Copa do Mundo no Parque Jacuí, em São Miguel, zona leste de São Paulo (Foto: Felipe Lobo/Trivela)

O dia que a Copa do Mundo fez o sol se pôr a leste. Na zona leste

A Zona Leste de São Paulo foi palco da abertura da Copa do Mundo, mas ela é muito grande para ficarmos só nas pouco mais de 61 mil pessoas no estádio. A maioria dos 4 milhões de pessoas teria que ver o jogo em outro lugar. A prefeitura tinha programado quatro exibições públicas dos jogos do Brasil além da Fan Fest oficial da Fifa, organizada no Vale do Anhangabaú, centro da cidade. Uma na Praça João Tadeu Prioli, no bairro do Campo Limpo (Zona Sul), outra na Praça do Samba, em Perus (Norte) e uma no Parque Jacuí, em São Miguel Paulista (Leste). Com a abertura sendo na Zona Leste, quisemos sentir como a região que abrigou o pontapé inicial da Copa do Mundo estaria perto do estádio, mas fora dele.

Em uma cidade tão grande como São Paulo, ir até o centro em um dia de folga não é sempre um programa atrativo. São cerca de 30 quilômetros de São Miguel Paulista até o Vale do Anhangabaú, onde seria a Fan Fest. Para quem quer uma diversão com os filhos, pode ser um pouco longe demais. Por isso, a exibição pública programada pela prefeitura ali, às margens da Rodovia Ayrton Senna, a 30 quilômetros do centro da cidade, mas só a nove quilômetros da Arena Corinthians, faria toda diferença.

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No caminho da minha casa até lá, uma distância de cerca de 10 quilômetros de onde moro, no Cangaíba, também na Zona Leste, buzinas, cornetas, muito verde e amarelo. As casas com bandeiras, as ruas enfeitadas. Quando cheguei ao parque, ainda montavam o palco e o telão e pouca gente por lá. Ainda era 10h30 da manhã e os que estavam no parque usavam a pista de corrida, faziam exercícios ou levavam os filhos para brincar. Naquele momento, o espaço era usado por quem queria andar de patins ou skate.

“É um lugar onde a comunidade é carente, aqui as pessoas têm pouca opção de lazer”, afirma Aldo Faria Sodré, subprefeito de São Miguel. “Resolvemos fazer aqui para atender à essa população mais carente”, continuou. O Parque Jacuí é bem amplo, tem uma boa pista de corrida e um espaço que é muito utilizado pelas crianças. Tem campo de futebol também, um campo raro de encontrar em São Paulo. Um parque amplo, bonito e bem cuidado.

O Parque Jacuí, em São Miguel (Foto: Felipe Lobo/Trivela)

O Parque Jacuí, em São Miguel (Foto: Felipe Lobo/Trivela)

Um senhor se senta ao meu lado e pergunta se vão passar o jogo do Brasil ali. Conto que sim. Seu Francisco tem 45 anos, quatro filhas,  e mora no bairro há 15 anos. Disse que o bairro melhorou muito nesse tempo. Que quando chegou, o rio inundava o bairro todo, os moradores perdiam tudo. Disse que o governo fez muito para melhorar ali, com saneamento básico, canalização do rio. Disse que construíram escolas – aponta para uma escola de Ensino Fundamental. Comento sobre a escola técnica, que fica do outro lado do parque. Ele elogia Mario Covas, ex-governador de São Paulo. Disse que as mudanças no bairro começaram com ele. Elogiou também o governador Geraldo Alckmin. Confessa que não gosta do PT, mas diz que Lula foi um bom presidente. Mas criticou Dilma e Haddad. Disse o prefeito de São Paulo é muito devagar.

