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A Copa de 2010 adornou os safáris da África do Sul com um belo elefante branco

Nem sempre a escolha das cidades-sede da Copa do Mundo passa por interesses meramente esportivos. A maneira como o estádio será usado no futuro pelos times locais, aliás, muitas vezes acaba sendo mero detalhe em meio às jogatinas políticas e econômicas. O jogo de interesses sempre pesa. E o exemplo mais exposto é o da África do Sul, em 2010. Um dos países com mais déficit de infraestrutura a receber um Mundial, e um dos que tem futebol com organização mais incipiente. Mas que, ao invés de se planejar para evitar prejuízos, acabou estimulando muitos.

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O Estádio Mbombela é a maior referência nesse contexto. A obra é belíssima, um dos estádios de futebol que mais chamam atenção no mundo. No entanto, é desnecessária, com capacidade para abrigar dois terços da população de sua cidade, Nelspruit. Não precisa ser um gênio da matemática para imaginar que raramente fica lotado. A arena é apenas um adorno para a forte indústria turística do nordeste do país, mas que, apesar da vitrine, não pode ser colocado como responsável pelo aumento de visitantes na região – crescente em todo o país desde a realização da Copa. E que não trouxe quaisquer avanços para a população em seu entorno. Um local sem apelo para grandes eventos, que acaba sugando justamente o dinheiro acumulado com turismo e que poderia ser investido no desenvolvimento de Nelspruit.

A Cuiabá da Copa de 2010

Nelspruit foi umas das 13 cidades pré-selecionadas pelos sul-africanos durante sua campanha para sediar a Copa do Mundo, que sofreu um baque com a derrota para a Alemanha em 2000, mas assegurou a realização do torneio em 2004, vencendo a Inglaterra na eleição da Fifa. Embora seja a capital de Mpumalanga, uma das nove províncias da África do Sul, a importância de Nelspruit não está exatamente na grandeza da cidade. Voltado à agricultura e à mineração, o município possui cerca de 60 mil habitantes, o menor entre todas as sedes.

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Entretanto, a cidade seria um centro nevrálgico para o turismo que o governo do país planejava promover. Nelspruit é o ponto de partida para o Parque Nacional Kruger, uma das maiores reservas naturais da África e protegido pela Unesco (lembrou-se do Pantanal?). O local recebe mais de um milhão de visitantes por ano, em busca de safáris e dos “Big Five”, os cinco mamíferos de grande porte (leão, elefante, búfalo, leopardo e rinoceronte) que todo turista quer ver.

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Além disso, havia outros interesses na região. Nelspruit est a apenas 200 km de Maputo, capital de Moçambique, e de seus quase 2 milhões de habitantes. Na cidade-sede também está localizado o Cassino Emnotweni, um dos maiores do país e que atrai muitos moçambicanos. E a província de Mpumalanga ainda conta com locais para a prática de esportes radicais e outros pontos de belezas naturais, como o cânion Blyde River (150 km ao norte da capital) e as cavernas Sudwala (40 km a leste).

Sem times locais, uma cidade de forasteiros

Motivos turísticos e econômicos não faltavam para confirmar Nelspruit entre as dez sedes da Copa de 2010. A questão era mesmo a esportiva: um estádio moderno seria construído do zero em uma cidade que sequer tinha um time relevante de futebol para ocupá-lo? E, que fique claro, a indagação não era exclusiva da capital de Mpumalanga, ainda mais em um país no qual o campeonato nacional sequer está entre os mais fortes do continente. A Premier Soccer League (PSL) pode até ser bem organizada, mas sua relevância é limitada às grandes cidades do país, Joanesburgo, Cidade do Cabo, Durban e Pretória.

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Porto Elizabeth e Bloemfontein encabeçam a lista de cidades sem futebol, mas são salvas pelo rúgbi. Seus estádios se transformaram nas casas do Southern Kings e dos Cheetahs, equipes do Super Rugby, campeonato que envolve clubes da África do Sul, da Austrália e da Nova Zelândia. Por isso, Nelspruit e Polokwane, outra pequena cidade a noroeste do país, com 130 mil habitantes, ficaram realmente com os elefantes brancos do Mundial sul-africano.

A estrutura esportiva que se montou nos dois municípios só foi forjada depois do torneio, e de forma artificial. O Bay United se mudou de Porto Elizabeth e se transformou no Polokwane City em 2012, garantindo ao Estádio Peter Mokaba seu representante na PSL. Já no ano seguinte, a arena também passou a abrigar os jogos do recém-criado Limpopo Blue Bulls, equipe da Copa Vodacom, segundo torneio de rúgbi mais importante do país.

