chileno dormindo em Pinheiros

A Copa mostrou que São Paulo também é San Pablo

A relação de São Paulo com a América Latina sempre foi meio atrapalhada. A cidade, escondida entre as montanhas, aterrorizava o sul do continente. Era uma espécie de forte gigante, onde alguns dos caras mais barra pesadas da região – índios, portugueses, ingleses, holandeses, espanhóis – se reuniam. Isso aconteceu muitos séculos antes de os turistas brasileiros tomarem, corajosamente, os centros de compras de Buenos Aires armados com cartões de crédito até os dentes e invadirem cada centímetro quadrado de Montevidéu. No século 17, os bandeirantes iam atrás de índios, ouro e prata com uma voracidade de fazer inveja a Luis Suaréz. Ok, era uma época brutal. Mas mesmo para os padrões daqueles tempos a nossa brava gente paulista andava um tantinho acima do tom. As cartas daquela época descreviam os paulistas como “gente desalmada e rebelde” e contavam que eles faziam “grandes estragos”. A situação era tão grave que o governador de Buenos Aires chegou a pedir que o rei arrebentasse com São Paulo – a cidade não tinha jeito. Toda essa história está narrada no fantástico livro “São Paulo, a capital da solidão”, do jornalista Roberto Pompeu de Toledo. Vale ler.

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Mas o que isso tem a ver com a Copa, você pode me perguntar. Várias coisas. Esta Copa teve 7 latino-americanos entre os 16 classificados para as oitavas – o que só prova que nossos colegas do Impedimento sempre estiveram certos ao apostar e acreditar na força da América Latina.  Neste final de semana, 8 times entraram em campo – e 6 eram da América Latina. Como nas outras cidades-sede do Mundial, já faz alguns dias que a cidade de São Paulo vem sendo tomada por uma onda que fala espanhol. E, neste sábado e neste domingo, eles estavam em cada canto da cidade. Colombianos, uruguaios, chilenos estavam cantando antes, durante e depois das partidas. Mesmo quem não está na Copa, como peruanos e bolivianos, eram facilmente encontrados na cidade. São Paulo tinha ligado o modo “sangue latinooooo” (leia no modo Ney Matogrosso).

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Nestes dias latinos, aproveitei para revisitar alguns dos meus lugares favoritos na cidade. Comi uma arepa com carne bovina no Sabores de Mi Tierra, na rua Lisboa, no bairro de Pinheiros, em São Paulo. A arepa é um pãozinho colombiano que lembra, na textura, uma tapioca. É uma delícia. Na frente do bar, um telão e uma caixa de som animavam a classificação colombiana. As pessoas dançavam o Armeration, a dança quebra-cintura do ex-jogador do Palmeiras e imortalizada nesta Copa a cada gol dos colombianos. Era uma pequena Bogotá – mas muito mais quente e com muito mais ar do que a altíssima capital colombiana.

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Também passei pelo restaurante chileno El Guaton, comandando por um dos bigodes mais respeitáveis desse país. Apesar da derrota do Chile, estava lotado – e com bandeirinhas do Brasil. Havia vários chilenos por lá comendo, curtindo, em paz. No boteco da frente, um chileno dormia com a cabeça sobre a mesa e mostrava que, se ficar triste, beba – ao menos se for nesta Copa. Ninguém mexia com ele. Os olhares eram muito mais de solidariedade do que de revanche, desforra ou qualquer outra coisa. A tristeza foi respeitada – assim como a torcida que foi ao Mineirão poderia ter respeitado o hino dos vizinhos, em vez de vaiá-lo. Não por nada. É só elegância e respeito pelo país natal de muitas pessoas que moram na mesma rua, no mesmo bairro, na mesma cidade que nós.