Criticou os políticos como um todo, especialmente vereadores e deputados. Disse que um dos grandes problemas do Brasil é a Justiça. “A polícia prende, mas a Justiça solta”, comentou. Continuou dizendo que as pessoas cobram os políticos, mas precisam fazer a sua parte. Disse que repreendeu um vizinho que jogou um sofá velho no córrego e disse que se irrita quando vê alguém jogando lixo embaixo do banco do trem, mas que não repreende para não criar confusão. Disse que acha que as pessoas estão exagerando nos protestos contra a Copa, porque as pessoas precisam fazer a parte delas. Que precisa se cobrar, mas que não é a Copa o problema. Sorri, agradece a conversa e me cumprimenta. Voltaria para casa até esperar as atrações na festa começarem.

Entre as atrações chamadas para animar o público, três representantes do rap paulistano. Eu disse paulistano? Entenda rap da Zona Leste. Os três grupos eram locais, tinham em suas letras críticas sociais fortes e muitas falavam sobre a região mais populosa da cidade. “O Brasil começa hoje a busca pelo hexa, mas nosso povo é penta. São cinco dias suando sangue para ganhar a vida”, disse um dos rappers no palco. O primeiro a se apresentar, Lucas Afonso, fez diversas críticas sociais na sua apresentação, falou da vida de exclusão que os moradores da Zona Leste sofrem. Em uma das frases, criticou quem fala mal sobre os protestos e greves, em um momento que muitas pessoas reclamaram da greve de metrô criticando os metroviários, não o governo. “Se você acha que greve e protesto é zoeira, cuidado pra não ser rato aplaudindo a ratoeira”, disse Lucas Afonso em uma das suas rimas.

Lucas Afonso se apresenta no Parque Jacuí (Foto: Felipe Lobo/Trivela)

Lucas Afonso se apresenta no Parque Jacuí (Foto: Felipe Lobo/Trivela)

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Um dos grupos que se apresentou foi “A Tramoia”, que tem Negro Panta como um dos seus integrantes, além de Tatu, WL e Cássio. Negro Panta é, no dia a dia, Aury, supervisor do Parque Jacuí, exatamente como eu o conheci quando cheguei ali. Morador do bairro desde 1991, ele trabalha no parque há três anos. Estava trabalhando no início do dia, antes de subir ao palco e se transformar em um rapper que fala do cotidiano. A essa altura, depois da apresentação dos rappers, o som passou a ser o do telão, e o parque já estava muito mais cheio. Aquelas pouco mais de 50 pessoas se tornaram 300, talvez um pouco mais. Naquele pequeno espaço cercado por grades, a expectativa era enorme. Na torcida, o amarelo era predominante, mas havia camisas de times.

Surpreendentemente, as camisas do Corinthians não eram uma massacrante maioria. Muitas camisas do São Paulo e do Palmeiras. Uma ou outra do Santos, mas essas eram mais raras. E outra coisa que chamava a atenção eram as camisas do futebol internacional. Em uma cena curiosa, dois garotos brincavam, um com a camisa do Real Madrid de Cristiano Ronaldo e outra do Barcelona de Neymar. O que vestia a camisa do Real disse que torceria por Portugal. “Cristiano Ronaldo é o meu jogador favorito”. O outro garoto, claro, disse que torceria por Neymar. É claro que os dois torceriam pelo Brasil depois, porque seria impossível resistir. Quem resiste à essa situação?

Garotos na zona leste vestem camisa de Cristiano Ronaldo e Neymar (Foto: Felipe Lobo/Trivela)

Garotos na zona leste vestem camisa de Cristiano Ronaldo e Neymar (Foto: Felipe Lobo/Trivela)

O telão já tinha mostrado a seleção brasileira saindo do hotel e mostrava, naquele momento, Galvão Bueno e a equipe da Globo na Arena Corinthians. Eis que, alguns minutos depois, e ainda com mais de duas horas para a bola rolar, os organizadores do evento dizem no microfone que o itinerário do ônibus do Brasil passaria ali na Avenida Jacu Pêssego, onde fica o Parque Jacuí. Houve, então, uma correria em direção à grade no lado onde o ônibus passaria. Alguns pularam as pequenas grades para delimitar o evento. Eu fui um deles e muitos outros garotos também. Ficamos ali, esperando. E nesse momento, o que passou na minha cabeça foi que vimos essa imagem de ônibus do time chegando ao estádio em tantos lugares antes, mas dessa vez era aqui. No nosso bairro, na avenida por onde passa o ônibus que usamos todo dia. Onde passamos de carro.

