Desde o sábado retrasado, até a véspera da abertura da Copa, publicaremos uma série de especiais sobre a história dos Mundiais na televisão brasileira. Neste domingo, a nona parte, sobre a Copa de 1998. Clique aqui para conferir os textos anteriores.

Alcance das transmissões cada vez mais global, preço cada vez mais alto dos direitos de transmissão – a France Télevision, emissora estatal, os comprou da Fifa por 1,911 bilhão de dólares -, real vivendo uma fase ainda estável antes da queda brusca da moeda russa: poucas vezes a imprensa brasileira vivera um momento tão propício para investir na cobertura da Copa do Mundo quanto em 1998. Foi exatamente o que se viu na França.

Na última Copa cujos direitos latinoamericanos de transmissão pertenciam à OTI (Organização das Televisões Iberoamericanas), a maioria das emissoras abertas brasileiras estava capacitada a exibir os jogos: afinal, cinco delas haviam exibido os Jogos Olímpicos de 1996, e também pagaram suas anuidades. Uma delas teve problemas, como se saberá. Mas também conseguiu mostrar a Copa, tendo seus enviados como parte das mais de 660 pessoas credenciadas como funcionários brasileiros de televisão que puderam trabalhar no Centro Internacional de Transmissão, instalado no Parque de Exposições do Portão de Versalhes, em Paris.

Todas elas fizeram programas de preparação para a Copa, todas elas incrementaram a cobertura com mesas redondas, todas elas buscariam exibir as 64 partidas da Copa. Não seria possível exibi-las ao vivo. Nesse caso, entravam as emissoras por assinatura: se a cobertura do SporTV foi incipiente em 1994, quatro anos depois já se via um cenário de concorrência, mostrando todos os jogos no momento em que aconteciam. A segmentação turbinava o espaço generoso dado ao Mundial de 1998 na televisão brasileira. Cenário que nunca se vira antes. E que nunca mais foi visto, até agora.


Vinheta de propaganda da TV Record para a Copa de 1998

Record

Narração: Luiz Alfredo, Carlos Valadares e José Luiz Datena
Comentários: Sócrates, Carlos Alberto Torres, Márcio Guedes e Mário Sérgio
Reportagens: José Luiz Datena, Eli Coimbra e Márcio Moron

A emissora paulista voltava às Copas, após 12 anos de ausência. Muito mudara nela – a começar pelos donos: em 1990, a família Machado de Carvalho vendera a Record ao empresário e bispo Edir Macedo, dono da Igreja Universal do Reino de Deus, começando a exibir a nova programação em novembro daquele ano. Nessa transição, começou a história que quase impediu o canal de mostrar a Copa pela quinta (e até agora, última) vez em sua história.

No processo de passagem às mãos de Macedo, a Record tinha vultosas dívidas. Assim, durante o saneamento, deixou de pagar as anuidades da OTI em 1990 e 1991, totalizando o valor de 50 mil dólares. Em 1992, já com a situação resolvida, tal dívida foi paga à entidade latinoamericana. E tudo seguiu normalmente – com a Record sem falar em investir na transmissão de eventos esportivos, por um longo tempo. Pelo menos, até 1995, quando começaram as transmissões do Campeonato Alemão, apenas para ensaiar retomar o espaço. Enfim, em 1996, a Record voltou a olhar com carinho para a parte em que um dia fora tão tradicional.

Coordenada pelo vice-presidente de Programação e Operações, Eduardo Lafon, a emissora gastou para formar sua equipe esportiva. Em 1996, a equipe foi fortalecida com vários nomes. Luiz Alfredo foi tirado do SBT para ser o narrador principal; da Bandeirantes, vieram José Luiz Datena (para ser repórter, narrador e apresentador do “Com a bola toda”, mesa redonda dominical noturna), Eli Coimbra (para ser repórter e, a partir dali, comentarista) e Mário Sérgio (para ser comentarista). Junto a Márcio Moron, seriam esses os nomes para a transmissão do Campeonato Paulista, menina-dos-olhos da Record naquele ano. Também exibindo o Campeonato Carioca, a Record tirou da Manchete dois dos símbolos da emissora da Rua do Russel: Paulo Stein para narrar, Márcio Guedes para comentar. Ainda com os direitos de transmissão da Liga dos Campeões, do Campeonato Italiano e até Copa da Liga Inglesa, o canal paulista trouxe outro locutor, Carlos Valadares, além de garantir os comentários de Silvio Lancellotti, que marcara por suas participações nas transmissões da Bandeirantes, por uma década. Coroando essa volta, a transmissão dos Jogos Olímpicos de 1996. Tudo muito bom, tudo muito bem, a Record exibiu os campeonatos dos quais tinha direito (Paulista, Carioca, Liga dos Campeões e Campeonato Italiano) entre 1996 e 1998, mas realmente, seu objetivo era outro: a Copa de 1998.

Só que as outras emissoras brasileiras filiadas à OTI impuseram: a Record não poderia mostrar os jogos, por causa daquela inadimplência com as anuidades em 1990 e 1991. Para garantir que o canal paulistano não exibiria os jogos, pagaram a parcela que caberia a Record na compra dos direitos de transmissão da Copa. Então, a Record foi à luta: em março de 1997, entrou na Justiça pedindo a queda da proibição com base numa cláusula do estatuto da OTI: só não poderia exibir a Copa se estivesse inadimplente com a entidade latinoamericana no ano em que ela comprara os direitos para 1998. Isso ocorrera em 1987. Naquele ano, ainda sob os Machado de Carvalho, a emissora estava em dia. E para garantir que poderia exibir a Copa de 1998, depositou cinco parcelas em juízo. Como a Record também tinha uma emissora na África do Sul, houve a ideia de mandar os enviados para aquele país, transmitindo a Copa de lá. E a OTI comunicou: o que a Justiça decidisse, seria também sua decisão para a Record.

