Desde o último sábado, até a véspera da abertura da Copa, publicaremos uma série de especiais sobre a história dos Mundiais na televisão brasileira. Nesta quarta-feira, a quinta parte, sobre a Copa de 1982. Clique aqui para conferir os textos anteriores.

Em 1982, pela primeira vez o Brasil teve apenas uma emissora a transmitir imagens da Copa do Mundo. Como isso aconteceu? Um encontro de obrigação e oportunidade. Encontro que começou a ter as condições necessárias anos antes da Copa – entre 1978 e 1979, quando a OTI dividia entre as emissoras de televisão latinoamericanas os direitos de transmissão dos Jogos Olímpicos de 1980. Já mencionada em textos deste especial, esta era a entidade responsável por ratear os direitos de transmissão na região. Criada em 1971, num encontro na Cidade do México, a Organização de Televisão Iberoamericana nasceu com o objetivo de mediar as relações entre as emissoras dos países lusófonos e hispanófonos.

Desde então, a OTI comprava os direitos de transmissão de vários eventos, para ratear entre as emissoras que pagassem a ela suas anuidades. Assim era também com Copas do Mundo e Jogos Olímpicos. Todavia, na maioria das vezes, com relação a esportes, as tevês filiadas à OTI só se interessavam em adquirir os direitos da Copa, já que o “pró-rateio” dos demais eventos não era obrigatório pelo estatuto da entidade. Um dos membros fundadores da organização, o brasileiro José de Almeida Castro (de grande experiência em televisão, à frente das emissoras dos Diários Associados) ajudou a resolver a situação: “Era uma postura perigosa para a entidade, que ficava muito limitada. O Conselho decidiu então, e todos assinaram a resolução de se criar os chamados ‘Eventos OTI’, que seriam obrigatórios. Daí veio o casamento compulsório: quem quer o Mundial de Futebol, e só a OTI tem os direitos, se obriga a comprar os Jogos Olímpicos, um evento OTI”, descreveu Almeida Castro, em seu livro “25 anos de televisão via satélite” (Edipromo, 1997).

Mesmo que os Jogos de Moscou perdessem boa parte do interesse, por causa do boicote de boa parte das nações do bloco ocidental (Estados Unidos à frente), foi exatamente esta a obrigação ressaltada a todas as emissoras – entre elas, claro, as brasileiras – na reunião da OTI em 1979, conforme lembrou Armando Nogueira (então, diretor de Jornalismo da TV Globo) ao projeto Memória Globo: “Havia no condomínio das redes de televisão da América Latina uma decisão, que era a seguinte: ‘Quem não fizesse os Jogos Olímpicos de 80 – na televisão brasileira, argentina, uruguaia -, que eles consideravam ‘o filé com osso’, não vai fazer a Copa do Mundo, que eles consideravam ‘o filé sem osso’”. Na volta ao Brasil, Armando ressaltou o perigo, em depoimento ao jornalista Alberto Léo: “Fui à reunião do comitê da Rede Globo, contei a história e deixei bem claro aos presentes que, embora as outras redes que lá estiveram não dessem a menor bola para aquela decisão, eu achava que a Globo deveria mandar cobrir os Jogos Olímpicos de Moscou”.

A emissora carioca mostrou as disputas, na Rússia. As tevês educativas, também (como a TV Cultura, de São Paulo). E a obrigação cumprida se fez valer: na edição de 1981 de seu encontro anual, a OTI informou que somente a Globo e as emissoras educativas teriam direito a mostrar a Copa de 1982. Era o primeiro caso de monopólio de direitos num evento esportivo – e este não poderia ser evitado, ao contrário de 1970. Armando Nogueira até lamentou: “Todos reclamavam que aquilo era uma atitude hegemônica da TV Globo, que era um monopólio. Eu me lembro que, a cada matéria publicada na imprensa, nós íamos explicar o que de fato tinha acontecido, mas foi inútil”.

