Em um restaurante em Cuiabá, um russo bebia cerveja, comia um peixe e via TV. Fui conversar com ele. Parti de uma premissa simples: afinal, se ele tinha conseguido pedir tudo aquilo, seria capaz de falar comigo. Mas a rejeição, amigos, é coisa dolorida. O russo foi gente fina, mas ele não falava nada de inglês, nada de português. Ele só conseguiu descrever o caminho que fizera até Cuiabá (leia com sotaque dos vilões dos filmes do 007): “Me, from Sibéria. From Sibéria to Moscou. From Moscou to Madrid. From Madrid to São Paulo. São Paulo… very interesting city! From São Paulo to Cuiabá. Rússia!” A conversa travou ali. Perguntei ao garçom como ele fez para combinar com o russo, para falar com ele: “A gente dá um jeito. No final, sempre dá certo”.

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Hoje, no último dia do torneio, fiquei exatamente com essa impressão. A gente não sabe como deu certo. Mas a Copa do Mundo funcionou. E, para mim, continua sendo um mistério tão grande quanto a conversa entre o garçom cuiabano e o turista russo. O pensamento mágico, de que tudo se resolve de alguma forma, não funcionou para a seleção. Mas parece ter rolado com a Copa.

Rua 3, no bairro da Alvorada, em Manaus

Rua 3, no bairro da Alvorada, em Manaus

Ainda me lembro daquele distante 11 de junho de 2014, quando estava indo ao aeroporto de Congonhas. Sai da minha casa, na zona oeste de São Paulo, com aquela sensação de que tudo poderia acontecer na Copa do Mundo. Não esperava tragédia, não esperava sucesso. Eu, sinceramente, não sabia o que esperar. Até que cheguei, finalmente, ao aeroporto, onde pegaria um vôo para Manaus. Naquela madrugada fria, havia centenas de chilenos e mexicanos no saguão construído décadas atrás, com aquele ar meio vintage que marca o aeroporto paulistano. Meu alerta de caos acendeu. Fiquei olhando, esperando as famosas #cenaslamentáveis que tantas vezes testemunhara em aeroportos Brasil agora. Ninguém para dar informação, ninguém arrumando a fila. Ninguém em todos os lugares. Só que daquela vez havia dezenas de pessoas para dar informação, organizar filas e ajudar os turistas.

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Essa cena se repetiria em todos os aeroportos da Copa, como testemunhou a equipe da Trivela que viajou por esse Brazilzão. Houve alguns contratempos aqui e ali, mas nada significativo. Como diz o Bruno Bonsanti, nosso repórter que passou a Copa no Nordeste: “Houve poucos relatos de problemas em aeroportos e a minha experiência pessoal foi quase perfeita, exceto por Guarulhos, que atrasou um pouco o voo de ida e demorou para entregar as malas na volta”.Bem diferente, por exemplos, das cenas do apagão aéreo.

Então, resolvi amarrar as experiências que eu e o Bonsanti tivemos na Copa neste texto. Refletindo sobre elas, ficou claro. A organização dessa Copa lembra a seleção pentacampeã mundial em 2002. Foi um raio num dia de céu azul. Temos muito a comemorar, mas muito mais a aprender.

Copacabana teve muita festa depois dos pênaltis (AP Photo/Silvia Izquierdo)

Copacabana teve muita festa depois dos pênaltis (AP Photo/Silvia Izquierdo)

Uma delas: tanto os problemas quanto as coisas boas não se devem apenas ao governo federal, aos Estados e às prefeituras. Cada um teve seu papel e sua responsabilidade – e não acredite em quem disser que a Copa só funcionou (ou deixou de funcionar) por causa de um político específico. É desonesto. O Brasil não é uma monarquia na qual todo o poder vem de Brasília. Cada cidade-sede, cada Estado, teve sua contribuição, para o bem e para o mal.

Porém, a maior lição não é essa. É uma maneira de ver o mundo. Ou de deixar de ver o mundo. Se acharmos que tudo foi “divino maravilhoso”, infelizmente, estaremos no caminho errado. E se cedermos à fracassomania, também – afinal, ela também teve sua dose de responsabilidade em alguns dos nossos problemas. É hora de encontrar a medida e o caminho. Afinal, o Brasil não começa nem termina na Copa. Mas podemos aprender muito, uma enormidade, com o que fomos durante ela.

Olha a festa

Quando cheguei a Manaus, fiquei muito bem impressionado com o clima de festa. A cidade estava tomada pela Copa do Mundo. Ruas decoradas, Fulecos gigantes, gente empolgada para o jogo do Brasil. Bem diferente de São Paulo.

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Só que essa diferença não durou muito tempo. De repente, começaram a pipocar no meu Twitter, no meu Facebook e no meu Instagram centenas de imagens de pessoas na Vila Madalena. As ruas das queijarias, das brigaderias, dos bares e das lojas de decoração foram tomadas por turistas – e os turistas acabaram atraindo os brasileiros. As Fan Fests foram ficando cada vez maiores – em São Paulo e no resto do país.