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Em Nelspruit, esse processo foi ainda mais forçado. A cidade segue sem um clube local. O Estádio Mbombela é utilizado tanto na PSL quanto na Copa Vodacom, mas por forasteiros. O Bidvets Wits, de Joanesburgo, foi o primeiro time de futebol a atuar em Nelspruit. Apesar dos 340 km de distância de sua sede para a cidade, passou a fazer três jogos por temporada no nordeste sul-africano. Já em novembro de 2010, ficou acertada a ida do Black Aces, que disputou duas temporadas na primeira divisão e duas na segunda desde então. Contudo, a mudança foi apenas de fachada, pois o clube segue sediado e treinando em Joanesburgo até os dias atuais. Essa mesma política existe no rúgbi: o Pumas joga em Nelspruit, mas segue enraizado em Witbank, a 220 km.

Denúncias de corrupção e nenhum benefício aos vizinhos

A viabilidade para a construção de um estádio em Nelspruit era nula. Cidade pequena, sem grandes clubes locais ou chamariz para outros eventos. Mesmo assim, as obras seguiram em frente a partir de 2007. Os custos foram de US$ 145 milhões, o mais baixo entre as novas arenas erguidas para os Mundiais de 2010 e de 2014. Ainda assim, injustificável para a maioria dos críticos, especialmente pela calamidade social nos arredores do prédio suntuoso. Um oásis no meio de uma vizinhança pobre, com capacidade para 40 mil pessoas.

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O apelo do estádio Mbombela é evidente em seu design, que faz ligação aos animais do Parque Nacional Kruger. Dezoito estruturas laranjas que seguram a cobertura simulam girafas. Já as arquibancadas em preto e branco lembram as listas de uma zebra. Transformou-se em um ponto turístico a mais para os milhares de visitantes que passam anualmente por Nelspruit. Mas por um preço muito salgado, especialmente pelas denúncias que envolveram as obras. Apesar dos US$ 145 milhões oficialmente gastos, políticos locais foram acusados de receber propina para beneficiar construtoras na licitação – e três pessoas chegaram ser assassinadas por relatar o caso. Também houve uma tentativa de fraude, na qual documentos falsificados foram usados para tirar o dinheiro da prefeitura destinado às obras e evitar impostos.

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Pior, a população local foi mais prejudicada do que beneficiada. As obras de melhoria do entorno nunca foram cumpridas. Durante a construção do estádio, os trabalhadores realizaram cinco greves, reclamando das péssimas condições no canteiro. Crianças de duas escolas desapropriadas passaram a ter aulas em trailers, gerando vários protestos da população local. Mesmo durante a Copa do Mundo, os relatos eram de falta de saneamento básico e de lixo acumulado na região do Mbombela.

Tudo isso para receber quatro jogos da Copa, todos da primeira fase, e apenas uma seleção campeã do mundo: Itália 1×1 Nova Zelândia, Honduras 0×1 Chile, Austrália 2×1 Sérvia, Coreia do Norte 0×3 Costa do Marfim.

Elefante branco adornado por zebras e girafas

Desde a Copa de 2010, Nelspruit recebeu apenas cinco partidas da seleção da África do Sul: três amistosos e dois compromissos pelas eliminatórias da Copa Africana de Nações, o último deles em 2012. Já a primeira visita da seleção de rúgbi aconteceu em 2013, em amistoso contra a Escócia que sequer lotou as arquibancadas – e o retorno à cidade está marcado para outro duelo em junho, contra Gales. É natural que os Springboks e os Bafana Bafana passassem a se dividir entre os vários estádios renovados para a Copa de 2010. Ainda assim, apenas seis eventos em quatro anos é muito pouco para que o Mbombela seja um ônus para o poder público e, consequentemente, para a população.

Nelspruit também sediou a Copa Africana de Nações em 2013, mas por um mero acaso. A Líbia, que receberia o torneio, desistiu por conta da revolução que vivia. Então, a África do Sul, que seria o palco da competição em 2017, se adiantou em quatro anos. O estádio Mbombela contou com oito partidas, incluindo uma semifinal. Entretanto, em quatro deles teve menos de 10 mil espectadores e somente em dois se aproximou da capacidade total (35 mil).

Bafana Bafana

Na atual temporada, com o retorno do Black Aces à elite, foram 13 jogos do Campeonato Sul-Africano realizados no Estádio Mbombela – 11 do time e dois do Pretoria University, que transferiu para lá os duelos em casa contra Kaizer Chiefs e Orlando Pirates, os dois clubes mais populares do país. O público, porém, só passou dos 15 mil presentes nos duelos com os grandes. A média do Black Aces é de 6,1 mil presentes por jogo, apenas a nona da liga, e a taxa de ocupação é a quinta pior. Sinal claro de que não foi a simples construção do estádio que fez com que a paixão pelo esporte florescesse em Nelspruit.

Os números são sintomáticos. A única vez em que o Mbombela recebeu mais de 40 mil pessoas e não tinha jogo dos Bafana Bafana foi em janeiro. Porém, as arquibancadas ficaram lotadas não para ver um grande evento esportivo ou um show, mas para a convenção do CNA, o partido que governa a África do Sul desde o fim do Apartheid. Que foi importantíssimo para a transformação vivida pelo país, representada pela própria realização da Copa de 2010. Mas que também tem grande responsabilidade sobre os elefantes brancos que ajudaram a erguer.

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