Nesta quarta-feira, depois de muitos ensaios, a candidatura sul-americana à Copa do Mundo de 2030 finalmente se oficializou. E, além de Argentina e Uruguai, velhos parceiros no sonho de receber o Mundial centenário, também se juntou o Paraguai. Os paraguaios se aproximaram nas últimas semanas para o projeto triplo e, a princípio, se sugeria que os novos parceiros surgissem apenas no apoio das duas principais sedes. No entanto, a apresentação do projeto indica que Paraguai e Uruguai terão pesos parecidos na proposta à Fifa. Os dois países devem contar com duas ou três sedes, enquanto a Argentina tende a providenciar de seis a oito estádios.

De uma maneira geral, para a América Latina como um todo, a candidatura tríplice soa como uma boa notícia. O Mundial de 2014, nas arquibancadas, foi um sucesso entre os vizinhos. Legiões de diferentes países do continente aproveitaram a oportunidade para acompanhar a competição inédita a diferentes gerações. A proximidade geográfica impulsionou um número considerável de torcedores latinos, que lotaram os estádios brasileiros e proporcionaram um clima especial à Copa. Ainda que o Brasil fosse o anfitrião, a febre superava as fronteiras. Uma empolgação que se sentiu ao longo de diferentes semanas.

A Copa de 2030 pode amplificar ainda mais este sentimento de um torneio da América Latina. A proximidade cultural e linguística facilita a viagem aos turistas de outros países hispânicos, enquanto os brasileiros certamente não perderão a oportunidade de um turismo boleiro, a países no qual o livre trânsito proporcionado pelo Mercosul já atrai multidões de visitantes todos os anos. Será um Mundial com um quê de Libertadores. Para se grudar na memória pelas cores, pela vibração e principalmente pelos sons.

Mas se a Copa do Mundo de 2014 serve de impulso para aquilo que se verá nas ruas e nas arquibancadas, ela também precisa ser exemplo àquilo que se executará no planejamento. Argentina, Uruguai e Paraguai não podem aceitar os espólios da Fifa de braços abertos, até por possuírem economias muito menores que o Brasil. Está mais do que claro que o “Padrão Fifa” se tornou uma lorota de modernização que satisfaz apenas as politicagens, mas não atende necessariamente as demandas. É necessário modernizar os estádios? Sim, mas isso não precisa significar a destruição dos antigos templos e a criação de elefantes brancos que sirvam apenas para um punhado de jogos. Centenario, Monumental ou Defensores del Chaco correm o risco de padecerem como o Maracanã. O preço que o Brasil paga é muito alto, enquanto todas as “arenas” de 2014 deixaram um legado negativo nas contas públicas.

Até pelo peso político de três governos em conjunto, os postulantes da Copa de 2030 precisam também brigar pelos seus interesses. Organizar uma Copa do Mundo sem gastos públicos é impossível. Entretanto, isso não precisa significar necessariamente o rombo que se viu em 2014, com tantas obras supérfluas e destoantes de uma realidade sustentável ao futebol local. Além do mais, as exigências estruturais serão maiores, considerando a presença de 48 seleções desta vez. Até por isso, a inclusão do Paraguai auxilia – embora isso também aumente os desafios logísticos. Neste sentido, será importante aos três países tirarem lições da Copa de 2002 e dos outros torneios internacionais, sobretudo a Eurocopa, realizados em mais de um país.

O xis da questão, de qualquer forma, acaba sendo outro: quão profundo será o uso político da Copa de 2030 pelos três países? É óbvio que os três possuem necessidades maiores de investimento – especialmente o Paraguai, dono da menor economia e das estruturas mais precárias. O Mundial serve de plataforma aos três governos. E também servirá para que se anunciem melhorias gerais em outras áreas que, é possível, ficarão apenas na promessa. As lições do Brasil novamente ressurgem, com diferentes partidos se aproveitando da ocasião, sob a bênção de Fifa e CBF, enquanto grande parte das obras além dos estádios viraram lendas.

A candidatura tríplice da Copa de 2030 pode ser ótima. Respeita a história da competição e a leva de volta ao continente que faz a paixão pelo esporte fervilhar. Mas esta é apenas a capa do livro que costumam vender. O Mundial não deve ser apenas um evento de gala que ignora a realidade onde se insere e deixa um fardo enorme nos anos posteriores. A Fifa precisa adaptar o que pede, da mesma maneira que os governos não podem se submeter aos desmandos achando que tudo se pagará. O problema é acreditar nisso, quando há tantos interesses políticos e comerciais envolvidos. O risco maior fica para o povo, aquele que sempre aproveita a febre de bola por 30 dias, mas acaba pagando caro depois.