E o Tribunal de Justiça de São Paulo decidiu a favor da Record: deu ganho de causa e ordenou a queda da proibição, em 18 de março de 1998. As demais emissoras ainda tentaram investir num processo na Justiça mexicana (país-sede da OTI), mas naquele país a Record também venceu, em 8 de maio. E enfim, poderia mostrar a Copa. Mas àquela altura, as preparações teriam de ser a toque de caixa: com quatro cotas publicitárias para anunciantes, reduziu o valor de 8,5 milhões para 3,5 milhões de dólares. Conseguiu, e enviou 53 pessoas à França. Mas todas elas fariam as transmissões num cenário virtual de 120 m², no centro internacional de transmissões em Paris: não tinham credencial para entrarem nos estádios. Nem para cobrirem os treinos da Seleção. Mas davam seus jeitos, como José Luiz Datena se divertiu ao repórter Paulo Pacheco, em 2014, ao site “Notícias da TV”: “Nós tínhamos que entrar escondidos porque não tínhamos os direitos. Os caras já tinham manjado a gente com a tal ‘credencial’ da Copa [cedida pela Coca-Cola]. Tinha visto em um shopping uma jaqueta vermelha que os seguranças usavam. Compramos a jaqueta e metemos um bonezinho para entrar no treino. Os caras batiam até continência para a gente”.


Croácia 3×1 Jamaica, pela fase de grupos da Copa de 1998, na transmissão da TV Record, com a narração de Luiz Alfredo

Fosse como fosse, a Record transmitiu toda a Copa. Luiz Alfredo, Carlos Alberto Torres e Sócrates era a equipe para os jogos do Brasil. Além de narrar as partidas secundárias, como Carlos Valadares, Datena ancorava as edições do “Com a Bola Toda” destinadas à Copa (além das normais dominicais, havia ainda edições extras após os jogos do Brasil).


José Luiz Datena narrando o gol de Seok Ju-ha, que abriu o placar para a Coreia do Sul, em México 3×1 Coreia do Sul, pela fase de grupos da Copa de 1998

Havia ainda o “Record nos Esportes”, o tradicional noticiário esportivo da emissora, exibido em duas edições – assim como o “Boletim da Copa” que tanto Luiz Alfredo quanto José Luiz Datena apresentavam. E meses antes da rumorosa transferência para o SBT, Ratinho também se envolvia na cobertura: diretamente da França, comandava o “Boteco do Ratinho”, junto a torcedores que estivessem lá, para animar o início e o fim das transmissões dos jogos. Claro, com o tom verborrágico característico de Carlos Massa, prometido à “Folha de S. Paulo” em 7 de junho de 1998: “Já avisei os bispos que vou xingar. Já viu torcedor dizer: ‘Puxa, que pena que ele errou?'”

Mas a transmissão da Record sofreu com as turbulências dos problemas prévios. E marcou o final da primeira investida da emissora no esporte, até a retomada a partir dos últimos meses de 2001. Até ali, teria de remodelar a equipe. Luiz Alfredo se foi para a RPC, retransmissora da Globo no Paraná; José Luiz Datena ficou de vez onde já começava a dar certo, na apresentação do “Cidade Alerta”; Mário Sérgio tomou o rumo do SporTV; e meses depois da Copa, em 25 de novembro, Eli Coimbra morreu, vítima de infarto. Ficaram as memórias, como as que Luiz Alfredo contou ao UOL em 2015: “Fiquei com Sócrates e Carlos Alberto na cabine de uma produtora. Não conseguimos entrar no centro de imprensa. Mas foi ótimo trabalhar com esses dois. Ficamos amigos, íamos sempre almoçar juntos. Estávamos andando os três em Paris e vieram três ou quatro garotos de 14 ou 15 anos. E ouvimos os gritos de Sócrates, Alberto. E Carlos Alberto ficou feliz. ‘Estão me reconhecendo’, falou. E eu respondi: ‘Quando você foi campeão, eles não tinham nascido. Estão te reconhecendo porque você é eterno, seu porra…'”.


Vinheta de promoção da transmissão da Manchete para a Copa de 1998

Manchete

Narração: Paulo Stein, Januário de Oliveira, Cledi Oliveira, Edson Mauro e Carlos Borges
Comentários: Milton Neves, Washington Rodrigues, Renato Gaúcho, Paulo Autuori, Valdir Espinosa, Edinho, Carlos Heitor Cony e Armando Marques
Reportagens: Ana Paula Rocha, José Ilan, Solange Bastos, Marcos Garcia e Lúcia Abreu
Apresentações: José Ilan, Ana Paula Rocha e Márcia Peltier

Se em 1990 o investimento ainda pôde ser generoso, na Copa de 1994 as dívidas impediram a transmissão da Manchete. E já representavam uma dificuldade definitiva na Copa de 1998. Ainda assim, a emissora carioca não desistia, mantendo no esporte uma fonte segura de tradição e de investimentos. E a cobertura já começou meses antes da Copa começar, com dois participantes de peso. No começo de 1998, Paulo Stein voltou de sua passagem pela TV Record. E foi o apresentante de um programa diário: “Bate-bola com Zagallo”, exibido de segunda a sábado, às 20h30. Zagallo? Pois é: o técnico da Seleção Brasileira (e comentarista da Manchete na Copa de 1990) participava do programa obviamente elogioso a seu respeito, respondendo a cartas enviadas pelos telespectadores e debatendo as perspectivas da Copa com Stein. Antes do Mundial, houve ainda o boletim “Feras da Copa”, com jogadores que haviam se destacado em Mundiais anteriores – e com os candidatos a se destacar naquela Copa.

Com a viagem à França se aproximando – foram 90 pessoas, chefiadas por Alberto Léo (diretor de esportes) e Mauro Costa (diretor de jornalismo) -, também se ampliou a cobertura. Concretizada no país-sede, ao longo de 17 horas ininterruptas de transmissão, com vários programas. Havia o “Bate-Bola na Copa”, com curiosidades sobre as cidades francesas que sediariam os jogos e sobre os estádios. Havia o “Raio-X”, programa pré-jogo que abria as transmissões informando sobre a situação das seleções. Havia o “Debate da Copa”, logo após o último jogo do dia, mesa redonda envolvendo os narradores e comentaristas da Manchete. Havia o “Show de Gols”, programa noturno por volta das 23h, com os compactos de cada jogo. Arrematando tudo, o “Copa Total”, já no início da madrugada, resumindo os fatos do dia no torneio. Sem contar o “Jornal da Manchete”, apresentado diretamente de Paris por Márcia Peltier. Para envolver o público, Zagallo voltava à carga: era o rosto que promovia o “Bolão do Zagallo”. Os telespectadores apostavam no resultado da partida, os acertadores eram sorteados, e o vencedor levava kits oficiais da Seleção ou prêmios de 10 mil reais.


Trechos de algumas partidas na fase de grupos da Copa de 1998, na transmissão da TV Manchete, num dos programas noturnos da emissora durante a cobertura. Postado no YouTube por Fábio Marckezini, do acervo de Thell de Castro

Quando as transmissões envolviam a Seleção Brasileira, então, o investimento se ampliava. Como em 1986, até mesmo os treinos preparatórios eram exibidos – com direito à narração de Paulo Stein e aos comentários de Milton Neves e Washington “Apolinho” Rodrigues. Nas partidas da Seleção na Copa, a transmissão era aberta com o “Seleção em Manchete” (informativo sobre os jogadores brasileiros) e o “A Caminho do Penta”, com o retrospecto contra o adversário da vez. E o mesmo trio se reunia nas cabines, tendo outro tradicional nome da Manchete nas Copas: Armando Marques, comentando a arbitragem. Celebrando os gols brasileiros, Paulo Stein provocava citando o nome dos goleiros adversários e lhes “dizendo”: “C’est la vie, mon ami” (em francês, “a vida é assim, meu amigo…”).


Brasil 2×1 Escócia, jogo de abertura da Copa de 1998, na transmissão da TV Manchete, com a narração de Paulo Stein

Nos demais jogos, o destaque ia para a aposta em comentaristas ativos no futebol. Junto a Januário de Oliveira (vindo da TV Bandeirantes, narrou jogos como Camarões 1×1 Chile) e Edson Mauro (o “Bom de Bola” tradicionalíssimo na Rádio Globo carioca, em rara passagem pela televisão, cobrindo partidas como Dinamarca 1×0 Arábia Saudita), narradores mais comuns dos jogos secundários, estavam pessoas como o treinador Paulo Autuori, então entre uma passagem pelo Flamengo e outra pelo Botafogo – até elogiado na imprensa, pela profundidade dos comentários; como outro treinador, Valdir Espinosa, que passara pelo Coritiba; e como Renato Gaúcho, no último ano de sua carreira nos campos. Ainda merecia destaque a dupla jornada de Cledi Oliveira: vindo do rádio para sua primeira Copa na televisão, o narrador paulista se alternava entre a ESPN Brasil na qual já estava e a Manchete – pela qual narrou até a vitória francesa sobre a Itália, nos pênaltis, nas quartas de final.

Enfim, mesmo em dívidas, a Manchete ainda fez jus à tradição que tinha em Copas do Mundo. Só que o investimento aprofundou ainda mais a terrível situação da emissora dos Bloch – cujo patrono Adolpho falecera em 1995. E no segundo semestre de 1998, a novela “Brida” representou o ponto final das tentativas ambiciosas. Entre várias dívidas, fracasso na parceria com o grupo Renascer em Cristo, a Manchete se encerrava em 10 de maio de 1999, terminando uma história marcante no esporte.


Vinheta de abertura das transmissões do SBT para a Copa de 1998

SBT

Narração: Silvio Luiz, Oscar Ulisses, Paulo Soares, Osmar de Oliveira, Téo José
Comentários: Orlando Duarte, Juarez Soares
Reportagens: Luiz Ceará, Antônio Pétrin, Luiz Carlos Azenha, Celso Miranda, Tatiana Ferraz, Heraldo Pereira
Apresentação: Hermano Henning

Como já dito, a transmissão da Copa de 1994 marcava o início de uma rara fase na qual a emissora de Silvio Santos viu algum futuro nas coberturas esportivas. Luiz Alfredo, Osmar de Oliveira (diretor de esportes do canal), Orlando Duarte, Antônio Petrin e Luiz Ceará recebiam o reforço de Juarez Soares, em 1995. O SBT passou a transmitir com exclusividade a Copa do Brasil – e já naquele ano, teve a prova do êxito da aposta: a decisão entre Grêmio e Corinthians rendeu pico de 54 pontos de audiência, o segundo maior índice da história do canal em seus 37 anos. Quando não havia Copa do Brasil, o SBT criava torneios amistosos – como a Copa dos Campeões Mundiais, torneio envolvendo os times brasileiros que haviam vencido o Mundial Interclubes até então. Sem contar o relativo êxito do trio Téo José-Dedê Gomez-Luiz Carlos Azenha nas transmissões da Fórmula Indy (a partir de 1997, “Fórmula Mundial”, pela cisão entre as entidades automobilísticas nos EUA).

Em 1996, Luiz Alfredo tomou o rumo da Record. Sem problemas: Silvio Luiz veio da TV Bandeirantes para ser o grande chamariz de audiência das transmissões futebolísticas do SBT. Seguiram as transmissões da Copa do Brasil, até 1998 (neste último ano, dividindo com a TV Globo). Seguiram os torneios amistosos de meio de ano. Vieram outros jogos amigáveis transmitidos, ambos envolvendo o São Paulo (contra a seleção olímpica da Dinamarca, em 1996, e contra o Ajax, em 1997). Veio a reabilitação do Torneio Rio-São Paulo, em 1997. Veio, acima de tudo, a cobertura dos Jogos Olímpicos de 1996. Tudo em nome de um plano: comprar os direitos de transmissão do Campeonato Brasileiro, a partir de 1997. O SBT fez proposta de astronômicos US$ 50 milhões, prevendo jogos às 20h30 das quartas, com mais um sorteio telefônico nos intervalos. Só não levou porque o consórcio Globo/Bandeirantes tinha cláusula de preferência no contrato com o Clube dos 13, igualando os US$ 50 milhões e mantendo os direitos.

Mesmo que a perda já tivesse decepcionado Silvio Santos, restava transmitir a Copa do Mundo. E a cobertura comandada por Luciano Callegari Jr. enviou 75 pessoas à França, para transmitirem 49 jogos ao vivo (sem contar 15 VTs, exibidos de madrugada). Nos telejornais da emissora paulista, Hermano Henning comandava o “Boletim da Copa”, distribuído em seis edições ao longo da programação, com a participação de Tatiana Ferraz e Heraldo Pereira. No fim de noite, haveria o “Jornal da Copa”, com Osmar de Oliveira comandando um debate envolvendo os principais nomes daquela cobertura, como Silvio Luiz, Juarez Soares e Orlando Duarte. Finalmente, também entrariam em clima de Copa o “Programa Livre” de Serginho Groisman (nos dias de jogos do Brasil, o programa contava com três convidados esportivos, além da banda convidada do dia) e, obviamente, o “Jô Soares Onze e Meia”, debatendo os jogos com sua “Mesa Quadrada” realizada do complexo de estúdios próximos à Rodovia Anhanguera, com quatro mulheres (Rogéria, Hortência, a goleira Didi, do time feminino da Portuguesa, e Marilene Dabus, conselheira do Flamengo).

Paulo Soares, Orlando Duarte e Osmar de Oliveira nos estúdios do “Jornal da Copa”, do SBT, recebendo a visita de Milton Neves, que cobriu a Copa pela TV Manchete (Reprodução/Arquivo de Milton Neves)

Narrando as provas da “Fórmula Mundial” durante sua primeira Copa, Téo José fez a locução somente da vitória francesa sobre a Itália, nas quartas de final, contando com os comentários de Orlando Duarte – e ainda viveu um momento, digamos, complicado, como contou ao UOL em janeiro passado. Oscar Ulisses era mais um locutor a se alternar entre rádio e televisão: principal nome na Rádio Globo paulista, fez no SBT a transmissão de Holanda 2×1 Iugoslávia, nas oitavas de final da Copa. E Paulo Soares era mais um narrador a se alternar entre tevê aberta (SBT) e fechada (ESPN Brasil, onde era um dos primeiros nomes desde a inauguração do canal). Ah, sim: o Amarelinho seguia interagindo durante os jogos do Brasil, como mascote da cobertura.

Na transmissão, Silvio Luiz seguia se valendo dos bordões que fizeram sua fama. E caberia justamente a ele ser um dos primeiros narradores a anunciar a surpresa que surgia antes da final. Após a distribuição das papeletas com as escalações de Brasil e França aos narradores, ele comentou com Juarez Soares: “Chinês, o Ronaldinho não vai jogar!”. A reação foi incrédula: “Que é isso! Você ‘tá de brincadeira!”. Silvio mostrou o nome de Edmundo na escalação, e o comentarista foi enfático ao pedir o espaço ao vivo para anunciar aquilo: “Chama, Silvio! Chama e mete bronca!”. Angelo Henrique, o “Makarrão”, coordenador da transmissão, alertou: “Mas e se for um erro da Fifa?”. Silvio retrucou: “Se for um erro da Fifa melhor ainda!”. E assim foi feito o anúncio da inicial ausência de Ronaldo, durante a transmissão do Grande Prêmio de Cleveland, que Téo José fazia na Fórmula “Mundial”:


O anúncio de Silvio Luiz sobre a escalação inicial da Seleção Brasileira, sem Ronaldo, antes da final da Copa de 1998, na transmissão do SBT

Aquele triste encerramento para os brasileiros também marcou o fim da época de investimentos mais massivos em esporte por parte do SBT. Ainda houve a cobertura diminuta da Copa Mercosul (chegando até a anunciar a transmissão de alguns jogos, para depois não exibi-los), e no início de 1999 quase todos os empregados do departamento de esportes deixaram o canal. Só restou Téo José, narrando os VTs noturnos das corridas de Fórmula “Mundial”, como símbolo daquele momento que nunca mais se repetiria no canal paulista, mesmo com a ligeira volta em 2003, exibindo o Campeonato Paulista e a Copa Ouro.


Nos primeiros minutos, material publicitário da TV Bandeirantes para a Copa de 1998.

Bandeirantes

Narração: Luciano do Valle, Jota Júnior, Marco Antônio Mattos e Nivaldo Prieto
Comentários: Rivellino, Gérson, Bobô, Mauro Beting, Armando Nogueira, Zito e João Zanforlim
Reportagens: Oswaldo Pascoal, Fernando Fernandes, Márcio de Castro, Carlos Eduardo Lino, Elias Awad e Carla França
Apresentações: Elia Júnior, Simone Mello, Silvia Vinhas, Cleo Brandão, Eduardo Vaz, Paulo Henrique Amorim

Se o dinheiro para investir na cobertura já era mais curto em comparação com as Copas anteriores, se a equipe já não era a do “Canal do Esporte”, não faltava à Bandeirantes tradição em coberturas. Nem vontade de fazer o melhor trabalho possível: foram 120 pessoas enviadas à França, lideradas pelo diretor de esportes Juca Silveira. Claro, Luciano do Valle era a grande cara da emissora do bairro paulistano do Morumbi para a transmissão dos jogos. Se Silvio Luiz já não estaria mais lá, também haveria Jota Júnior (última Copa pela Bandeirantes) e Marco Antônio Mattos (última Copa na televisão antes de sua morte num acidente automobilístico, em 2004) narrando as partidas secundárias. Finalmente, ao lado de Luciano do Valle nas transmissões dos jogos do Brasil, continuariam Rivellino e Gérson. A conhecida dupla do “Show do Esporte”, Elia Júnior e Simone Mello, enfim ancoraria o programa dos estúdios no IBC de Paris – além do “Espera da Copa”, programa de pré-jogo antes da exibição das partidas. Do Brasil, a apresentação dos programas ficaria com Eduardo Vaz e Cleo Brandão.

O que não significava que a Band não trazia novidades. Após iniciar sua carreira de narrador na TVA Esportes, onde estivera entre 1994 e 1997 (tendo até passado pelo SBT, rapidamente, no Torneio Rio-São Paulo de 1997), Nivaldo Prieto fora contratado pela emissora no mesmo ano, e narraria partidas como Holanda 0x0 Bélgica ou as quartas de final entre Itália e França. Geralmente, o comentarista dos jogos narrados por Prieto era outro nome trazido para a equipe da Bandeirantes em 1997: Mauro Beting, que tivera sua experiência em televisão no SporTV, desde 1995, após longa passagem pela rádio Gazeta paulista. O filho de Joelmir voltava à empresa de sua primeira experiência profissional, ainda como estagiário, e já comentava algumas partidas ao lado de Luciano do Valle, como Nigéria 1×0 Bulgária. Mais dois ex-jogadores eram comentaristas convidados na equipe da Band: Bobô e Zito. Também seria a primeira Copa com Fernando Fernandes como repórter do canal, trabalhando na repercussão dos jogos da Seleção Brasileira em Paris, junto a Carlos Eduardo Lino, vindo da televisão de Santa Catarina, seu estado natal – no estádio, a cobertura ficava a cargo de Oswaldo Pascoal.

Além do “Espera da Copa”, a Bandeirantes investia bastante na cobertura dos jogos. Com três satélites à disposição, tinha duas câmeras exclusivas nos locais dos jogos do Brasil, além de duas equipes de reportagem dedicadas exclusivamente à equipe. Na hora do jornalismo geral, o destaque era Paulo Henrique Amorim: o jornalista não só ancorava o “Jornal da Band” diretamente de Paris, como também participava do “Papo de Bistrot”, programa exibido em dois horários, no qual Armando Nogueira era convidado para debater as notícias dos jornais franceses junto a PHA. Finalmente, a “Faixa Nobre Especial da Copa” exibia diariamente compactos dos jogos – aliás, novamente a Band seguiu o que fizera nos Mundiais anteriores: a maioria dos jogos ao vivo (56), outros em VT (8). Havia o “Telesorte”, outro sorteio telefônico do estilo “0900”, oferecendo cinco automóveis. Sem contar outra tradição certa da Bandeirantes em Copas: o “Apito Final” noturno, debatendo o dia na Copa com a presença de toda a equipe.


Lances dos jogos do Grupo A da Copa de 1998, nas transmissões da TV Bandeirantes, exibidos na “Faixa Nobre Especial da Copa”

Mesmo que não fosse mais o diretor de esportes da Band, Luciano do Valle justificava mais do que nunca seu status dentro da emissora: além dos jogos da Seleção, o narrador campineiro se valia da cessão de um avião – feita pelo comandante Rolim Adolfo Amaro, dono da TAM e amigo pessoal – para estar em outras várias partidas, mesmo que fossem no dia seguinte. Se Brasil x Dinamarca foi na sexta, 3 de julho, em Nantes, Luciano já esteve em Marselha no dia 4 para narrar Holanda 2×1 Argentina. Coisa igual ocorreu na semifinal: após Brasil x Holanda, em 7 de julho, também em Marselha, o principal locutor da Bandeirantes estava em Saint-Denis para registrar o 2 a 1 da França na Croácia, na partida que decidia o outro finalista. E obviamente, Luciano esteve registrando o que ocorria na final, em 12 de julho de 1998, junto a Rivellino e Gérson. Como quase todos, atônito pela confusão envolvendo Ronaldo, como se nota no pré-jogo.


Trecho do pré-jogo na transmissão da TV Bandeirantes, antes de França 3×0 Brasil, final da Copa de 1998, com a narração de Luciano do Valle e os comentários de Rivellino e Gérson

O 3 a 0 francês deixou a dúvida: o que tinha acontecido com Ronaldo, no Chatêau de la Grande Romaine, concentração da delegação brasileira em Ozoir-la-Ferrière? A Bandeirantes tentou elucidar, nas edições do “Jornal da Band” no dia seguinte, e na exibição do semanal jornalístico “Linha de Frente”. Não conseguiu.


Vinheta de abertura das transmissões da TV Globo para a Copa de 1998

Globo

Narração: Galvão Bueno, Cléber Machado, Luis Roberto, Maurício Torres
Comentários: Pelé, Falcão, Casagrande, Romário, Júnior, Arnaldo Cezar Coelho, José Roberto Wright
Reportagens: Roberto Thomé, Tino Marcos, Mauro Naves, Régis Rösing, Pedro Bassan, Pedro Bial, Marcos Uchôa, Glória Maria, Carlos Dornelles, Marcelo Canellas, Maurício Kubrusly
Apresentações: Mylena Ciribelli, Fernando Vannucci, William Bonner

A cobertura de 1994 fora marcante, e recuperara plenamente o domínio histórico da Globo na audiência – até por terminar da maneira como terminou. Para que 1998 marcasse mais, só mesmo com uma cobertura ainda mais ambiciosa e ampla: 160 pessoas, a maior delegação da televisão brasileira naquela Copa. Mais dois satélites diponíveis para necessidades da Globo na cobertura, a qualquer hora do dia ou da noite. Envio de personagens decisivos dos telejornais para os apresentarem do IBC de Paris – foi o que fizeram William Bonner, no “Jornal Nacional”, e Renato Machado, no “Bom dia Brasil”, sem contar Mylena Ciribelli e Fernando Vannucci (sua última Copa antes da polêmica saída da Globo), apresentando o “Globo Esporte”, o “Esporte Espetacular” e os melhores momentos das partidas, nos intervalos. Só faltava mostrar todos os jogos – foram 56 partidas mostradas, com as restantes tendo um minicompacto exibido.

Na narração, claro, Galvão Bueno era soberano como escolha para os principais jogos. Nos jogos do Brasil, o narrador teria a seu lado Pelé, na terceira e última Copa pela Globo; Arnaldo Cezar Coelho, sempre responsável pela arbitragem; e uma novidade: Paulo Roberto Falcão, que voltara a ser comentarista de televisão na RBS gaúcha, em 1995, fora “promovido” à rede nacional da Globo em 1996, e estaria, enfim, outra vez numa Copa. Era uma das várias renovações da Globo na equipe. Principal comentarista do SporTV, Júnior foi “emprestado” para comentar alguns jogos – como Argentina 1×0 Japão, estreia alviceleste na Copa, narrada por Galvão Bueno. Haveria outro analista de arbitragem para tirar a sobrecarga de Arnaldo: José Roberto Wright. Segundo narrador da emissora carioca a partir daquela Copa, Cléber Machado teria na maioria dos jogos que comentasse mais uma cara nova na equipe da Globo: Casagrande, que chegara à emissora em julho de 1997, após começar na ESPN Brasil.

Por sinal, pela ESPN Brasil também passara o narrador que faria sua primeira Copa na Globo, na qual estreara em fevereiro de 1998, já tendo uma longa carreira no rádio (era um dos principais nomes da Rádio Globo paulista -coubera a ele narrar o Grande Prêmio de San Marino em que morrera Ayrton Senna, em 1994) entrecortada por algumas passagens televisivas (antes da ESPN Brasil, que acumulara com a Rádio Globo entre 1996 e 1997, trabalhara na TV Gazeta paulista na década de 1980). Inicialmente, nem iria à Copa: Oliveira Andrade era cotado por todos os jornais como o outro narrador, ao lado de Galvão e Cléber. Mas… aí, a palavra fica com esse narrador estreante na Globo em 1998 – Luis Roberto, em depoimento a Bob Faria: “Não ia para a Copa, mas um belo dia, estou em casa e entra uma chamada da Copa, aquelas coisas. E aí era Copa, Brasil, não sei o quê, e na equipe de narração meu nome estava lá no meio. Depois da chamada me liga o Luiz Fernando Lima para dizer que tinha resolvido me levar para a Copa da França”. Abria-se o caminho na Globo para o paulistano – e fechava-se para Oliveira, que iria para a Bandeirantes no início de 1999.


Foi por essa vinheta que Luis Roberto soube que iria à Copa de 1998 como um dos narradores da TV Globo

Como diretor de esportes, Luiz Fernando Lima era um dos quatro nomes que coordenavam a cobertura gigante da Globo. Os outros eram Carlos Henrique Schroder (diretor de planejamento no Jornalismo), Luis Erlanger (diretor editorial de jornalismo) e Fernando Guimarães (diretor de operações). Todos comandariam uma equipe que contaria com mais repórteres para focarem o ambiente geral da Copa – como Pedro Bial e Glória Maria, ambos apresentando o “Fantástico” da França, Mauricio Kubrusly e Marcelo Canellas. A participação do chef Olivier Anquier, apresentando quadros e matérias culturais sobre seu país natal – e país-sede da Copa. Outra participação: Susana Werner, atriz (e namorada de Ronaldo na época), acompanhando a torcida brasileira que chegava aos estádios nos quais a seleção jogaria. Haveria ainda a volta da equipe do Casseta & Planeta, para esquetes humorísticos e produção visando o “Casseta & Planeta, Urgente!” – agora já com a histórica imitação de Bussunda para Ronaldo. O “Bolão do Faustão” virava outro sorteio telefônico, no qual os telespectadores ligavam para buscarem o sorteio de um carro – eram os “500 gols do Faustão”. Além, claro, dos repórteres esportivos: Tino Marcos, Roberto Thomé (em sua última Copa na Globo) e Mauro Naves, que cobriu a entrevista coletiva em que Romário anunciou seu corte. Indiretamente, mais um ganho tardio na transmissão global: tão logo chegou ao Rio, dias depois, o atacante foi contratado para também comentar os jogos da Seleção Brasileira, dos estúdios no Brasil.


Romário conversando com Galvão Bueno, antes da transmissão de Brasil 2×1 Escócia, jogo de abertura da Copa de 1998, na transmissão da TV Globo

As transmissões se sucediam. Luis Roberto narrou seu primeiro gol em Copas pela TV Globo no Camarões 1×1 Áustria da fase de grupos – não, não falou nada de maravilhosos… Cléber Machado ficava com partidas importantes, como o Holanda 2×1 Argentina das quartas de final, e teve de esperar pelo segundo tempo para narrar França 2×1 Dinamarca (cobrindo os funerais do cantor Leandro, só então a Globo ficou com a partida – Bandeirantes, SBT e manchete fizeram o mesmo, e a Record sequer mostrou a partida). Maurício Torres, a postos no Brasil em caso de problema técnico na França, só precisou narrar os lances  de Marrocos 3×0 Escócia, jogo não exibido ao vivo.

Galvão Bueno, por sua vez, se consolidava como o personagem que não aceita meio termo: é amado ou odiado. Progrediu com a campanha brasileira: Escócia, Marrocos, Noruega (na derrota, espicaçou o juiz Esfandiar Baharmast, antes que a imagem de uma emissora sueca confirmasse o pênalti de Júnior Baiano no dia seguinte, motivando a retratação no “Jornal Nacional” do dia seguinte), Chile, Dinamarca e a histórica narração na semifinal contra a Holanda, apontada como um de seus grandes momentos na carreira. Naquela noite, Galvão apresentou o que já fazia no “Jornal da Globo”, comandado por Lillian Witte Fibe no Brasil: uma mesa redonda em Paris, com Pelé, Júnior, Falcão, Casagrande, Romário e Arnaldo Cezar Coelho, mais algum convidado (de preferência, musical). Após a vaga na final, estavam lá Claudio Manoel, do Casseta & Planeta. Do Brasil, junto a Romário, Alexandre Pires e Netinho de Paula. E naquela mesa-redonda, considerada por Galvão o embrião do hoje conhecido “Bem, Amigos!”, parecia haver a certeza: viria o quinto título brasileiro. Certeza que se acabou quando Galvão mostrou a papeleta com as escalações, já na cabine do Stade de France, antes da final.


Abertura da transmissão de França 3×0 Brasil, final da Copa de 1998, na transmissão da TV Globo

Viu-se o 3 a 0 em 12 de julho de 1998. Viu-se Galvão tentando consolar a torcida, no final da transmissão. Viu-se um “Fantástico” com reportagens frustradas – namoradas de jogadores brasileiros tiveram a ida ao estádio reportada, e foram só choro. Só não se viu o que Galvão considera, até hoje, a maior falha da história da imprensa esportiva. Em sua biografia, o narrador opina: “Não se justifica, pela qualidade do trabalho e pela produção disponível – não só a TV Globo, os outros também – que toda a imprensa tenha engolido a barriga imensa de não saber que Ronaldo sequer entrara no ônibus para ir jogar a final”. Claro, o assunto dominou os dias seguintes na emissora. Ricardo Teixeira foi ouvido por Galvão no “Bom dia Brasil” do 13 de julho, o “Globo Repórter” da sexta seguinte foi dedicado ao assunto… mas ele não foi elucidade. Foi tanto gigantismo na cobertura da Globo, que se esqueceram do detalhe.

Tevê por assinatura

SporTV

Narração: Luiz Carlos Jr., Sérgio Maurício, Deva Pascovicci e Lucas Pereira
Comentários: Júnior, Sérgio Noronha, Raul Plassmann e Mauro Galvão
Reportagens: Paulo Lima, Rui Guilherme, Andréa Bruxelas, Christiane Pelajo e Alê Primo
Apresentações: Juliana Coelho/Renata Cordeiro
Participação especial: Armando Nogueira, Marcelo Fromer, Casagrande, Vanderlei Luxemburgo, Ricardo Pereira e Pelé

Se em 1994 a cobertura do canal esportivo da Globosat se restringira aos VTs noturnos, aos comentários feitos dos estúdios no Brasil e ao “Diário da Copa”, em 1998 ela já pôde ser bem mais requintada. Pela primeira vez, uma emissora mostrou todos os 64 jogos da Copa ao vivo: mesmo que o SporTV só tivesse um canal então, caso houvesse coincidência de horários, o que ocorreria já era anunciado no “Jornal do Brasil” de 25 de abril de 1998, por Guilherme Zattar, então diretor-geral da Globosat: “Oito partidas serão exibidas no Multishow ou no GNT”. Além da opção, o canal Premiere (já então, o canal do pay-per-view para os jogos do Campeonato Brasileiro) seria aberto a todos os assinantes da NET, exibindo as mesmas partidas do SporTV.

Antes da Copa, a aposta foi tanto em programas próprios (“Operação França 98”, programa de meia hora sobre as seleções do Mundial, as cidades-sede e os estádios) quanto em material do exterior (com destaque para uma série apresentada por Gary Lineker, na qual o artilheiro da Copa de 1986 encontrava outros grandes nomes de Copas). Luiz Carlos Jr. fazia sua primeira Copa do local dos jogos, e para comentar as partidas principais do Mundial, teve a seu lado Júnior – que se ocupava papel periférico na cobertura da Globo, era o principal comentarista do SporTV. Na França também estava Sérgio Maurício, enquanto Deva Pascovicci (1965-2016), desde 1996 no SporTV, e Lucas Pereira narraram os jogos dos estúdios no Brasil. Nos comentários, já havia mais novidades. Certo, nomes como Sérgio Noronha e Raul Plassmann já eram conhecidos dos assinantes do canal. Juliana Coelho ancorava os blocos do “SporTV News” na França, enquanto Renata Cordeiro comandava o noticiário dos estúdios brasileiros. E entre os repórteres, Alê Primo produzia material para o “Tá na área” que fazia – misturando cultura pop e futebol, com uma abordagem totalmente diferente da roupagem homônima da atualidade.


Íntegra do segundo tempo de Brasil 3×2 Dinamarca, quartas de final da Copa de 1998, na transmissão do SporTV, com a narração de Luiz Carlos Jr. e os comentários de Júnior

No entanto, o SporTV foi outra emissora a apostar em gente na ativa durante 1998: do Brasil, comentou os jogos Mauro Galvão – em destaque na zaga do Vasco, ausência sentida por muitos na convocação de Zagallo. Como convidado na França, estava Vanderlei Luxemburgo – fazendo trabalho elogiável no comando do Corinthians, que seria premiado com sua escolha então aclamada para treinar a Seleção após a Copa. E as novidades do SporTV na equipe não ficaram somente nas transmissões dos jogos. A ligação umbilical com o Grupo Globo já rendia dividendos: a “Palavra do Rei”, exibida em pequenos boletins durante a programação, com as opiniões de Pelé (comentarista da Globo) durante a Copa. Armando Nogueira, por sua vez, já se estabelecia como o decano do canal, tanto com seu “Esporte Real”, programa de entrevistas apresentado pela manhã, quanto voltando a mediar um debate. Era o apresentador do “Papo de Copa”, mesa redonda diária do SporTV na França, com Luiz Carlos Jr., Ricardo Pereira – o mesmo repórter que acompanhara o Brasil em 1982 pela TV Globo, então radicado na Europa -, Júnior, Vanderlei Luxemburgo e… Marcelo Fromer (1961-2001).

“Como? Marcelo Fromer?” Exatamente: o guitarrista dos Titãs, fanático por futebol, tinha sua primeira experiência jornalística in loco numa Copa. Já o fizera em 1994, escrevendo a coluna “Minuto de Silêncio” com o amigo e colega de banda Nando Reis para a “Folha de S. Paulo”. Mas o são-paulino Fromer ganhou espaço mesmo no SporTV. Tanto nos comentários dos programas quanto em outro programa especial da cobertura do SporTV: o “Bistrô Brasil”, no qual circulava por Paris, conversando junto de um amigo próximo – Casagrande, comentarista da Globo naquela Copa. Fromer e Casagrande já haviam estado juntos no “Copa na Mesa”, mesa-redonda da MTV durante a Copa de 1994. E ali mesmo iniciaram grande amizade, aprofundada naquela cobertura que até dificultou um pouco as coisas para os Titãs: gravando naquele 1998 o disco “Volume Dois”, a banda desacelerou um pouco os trabalhos com a viagem de Fromer à França, cabendo ao produtor Liminha tocar as guitarras e os violões que não haviam sido gravados antes.


Marcelo Fromer no programa pré-jogo do SporTV antes da final entre Brasil e França, na Copa de 1998, junto a Juliana Coelho, após comentários de Luiz Carlos Jr.

Não, o SporTV também não noticiou o que ocorrera com Ronaldinho antes da final. No entanto, já conseguiu fazer uma cobertura bem além de 1994.


Vinheta de abertura das transmissões da ESPN Brasil para a Copa de 1998

ESPN Brasil

Narração: Milton Leite, João Palomino, Paulo Soares e Cledi Oliveira
Comentários: Tostão, Paulo Calçade, Paulo Cesar Vasconcellos, José Trajano, Reali Júnior e Antero Greco
Reportagens: André Kfouri, João Palomino, Carlos Martins e Helvídio Mattos
Apresentações: Luiz Alberto Volpe e João Palomino
Participação especial: Juca Kfouri, Flávio Prado, Sebastião Salgado, Chico Buarque e Reali Jr.

A bem da verdade, o canal esportivo paulista já existia desde 1994, como o incipiente TVA Esportes – originário da operadora TVA, que mantinha uma parceria possibilitando a exibição da ESPN Internacional aos assinantes. Mesmo exibindo alguns campeonatos, como o Brasileiro (com uma hora de atraso) e a Liga dos Campeões, com narrações em português feitas do Brasil, a TVA Esportes ainda era uma preparação. Só em 17 de junho de 1995 foi inaugurado o canal fruto da parceria da TVA com a ESPN: era a ESPN Brasil, que além de seguir transmitindo alguns campeonatos (outros ficariam com a ESPN Internacional), produziria conteúdo próprio. Já no ano seguinte, a ESPN Brasil mostraria os Jogos Olímpicos de Atlanta, com muitas competições e pouca estrutura – alguns membros da equipe sequer tinham credenciais para entrarem nos locais de competição.

E já então, ela contava com alguns profissionais que se tornariam verdadeiros símbolos da emissora. Como José Trajano, que de editor de esportes da TV Cultura viera em 1994 ser o diretor de jornalismo da TVA Esportes, com quase todos os jornalistas que o acompanhavam no canal estatal paulista. Como André Kfouri, 23 anos em 1996, que começara a carreira de repórter na radioescuta da Jovem Pan. Como a dupla Paulo Soares e Antero Greco, que fazia muitos jogos internacionais tanto na fase TVA Esportes como na fase ESPN Brasil. Como Paulo Calçade, jornalista com certa trajetória na imprensa escrita (fora membro da sucursal paulista do “Jornal do Brasil”), até decidir enveredar pela televisão a partir da TVA Esportes, começando como repórter de campo para logo virar comentarista. Como João Palomino, jornalista que atuara como repórter de notícias gerais no SBT e na Manchete antes de ser fixado no esporte, como narrador e repórter, por obra e graça de Roberto Salim, que já estava na redação da ESPN, por trás das câmeras.