Mas se o monopólio foi “obrigatoriamente” exercido pela tevê sediada no bairro carioca do Jardim Botânico, não é menos verdade que ele oferecia uma oportunidade saborosa para superar uma árdua dificuldade que as transmissões de futebol da TV Globo encaravam naquele início de década de 1980, num lugar crucial: São Paulo, o grande mercado publicitário do país. No resto do país a vitória de audiência até era acachapante, mas nas medições paulistas de audiência a Globo sofria com a pressão da TV Record. Também diretor de esportes da emissora, Silvio Luiz cativava cada vez mais os paulistas com sua narração irreverente, cheia de bordões, chamariz de audiência por si só; a equipe de transmissão se entrosava mais e mais (em geral, Silvio, o comentarista Pedro Luiz Paoliello – o mesmo histórico narrador de rádio que chefiara o esporte da TV Globo, substituindo Hélio Ansaldo – e os repórteres Flávio Prado e Eli Coimbra); em alguns momentos, como no Mundialito de 1981, a Record até mesmo superara a audiência da Globo, na medição em São Paulo.

Silvio Luiz, Flávio Prado e Pedro Luiz: pedras no sapato da Globo em São Paulo

Porém, a Record não exibira os Jogos Olímpicos em 1980. Representante da emissora paulista na OTI, o assistente de direção Rui Viotti advertiu o diretor de programação Paulo Machado de Carvalho Filho sobre o risco da exclusividade da TV Globo para 1982. Paulinho preferiu não pressionar, imaginando um acerto posterior para divisão dos direitos. Mas a oportunidade para a exclusividade se abriu, e a Globo a aproveitou. A ABERT (Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão) ainda sugeriu uma saída: sugeriu que as imagens fossem cedidas às outras emissoras filiadas à OTI (Record, Bandeirantes e o recém-fundado SBT/TVS, inaugurado em 1981 após o grupo Silvio Santos receber a concessão da Tupi), e em troca as emissoras aceitariam o patrocínio dos anunciantes já acertados com a Globo, além de um anunciante próprio para cada uma. Nada feito: a Globo ficou como única detentora dos direitos, por US$ 6 milhões pagos à OTI. Restou a Paulo Machado de Carvalho Filho – também presidente da ABERT – lamentar: “A exclusividade é algo antidemocrático”. Mas era tarde. De mais a mais, a Record deu um jeito de minorar o impacto de sua ausência televisiva, como se verá.

O histórico anúncio da campanha publicitária da Rádio Record: a aposta certa manteve a popularidade de Silvio Luiz nas alturas (Reprodução/Thiago Uberreich)

Rádio (e TV) Record
Narração: Silvio Luiz
Comentários: Pedro Luiz Paoliello
Reportagens: Flávio Prado, Ronny Hein, Luiz Alfredo e Eli Coimbra (os dois últimos, no Brasil)
Participações: Alberto Helena Júnior, Rui Viotti e Álvaro Paes Leme

Mesmo que também lamentasse a TV Record fora da Copa, o que representava duro golpe nas pretensões publicitárias a princípio, Rui Viotti contrabalançou com uma sugestão. Ainda em 1981, foi a Paulo Machado de Carvalho Filho e trouxe a ideia que seria sucesso: comprar os direitos de transmissão da Copa para rádio, de modo que a equipe da TV Record fosse à Espanha e estivesse no torneio. Paulinho aceitou na hora. No dia seguinte, Viotti viajou ao Rio de Janeiro e acertou a compra. A equipe da Record já estava praticamente escalada: seria a mesma dos jogos. Silvio Luiz narrando, Pedro Luiz Paoliello comentando, reportagens a cargo de Flávio Prado e o cinegrafista Cid Sandoval – com participações especiais de Alberto Helena Júnior, Álvaro Paes Leme (pai de Álvaro José) e Rui Viotti. Também na Espanha estava Ronny Hein, acompanhando Flávio Prado nas reportagens. E o áudio seria veiculado em frequência e amplitude moduladas – ou seja, na Rádio Record AM e FM.

Nas reuniões de planejamento, Paulinho e Viotti esclareceram: não seria uma transmissão típica de rádio, mas uma transmissão “de tevê, na rádio”. Silvio usaria os mesmos bordões, narraria com o mesmo ritmo televisivo, enfim, quase nada mudaria. A intenção era fazer com que o telespectador visse as imagens da TV Globo, trocando o som da tevê pelo do rádio. Intenção exposta no slogan publicitário que se tornou histórico, pensado pelo departamento de publicidade da Record: “Veja a Copa na TV, ouça com o coração na Rádio Record”. Para resolver um problema (a câmera exclusiva da TV Globo, que exibia algumas imagens distintas do sinal mundial enviado pela RTE espanhola), Silvio usava fones ligados à sede da emissora, em São Paulo, onde o produtor Fábio Caetano lhe passava o que o sinal global mostrava.

