Desde o último sábado, até a véspera da abertura da Copa, publicaremos uma série de especiais sobre a história dos Mundiais na televisão brasileira. Nesta segunda-feira, a terceira parte, sobre a Copa de 1974. Clique aqui para conferir os textos anteriores.

A televisão brasileira começou exibindo as Copas do Mundo com atraso em relação ao rádio. Problema resolvido em 1970. Restava, então, solucionar o problema da ampliação do acesso à tevê a cores. Nem foi necessário esperar outra Copa: em 1972, foram postos à venda os primeiros aparelhos de “televisão colorida”, após a empresa alemã Telefunken desenvolver o sistema de transmissão a cores PAL-M, criado pela empresa alemã Telefunken. Em 19 de fevereiro de 1972, foi exibido o primeiro jogo de futebol a cores da história da televisão brasileira: Caxias 0x0 Grêmio, amistoso que integrava a programação da 40ª Festa da Uva de Caxias – por sua vez, foi o primeiro evento a cores da história da tevê. O empate sem gols entre grenás e gremistas foi exibido pela TV Difusora de Porto Alegre, afiliada da Rede Record; narrado por Luiz Mendes, da TV Rio; e retransmitido em São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília. O avanço tecnológico causou uma venda maior de televisores em 1974. Se em fevereiro, eram 190 mil lares brasileiros que tinham TV a cores, o número saltaria para 320 mil residências ao final de junho.

Não bastasse a popularização da televisão colorida, mais regiões do país teriam razão para festejar. Enfim, a região Norte do Brasil veria a Copa do Mundo pela tela menor. Dias antes do início da competição, uma perna de satélite foi direcionada a Manaus, para que a capital do Amazonas pudesse ter acesso às imagens da Alemanha – e os manauaras comemoraram publicamente o fato. No Acre, engenheiros e técnicos também criaram uma estação em Rio Branco. E o DENTEL (Departamento Nacional de Telecomunicações) concedeu licença, em caráter excepcional, para a criação de uma estação de TV que também possibilitasse a recepção de sinais em Porto Velho, capital de Rondônia.

E a compra dos direitos de transmissão deu muito menos complicações do que as idas e vindas de 1970. A criação da OTI (Organização das Televisões Iberoamericanas) – que será detalhada no capítulo sobre 1982 – possibilitou uma centralização das discussões. Em consórcio com a Eurovisão, a OTI obteve os direitos da Copa de 1974. No Brasil, Globo e Tupi gastaram, cada uma, entre 10 e 12 milhões de cruzeiros para exibirem o torneio. Record, Bandeirantes e Gazeta – mais uma emissora paulista, de alcance regional, inaugurada em 1970 – se uniram num pool, o SIBRATEL (Sistema Brasileiro de Televisão – sete anos antes de surgir o SBT de Silvio Santos), e também pagaram valor semelhante para exibirem a Copa.

Só faltava, agora, exibirem todos os jogos da Copa ao vivo: das 38 partidas do certame, metade ainda foi exibida pelas emissoras em compactos noturnos, às 23h. Mas a televisão brasileira ia avançando, e já era parte importante da imprensa brasileira na cobertura de uma Copa. A ponto do Brasil ter sido o segundo país a enviar mais jornalistas para a Alemanha: Alberto Léo escreveu 167, Max Gehringer citou 147, mas o fato é que só o país-sede daquele Mundial tinha mais periodistas trabalhando nos jogos.

Cultura

Narração: Luiz Noriega, José Carlos Cicarelli e Carlos Eduardo Leite
Reportagens: Orlando Duarte

A rigor, a transmissão da TV Cultura de São Paulo nem estava prevista quando a Copa começou. Aí entrou o governo do estado, controlando a emissora desde 1969, via Fundação Padre Anchieta: este liberou uma verba às pressas, para a compra os direitos de transmissão. E a Cultura liderou a Rede Nacional de Emissoras Educativas, sendo mais uma a emitir as imagens do Mundial. Até lógico, tendo em vista que a emissora começava a se notabilizar pela cobertura de esportes – com destaque para o então “esporte amador”, como mostram as exibições da Copa Davis, em 1971. Surgiu aí o lema que marcava as transmissões da emissora: “Esporte é Cultura”.