A América Latina perto de nós

A lista de lugares latinos em São Paulo é enorme. As empanadas já são encontradas em vários lugares – até no boteco da esquina de casa, aqui na Pompéia. Os argentinos estão com restaurantes em todos os lugares, e eu sempre acabo descobrindo um lugar novo por mês. Já as outras nacionalidades ainda estão criando raízes gastronômicas aqui, embora algumas já estejam no mainstream culinário. O uruguaio El Tranvía, na rua Conselheiro Brotero, bem perto do centro de São Paulo, é tradicional e sensacional para comer carne e doce de leite. É chique e elegante, mas mantém a latinidade viva. Outros são mais recentes. Se quiser mais intimidade, diversão e um abraço do Jorge, o dono do lugar, experimente a mistura da Síria com o México e prove um taco árabe no El Árabe, na rua Artur de Azevedo, em Pinheiros. É uma pedida sensacional (só não peça para colocar açúcar no café). No Pari, há a feirinha dos bolivianos, na Praça Kantuta – você se sente em La Paz. Se for fã de ceviche, o Rinconcito Peruano, na rua Aurora, no centrão, é bom, barato e divertido.

El Guaton

El Guaton, reduto chileno em Pinheiros: bigode, empanadas e frango a lo pobre (Foto: Leandro Beguoci)

Vários desses lugares já estão faz algum tempo em São Paulo. Não há décadas, é verdade, mas eles estão aqui por tempo o bastante para que sejam notados por alguns paulistanos. Não são ainda massivamente freqüentados, como as cantinas italianas do Bexiga, mas já possuem clientes fieis. O fato de eles existiram mostra o quanto a imigração aumentou. O fato de eles ainda não terem entrado no roteiro paulistano típico mostra que ainda falta muito para que a América Latina seja mais vista e notada na cidade. Com a Copa, isso pode começar a mudar.

Vários dos torcedores chilenos, uruguaios e colombianos que estavam em São Paulo no sábado já vivem na cidade. Os bares e restaurantes latinos atraíram centenas, milhares de pessoas, porque são referências da comunidade na cidade e no além fronteiras – é um pedacinho da América espanhola na cidade de São Paulo, e esses recantos vão de boca em boca, tal como aqueles bares brasileiros em Londres ou Nova York. Vários dos garçons desses lugares falam português com sotaque ou ainda estão aprendendo o idioma. O fato de tanta gente da América Latina ter vindo ao Brasil e ter se sentido à vontade por aqui mostra um fato inescapável: os imigrantes da América Latina, tal como outras nacionalidades, aos poucos se sentem à vontade na cidade mais japonesa fora do Japão, mais libanesa fora do Líbano, mais italiana fora da Itália. Quem sabe, no futuro, teremos descendentes de bolivianos na seleção brasileira….

Minha arepa querida

Minha arepa querida: obrigado, Colômbia, por esta contribuição à humanidade (Foto: Leandro Beguoci)

São Paulo sempre teve muitos imigrantes. Mas, curiosamente, sempre tivemos uma relação distante com a América Latina. A geração do meu avô ouviu muito mais italiano na cidade do que o espanhol dos nossos vizinhos. Meu pai aprendeu, na escola pública, francês e inglês – provavelmente a língua estrangeira mais ouvida nas ruas da capital paulista nestes dias. Só a minha geração, alfabetizada nos anos 90, passou a aprender espanhol na escola – e a ouvir espanhol na rua. São Paulo, uma das maiores cidades da América ibérica, passou muito tempo distante, por uma série de razões, dos seus vizinhos.

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Obviamente, não é uma integração tranqüila. Muitos dos imigrantes sofrem preconceito na cidade e trabalham em oficinas por 12, 14 horas por dia. São escravos modernos, e a discriminação ainda é grande. Do meu lado, espero, sinceramente, que a Copa deixe um legado para esses imigrantes. Depois do torneio, a San Pablo onde todos eles vivem pode se tornar mais visível para toda a cidade – e, talvez, preste mais atenção às pessoas que animaram fortemente a capital paulista durante a Copa do Mundo. Porque, afinal, uma das cidades mais plurais, cosmopolitas e abertas do mundo precisa ser mais generosa com os imigrantes que vêm dos nossos vizinhos. Não vejo a hora de encontrar arepa no bar da esquina – e de ver os imigrantes tão respeitados e integrados à cidade quanto os japoneses, italianos, portugueses, espanhóis, libaneses…

Colombianos no Sabores de Mi Tierra

Colombianos no Sabores de Mi Tierra: Bogotá está lá em Pinheiros (Foto: Leandro Beguoci)

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