No Brasil, Eli Coimbra acompanhou a repercussão com mais reportagens, junto a outro personagem que logo seria visto como narrador: Luiz Alfredo, engenheiro elétrico de profissão, que só começou a atuar no jornalismo após a morte do pai Geraldo José de Almeida – nenhum trauma, apenas a oposição do pai. “Filho dele tinha de estudar”, Luiz comentou numa entrevista ao UOL, em 2015.

De quebra, ainda haveria programas especiais diretamente da Espanha. Iniciados antes mesmo que a Copa começasse, eram terceirizados, de autoria da Manduri 35, produtora do jornalista Mimito Gomes. Faziam parte do pacote de produções da Manduri “O Artilheiro”, “Nossa Copa”, com o resumo do dia, e o “Almanaque da Copa”, com curiosidades históricas sobre o torneio – em “Nossa Copa” e “Almanaque da Copa”, o destaque ficou para as primeiras aparições televisivas de Juca Kfouri. Inclusive, no dia seguinte ao Brasil 2×3 Itália, Juca gravou o “Almanaque da Copa” nas traves em que Paolo Rossi fizera os gols no primeiro tempo, com a participação do cinegrafista Francisco Torturra, um dos autores das históricas imagens do Canal 100. A Record ainda organizou uma mesa redonda – Tércio de Lima era o mediador, enquanto José Luiz Meneghatti, Milton Peruzzi, Moacir Japiassu e Blota Jr. debatiam com os enviados à Espanha.

Assim Juca Kfouri aparecia ao apresentar o Almanaque da Copa (Arquivo pessoal de Juca Kfouri)

Bastou a Copa começar para que a Record tivesse a noção do tamanho de seu acerto. Na edição de 23 de junho de 1982, em quadro, a revista “Veja” intitulava: “Rádio Record na Copa: a vitória do som”. Na pequena reportagem, se informava: dos 2,5 milhões de domicílios com rádio na Grande São Paulo à época, 200 mil haviam obedecido ao “conselho publicitário”, abaixando o volume da tevê para ouvirem a narração de Silvio Luiz. E o êxito continuou, mesmo com percalços, como vários problemas de áudio durante as partidas, a partir do jogo entre Brasil e Escócia, e mudanças repentinas. Por exemplo: Silvio Luiz, Pedro Luiz e Flávio Prado haviam viajado a Málaga, informados de que o jogo a ser exibido pela TV Globo seria União Soviética x Escócia, no estádio La Rosaleda. Já instalados na cidade, foram informados de que a direção global mudara o jogo: exibiria Bélgica x Hungria, em Alicante, no mesmo dia. Silvio e Flávio viajaram às pressas para Madri, e fizeram a transmissão de Bélgica x Hungria num estúdio, enquanto Pedro Luiz informava o que se passava entre soviéticos e escoceses.

Mesmo com o impacto natural da eliminação brasileira, o trabalho da Rádio (e TV) Record seguiu impassível, como se a única função fosse ser o que já era no Brasil: uma opção incômoda. Isso foi provado por uma história, contada por Silvio Luiz à ESPN, no programa “Bola da vez”, em 2016. “Quando acabou o jogo [Brasil x Itália], parecia um enterro. Estavam o Armando [Nogueira], o Luciano [do Valle], todos ‘ah…’. E estava o Flávio [Prado] chorando. Eu perguntei: ‘Flávio, você está chorando por quê?’ ‘Perdemos o jogo, perdemos a Copa…’ ‘Quem perdeu a Copa foi a Globo, não fomos nós. Eles não compraram [com transmissão] exclusiva?’ Tinham armado uma festa monstruosa em Madri, se o Brasil chegasse à final… ‘Babaca, para com isso’”.

As transmissões de todos os jogos do Brasil na Copa de 1982 na Rádio Record, em trechos gravados pelo pai do trivelista honorário Ubiratan Leal

TV Globo
Narração: Luciano do Valle, Galvão Bueno e Carlos Valadares (no Brasil, em caso de falha técnica, Oliveira Andrade)
Comentários: Márcio Guedes, Sérgio Noronha e José Maria de Aquino
Reportagens: Juarez Soares, Ricardo Pereira, Raul Quadros, Ricardo Menezes, Reginaldo Leme, Paulo Alceu, Hermano Henning, Francisco José, Lucas Mendes, Mário Jorge Guimarães, Carlos Nascimento e Roberto Cabrini
Apresentações: Fernando Vannucci e Leo Batista (no Brasil, José Hawilla)
Participações especiais no “Bate-Bola”: Ruy Carlos Ostermann, Oto Glória, Orlando Duarte e Leão