Só não havia locutores enviados à Alemanha. Também conhecidos pelas participações nos jogos de clubes paulistas – exibidos normalmente em VT, no domingo, às 23h -, narraram as partidas ao vivo Luiz Noriega (1930-2012 – sim, pai do comentarista Maurício) e José Carlos Cicarelli, ambos nos estúdios da TV Cultura. Pelos VTs noturnos, se responsabilizava pela narração Carlos Eduardo Leite. Principal comentarista da Rádio Jovem Pan na Alemanha e diretor de esportes da Cultura, Orlando Duarte fazia boletins telefônicos com as notícias da Copa – tanto para o “É hora de esporte”, informativo esportivo da hora do almoço, quanto para o “É hora de notícia”.

Tupi

Narradores: Walter Abrahão e Fernando Sasso/José Góes
Comentaristas: Rui Porto e José Santana
Repórter: Ely Coimbra

Junto do crescimento da Globo e da concorrência cada vez maior, os sérios problemas financeiros dos Diários Associados faziam os perigos da Tupi crescerem continuamente. Ainda assim, a tradição esportiva inegável da emissora seguiu. Walter Abrahão chegava à quarta Copa de sua carreira televisiva, e teria a seu lado Rui Porto, o mesmo parceiro do pool com Globo e Bandeirantes em 1970. Além da dupla, o mineiro Fernando Sasso (1936-2005) conseguia sua primeira cobertura de Copa no local, após ter narrado os VTs noturnos pela Tupi havia quatro anos.

Nas reportagens, ganhava sua primeira aparição televisiva num Mundial um paulistano já habitual nas transmissões do futebol paulista na Tupi, em que trabalhava desde 1962: Eli Coimbra (1942-1998). Fora a equipe enviada à Alemanha – hospedada em Hoffenheim, muito próxima a Herzogenhorn, cidade da Floresta Negra onde ficava a concentração brasileira para a Copa -, José Góes (1932-1998) ficou nos estúdios da Tupi em São Paulo, narrando as íntegras noturnas que não haviam sido exibidas ao vivo e apresentando programas antes do início da Copa (como o “Tupi na Copa 74”) e no decorrer dela (o “Boletim da Copa do Mundo”, durante o noticioso “Factorama”).

A propaganda do SIBRATEL para Brasil 0x0 Iugoslávia, jogo de abertura da Copa de 1974 (Reprodução/Thiago Uberreich)

SIBRATEL (Record, Bandeirantes e Gazeta)

Narradores: Fernando Solera (Bandeirantes) e Peirão de Castro (Gazeta)/Alexandre Santos (Bandeirantes), Sérgio Cunha (Record) e Galvão Bueno (Gazeta)
Comentaristas: Roberto Petri (Gazeta) e Blota Jr. (Record)
Repórteres: Chico de Assis (Bandeirantes) e Silvio Luiz (Record)

Tradição esportiva não faltava a nenhuma das três emissoras paulistas que se uniram no SIBRATEL – além da TV Rio, responsável pelas transmissões fluminenses do SIBRATEL na Copa. No mesmo 1970 em que fora inaugurada, a Gazeta já lançara um programa destinado a ser dos principais exemplares de debates esportivos no Brasil, para o bem e para o mal: por obra de Milton Peruzzi (1913-2001), criou-se o “Futebol é com onze – Mesa Redonda”, que logo teria o nome encurtado para o “Mesa Redonda” pelo qual até hoje é conhecido, em São Paulo e no Brasil.