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Ali, na grade, muitos gritos. Passou um ônibus, fotos. “Era o da Croácia”, eu disse. Alguns olhares de decepção surgiram e eu logo justifiquei que vi a bandeira do país europeu no ônibus, mas o ônibus do Brasil ainda viria. A ansiedade pelo jogo, que já era enorme, agora se juntou à ansiedade para ver o Brasil. Muitos escalaram a grade para ficar em uma posição boa. Batedores fecham um dos acessos. “Lá vem o ônibus”, alguém grita. Mais correria, mais gente escalando a grade. Era mesmo o ônibus do Brasil.

Ao meu lado, garotos de uns sete, talvez oito anos, enlouquecidos. Me junto a eles e gritamos “Vai, Brasil” quando o ônibus passa. Naqueles minutos, me tornei um deles, uma viagem de volta à infância, àquela paixão intensa que o futebol nos faz ter, ainda tão cedo na vida. As lembranças de Copa, a ansiedade, lembrar de onde você estava nas Copas passadas. Thiago Silva, da janela, acenou. Neymar e Willian também. O sorriso no rosto dos garotos é contagiante. “Vai ter gol do Thiago Silva”, disse um dos garotos, empolgado com o gesto do capitão. Ali, a gente sabia: tínhamos ajudado um pouquinho o Brasil. Gritos de apoio que certamente surgiram em outros pontos do caminho e que não há dúvida que vira combustível para os jogadores. E um aceno faz toda diferença. O rosto das crianças depois de ver o ônibus, os jogadores e receberem um simples aceno, mostra que faz diferença. Quem não se emociona? E dali em diante, seria difícil não se emocionar.

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Quando o hino nacional começou a tocar e a imagem dos jogadores cantando tomou o telão, os olhos se encheram de lágrimas. As pessoas ali, com suas cornetas, chapéus, camisas amarelas e bandeiras, enchiam o peito para cantar, gritar o hino. Teve susto com gol da Croácia depois, loucura no gol de Neymar, alegria com o segundo gol de Neymar e êxtase no gol de Oscar. Uma alegria que continuou depois do fim do jogo, onde um grupo se juntou e cantou “Sou brasileiro, com muito orgulho, com muito amor”. Em plena São Miguel Paulista, em plena periferia, em frente ao Mercado do Maluco, que, aliás, patrocinou o evento, em frente às casas com tijolos à mostra e os muitos fios desorganizados nos postes. Esse é um canto que é muito atrelado àquele torcedor de seleção, que paga ingresso caro, o “coxinha”. Mas ali, na periferia, ele foi repetido, com cerveja, batuque e muita, muita alegria. Alegria genuína. O problema não é aquele canto, aquela música. Seria impossível dizer que aquela não é uma cena bonita de ver.

A Zona Leste é onde o sol nasce primeiro em São Paulo. No entardecer, o sol se afasta da ZL, mas a Copa se aproxima. O mundo inteiro estava lá. Os quatro milhões de habitantes da região eram os anfitriões dos bilhões que estavam ali, de corpo ou de alma. Ali, onde muita gente no resto da cidade sequer sabia que existia até pouco tempo, onde muitos não têm ideia de onde é, onde até outro dia era no “quinto dos infernos”, era agora o centro do evento mais importante do mundo. Porque não há nada tão importante como a Copa do Mundo. E a Copa do Mundo foi na Zona Leste. Nada pode ser maior. Tem Copa sim. Copa de emoções. Copa do Mundo, mas também a Copa da ZL.

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3 respostas para “O dia que a Copa do Mundo fez o sol se pôr a leste. Na zona leste”

  1. Caio Godoi disse:

    Belíssima crônica.

  2. Fabricio bertassi disse:

    Parabéns pelo texto! Que seja apenas o comeco para mais reconhecimento á regiao!

  3. Danilo Alves disse:

    que texto sensacional!

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