Opulência. Se há uma palavra que pode descrever a cobertura da TV Globo para a Copa de 1982, foi esta. Basta citar um dado: foram US$ 8 milhões gastos na cobertura. Mais um dado: foram 150 profissionais enviados pela emissora à Espanha – a maior equipe estrangeira que trabalhou em televisão naquela Copa, sem contar trinta espanhóis, contratados para ajudarem em questões logísticas. Todos tendo à disposição nada menos do que dois andares do IBC (International Broadcasting Center, o Centro Internacional de Transmissões) em Madri. Um dos enviados da Globo, Reginaldo Leme se admirou, em depoimento ao projeto “Memória Globo”: “Foi a primeira grande estrutura, a ponto de surpreender o mundo, as outras emissoras. Eu me lembro que os australianos, a BBC inglesa, a RAI italiana, todos ficaram surpresos com aquilo. A nossa redação era filmada por eles todos, dados o tamanho e a dimensão que a Globo deu àquela cobertura”.

Já em 1981, antes mesmo que a Seleção Brasileira garantisse sua vaga nas Eliminatórias, um grupo de jornalistas, engenheiros e técnicos da emissora da família Marinho fez quinze viagens entre Rio de Janeiro e Madri, para acertar os detalhes da cobertura. A Espanha chegou a abrir o seu espaço aéreo para que os satélites brasileiros enviassem ondas do tipo PAL-M – sistema brasileiro de imagens, incompatível com o espanhol -, renunciando ao controle sobre as imagens a serem emitidas pela Globo. Tudo para que a única emissora de tevê do Brasil a exibir aquele mundial pudesse aprontar uma novidade durante a Copa: a câmera exclusiva, que mostraria lances diferentes do sinal gerado para o mundo pela RTVE (Radio y Televisión Española). Nenhuma outra emissora no mundo teria tal direito. E a Globo fazia questão de ostentar o privilégio: sua imagem vinha acompanhada da marca “Câmera Globo”.

Outra novidade veio na preparação da retaguarda da cobertura: a Embratel (então estatal, ainda controlando as comunicações via satélite) negociou com o sistema Intelsat a cessão de um satélite exclusivo para a Globo, afinal obtido por US$ 700 mil. Para possibilitar o alcance das imagens a lugares nos quais o canal não tinha retransmissoras, as tevês educativas tiveram sua compensação: após também mostrarem os Jogos Olímpicos de 1980, receberam o direito de exibirem as imagens da Globo durante as partidas da Copa – por isso, em São Paulo, quem experimentasse assistir aos jogos na TV Cultura veria, além do logotipo global, um “RTC” (Rádio e Televisão Cultura, como a estatal paulista era conhecida na época). Alguns integrantes de suas equipes de esportes foram incluídos entre os enviados globais à Espanha, como se verá daqui a pouco. O que não as impedia de fazerem programas próprios: a Cultura fazia debates antes e depois dos jogos – neste último caso, era o “RTC na Copa”, com Luiz Noriega, José Carlos Cicarelli e João Zanforlim. A TVE fluminense enviou alguns profissionais à Espanha, como o repórter José Luiz Furtado e os comentaristas Achilles Chirol, Luiz Mendes e José Inácio Werneck. Ainda teve o seu próprio debate pós-jogo, comandado por Luiz Orlando, tendo como convidados Celso Itiberê e Gérson.

Anúncio da TV Cultura comemorando a cessão das imagens da TV Globo, para a transmissão da Copa de 1982 (Reprodução/Thiago Uberreich)

Na preparação dos profissionais globais, o cuidado era tamanho que até um jornal de distribuição interna aos funcionários foi preparado (o “Globo na Copa”), sem contar uma cartilha de 65 páginas entregue aos enviados à Espanha, com vários dados – do valor corrente dos pesos espanhóis naquele mês de Copa às pronúncias dos nomes dos jogadores de cada seleção. Tudo comandado por quatro pessoas: Armando Nogueira, diretor de Jornalismo da emissora; Ciro José Gonsales, diretor de esportes; e os chefes de redação do Rio de Janeiro (Michel Laurence) e São Paulo (Woile Guimarães).