Todos esses nomes estariam na cobertura da ESPN Brasil para a Copa de 1998. Assim como o narrador que sucedera Nivaldo Prieto como nome para os principais jogos que o canal exibia, de campeonatos nacionais e internacionais: Milton Leite, que já tivera experiência narrando na TV Jovem Pan (curta experiência captada por antenas UHF, restrita à cidade de São Paulo entre 1991 e 1995), e ancorava programas gerais na rádio homônima até começar a colaborar para a ESPN Brasil, em 1995, sendo definitivamente contratado pouco depois. Finalmente, em 1997, a filial brasileira da ESPN teve um generoso ganho em seus comentaristas: deixando a Bandeirantes por se sentir desconfortável com a linha editorial do canal nas transmissões esportivas, Tostão aceitou a proposta da ESPN Brasil. Chegou e começou a apresentar um programa elogiado na época: “Um Tostão de prosa”, entrevistando personagens do esporte e da cultura brasileira. “Um Tostão de prosa” continuou durante a Copa – incluindo agora crônicas do ex-jogador sobre o que ocorria no torneio. Ainda coube ao mineiro ser o comentarista dos jogos principais daquela cobertura, tendo Milton Leite como colega de cabine nas partidas da Seleção Brasileira.


Pós-jogo de Brasil 3×0 Marrocos, pela fase de grupos da Copa de 1998, na transmissão da ESPN Brasil, com a narração de Milton Leite e os comentários de Tostão

Não faltaram ainda especiais antes da Copa começar: exibições de partidas antigas de Copas, “Gol de Placa” (dez programetes espalhados pela programação, exibindo dois gols aleatórios dos Mundiais), “Curiosidades das Copas” (cinco programetes ao longo do dia, com dados aleatórios). Nem durante a Copa, na cobertura dirigida por José Trajano, diretor de jornalismo; Laércio Roma, diretor de operações; e Júlio Bartolo, diretor-geral da ESPN Brasil. As 64 partidas seriam exibidas (56 ao vivo, oito em VT). As exibidas ao vivo teriam os já então habituais “Abre o jogo”, com as informações prévias, e o pós-jogo “Prorrogação” – sem contar a reprise dos jogos, ocorrida no mesmo dia, e o “Show de Gols” com as vezes em que as redes balançassem na competição.

Anúncio publicitário da cobertura da ESPN Brasil para a Copa de 1998 (Reprodução/Thiago Uberreich)

Paulo Soares, João Palomino e Cledi Oliveira narraram o restante das 64 partidas – e como já dito, tanto o “Amigão da Galera” quanto Cledi se dividiriam com a tevê aberta (Paulo no SBT, Cledi na Manchete). Para comentarem as partidas, além dos citados Tostão e Trajano, haveria a participação especial do experiente Reali Jr. (1941-2011), correspondente da rádio Jovem Pan em Paris, e a primeira participação televisiva em Copas de Paulo Cesar Vasconcellos, então repórter especial do “Jornal do Brasil”. João Palomino ainda faria algumas reportagens, junto a Carlos “Cacá” Martins, Helvídio Mattos e André Kfouri (este, acompanhando a Seleção Brasileira). E Luiz Alberto Volpe apresentaria a maioria dos programas, do IBC em Paris, como o “30 minutos na Copa”, versão do noticiário principal do canal então, dedicada exclusivamente às notícias do Mundial.


Gols de Noruega 1×1 Escócia, pela fase de grupos da Copa de 1998, na transmissão da ESPN Brasil, com a narração de João Palomino

Finalmente, encerrando os trabalhos diários, um debate que se tornaria marca da ESPN Brasil. Batizada então “A Copa é nossa”, a mesa-redonda mediada por Milton Leite contava tanto com os comentaristas (José Trajano, Antero Greco, Tostão) quanto com convidados que andassem pela França (Reali Jr.; o fotógrafo Sebastião Salgado; o cantor e compositor Chico Buarque, colunista de “O Estado de S. Paulo” naquela Copa). Deu tão certo que “A Copa é nossa”, remodelado no segundo semestre de 1998, virou o hoje conhecido “Linha de Passe”. Aliás, na falta de um, haveria dois debates: um acordo operacional com a TV Cultura permitiu a exibição das duas emissoras para o “Cartão Verde”, aos domingos, no qual o trio habitual do programa – Juca Kfouri, José Trajano e Flávio Prado – contaria com Tostão e outros convidados. Na ESPN Brasil, o “Cartão Verde” era ao vivo; na Cultura, algumas horas depois.


Trecho do “Cartão Verde” exibido na ESPN Brasil e na TV Cultura em 21 de junho de 1998, com o convidado Reinaldo se unindo aos membros habituais do programa

Mesmo sofrendo com problemas periódicos, como a falta de credencial, a ESPN Brasil fez cobertura profunda, como José Trajano já preconizara no “Jornal do Brasil” de 25 de abril de 1998: “Ficaremos 24 horas no ar. Quero ver quem vai ficar mais tempo no ar falando sobre Copa”. A emissora falou muito, de fato. Até mesmo na final, narrada por Milton Leite e comentada por Tostão. Após os 3 a 0 franceses, ainda aturdidos pelo que ocorrera com Ronaldo, os membros da cobertura encerraram-na com momentos frenéticos, no rumo do “Cartão Verde” compartilhado com a TV Cultura, descritos por Milton Leite a Bob Faria em seu livro “Grito de gol: as vozes da emoção na tevê”: “Tanto o Tostão, quanto o Trajano e o Juca iam para o ‘Cartão Verde’ e eu estava junto no carro. Juca ligando para conversar com as pessoas, ligando para o Dunga para saber o que tinha acontecido e o Dunga falando para ele o que tinha tido, não sei o quê, a coisa da convulsão, aí o Tostão no carro falando: ‘Não, se ele teve uma convulsão, foi um absurdo ele ter jogado’ (…) Cara, eu me lembro disso direitinho, a gente no carro, um baita congestionamento, até chegar ao centro de imprensa para fazer os programas que iam fechar as transmissões e a cobertura da Copa”.

Milton Leite e Tostão no Stade de France, para a final da Copa de 1998, que transmitiram pela ESPN Brasil (Reprodução)

Uma lembrança marcante, para a primeira Copa da ESPN Brasil. Ela demoraria a voltar. Assim como qualquer emissora que não fosse do Grupo Globo.

Na próxima parte: Globo dá a cartada decisiva ainda em 1998, vira detentora dos direitos da Copa na televisão brasileira e impõe opções em 2002. Ou era ela, ou o SporTV, ou nenhuma