e também capitão do escrete. Em 2014, sob as ordens do antigo ídolo romanista Giuseppe Giannini, a classificação à Copa da Ásia ficou a um ponto dos Cedros, atrás de Irã e Kuwait em sua chave. Experiência que serviu para o amadurecimento, com o sucesso registrado agora ao comando do técnico montenegrino Miodrag Radulovic.

Além disso, serão três seleções estreantes na Copa da Ásia de 2019. O Iêmen, porém, tem um asterisco em sua menção. Em 1976, houve a participação do Iêmen do Sul, que contou com uma série de desistências para se confirmar na fase final. Todavia, os iemenitas não carregam consigo o histórico esportivo dos sul-iemenitas. É um caso parecido com o da Alemanha Oriental: república socialista, o Iêmen do Sul existiu por 23 anos (1967-1990) até ser reunificado com o Iêmen do Norte. Por concentrar a base na transição, a seleção iemenita se tornou herdeira dos norte-iemenitas. De qualquer maneira, em uma relação geopolítica tensa que prosseguiu nos anos seguintes, a equipe nacional era vista como um símbolo da reconciliação.

Muitas vezes esquecido quando se olha para o Oriente Médio, o Iêmen segue no olho do furacão da região. Desde 2015, há uma guerra civil no país, novamente dividindo norte e sul – desta vez entre facções político-religiosas, com a intervenção da Arábia Saudita. Em meio ao cenário, as dificuldades de se organizar uma seleção iemenita são evidentes, com o time sem sequer poder atuar no território nacional, mandando seus jogos no Catar. Ainda assim, foram capazes de conquistar a classificação. Em um grupo contra Filipinas, Tadjiquistão e Nepal, mantiveram a invencibilidade com duas vitórias e quatro empates.

Por conta do conflito no país, o Campeonato Iemenita sequer é realizado. Dificulta ainda mais o trabalho dos jogadores, que veem seu nível competitivo limitado. Técnico da seleção, o etíope Abraham Mebratu passou a organizar períodos de treinamentos com 40 jogadores. Assim, consegue formar diferentes times e manter os atletas em atividade, finalizando a convocação com aqueles que atuam no exterior. Apesar de tudo, os Diabos Vermelhos conseguiram se impor na chave. Entre os destaques, inclusive, há um que joga no Brasil: o meia Ahmed Al-Sarori, que compõe o Central, finalista do Campeonato Pernambucano. O elenco jovem pode render ainda mais frutos aos iemenitas.

O Grupo F das eliminatórias da Copa da Ásia, aliás, invariavelmente contaria com dois estreantes. E a liderança acabou com as Filipinas, em sua primeira participação internacional. Apesar da colonização espanhola até 1898, a relevância dos filipinos no futebol continental é bem pequena – ao contrário do que acontece no basquete, por exemplo. Tinham um pouco mais de destaque em tempos incipientes, até a década de 1930, quando competiam com China, Japão e Índias Orientais Holandesas (a atual Indonésia) em torneios regionais. Neste intervalo, inclusive, os Azkals contaram com o seu grande craque: Paulino Alcântara, filipino filho de um militar espanhol. Quando já era jogador do Barcelona, o atacante retornou às Filipinas entre 1916 e 1918, defendendo a seleção nacional em dois jogos. Depois, voltaria à Espanha para se tornar um dos maiores artilheiros dos blaugranas.

Sem um novo Paulino, as Filipinas se acostumaram a ser saco de pancadas na Ásia a partir do crescimento do futebol internacional no continente, sobretudo após a Segunda Guerra Mundial. Mas já vinham vislumbrando sua “geração de ouro” e dando alguns sinais de evolução nesta década, sobretudo no Campeonato da AFF, a federação do sudeste asiático. Foram três semifinais no torneio a partir de 2010. Em 2014, ainda foram vice-campeões da AFC Challenge Cup, destinada a “seleções emergentes” do continente, perdendo a decisão para a Palestina – que se classificou à Copa da Ásia de 2015 através da vitória. Já nesta edição do torneio continental, após campanha nas fases iniciais das Eliminatórias em que derrotaram Bahrein e Coreia do Norte, os Azkals foram dominantes. Somaram três empates e três vitórias, carimbando o passaporte de maneira inédita.