Tudo nos conformes, então? Mais ou menos. Três meses antes da Copa começar, a Globo teve de contornar a demissão de seu principal comentarista. Contratado em 1981 já com a intenção de estar na equipe global para a competição, o citado Gérson desagradava a direção do canal por algumas posturas – tanto editoriais (era longo demais em seus comentários) quanto comportamentais (o histórico medo de avião do “Canhota” faria com que sua viagem à Espanha fosse de navio). O ex-jogador, por sua vez, reclamava das críticas sobre seu estilo. Em março de 1982, pouco depois do amistoso entre Brasil e Tchecoslováquia, a ruptura chegou a um ponto crucial. E Gérson deixou o canal (como já dito, trabalhou na mesa redonda da TVE fluminense durante a Copa).

Às pressas, a Globo teve de correr atrás de um novo comentarista. E o achou em Márcio Guedes, então na TV Bandeirantes (participava dos jornais e das transmissões da emissora). Em Brasil 1×0 Alemanha Ocidental, amistoso no dia 21 de março de 1982, Juarez Soares ainda foi o comentarista. Mas a partir dali, Márcio Guedes já ocuparia seu lugar. O que gerou mais um problema, por sinal.

As reclamações de bairrismo eram constantes contra os paulistas Luciano e Juarez – principalmente contra Luciano, mais visado em suas narrações. Assim, Márcio entrou na equipe global para dar um tom mais “carioca” às transmissões. O trio ainda esteve junto na cobertura da final do Campeonato Brasileiro de 1982, mas sobrou para Juarez Soares: de comentarista, o paulista de São José dos Campos foi escalado por Armando Nogueira para ser o repórter ligado à Seleção Brasileira na Copa. Inicialmente, recusou, e disse que preferia ser comentarista na Rádio Globo paulista. Mas foi convencido pelo diretor global, e trabalhou pela TV Globo como repórter. Ainda assim, foi o ponto final de sua passagem pela emissora – bem como o de Luciano (logo será assunto), que só trabalhou ao lado de Márcio Guedes naqueles meses. Fosse como fosse, a equipe global já estava decidida.

Em sua segunda Copa como o principal narrador do canal, Luciano do Valle trabalharia nas partidas principais – além de ser o locutor nos grupos 6 (Brasil, União Soviética, Escócia e Nova Zelândia) e 5 (Espanha, Honduras, Iugoslávia e Irlanda do Norte), com Márcio Guedes comentando.


Luciano do Valle abrindo a transmissão da TV Globo para Brasil 4×0 Nova Zelândia. Postado dos arquivos de Ted Richard Paiva Sartori

Na Globo desde outubro de 1981, Galvão Bueno faria sua primeira cobertura na emissora da qual se tornaria a “cara esportiva”, transmitindo os jogos dos grupos 1 (Itália, Polônia, Peru e Camarões) e 2 (Alemanha, Argélia, Chile e Áustria), tendo a seu lado um “emprestado” da TV Educativa fluminense, velho conhecido da Globo: Sérgio Noronha, o comentarista principal em 1978, então editor de esportes da TVE. Inclusive, Galvão revelou ao projeto “Memória Globo” uma história, num depoimento gravado em 2008: estava com Noronha num restaurante em Vigo, sede dos jogos do grupo 1, e viu um senhor. Comentou: “Noronha, é o Zezé Moreira”. “Imagina!” “É ele, sim! Vamos lá falar com ele.” De fato: Zezé estava em Vigo, convidado especial da comissão técnica da Seleção Brasileira que era. Passou a assistir aos jogos na cabine da Globo, sem participar das transmissões. Itália classificada, o ex-técnico comentou com o narrador e o comentarista: “Eu estou indo lá dizer ao meu amigo Telê que tome cuidado com a Itália, pois a Itália veio para ser campeã do mundo”. Disse palavras parecidas ao “Esporte Espetacular”.


Galvão Bueno narrando Itália 1×1 Camarões, pela Copa de 1982, na TV Globo. Vídeo postado por Flávio Baccarat

Acompanhando os grupos 3 (Argentina, Bélgica, Hungria e El Salvador) e 4 (França, Inglaterra, Kuwait e Tchecoslováquia), esteve a dupla formada por Carlos Valadares, em sua segunda Copa na Globo, e José Maria de Aquino, recém-saído da revista “Placar”. No caso de qualquer falha de áudio, Oliveira Andrade estaria a postos nos estúdios do Rio de Janeiro, em sua primeira participação numa Copa. Na época, Oliveira era narrador e diretor de jornalismo da EPTV, retransmissora da Globo na região de Campinas.


