Desde o sábado retrasado, até o dia da abertura da Copa, publicaremos uma série de especiais sobre a história dos Mundiais na televisão brasileira. Nesta quarta, a décima-segunda parte, sobre a Copa de 2010. Clique aqui para conferir os textos anteriores.

Terminada a complicada fase em que a Globo teve os direitos de transmissão das Copas de 2002 e 2006, se iniciava outra negociação com a Fifa, para a compra da exibição em 2010 e 2014. E havia outra emissora desejando a concorrência, ao contrário da transação repentinamente revelada em 1998. No último ano em que exibia o Campeonato Brasileiro, desejosa de alcançar a liderança de audiência (e destronar a Globo em pelo menos um grande evento esportivo – o que conseguiria para os Jogos Olímpicos de 2012), a Record ofereceu o total de 360 milhões de dólares à Fifa para ser a detentora exclusiva dos direitos de transmissão – US$ 180 mi para o Mundial de 2010, e a outra metade para o de 2014.

Não adiantou. Em dezembro de 2006, a Fifa adiantava: de novo o Grupo Globo seria detentor dos direitos, sem revelar o valor das compras. O que se falava era que a Globo pagou menos do que a Record, pelos dois torneios: a carioca teria pago US$ 100 milhões por 2010 e US$ 120 mi por 2014 (que teve o Brasil confirmado como sede em 2007). Para justificar a compra, a Fifa falava que levara em conta “estudo do mercado no país, da economia local e até da origem do dinheiro das duas redes interessadas”, segundo a “Folha de S. Paulo” de 7 de dezembro de 2006. Na mesma nota em que anunciava a vitória no leilão, todavia, a Globo já adiantava, escaldada pelos prejuízos dos Mundiais anteriores: procuraria outros canais para compartilhar as transmissões. Conseguiu, como se verá.

E as cinco emissoras brasileiras que mostraram a primeira Copa sediada na África (duas abertas e três por assinatura) obtiveram imagens com restrições e vantagens. Se não haveria mais uma vinheta de abertura dos jogos para cada canal – por mais que a Globo criasse algo, o sinal dos jogos na África do Sul só era aberto com a vinheta oficial, popularizando o “Ke Nako” – nem haveria um GC próprio de placar (agora, fornecido pela própria geradora das imagens), finalmente uma Copa seria exibida em alta definição na sua totalidade para o Brasil, com exceção para os estados da região Norte, Alagoas e Piauí. No país-sede da Copa, haveria ainda a estreia da câmera “aranha”, presa com cabos ao alto de cada estádio. E também a estreia do “Piero”, sofisticado sistema de tira-teima e análise tática das jogadas.

Assim, a Copa voltava a ter (um pouco de) equilíbrio nas disputas de audiência dos canais abertos pelo Brasil. O problema ficou para os profissionais da cobertura – muitos, baseados no Centro Internacional sediado em Joanesburgo.


Vinheta de abertura das transmissões da TV Globo para os programas e transmissões relativos à Copa de 2010

Globo

Narração: Galvão Bueno, Cléber Machado, Luis Roberto e Rogério Correa
Comentários: Casagrande, Júnior, Falcão, Caio, Arnaldo Cezar Coelho, José Roberto Wright e Renato Marsiglia
Reportagens: Tino Marcos, Mauro Naves, Abel Neto, Bruno Laurence, Alex Escobar, Eric Faria, Marcos Uchôa, César Tralli, Régis Rösing, Carlos Gil, Renato Peters, Pedro Bassan, Renato Ribeiro, Ernesto Paglia e Heraldo Pereira
Apresentações: Fátima Bernardes, Glenda Kozlowski, Tiago Leifert, Luiz Ernesto Lacombe e William Waack

Se houve poucas mudanças na estrutura da Globo para 2010, elas tiveram lá sua importância. A começar dentro dos 172 enviados pelo Grupo Globo à África do Sul, comandados por Luiz Fernando Lima, ainda diretor de esportes do canal, e Carlos Henrique Schroder, diretor da Central Globo de Jornalismo. Mais precisamente, num membro dela: Casagrande. Em 2007, os problemas do comentarista com drogas vieram à tona, após acidente de carro em setembro. Desde então, passou um ano em recuperação, numa clínica. Foi voltando gradativamente ao ar. Primeiro, participando do “Arena SporTV”; e depois, retornando ao cargo de principal comentarista paulista da emissora. Mas ainda havia reticências do comando da cobertura sobre seu envio à África do Sul. Reticências superadas por insistência de Marco Mora, diretor executivo de esportes, e de Galvão Bueno: ambos insistiram que seria melhor enviar o ex-atacante ao país para a Copa.