Record e Bandeirantes, por suas vezes, já haviam estado no pool que transmitira a Copa de 1970. E também davam espaço farto ao futebol nas respectivas programações. Por exemplo: já em 1974, Alexandre Santos inaugurara o “Movietone Esportivo”, que reprisava gols antigos, de acordo com uma seleção previamente feita de assuntos. Desconfia? Pois é: logo o “Movietone Esportivo” mudou de nome para “Gol, o grande momento do futebol”, que desde então segue na emissora do bairro do Morumbi – hoje, no Bandsports.

A equipe do SIBRATEL, na Alemanha, em 1974. Da esquerda para a direita: Chico de Assis, Blota Jr., o cinegrafista Adão Macieira, Roberto Petri, Silvio Luiz, Fernando Solera e Peirão de Castro (Reprodução do arquivo pessoal de Silvio Luiz, publicado no livro “Silvio Luiz: olho no lance”, de Wagner William Knoeller (São Paulo, Nova Cultural, 2002)

Assim, seis profissionais de Record, Bandeirantes e Gazeta foram enviados ao país-sede para as transmissões ao vivo. A Bandeirantes cedeu Fernando Solera, que narraria sua segunda Copa, e o repórter Chico de Assis; da Gazeta, veio o também locutor Peirão de Castro (1930-1989) e o comentarista Roberto Petri; a Record cedeu o outro comentarista, Blota Jr. (1920-1999), além de um personagem que ainda se consolidaria nas transmissões de Copas. Após passagens pelos mais variados cargos na TV Excelsior e na própria Record (foi até diretor de produção nesta), Sylvio Luiz Perez Machado de Souza – ou melhor, Silvio Luiz – representaria a Record, como repórter, mesma função em que começara, e na qual estivera na Copa de 1962, pela Rádio Bandeirantes. A narração? No próximo capítulo… Nos jogos principais, Solera e Peirão dividiam a locução, enquanto Blota Jr. e Petri trabalhavam nos comentários.


(Com os comentários de Blota Jr., Fernando Solera e Peirão de Castro narrando os gols de Argentina 1×2 Brasil, segundo jogo da Seleção por um dos quadrangulares que definia vaga na final da Copa de 1974. Do acervo de Ted Richard Paiva Sartori. Exibido pelo programa “Clássicos Bandsports”, em 2004)

Também afiliada do SIBRATEL, além de mostrar os jogos, a TV Rio apresentava durante a Copa o “Terceiro tempo”, mesa de debates às 23h, aos domingos. José Cunha era o apresentador; como debatedores, Nilton Santos, Carlos Varella, Affonso Soares, Godoy Bezerra, Joubert de Carvalho, Pedro Paradella e Cláudio Moisés – além do matemático Oswald de Souza. De quebra, da Alemanha o “Terceiro tempo” recebia as participações telefônicas de Luiz Mendes, cobrindo a Copa por uma rádio carioca.

Como nas outras emissoras, também havia a exibição da íntegra dos jogos que não haviam passado ao vivo, às 23h. E cada integrante do SIBRATEL tinha o seu locutor na partida, em revezamento a cada 30 minutos, nos estúdios do Brasil. Pela Bandeirantes, Alexandre Santos; da Record veio Sérgio Cunha; e na Gazeta, outro personagem que ainda marcaria seu espaço. Um carioca que havia sido representante de uma indústria de embalagens plásticas, mas sempre amara esporte. E que, por isso, havia sido inscrito por um amigo, Milton César Bonfim, num concurso da Rádio Gazeta, em março daquele 1974, para a seleção de um comentarista. Foi escolhido. Da rádio Gazeta, passou também a trabalhar na tevê, comentando. Pretendia ser conhecido como Carlos Eduardo, seu prenome, mas um cinegrafista, irmão de Milton Peruzzi, escolheu o nome pelo qual ele é amado e odiado, 44 anos depois: Carlos Eduardo dos Santos Galvão Bueno.