No banco de reservas, o comandante é bastante conhecido: Thomas Dooley, volante de longa carreira com a seleção americana, que disputou a Copa do Mundo em 1994 e 1998. Após trabalhar como assistente no US Team, o veterano assumiu as Filipinas em 2014. A maior parte do elenco atua em clubes locais, com raras exceções pela Europa ou outros países asiáticos. Em compensação, a maioria destes nasceram em outros países, pinçados pela federação ao longo da última década. Nos últimos meses, foram chamados atletas provenientes de: Dinamarca, Espanha, Holanda, Japão, Bélgica, Austrália, Alemanha, Inglaterra, Canadá, Itália, Estados Unidos, Áustria, Suíça e Emirados Árabes. As origens refletem a migração massiva filipinos, sobretudo mulheres, em busca de oportunidades de emprego e melhores condições de vida. Talvez o jogador mais famoso dentro deste quadro é David Alaba, cuja mãe, uma enfermeira filipina, se casou com um músico nigeriano.

O grande herói das Filipinas é Phil Younghusband – recordista em jogos e gols pela seleção, além de capitão. Também filho de uma imigrante filipina, o atacante nasceu na Inglaterra e passou pelas categorias de base do Chelsea. Em 2005, a federação filipina foi alertada sobre a promessa graças a um gamer anônimo que o descobriu no Football Manager. Phil Younghusband logo passou a ser convocado ao lado de seu irmão mais velho, James, meio-campista que também foi cria do Chelsea e atuou pelo Wimbledon. Defendendo atualmente clubes locais, ambos continuam como pilares da seleção e juntos marcaram quase metade dos tentos que asseguraram a classificação à Copa da Ásia – inclusive o último, de Phil, definindo a vitória sobre o Tadjiquistão. Foi o 50° tento do jogador de 30 anos pela equipe nacional.

Por fim, a terceira seleção estreante será o Quirguistão. Enquanto turcomenos e uzbeques já tinham representado a antiga União Soviética na Copa da Ásia, os quirguizes aumentam o número de ex-repúblicas no torneio continental – uma honraria que apenas os tadjiques não desfrutaram, considerando apenas os filiados à AFC.  Tiram uma diferença histórica em relação aos vizinhos, aliás. Enquanto o CSKA Pamir Dushanbe representou o Tadjiquistão em três temporadas do Campeonato Soviético, Quirguistão e Turcomenistão nunca colocaram um clube na elite da antiga liga. Agora, dão um passo à frente com suas seleções nacionais.

De fato, o futebol do Quirguistão nunca teve muita relevância além de suas fronteiras. E continuava assim nos primeiros anos após a independência, sem campanhas que chamassem atenção na Ásia. O melhor resultado foi a terceira colocação na AFC Challenge Cup de 2006, mas em duas das edições seguintes os quirguizes sequer se classificaram à competição. Assim, a ascensão passa pelos técnicos russos Sergey Dvoryankov e Aleksandr Krestinin, bem como à política de também utilizar a diáspora da população local para recrutar reforços à seleção. Dois dos principais jogadores do atual elenco se enquadram neste caso: o capitão Edgar Bernhardt e o atacante Vitalij Lux. Ambos nasceram no país, mas cresceram na Alemanha. E ainda há a prática de naturalizar atletas africanos, a exemplo do ganês Daniel Tagoe.

Um fato curioso sobre a seleção do Quirguistão é a maneira como seu elenco é formado, relembrando tempos antigos do futebol internacional. O plantel que consumou a classificação nesta Data Fifa possui nada menos que 14 jogadores do Dordoi, clube treinado pelo próprio Aleksandr Krestinin. A partir da base, o comandante pode entrosar a equipe nacional a um nível pouco comum. Mas isso não quer dizer que o time domine a liga nacional atualmente, com o Alay Osh buscando o tetracampeonato local. Fato é que, ainda assim, a seleção se deu bem na classificação à Copa da Ásia. Ficou à frente de Myanmar e Macau, sofrendo sua única derrota na campanha para a Índia, líder da chave e também garantida na fase final do torneio continental.

Abaixo, um mapa com os 24 países classificados à Copa da Ásia de 2019: