FORTALEZA - Chegar ao estádio Castelão tinha alguma dose de tensão. Em 2013, os protestos tornaram essa chegada difícil. Na van que nos levava ao local do jogo, as lembranças do ano anterior, quando o trajeto teve que ser refeito para poder chegar. Desta vez, não foi preciso. Tudo tranquilo. Houve um protesto, mas pequeno – talvez umas 100 pessoas, que não fecharam a rua. Depois de passar pelo bloqueio da polícia, no raio de dois quilômetros do estádio, foi possível ver a mistura de grades direcionando para o Castelão e pessoas que olhavam da janela, de chinelo, às vezes sem camisa. Uma mistura que chamaria mais a atenção na saída do estádio do que na entrada.

TRIVELA IN LOCO: Torcida do México fez o Brasil se sentir visitante

Esperamos um bom tempo para ir embora do Castelão, para evitar o tumulto que se forma assim que o apito final soa. Esperamos 15, talvez 20 minutos antes de nos levantarmos para sair. Vimos todos os anúncios do telão, do próximo jogo do Brasil, do México, o próximo jogo na Arena Castelão. Quando o estádio estava bem vazio, saímos.

Para sair do Castelão e voltar à orla de Fortaleza, onde ficam os hotéis, é preciso passar no meio do bairro. Ao redor do estádio, festa, música, dança na rua. As pessoas moram ali, a 500, talvez 600 metros da “arena”, mas passam longe da Copa. Sendo ali, no seu quintal, ou na Rússia, em 2018, eles assistem aos jogos do mesmo jeito, ali, em casa. A diferença é que com o jogo no Castelão, é possível olhar da janela a movimentação, ver os mexicanos fantasiados e muito loucos e ver muita gente vestida de Brasil indo para o estádio.

ANÁLISE: Até agora, Paulinho só provou que não tem lugar na Seleção hoje

Ali, a Copa acontece pela TV, a poucos metros do estádio. As pessoas colocam cadeiras, dessas de praia mesmo, na frente das casas. Fazem festa, vestidos de Brasil como os que vão ao Castelão, mas sem o mesmo privilégio. Não há ingresso na mão. Mas há sorrisos nos rostos. O jogo já acabou, as pessoas estão nas portas das suas casas, vendo os carros e os milhares de torcedores andarem se afastando do estádio.

No lugar onde passam os carros, e por onde sairão os jogadores, forma-se um corredor. Muitas crianças ficam na avenida onde passam os carros esperando pelo ônibus das seleções. E ainda mais sendo a seleção brasileira. Acenam para toda a qualquer van ou ônibus que passa, com suas bandeiras, vestindo suas camisas, a maioria com o número 10 e Neymar escrito às costas.

As crianças estão carentes de uma retribuição. Um aceno de um dos craques brasileiros, que elas não podem ver em campo. Lembrei do ônibus da seleção que vi lá em São Paulo, no Parque Jacuí, quando as crianças ficaram com os olhos brilhando só por um tchau de Thiago Silva e Neymar. Para essas crianças, para essas pessoas na janela, a Copa do Mundo é a chance de ganhar essa atenção. Pode parecer pouco, mas para quem vive longe de tudo o tempo todo – inclusive de jogos que acontecem tão perto da sua casa -, um aceno já significa muito.