Pois foi narrando um daqueles compactos das 23h que Galvão cometeu uma daquelas gafes que fazem detratores e admiradores rirem. Até hoje ele conta: recebeu da produção o roteiro, nele constando que Suécia e Bulgária seria o jogo transmitido. Ao ver as primeiras imagens, o locutor se organizou: Suécia de uniforme amarelo, Bulgária de uniforme branco, e assim começaria o jogo em Düsseldorf. Que foi narrado normalmente por Galvão, até um chute para fora. Ato contínuo, a câmera exibiu o placar: “Alemanha Oriental 0x0 Austrália” – alemães orientais de branco, Socceroos de amarelo. Como se nada tivesse acontecido, o narrador trocou os times e seguiu trabalhando – segundo o próprio, citando bastante o nome de Sparwasser, o único alemão oriental que tinha na memória. Pelo menos, os alemães fizeram 2 a 0 em Hamburgo somente no segundo tempo.

Globo

Narradores: Geraldo José de Almeida e Rui Viotti/Luciano do Valle
Comentaristas: João Saldanha e Milton Collen/Ciro José
Apresentador: Léo Batista

Ao jornalista Alberto Léo, Armando Nogueira, diretor de jornalismo da TV Globo desde 1966, analisou a cobertura da Copa de 1970: “O Mundial de 1970 ainda foi uma experiência. Uma contribuição para você se aproximar do evento, estudar o evento, ver como você deve cobrir o evento. A Copa de 70 foi uma espécie de laboratório para nós”. Laboratório que serviu para que, em 1974, a cobertura global já tivesse um pouco mais de estrutura. A ponto da equipe de doze pessoas ter sido dividida em duas frentes. Uma dedicada ao telejornalismo, dirigida por Armando Nogueira, para a produção de matérias para os jornais da emissora; a outra, para a transmissão dos jogos, coordenada por Rui Viotti – diretor de esportes da Globo, após o longo tempo de experiência na TV Tupi.


(Imagens da transmissão da Globo para a cerimônia de abertura da Copa de 1974, com a narração de Rui Viotti descrevendo a apresentação do Brasil na festa)

Após o impacto que causara na audiência em 1970, Geraldo José de Almeida seguia como o narrador principal do canal – assim como o comentarista João Saldanha, outro símbolo de quatro anos antes, fazia novamente a parceria com “Gera” para os jogos principais da Copa. Além de dirigir as transmissões, Rui Viotti também estava na Alemanha, narrando algumas partidas, além da festa de abertura – e quando era o locutor, tinha Milton Collen a seu lado. Tais duplas trabalhavam quando a exibição era ao vivo. Enquanto isso, do centro internacional de transmissão em Frankfurt, Léo Batista se responsabilizava pelos boletins informativos para o “Jornal Nacional” e o “Fantástico”. Nos compactos noturnos da Globo, às 23h (a não ser nos jogos do Brasil, reprisados no mesmo horário, com a narração de Almeida e os comentários de Saldanha), havia outra narração, dos estúdios da Globo no Rio de Janeiro. De um sujeito que faria muita história nas transmissões televisivas esportivas brasileiras.

Paulista de Campinas, ele trabalhara nas rádios Educadora e Brasil, da cidade natal, desde 1963. Convidado por Pedro Luiz Paoliello, fora para São Paulo, na célebre “Equipe 1040” da Rádio Tupi. Desta, o paulista foi para a Rádio Nacional, pertencente à Globo. O trabalho na rádio agradou, e entre 1970 e 1971, o campineiro foi indicado para narrar na tevê os jogos do Torneio Governador do Estado, campeonato amistoso de basquete em São Paulo. Começou a agradar, se alternava na rádio Nacional e na TV Globo, até que foi de vez para a televisão. O destino o tornou titular das transmissões de Fórmula 1, pela morte de Júlio de Lamare (1928-1973), narrador e diretor de esportes da Globo, uma das vítimas da queda de um avião da Varig nas proximidades do aeroporto de Orly, em Paris.