Carlos Valadares narrando França 3×1 Inglaterra, pela Copa de 1982, na TV Globo. Vídeo postado por Flávio Baccarat

Não faltariam repórteres também naquela cobertura. Só a Seleção Brasileira teria três setoristas: além do supracitado Juarez Soares, Ricardo Pereira e Raul Quadros. E cada grupo teria pelo menos dois repórteres, cada um em uma cidade. No grupo 3, Ricardo Menezes e Reginaldo Leme, numa fugaz experiência fora do automobilismo. Para o grupo 2, estariam Paulo Alceu, com Chile e Argélia, e Hermano Henning, se valendo da experiência na Deutsche Welle alemã e da fluência no idioma para cobrir Alemanha e Áustria. No grupo da França, Francisco José e Lucas Mendes foram os destacados. Acompanhando os adversários do Brasil, estaria Mário Jorge Guimarães. No grupo do país-sede, estariam Carlos Nascimento e Roberto Cabrini. Finalmente, na chave da Itália, estiveram Pedro Rogério e Ernesto Paglia – este, de certa forma, tirou a sorte grande: com a Azzurra em meio ao “silenzio stampa”, sem falar com os jornalistas italianos, o brasileiro Paglia “escapou” do protesto e falou com quem quis, de Dino Zoff a Paolo Rossi.

Também não faltariam programas especiais da Globo naquela Copa. Já haviam começado meses antes – como o “Minuto da Copa”, programete que, em um minuto, ou recuperava momentos históricos do torneio, ou comentava sobre candidatos a craque na Espanha (ou focava personagens do torneio, já durante sua realização. E continuariam já com o Mundial em andamento. De 1978, voltava o “Globo na Copa”, pré-jogo feito diretamente de Madri, dando uma ideia de como estava o ambiente no local. Seguiam com outro miniprograma vindo da Copa anterior, o “Quem é quem”, explicando a situação das seleções que se enfrentariam. Apresentando tudo isso, ora Leo Batista, ora Fernando Vannucci, ambos nos estúdios do IBC em Madri, que também apresentavam os melhores momentos no intervalo das partidas. Cuidando da apresentação das matérias sobre a Copa no “Fantástico”, outro nome que estava na retaguarda: o recém-falecido José Hawilla (1944-2018). Foi o Mundial derradeiro de Hawilla como jornalista.

Finalmente, nas noites de jogos do Brasil, havia o “Bate Bola”, mesa-redonda comandada por Armando Nogueira, que partia de debatedores fixos (Márcio Guedes, Ruy Carlos Ostermann, Leão, Oto Glória e Orlando Duarte – este, mais um egresso das tevês educativas, no caso a TV Cultura paulista) para ter alguns convidados especiais (Pelé, Cesar Luis Menotti, Ferenc Puskas). Até mesmo o “Globinho”, infantil da emissora, tinha espaço para a Copa: era o “Globinho na Copa”, exibindo não só reportagens, mas também o desenho animado com Naranjito, a mascote do torneio. O “Jornal Hoje”, o “Jornal Nacional” e o “Fantástico” tinham blocos dedicados à Copa, diretamente de Madri. O “Esporte Espetacular” – na época, exibido no começo das tardes de sábado – tinha quase um único assunto. Tudo isso culminava, obviamente, na transmissão dos jogos. Não bastassem as duas partidas diárias exibidas ao vivo, ainda havia um compacto à noite – para a partida da Seleção Brasileira, ou para a partida não mostrada ao vivo, em caso de realização simultânea. Jamais a televisão brasileira vira tamanha overdose de Copa.

A intenção da cobertura já ficava clara nas palavras de Armando Nogueira ao “Jornal do Brasil”, em 6 de junho de 1982: “A nossa mãezinha, a nossa avó, o nosso filho estarão vendo o Brasil enrolados na bandeira brasileira e nós não temos o direito de complicar matematicamente a emoção de um gol. O Brasil está cheio de técnicos, mas uma das coisas mais incompatíveis com a televisão é o futebol visto pelos catedráticos”. Caminho semelhante seguia Luciano do Valle: em entrevista ao mesmo diário, no 13 de junho da abertura da Copa, o narrador da TV Globo prometia deixar de lado a sobriedade pedida pelo “padrão Globo de qualidade”, para expor muita emoção nas transmissões: “Serei vibrante na Copa do Mundo, notadamente nos jogos do Brasil. Claro que estaremos trabalhando na locução, mas somos brasileiros e, portanto, torcedores. Vamos gritar pelo Brasil, fazendo um diálogo com o público”. Foi o que se viu.