Praça central de Manaus

A praça de Manaus ficou apinhada de gente para ver Inglaterra e Itália (Foto: Leandro Beguoci)

“As Fan Fests foram excelentes, bem diferente da África do Sul. Lá era meio frio. No Brasil, fez calor na maioria dos dias e as festas ficaram lotadas. Especialmente, Brasil x Chile, no Recife, completamente cheia de gente e debaixo de muito calor. Por um lado, claro, é desconfortável. Por outro, a festa fica bonita. Às 21h daquele dia, fechando, ainda estava com gente”, conta o Bonsanti.

Eu vi a mesma coisa em Cuiabá e em São Paulo. Na capital de Mato Grosso, uma Fan Fest gigante, que chegou a receber pouco mais de 40 mil pessoas para o empate entre Brasil e México, na primeira fase da Copa. Em São Paulo, o Vale do Anhangabaú virou uma balada gigantesca, com direito a tudo que uma balada em São Paulo oferece: muita gente, muita festa e muita, mas muita fila na entrada.

A infraestrutura

Agora entram os problemas. A Fan Fest de Manaus, por exemplo, ficava na Ponta Negra. É um lugar bonito, é um lugar interessante, mas longe do centro da cidade e distante do estádio. O acesso era difícil. Resultado? A festa, mesmo, aconteceu no centro da cidade. Em Brasília, a Fan Fest aconteceu em Taguatinga, a pouco mais de 20 quilômetros do estádio Mane Garrincha. Isso ajuda a explicar por que tivemos tão poucas imagens de gente se divertindo na Fan Fest de Brasília – diferente de São Paulo e do Rio de Janeiro, por exemplo.

Russos se divertindo em Cuiabá

Russos se divertindo em Cuiabá: festa é algo que a gente continua sabendo como fazer (foto: Helson França/Portal da Copa)

Além disso, não foi lá muito simples ir e voltar dessas três Fan Fests – e por causa da ausência de obras de infraestrutura e de transporte público. Em Cuiabá, há uma enorme cicatriz que vai do aeroporto ao centro da cidade, onde deveria passar um VLT – que não ficou pronto a tempo da Copa. Brasília é uma cidade na qual o transporte público é praticamente inexistente – era uma Fan Fest na qual só se chegada de carro. Em Manaus, apesar das melhoras em infraestrutura e transporte nos últimos anos, a melhor forma de chegar à Fan Fest era de táxi ou de moto-táxi. Não houve o apagão de infraestrutura, como se previu antes do torneio, mas também não dá para abraçar o discurso ufanista do governo federal, dos governos estaduais e das prefeituras de que tudo correu bem – até porque não isso que a gente viu.

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“Não era exatamente fácil chegar ao estádios, mas fizeram questão de oferecer alternativas. O estádio de Salvador era no meio da cidade e tinha metrô na porta. Sem problemas. A Arena Pernambuco foi bem longe, mas havia o trem e o BRT (ônibus especial) que levava a galera para as proximidades. No Castelão, houve vários bolsões de carros ao redor da cidade, com BRTs para lá. Às vezes demorava um pouco, mas todo mundo chegava e voltava sem grandes traumas”, relata o Bonsanti. E, é bom ressaltar, os governos tiveram um papel importante nesta confusão – especialmente em Pernambuco.

Até a torcida do Ituano foi à Arena Pantanal

Até a torcida do Ituano foi à Arena Pantanal

“A Arena Pernambuco é inexplicável. Um mexicano perguntou para mim por que fizemos um estádio naquela região, “não tem pessoas aqui”, e eu não soube responder. Tem um posto de gasolina e alguns restaurantes de beira de estrada próximos e apenas isso. O metrô é longe, o BRT para longe. Até da cidade de São Lourenço da Mata, oficialmente a sede do estádio, é longe”, continua nosso repórter que voltou bronzeado da praia – mais por andar de um lado para outro do que pelas praias que ele NÃO visitou (é o que ele fala, pelo menos).

A preparação das pessoas envolvidas no torneio também deveu um tantinho. Em Cuiabá, logo depois do jogo do Brasil contra o México, tentei pegar um ônibus para ir à Arena Pantanal. Ninguém sabia me dizer em qual lugar eu deveria embarcar. Para piorar, a sinalização era confusa. Quando finalmente consegui encontrar, tive de atravessar uma avenida sem faixa de pedestre. Foi tenso. Deu tudo certo, mas tive a impressão de que, por pouco, não deu.

A mesma situação se aplica a São Paulo. Fui assistir a um jogo na Arena Corinthians. A sinalização estava bem feita, mas o fluxo ficou no limite do caos. A entrada nas estações de metrô depois do jogo entre Argentina e Suíça quase saiu do controle. Tinha muita gente, em todos os cantos. Esperei mais de uma hora para sair do estádio e, mesmo assim, ainda tive a impressão de que, se começasse uma confusão ali, já era. Não tinha para onde correr.