Enfim: narrando aqueles VTs noturnos de partidas não exibidas ao vivo pela Globo em 1974, Luciano do Valle (1947-2014) estreava na televisão em Copas do Mundo. Comentando as partidas inéditas narradas por Luciano, estava um companheiro seu dos tempos de rádio, também promovido à televisão no Torneio Governador do Estado, que também seria nome importante na televisão brasileira, na frente e atrás das câmeras: Ciro José Gonsales. Além dos compactos, Luciano era o apresentador de uma novidade global naquela Copa: a exibição dos melhores momentos e de gols no primeiro tempo (e em outras partidas da Copa), durante o intervalo dos jogos exibidos ao vivo.

Porém, os chamarizes de audiência da transmissão no canal carioca eram mesmo Geraldo José de Almeida e João Saldanha. Só que a Copa de 1974 foi o ponto final da passagem de ambos pela Globo. Tudo por causa de um mal entendido, ocorrido justamente na transmissão de Brasil x Holanda, o jogo de um dos quadrangulares da segunda fase que definia a vaga à final. Tudo começou por causa da confusa chegada da equipe de transmissão ao Westfalenstadion, em Dortmund, onde o Brasil foi derrotado por 2 a 0 pela Laranja. Um dos convidados de honra da partida era Henry Kissinger, então secretário de estado dos Estados Unidos (e com ascendência alemã). Por causa da presença, um esquema especial de segurança foi montado, e algumas posições da tribuna de imprensa, alteradas.

João Saldanha chegou ao Westfalenstadion para a transmissão junto de amigos conhecidos, colegas do “Jornal do Brasil” no qual escrevia uma coluna durante a Copa: os jornalistas Sandro Moreyra (1918-1987), Dácio de Almeida e Oldemário Touguinhó (1934-2003), e o fotógrafo Ari Gomes. O carro que os levava teve de ficar muito longe do estádio, e todos tiveram de andar considerável distância a pé. Chegando ao local do jogo, o grupo se separou. Sandro, Dácio e Oldemário foram para uma parte da tribuna de imprensa; Ari foi para o campo, fazer as fotos; e Saldanha levou azar. Já subindo para a cabine da TV Globo, foi proibido de continuar, por um segurança. Insistiu, mas teve de dar a volta pelas cadeiras até usar outra escada para chegar ao destino, dez minutos antes do início de Brasil x Holanda. Já sofrendo com os problemas pulmonares que o seguiriam até sua morte – sempre foi fumante inveterado -, João chegou cansado à cabine. Para piorar, Geraldo José de Almeida enfrentara o mesmo problema. E o começo da transmissão teve os dois com sérias dificuldades de fala e respiração, até entrar na normalidade. Houve até boato, logo desmentido, de que ambos estariam bêbados.

Além disso, durante a transmissão da Globo, Geraldo e João adotaram um tom de fala que descontentou José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni, superintendente de operações da emissora. O próprio comentou ao jornalista Alberto Léo: “Tivemos reuniões de planejamento daquela Copa, como acontece rotineiramente com qualquer evento. (…) Devido às expectativas criadas pela performance de 70 foi determinado que não deveríamos atuar como torcedores, nem tentando empurrar a seleção e nem lamentando más atuações ou derrotas. (…) Em 74 nós queríamos deixar um estilo de sobriedade e profissionalismo para a Globo. Comentarista e narrador desobedeceram as normas criadas, e aprovados pelo Walter Clark [diretor geral da emissora], que estava na Alemanha, resolveram fazer uma transmissão pessimista, cheia de choramingos, conversaram durante o transcorrer da partida e criaram um anticlímax nas transmissões. Foram advertidos várias vezes de que eles não eram nem os dirigentes e nem os donos da emissora. Que deveriam atuar como nós queríamos e não como eles queriam nos impor”.