Não só nas emocionadas narrações de Luciano, mas também no otimismo em torno da seleção. Em análise não assinada sobre as transmissões da Globo, no “Jornal do Brasil” de 20 de junho de 1982, o trabalho dos narradores foi abordado. Sobre Luciano do Valle, evocou o trabalho dele no Campeonato Mundial de Futebol de Salão, exibido semanas antes da Copa e conquistado pelo Brasil: “A ‘voz-da-Copa’ cumpriu o prometido: torceu mais ainda pelo Brasil do que no futebol de salão”. Sobre Galvão Bueno, elogios: “Como Luciano, deixou a falsa ‘sobriedade’ que a Globo tentava impor aos seus narradores”. Sobre Carlos Valadares, uma gafe: “Quando ouviu o pessoal cantando ‘aux armes les citoyens’, pensou nas Falklands e disse que era o hino da Inglaterra: mas era a Marselhesa mesmo. Corrigiu a tempo”.


(Os gols dos jogos da Seleção Brasileira na primeira fase da Copa de 1982 – retransmitidos pela TV Cultura paulista -, com Luciano do Valle, Márcio Guedes e Juarez Soares)

Aí entraram algumas críticas. Considerada a mais ácida analista de televisão da época, Maria Helena Dutra (1937-2008) fulminou, no mesmo “Jornal do Brasil” de 20 de junho de 1982: “Luciano do Valle (…) não soube dosar seu estilo na narração. Nos demais jogos, continuou frio; nos do Brasil, apenas torceu”. O otimismo seguia, em momentos como a reportagem de Ricardo Pereira no “Jornal Nacional” de 18 de junho de 1982, flagrando a chegada da delegação brasileira ao Parador Carmona, em Sevilha, após a vitória contra a Escócia, em meio ao “Pagode da Seleção”, de Júnior. Ou então, na frase de Carlos Valadares, durante a transmissão de França 4×1 Irlanda do Norte, na véspera do encontro entre Brasil e Itália: “O Brasil vai se classificar, todos nós desejamos isso”.

Se houve cautela, veio apenas de um convidado do “Bate-Bola”, em 2 de julho, após os 3 a 1 sobre a Argentina: Ferenc Puskas. Após ouvir de Ruy Carlos Ostermann e Oto Glória sobre o favoritismo brasileiro, Armando Nogueira provocou: “O Puskas está achando vocês muito otimistas”. E em perfeito espanhol, como imigrante no país há tempos, o húngaro analisou: “Não estou dizendo que a Itália vai ganhar do Brasil, mas há que se cuidar deles”. Ainda após o empate de Sócrates, no primeiro tempo contra os italianos, Márcio Guedes comentou algo que virou piada na última edição de 1982 da revista “Veja”:”A Itália está cansada”. Mesmo no intervalo do jogo contra a Azzurra, já vencendo por 2 a 1, Luciano do Valle tranquilizava: “2 a 1 para a seleção da Itália, mas tem muito futebol, você pode acreditar nesta Seleção Brasileira”.


(Os gols de Brasil 3×1 Argentina e Brasil 2×3 Itália – retransmitidos pela TV Cultura paulista -, com Luciano do Valle, Márcio Guedes e Juarez Soares)

Aconteceu o que se sabe no estádio Sarrià, em Barcelona. E não faltaram alfinetadas ao oba-oba global. Maria Helena Dutra carregou nas tintas, no “JB” de 11 de julho de 1982, data da final da Copa: “Luciano do Valle, narrador, e Márcio Guedes, comentarista, brigaram durante 90 minutos, sem a menor pausa, com a imagem. O primeiro, persistindo na sua idolatria a Serginho e apenas torcendo em lugar de narrar, e o segundo chegando ao cúmulo de dizer que a Itália estava cansada, quando acontecia o contrário (…) Está certo que em todo lugar do mundo a paixão no esporte vence a isenção. Mas não pode derrubar a obrigação de informar. E nenhuma palavra foi dita sobre os defeitos da defesa, a falta de jogadas nas pontas e a insegurança do selecionado brasileiro”.

A Globo preferiu lamentar os azares – da Seleção e seu. Já havia planos de levar aviões com torcedores brasileiros ao Santiago Bernabéu, estádio da final, caso o Brasil lá estivesse. Nas numeradas do estádio, ainda seria estendida uma bandeira verde-amarela, com o logotipo da Globo. A dor foi recordada pelo editor Marco Mora (1946-2018) ao “Memória Globo”: “As pessoas choravam nos corredores do IBC de Madri, copiosamente”. E Marco Antônio “Bodão” Rodrigues, já então na Globo, como editor, resumiu: “A gente não chorava só a derrota do Brasil; chorava a nossa cobertura”. Horas depois, abrindo a transmissão de Espanha x Inglaterra, Galvão Bueno dizia: “O Brasil deixou a Copa, mas saiu deixando lá em cima também o respeito e o prestígio do nosso futebol”. No “Bate Bola” do 5 de julho após a derrota brasileira, Armando Nogueira seguiu na lamúria (“Talvez o futebol brasileiro tenha sido vítima de sua própria beleza”), e Leão também igualou o tom (“O maior culpado é a própria fatalidade”). E terminou aquela histórica cobertura de modo mais convencional, apenas transmitindo os jogos e mantendo as intervenções nos telejornais da emissora.


(Itália 2×0 Polônia, a primeira semifinal, com Galvão Bueno e Sérgio Noronha, no sinal da TV Cultura paulista)

(Alemanha 3×3 França, a segunda semifinal, com Carlos Valadares e José Maria de Aquino, no sinal da TV Cultura paulista)

(Os pênaltis de Alemanha x França, com Carlos Valadares, no sinal da TV Cultura paulista)

(Polônia 3×2 França, decisão do 3º lugar, com Galvão Bueno e Sérgio Noronha, no sinal da TV Cultura paulista – Oliveira Andrade narrou parte do 1º tempo, por problemas de áudio)

(Itália 3×1 Alemanha, final, com Luciano do Valle e Márcio Guedes, no sinal da TV Cultura paulista)

Mas a final ainda rendeu saborosa história a Ernesto Paglia, setorista da Itália campeã mundial. No gramado do estádio Santiago Bernabéu, o repórter tentou gravar declarações do técnico Enzo Bearzot (“Ele me conhecia, já éramos íntimos”, citou ao “Memória Globo”). Até conseguiu, mas os fotógrafos italianos começaram a reclamar: segundo eles as tevês já haviam tido a oportunidade de falar com Bearzot, e era hora das fotos. O próprio técnico campeão mundial resolveu a questão, segundo Paglia: “Ele falou: ‘O que é isso, vocês estão loucos?’ Questo è un bravo ragazzo, ele falou. ‘Esse é um cara legal, deixem ele aí, vai fazer a entrevista dele, sim’. Todo mundo ficou quieto, ele me deu uma entrevista, e eu fiz as perguntas que quis. Foi uma experiência fantástica, que me levou às lágrimas”.

Muitos anos depois, os principais destaques reconheceram os erros. Ao jornalista Alberto Léo, Luciano do Valle fez um longo reconhecimento: “Tivemos índices altíssimos, recordes, eu tenho o recorde do jogo Brasil x Itália que foi de 93 por cento de audiência, mas que não me diz absolutamente nada, porque, quando você é exclusivo, você não tem um parâmetro. A exclusividade para mim é uma coisa muito cruel, tira a liberdade das pessoas de escolher quais os profissionais que ela quer ver e qual o trabalho ela quer ver. A Copa de 1982 foi uma cobertura bem planejada, o trabalho foi bem feito, mas não tínhamos parâmetros”. Linha semelhante seguiu Márcio Guedes: “Eu achei que foi muito ruim para a Globo a exclusividade, porque caiu em cima da gente uma tremenda responsabilidade”.

Assim terminou a cobertura global para a Copa de 1982. Que teve um aspecto bem resumido por Telmo Zanini ao “Memória Globo”: “No geral, as coisas são mais ou menos as mesmas [de 1982]”. Para o bem (muitas câmeras, a câmera exclusiva, todos os jogos mostrados) e para o mal (o excesso de ufanismo com a Seleção Brasileira, a postura monopolista). E de certa forma, a Globo ficaria com o pior lado. A derrota da Seleção Brasileira lhe trouxe a fama de pé-fria; a exclusividade da transmissão, a fama de antipática.

Ainda haveria um golpe duro, menos de um mês após o fim da Copa: a saída de Luciano do Valle. Mas isso fica para o capítulo sobre a cobertura do Mundial de 1986.

Na próxima parte: em 1986, Copa na qual a organização perturbou bastante a televisão no começo, a concorrência volta com toda a força