Torcedores na Arena Corinthians, em São Paulo (AP Photo/Julio Cortez)

Torcedores na Arena Corinthians, em São Paulo (AP Photo/Julio Cortez)

E isso me deixou preocupado para depois da Copa. Para garantir o fluxo perfeito do metrô ao estádio, é preciso interditar a Radial Leste – uma das principais vias da região. Não me parece viável fazer isso sempre o Corinthians jogar lá.

Outro problema de infraestrutura foi a comunicação nos estádios. Tanto o celular quanto a internet, na Arena Corinthians, funcionaram mal. O wi-fi era praticamente inexistente, incluindo a área de camarotes. Em Manaus, a internet melhorou nos últimos cinco anos (eu já tinha visitado a cidade antes), mas continua errante. Era muito difícil usar 3G até no centro da cidade. O Bonsanti teve uma experiência diferente, o que mostra que essa Copa, em certa medida, consagra uma frase-clichê: “Brasil, terra de contrastes”.

Diz o Bonsa: “Os três estádios que eu conheci no Nordeste estiveram perfeitos. Internet rápida e sem oscilações, sala de imprensa enorme, com várias televisões e espaço para trabalhar, embora os preços das cantinas fossem altíssimos. Não vi sujeira, nem nada mal feito”.

Multidão

Multidão na rua Aspicuelta, na Vila Madalena: todo mundo no passo do pinguim (foto: Leandro Beguoci)

Um balanço sincero

Nestes últimos de Copa, fiquei pensando: como é que a gente conseguiu organizar um Mundial tão bom? E me peguei pensando no quanto o sucesso dessa organização me lembra a Copa do Mundo de 2002, a última que o Brasil venceu.

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Por uma conjunção fantástica de fatores, deu tudo certo naquele ano. Ronaldo, Rivaldo e Ronaldinho Gaúcho voaram. Felipão conseguiu motivar o time e organizar um esquema para que os três craques do time brilhassem – apesar de ter assumido a seleção praticamente às vésperas do Mundial, por causa da péssima preparação que o time tinha feito. Lembre-se: Scolari substitui Leão em 2001, um ano antes do Mundial na Ásia. Leão tinha substituído Candinho e Luxemburgo. A campanha, com sete vitórias, foi bonita – mas o time tinha uma série de problemas, como mostraram os jogos contra Turquia e Bélgica.

Segurando o Fuleco, torcedora acompanha partida entre Brasil e Colômbia (AP Photo/Hassan Ammar)

Segurando o Fuleco, torcedora acompanha partida entre Brasil e Colômbia (AP Photo/Hassan Ammar)

Só que aquela Copa nos fez esquecer que havia muita coisa a acertar na seleção. O “pensamento mágico” de que bastaria reunir uns craques e o resto aconteceria naturalmente foi reforçado. Em 2006, reunimos o famoso quadrado mágico. Parreira se via como uma espécie de administrador de egos, mais do que um treinador. Resultado? Eliminação para a França, depois de um Mundial bem meia boca. E isso com jogadores do calibre de Ronaldo, Kaká, Ronaldinho Gaúcho, Adriano Imperador, Robinho, Cafu e Roberto Carlos.

O talento é ótimo, e ajuda a ganhar Copas. O espírito festeiro e colaborativo dos brasileiros foi fundamental para que este Mundial deixe recordações maravilhosas tanto em brasileiro quanto em turistas de todas as partes do planeta. Mas, tal como os craques ocultaram os problemas que tivemos, os sucessos esconderam algumas das nossas falhas. Agora, já estamos escolados. É preciso encontrar caminhos para equilibrar os nossos talentos com planejamento, trabalho e racionalidade. Sim, dá para ter festa e ser racional.

Multidão na Fan Fest de Copacabana (AP Photo/Silvia Izquierdo)

Multidão na Fan Fest de Copacabana (AP Photo/Silvia Izquierdo)

E talvez um exemplo prático disso seja a Vila Madalena, em São Paulo. A fracassomania que tomou conta do país antes da Copa foi péssima. Ninguém acreditou que o torneio fosse atrair tanta gente. Nem a prefeitura nem os comerciantes nem a associação de bairro se prepararam para receber os milhares de turistas que chegaram às ruas estreitas da Vila. O resultado foi muita festa, algumas confusões e um tanto de caos. Poderia ter sido muito melhor. Os comerciantes poderiam ter feito mais dinheiro, a prefeitura poderia ter planejado melhor o trânsito e os banheiros químicos. Talvez fosse até possível criar festas de ruas em vários outros pontos da cidade. Nós nunca vamos saber se a festa não poderia ter sido até maior.

Portanto, todos temos razões para ficar orgulhosos da Copa. Mas não podemos nos esquecer que ela aconteceu APESAR dos problemas e não POR CAUSA das nossas falhas. O país se mobilizou para receber a Copa em um esquema de guerra, praticamente. Agora, o torneio vai embora. É hora de pegar as lições de planejamento que funcionaram e expandi-las para o país. Senão, vamos ficar lamentando daqui a alguns anos as oportunidades que perdemos – assim como lamentamos o que deixamos de aprender desde 2002.