Narrador e comentarista insistiram. Bastou: ao retornarem da Alemanha, tanto Geraldo quanto João foram demitidos da Globo. Boni lamentou: “João Saldanha era um comentarista ímpar, inteligente, íntegro. Geraldo José de Almeida tinha um extraordinário timbre de voz e uma enorme capacidade de comunicação. Mesmo assim, decidimos dispensá-los, não por uma questão de competência, mas de desobediência”. Em sua biografia, “O campeão de audiência”, Walter Clark criticou outro personagem: Armando Nogueira, para ele fundamental nas demissões: “A grande sacanagem que o Armando me fez foi em 1974, quando saí para a Copa na Alemanha e depois para as férias na Itália. Na minha ausência, e totalmente à minha revelia, ele demitiu Geraldo José de Almeida e João Saldanha, dois profissionais que eu jamais permitiria que saíssem da Globo”.

Numa carta enviada a Alberto Léo, Luiz Alfredo, também narrador e filho de Geraldo José de Almeida, opinou em carta a Alberto Léo, desmentindo definitivamente boato: “Do lado do João, parece que a desavença com Armando Nogueira foi determinante. Quanto ao Geraldo, tudo estaria ligado à coordenação da transmissão que ficava no Brasil, e que mandou uma ordem durante a transmissão do jogo com a Holanda (não pichar a seleção) que não teria sido obedecida (na época havia um delay real entre a emissão da palavra e o recebimento no áudio na narração).

Armando Nogueira desmentiu veementemente envolvimento nas demissões: “(…) Eu não assistia aos jogos na cabine (…) Fiquei sabendo disso depois pelo Boni. Tanto o Geraldo José de Almeida quanto o João Saldanha estavam torcendo muito pelo Brasil. E o Boni, daqui do Brasil, entrava na linha de coordenação e dizia ‘olha, gente, deixa de patriotismo’, que não é o que nós estamos vendo aqui, isso fica mal para nós. Parece, e aí eu não quero afirmar nada (…), que o Walter Clark, que estava na cabine e que era o diretor-geral, o Boni era o superintendente, fazendo valer a hierarquia dele dizia ‘mantenha essa orientação’. Então estabeleceu-se um choque de poder entre a retaguarda e o front. (…) Termina a Copa, eu tiro férias, fico pela Europa, quando chego aqui, o Boni me comunica que não ia renovar o contrato de nenhum dos dois, porque os dois o tinham desobedecido. O Walter Clark escreve um livro no qual ele diz que eu não tive coragem de voltar para o Brasil, demiti os dois e fiquei na Europa passeando. Na realidade, eu não participei. (…) Eu não tive nenhuma participação.”

Ambos ainda trabalharam na final entre Holanda e Alemanha. Mas era o fim das passagens pela TV Globo. No caso de Geraldo José de Almeida, era sua última Copa: pouco depois, o narrador paulista descobriu problemas na vesícula. Ainda seguiu trabalhando, na TV Difusora, em Porto Alegre – e depois, na TV Record, de volta a São Paulo. Mas os problemas renitentes seguiram. E “Gera” morreu em 16 de agosto de 1976, na cidade natal, deixando a marca de ser um dos locutores mais marcantes no primeiro grande momento da televisão brasileira em Copas do Mundo.

Tal incidente já não pode mais ser comprovado: um incêndio na sede carioca da emissora, em 1976, queimou boa parte das imagens das transmissões globais de 1974. Mas ele parece corroborar o que Armando Nogueira lamentou, em seu depoimento ao projeto “Memória Globo”: “Era uma coisa muito mal transada. (…)”. Por mais que tivesse avançado, a emissora do Jardim Botânico carioca ainda teria mais a avançar na cobertura de um Mundial.

Na próxima parte: em 1978, cada emissora tem sua voz. E as revelações de 1974 começam a se destacar