E Casagrande foi, marcando ali sua retomada. Nos jogos da Seleção Brasileira, estaria junto de Galvão Bueno. Assim como Júnior, voltando à Globo, após longa trajetória: (as passagens malogradas por Corinthians, como técnico em 2003, e Flamengo, como diretor de futebol em 2004; a volta ao comentário de tevê, em passagens rápidas por Record, em 2005, e Bandeirantes, entre 2006 e 2007; e o retorno ao SporTV em 2008). Claro, Arnaldo Cezar Coelho também seguiria junto dos três. Já desejoso de retomar a carreira como técnico de futebol, Paulo Roberto Falcão preferiu ficar no Brasil, mas também participou das transmissões das partidas do Brasil, completando um quinteto que, para Galvão Bueno, foi a melhor equipe de cabine que já teve – em sua biografia, o narrador elogiou: “Eu passaria o resto da vida trabalhando com esses quatro”.


Galvão Bueno, Júnior, Casagrande e Arnaldo Cezar Coelho durante a transmissão de Brasil 2×1 Coreia do Norte, pela fase de grupos da Copa de 2010, em matéria exibida no programa “Central da Copa” daquele dia

Como em 2006, Cléber Machado e Luis Roberto foram enviados para narrarem os jogos. Já Rogério Correa e Rembrandt Jr. ficaram no Brasil, fazendo dos estúdios no Rio de Janeiro a locução de vários jogos – na televisão, como habitual, a Globo mostrava 56 partidas ao vivo e oito em VT (no globoesporte.com, site do grupo, as partidas simultâneas eram exibidas ao vivo). Também ficaram no Brasil José Roberto Wright e Renato Marsiglia, comentando a arbitragem, além de um estreante: Caio, que chegara à Globo em 2008, preenchendo a lacuna durante a recuperação de Casagrande, após passagem inicial pela Rádio Globo paulista.

Outro estreante em Copas pela emissora dos Marinho era Tiago Leifert: com o tom de entretenimento já rendendo audiência à edição paulista do “Globo Esporte”, Leifert apresentaria a cobertura da Globo nos jogos, dos estúdios. E faria junto a Caio o “Central da Copa”, programa noturno sobre o que ocorria na Copa. Em dias de jogos do Brasil, havia presença de plateia, reportagens sobre os jogos do dia e brincadeiras. De resto, pouco havia de renovação. A integração cada vez maior com o SporTV; Fátima Bernardes apresentando o “Jornal Nacional” do país-sede da Copa, como Tadeu Schmidt faria no “Fantástico” e William Waack, no “Jornal da Globo”; o “Jogo Falado”, quadro do “Fantástico” iniciado no Mundial de 2006, com leitura labial do que os protagonistas falavam nos jogos da Seleção; e repórteres espalhados por toda a África do Sul.

Mas seria um apresentador que simbolizaria um conflito como a Globo nunca vivera – e não viveu depois – numa Copa do Mundo: Alex Escobar, em sua primeira Copa na Globo (fora içado do SporTV em 2008), responsável pelas notícias da Copa em vários telejornais da emissora, principalmente no “Bom Dia Brasil”. Com os jogadores brasileiros bastante reclusos na concentração, e a comissão técnica limitando o acesso da imprensa durante o torneio, havia tensão entre a Globo e a CBF, por mais que não tivesse sido assim nas Eliminatórias. Havia reclamações até sobre o comportamento de Dunga, que se negara a participar de uma entrevista ao vivo com Fátima Bernardes no “Jornal Nacional” durante a Copa. Coube a Escobar estar no lugar certo, na hora errada: na sala de imprensa do estádio Soccer City, em Joanesburgo, após a vitória brasileira por 3 a 1 sobre a Costa do Marfim. Durante a entrevista coletiva, Dunga olhou para Alex. Perguntou se havia algum problema. Alex: “Nem estou olhando para você, Dunga”. O resto, se sabe:


O entrevero entre Dunga e Alex Escobar, após Brasil 3×1 Costa do Marfim, pela fase de grupos da Copa de 2010, transmitido ao vivo pelo “Terceiro Tempo” da TV Bandeirantes

O impacto do desentendimento foi maximizado pela Globo: naquele domingo, Tadeu Schmidt leu no “Fantástico” um editorial com críticas a Dunga. Mas o tiro da emissora saiu pela culatra. Não que Dunga tivesse sido poupado pela opinião pública: as ofensas foram criticadas aqui e ali. Mas a Globo teve seu tom superior criticado também, e não foi raro ouvir e ler opiniões de que a repreensão havia sido “merecida”.

Já Galvão Bueno vivia novo ápice de popularidade, para o bem e para o mal. Já começara no dia anterior à abertura da Copa: transmitindo o show musical na África do Sul para celebrar o torneio (apresentações de Black Eyed Peas e Shakira) ao lado de Fátima Bernardes, Galvão se embalou com a apresentação e deu imagens que servem até hoje para gifs por aí. No mesmo show, na primeira Copa sob Twitter, a hashtag #calabocagalvao foi a mais digitada no mundo. O narrador se preocupou de início. Em entrevista a Monica Bergamo, em 15 de agosto de 2010, à “Folha de S. Paulo”, lembrou: “Esse Twitter é um troço doido. Quando vi, me procuraram Folha, “O Globo”, “Veja”, “El País”, “New York Times”. Pra falar um português claro, eu pensei: fodeu”.

Depois, preferiu se despreocupar: “Pensei: e agora? Vamos divulgar nota oficial? Mas não sou político. Não cometi crime. Aí surgiu a ideia de falar no [programa] “Central da Copa”, com o Tiago Leifert. Ele é brincalhão. Me vejo nele. Eu era folgado e abusado na idade dele. E assumi a brincadeira. O que poderia ter sido ruim virou um grande barato. Teve também aquele maluco que fez o vídeo dizendo que Cala a Boca Galvão queria dizer ‘Save the Birds’. Sensacional. Virou um troço mundial mesmo. Até propus à Globo que fizéssemos uma campanha séria [em defesa de pássaros em extinção]. Eu virei cult”. E lembrou até de um amigo falecido: “O Ayrton Senna me chamava de papagaio e agora virei oficialmente. [Aponta o céu] Ele deve estar morrendo de rir”.

Depois, Galvão teve sérios motivos para se preocupar: na partida mais importante da Seleção Brasileira naquela Copa, sua voz deu a primeira grande demonstração de falha na carreira. A derrota para a Holanda, nas quartas de final, fez com que o principal narrador da TV Globo se preocupasse. Na entrevista a Monica Bergamo, ele esmiuçou o que se passou, principalmente no segundo tempo: “(…) Eu travei. A minha voz falhava, parecia carro de embreagem ruim. O Cleber Machado chegou a ficar de prontidão. Me apavorei. (…) No Brasil, o [cantor] Zezé Di Camargo me indicou o Luiz Cantoni, otorrinolaringologista. Ele botou câmeras na minha garganta: “Olha isso!”. Estava forrado de placas brancas. Peguei um fungo na boca, na garganta, na faringe. Sabe micose no dedo? Eu tenho nas cordas vocais. Rinite fungótica”. Fruto do tempo – e de más práticas, como assumiu tempos depois ao “Altas Horas”: “Tomo gelado, e durante muito tempo fiz uma coisa que nunca devia ter feito: fumar”.

Cléber Machado ficou apenas com o histórico Uruguai x Gana. E Galvão seguiu nos jogos principais: narrou o Espanha 1×0 Alemanha das semifinais (Holanda 3×2 Uruguai ficou com Cléber Machado). Narrou a decisão do primeiro título espanhol. Terminado o jogo, com Tiago Leifert já ancorando a transmissão dos estúdios, Galvão se emocionou: talvez aquela fosse sua penúltima Copa. A última era para ser em 2014.


Galvão Bueno se referindo a planos sobre abandonar a narração, após Holanda 0x1 Espanha, final da Copa de 2010, na transmissão da TV Globo

Era: tempos depois, a ideia de mudança dentro da televisão foi abandonada por Galvão, como se sabe neste 2018.


Vinheta entre programas da TV Bandeirantes, celebrando a transmissão da Copa de 2010

Bandeirantes

Narração: Luciano do Valle, Téo José, Nivaldo Prieto e Ulisses Costa
Comentários: Neto, Edmundo e Alexandre Praetzel
Reportagens: Fernando Fernandes, Luiz Ceará, Antônio Petrin, Nivaldo de Cillo, Sandro Gama, Fábio Lucas Neves e Henri Karam. Pelo “CQC”, Felipe Andreoli e Rafael Cortez
Apresentações: Renata Fan/Milton Neves e Marina Ferrari
Participações: Emerson, Vampeta, Osmar de Oliveira

Se em 2006 o retorno ficara restrito ao Bandsports, daquela vez era para valer. Após 12 anos, a emissora sediada no bairro paulistano do Morumbi estava de volta a uma Copa do Mundo. O retorno era uma possibilidade desde 2007, quando o acordo com a Globo permitiu que a Band exibisse os campeonatos nacionais (Campeonato Paulista, Copa do Brasil) e estaduais (com destaque para o Paulista e o Carioca). A possibilidade começou a se viabilizar a partir de 2008, quando os direitos de exibição da Copa começaram a ser negociados. Finalmente, em 2009, o anúncio sonhado: a Band mostraria os jogos na África do Sul. De quebra, até mesmo os jogos brasileiros nas Eliminatórias foram mostrados, como a goleada por 4 a 0 sobre o Uruguai e o 3 a 1 na Argentina que confirmou o lugar na Copa.


Argentina 1×3 Brasil, pelas Eliminatórias da Copa de 2010, na transmissão da TV Bandeirantes, com a narração de Luciano do Valle. Postado no YouTube por Edu Cesar

Para justificar a tradição em esportes que vinha sendo reabilitada, o canal não poupou: foram 120 enviados liderados por José Emílio Ambrósio (que unificava as direções de jornalismo e esportes), entre jornalistas, técnicos e produtores, que trabalhariam na exibição dos 56 jogos ao vivo – oito seriam mostrados em VTs noturnos. Claro, Luciano do Valle era o grande símbolo e chamariz daquela cobertura, escalado para narrar os principais jogos – entre esses, os da Seleção Brasileira. Mesmo com o entrevero indireto entre ambos às vésperas da final da Copa do Brasil de 2008, Neto já estava reconciliado com Luciano, e o acompanharia nas partidas, como comentarista. Outra dupla que já se habituava nas transmissões da Bandeirantes, Téo José e Edmundo (primeira Copa comentando) foram mais dois enviados à África do Sul. De resto, Nivaldo Prieto narrava, também na África do Sul, junto de um personagem que mostrava o crescimento da integração entre rádio e tevê no Grupo Bandeirantes: Alexandre Praetzel, que de repórter chegou a comentar 11 jogos da Copa com Nivaldo narrando. Outro personagem a mostrar tal integração foi mais um locutor: Ulisses Costa, este trabalhando dos estúdios no Brasil.

Também na África do Sul estariam Renata Fan (desde 2007 na Bandeirantes, a gaúcha seria a apresentadora dos programas esportivos), além da dupla que já então comandava o “Jornal da Band”: Ricardo Boechat e Ticiana Villas Boas. Acompanhando a Seleção Brasileira, estariam os repórteres Fernando Fernandes e Luiz Ceará, ambos também voltando a uma Copa. Acompanhando as demais seleções que se destacassem na Copa, estariam Fábio Lucas Neves, Sandro Gama e Henri Karam, enquanto Nivaldo de Cillo mostraria o ambiente que se vivia na África do Sul, além da cobertura esportiva. E um dos grandes sucessos da Bandeirantes na época não poderia faltar na cobertura: o “CQC” esteve na África do Sul, representado por Felipe Andreoli e Rafael Cortez. Finalmente, os programas de debate foram mobilizados: não só o já habitual “Jogo Aberto”, mas também um novo debate noturno, especial para a Copa. Era o “Band Mania”, que Milton Neves apresentava na África do Sul, com mais três debatedores no IBC de Joanesburgo. Um dos debatedores viraria comentarista regular da Bandeirantes: Denílson. O outro já estava lá: Osmar de Oliveira, também retornando a um Mundial, desta vez comentando. Já os outros convidados duraram apenas a Copa: Emerson e Vampeta.


Abertura do “Band Mania” de 28 de junho de 2010, dia de Brasil 3×0 Chile, pelas oitavas de final da Copa de 2010

O “Band Mania” fechava o dia, numa cobertura ampla da Bandeirantes: eram, em média, 11 horas dedicadas à Copa. Começava antes do primeiro jogo, com o matinal “Direto da África”, informativo trazendo a introdução do dia na Copa, tendo Renata Fan na África do Sul e Nivaldo Prieto no Brasil como apresentadores. Entre uma partida e outra, a mesma dupla Fan-Prieto apresentava o “Conexão África”, para não só analisar os 90 minutos que se haviam acabado, como também para informar sobre o jogo que viria na sequência. No meio dessa programação, havia ainda o “Diário da África”, com Marina Ferrari apresentando notícias sobre a Seleção Brasileira. Para concluir, mostrando compactos dos jogos exibidos durante o dia (e dos jogos que não haviam sido mostrados ao vivo), Milton Neves voltava ao ar para mostrar o “Show da Copa”, no início da madrugada.

Luciano do Valle voltou a ser elogiado durante aquela Copa, pela vibração – exemplificada, por exemplo, no gol de Robinho que abriu o placar nas quartas de final, contra a Holanda. O veterano de Campinas seguiu para narrar as duas semifinais daquele Mundial. Figurou ainda na decisão vencida pelos espanhóis sobre a Holanda, ao lado de Neto. E nos corredores do Soccer City de Joanesburgo, viveu uma história contada por Paulo Vinicius Coelho em seu blog, então ainda na ESPN, em 2014. Comentando aquela final pelo canal, PVC encontrou o narrador e perguntou: “Luciano, é a sua décima final de Copa?”. O símbolo da Bandeirantes em transmissões esportivas acrescentou na resposta: “Décima primeira” (na verdade, era a oitava final de Luciano). Veio o cumprimento na tréplica: “Parabéns!”. Pena: não viria outra em 2014.


No início do vídeo, a reportagem de Nivaldo de Cillo e a narração de Luciano do Valle para Holanda 2×1 Brasil, nas quartas de final da Copa de 2010, exibidas no “Jornal da Noite” de 2 de julho de 2010. Postado no YouTube por Flávio Baccarat

Tevê por assinatura

SporTV

Narração: Luiz Carlos Jr., Milton Leite/Jota Júnior, Lucas Pereira e Roby Porto
Comentários: Paulo Cesar Vasconcellos, André Rizek, Lédio Carmona e Mauricio Noriega/André Loffredo e Carlos Eduardo Lino
Reportagens: Fernando Saraiva, Marco Aurélio Souza, Fellipe Awi, Bruno Côrtes, Edgar Alencar e Kiko Menezes
Apresentações: Marcelo Barreto, Vanessa Riche, Fernanda Gentil e Gabriel Moojen
Participação: Renato Maurício Prado

Mesmo que a vinculação à TV Globo fosse cada vez mais profunda e irreversível, o SporTV ainda recebia o luxo de ter certos pioneirismos. O canal estreava o “estúdio panorâmico”, com um espaço em frente ao Soccer City que sediou abertura e final da Copa. Nesse estúdio era apresentado o “Seleção SporTV”, então ainda um debate noturno restrito às Copas, comandado ora por Marcelo Barreto, ora por Luiz Carlos Jr., ora por Milton Leite. “Bom Dia, África”. Era apresentado lá também o “Tá na África”, pré-jogo comandado por Vanessa Riche (também responsável pelas edições do “SporTV News”). Finalmente, do estúdio panorâmico também era emitido o “Bom Dia, África”. Tratava-se de um matinal com as notícias do dia anterior e as perspectivas para o que se veria nos campos, sob o comando de Gabriel Moojen e de uma carioca que chegara ao SporTV no ano anterior: Fernanda Gentil – que já protagonizaria este momento abaixo, numa das edições.

Contando com o SporTV 2, a emissora exibiria os 64 jogos da Copa – em alta definição. Luiz Carlos Jr. ainda ficava com os jogos da Seleção Brasileira, tendo a seu lado Paulo Cesar Vasconcellos, além de outro estreante no SporTV: André Rizek, que chegara no ano anterior ao canal esportivo da Globosat, após longa passagem como repórter em revistas (“Playboy”, “Veja” e, principalmente, “Placar”). Também experimentado nos meios impressos – principalmente nas passagens por “O Globo” e “Lance!” -, Lédio Carmona era outro que fazia a transição para a televisão, sendo mais um comentarista. Enquanto isso, Milton Leite e Maurício Noriega consolidavam a dupla já então conhecida pelas transmissões dos jogos de equipes paulistas. Jota Júnior, Lucas Pereira e Roby Porto narrariam as partidas dos estúdios brasileiros, com os respectivos comentários de André Loffredo e Carlos Eduardo Lino.

O SporTV protagonizou um momento acidentado naquela cobertura: numa aparição do “SporTV News” dos estúdios no Brasil, Bruno Souza e Aurora Bello apresentaram uma reportagem gozadora com o Paraguai que chegara às quartas de final. Pois ela motivou vários repúdios, motivando pedido de desculpas do canal. Depois disso, as transmissões seguiram normalmente. Com o Holanda 2×1 Brasil das quartas motivando duros comentários: Luiz Carlos Jr. procurava a razão da expulsão de Felipe Melo quando ela acontecia, André Rizek informava (“O Felipe Melo pisou na coxa com o Robben caído”) e Paulo Cesar Vasconcellos se irritava ironicamente: (“Ele conseguiu. [Durante] A Copa inteira procurou esse cartão. Deve estar feliz agora”). Já a Milton Leite caberia a transmissão de Uruguai x Gana, no mesmo dia. E posteriormente, a conclusão da cobertura indicaria uma alternância cada vez maior entre os dois principais narradores do canal. Afinal, quem narrou Espanha 1×0 Holanda, a final da Copa, não foi Luiz Carlos Jr., e sim o paulista de Jundiaí.


Espanha 1×0 Holanda, final da Copa de 2010, na transmissão do SporTV, com a narração de Milton Leite

ESPN

Narração: João Palomino, Paulo Andrade, Rogério Vaughan, Eduardo Monsanto, Paulo Soares, Cledi Oliveira e Everaldo Marques/Carlos Lima e Luiz Carlos Largo
Comentários: Paulo Vinícius Coelho, José Trajano, Paulo Calçade, Mauro Cézar Pereira/Silvio Lancellotti e Alexandre Oliveira
Reportagens: André Plihal, André Kfouri, Helvídio Mattos, Mendel Bydlowski, Patrícia Lopes, Fernando Gavini, Eduardo Elias e Rubens Pozzi
Apresentações: Eduardo Elias
Participações: Marcelo Duarte, Antero Greco, Fernando Calazans, Márcio Guedes e Juca Kfouri

Exibindo os jogos fora de casa da Seleção Brasileira nas Eliminatórias, a ESPN estava em boas condições para tentar a transmissão da terceira Copa de sua história. Aliás, condições tão boas que a filial brasileira do conglomerado da Disney não exibiria a Copa só na tevê: faria a cobertura no rádio, via Eldorado ESPN, parceria com a Rádio Eldorado paulista, iniciada em 2007. Direitos de transmissão garantidos, a emissora partia para mais um momento marcante em sua história. Aliás, marcante antes mesmo da Copa. Se a Globo, historicamente íntima da CBF, não teve grandes tratamentos durante o Mundial, a postura da ESPN foi tratada de modo quase belicoso. A começar do dia da convocação de Dunga para o torneio. Na entrevista coletiva, o repórter Cícero Mello perguntou sobre a ausência de Ganso e Neymar. Ao ouvir as justificativas, deu a entender que, se Dunga fosse o técnico na Copa de 1958, Pelé não teria sido chamado. Bastou para uma carraspana pesada de Jorginho, auxiliar de Dunga. No mesmo dia, lista de 23 jogadores revelada, uma edição especial do “Bate-Bola” trazia comentaristas do canal e tentava entrevistar convocados. Felipe Melo foi alcançado. Paulo Vinicius Coelho fez perguntas a ele. O que aconteceu foi isso abaixo:


Discussão entre Paulo Vinicius Coelho e Felipe Melo, no “Bate-Bola” de 11 de maio de 2010, dia da convocação da Seleção Brasileira para a Copa de 2010

Os estranhamentos não se restringiram a antes da Copa. Já na África do Sul, em 22 de junho, Kaká respondeu a pergunta de André Kfouri – e se referiu ao patriarca Juca, que escrevera coluna na “Folha de S. Paulo”, no dia anterior, apontando problemas no púbis do jogador, para atribuir as críticas à sua religiosidade. No “Linha de Passe” do mesmo dia 22, do IBC de Joanesburgo, Juca retrucou Kaká. Além do clima ruim, o distanciamento da Seleção dificultava ainda mais o trabalho da ESPN. Mas André Kfouri não se importou muito com a restrição do contato a uma entrevista coletiva por dia: “Ao menos era igual para todos. Não costumo criticar esse tipo de decisão, já que considero que ninguém tem obrigação de falar com jornalistas”.

Paralelamente, a cobertura seguia. Na televisão: João Palomino, PVC e José Trajano seguiam sendo o trio envolvido nas partidas da Seleção Brasileira, com Paulo Andrade, Paulo Calçade e Mauro Cezar Pereira envolvidos nos outros jogos importantes. Havia o “Linha de Passe” diário, com os nomes habituais. Havia ainda os comentaristas “privativos” – como Silvio Lancellotti para os jogos da Itália e Gerd Wenzel para os da Alemanha, ambos apenas na primeira fase. Nas reportagens, o comum da ESPN: André Plihal e André Kfouri acompanhando a Seleção Brasileira, Helvídio Mattos fazendo matérias sobre o cotidiano sul-africano (com auxílio de Marcelo Duarte e Mendel Bydlowski), e os demais repórteres acompanhando as demais seleções.

Se faltavam nomes importantes, era porque eles estavam envolvidos na Rádio Estadão/ESPN – casos de Paulo Soares, que na tevê narrou somente Argentina 4×1 Coreia do Sul e Alemanha 4×0 Argentina, e Cledi Oliveira, que narrou Uruguai 2×1 Coreia do Sul. Já Everaldo Marques, também concentrado na Estadão/ESPN, tirou a sorte grande: o primeiro jogo pela televisão numa Copa do Mundo foi logo Uruguai x Gana, que contou com incomum participação de Eduardo Monsanto nos comentários. De resto, os programas típicos ganhavam destaque: se o “Sportscenter” ainda ficava no Brasil, o “Bate-Bola” já era exibido todo do IBC de Joanesburgo, com Eduardo Elias como apresentador primordial. Edu ainda era o repórter responsável pelo “Dia de Craque”, reportagem envolvendo bate-bola com transeuntes nas cidades sul-africanas – no Brasil, a reportagem era feita por Alex Tseng, usando uma máscara de Dunga. Dos estúdios em São Paulo, também era feito o “Fora de Jogo”, debate que trazia Paulo Cezar Caju como convidado – e incluía gente que fazia sua primeira Copa na ESPN, como Gian Oddi e Leonardo Bertozzi (este, se alternando com esta Trivela e as participações nos comentários pela Eldorado/ESPN).


A versão do “Dia de Craque” com os jornalistas da ESPN na África do Sul, exibida no “Linha de Passe” de 11 de julho de 2010

No Holanda 2×1 Brasil, apenas Palomino e PVC estavam em Port Elizabeth: Trajano ficou em Joanesburgo. E viveu dois momentos marcantes: durante o jogo, alertou o perigo de Felipe Melo ser expulso, para ser definitivo na consumação do cartão vermelho: “Cantei essa pedra!”. No “Linha de Passe” daquele 2 de julho, foi mais ameno do que em 2006, mas nem por isso menos opositor: “Não torci contra, mas o Dunga não merecia ser campeão do mundo”. Juca Kfouri descreveu Felipe Melo como um “débil mental”. E Fernando Calazans deu um peremptório “zero”, nas notas aos jogadores brasileiros que eram dadas no debate, em dias de jogos da Seleção.

Pelo menos, eliminado o Brasil, a tensão (e as críticas pela “torcida contrária”) diminuíram nas transmissões da ESPN. Palomino, PVC e Mauro Cezar Pereira estiveram na final do Soccer City. E chegaram a tempo para o “Bate-Bola” e o “Linha de Passe”. Encerrado à la ESPN da fase Trajano: com vários dos enviados à África do Sul festejando no estúdio e cantando “Pata Pata”, da sul-africana Miriam Makeba, enquanto Trajano se orgulhava publicamente: “Essa turma aqui é de garra!”.


Encerramento do “Linha de Passe” de 11 de julho de 2010, após a final da Copa do Mundo

Bandsports

Narração: Eduardo Vaz, Carlos Fernando e Ricardo Capriotti
Comentários: Mauro Silva, Erich Beting, Fábio Piperno, Mauro Beting, Sérgio Patrick e Beetto Saad
Reportagens: William Lopes
Apresentações: Sérgio Patrick, Silvia Vinhas e Elia Júnior
Participações: Lélio Teixeira, Zé Paulo da Glória, Joelmir Beting, Ivan Zimmermann

A emissora esportiva do Grupo Bandeirantes fazia a segunda Copa seguida. E também tinha a comemorar naquele ano: vivia boa fase, até tendo mostrado a Copa Libertadores da América. No primeiro semestre, tinha a narração de Silvio Luiz. Que estava incluído nas vinhetas publicitárias para a Copa do Mundo, junto a outros integrantes, como Silvia Vinhas e Elia Júnior. Que já até tomara as vacinas antes da viagem à África do Sul. E que estava pronto para narrar sua décima Copa, estando nos jogos do Brasil. No entanto, Silvio também andava em discordâncias com o Bandsports, pela falta de condição dos equipamentos, como o próprio comentou algumas vezes. E a história foi finalizada como o narrador contou a Luiz Ceará, na “Rede TV”, no vídeo abaixo:


Silvio Luiz explicando sua saída do Bandsports, dias antes da viagem para a Copa de 2010

A mágoa do narrador foi dupla: pela falta de explicações sobre o incidente e por ser tirado de sua décima Copa, às vésperas dela acontecer. Restou a promoção de Eduardo Vaz para narrar os jogos da Seleção Brasileira, com Mauro Silva nos comentários. E as 30 pessoas enviadas pelo canal à África do Sul chegaram para trabalhar. Elia Júnior comandou o “Primeiro Tempo na Copa”, versão do matinal que (ainda) apresenta dedicada ao que viria no dia do Mundial; o noticiário “Bandsports News” teria duas edições diárias; e haveria ainda o “Bola Rolando”, debate comandado por Silvia Vinhas. No Brasil, Joelmir Beting fazia sua parte no “Crônicas dos Betings”, enquanto o sobrinho Erich e o filho Mauro também participavam do programa na África do Sul. O trio do “Na Geral” – Lélio Teixeira, Zé Paulo da Glória e Beto Hora – comentava com o habitual bom humor sobre o torneio, como faziam na Rádio Bandeirantes paulista. Humor também vinha do “Dois no Banco”, em que a Copa era acompanhada por dois integrantes pouco próximos do futebol: o narrador Ivan Zimmermann, mais habituado aos esportes americanos, e o narrador/comentarista Celso Miranda, próximo do automobilismo.


Compilação de imagens do “Dois no Banco”, apresentado por Ivan Zimmermann e Celso Miranda no Bandsports durante a Copa de 2010

Aos poucos, foi se vendo mais sinergia com a emissora-mãe. O trabalho dos repórteres da Band era usado no Bandsports; Luciano do Valle e Mauro Beting trabalhavam em México 2×0 França. E aquela Copa marcou uma união irreversível para o Bandsports, por mais que Eduardo Vaz e Mauro Silva é que tenham transmitido a final. Marca não tão forte quanto a da demissão de Silvio Luiz, é verdade…

Na última parte: numa Copa que o sonho da apoteose brasileira virou confusão e apatia após o 7 a 1, uma ausência esteve o tempo todo presente: Luciano do Valle.