Muitas vezes se diz que acompanhar um jogo de futebol no rádio é bem mais agradável. De fato: mesmo em tempos de internet, a agilidade do rádio ainda é invejável – e de certa forma, o estereótipo do torcedor com o rádio colado no ouvido ainda segue, mesmo que talvez o velho “radinho de pilha” tenha sido trocado pelo smartphone. No entanto, há muito tempo, a televisão é algo inescapável na vida de muita gente, no acompanhamento do futebol – e, dentro deste, no acompanhamento de uma Copa do Mundo. Embora a internet caminhe para se tornar o meio preferencial, pela pluralidade de formatos – já se falou até que ela é uma “mídia fagócita”, engolindo o que de obsoleto estiver no caminho -, não é à toa que muita gente cita ser ela ainda uma “segunda tela”, enquanto o foco está nas transmissões televisivas. É assim no mundo todo. É assim no Brasil, que já se acostumou a ver Copas na televisão há tempos.

E por isso, se inicia esta série histórica de doze textos, detalhando como foram as coberturas televisivas brasileiras de cada Mundial. Até mesmo quando elas eram incipientes, como será neste primeiro capítulo, que tentará mostrar como o Brasil viu cada Copa quando o rádio ainda era o veículo de informação preferencial. Isso ainda ocorria em 18 de setembro de 1950, quando a TV Tupi paulista foi a primeira emissora de tevê inaugurada no país. Ainda ocorria em 15 de outubro de 1950, quando se exibiu na Tupi paulista Palmeiras 2×0 São Paulo, no Pacaembu, pelo Campeonato Paulista, a primeira partida de futebol mostrada na tevê brasileira (e também latinoamericana). E ocorreria por um longo tempo.

Até porque, em seus primeiros anos de história no Brasil, televisão ainda era luxo quase inimaginável. Basta dizer que os aparelhos ficavam costumeiramente em locais públicos. E que só havia seis emissoras em funcionamento no país, todas elas com curto alcance. Além da citada Tupi, São Paulo tinha a TV Paulista, fundada em 1952, e a TV Record, inaugurada no ano posterior. No Rio, a Tupi carioca – inaugurada já em 1951, meses após a congênere paulista – teve a concorrência da TV Rio, a partir de 1955. No mesmo ano, em Minas Gerais, surgira a TV Itacolomi (propriedade dos Diários Associados, assim como a Tupi). Todas elas tinham suas equipes esportivas. E todas elas já mostravam até certa tradição na exibição de eventos esportivos.

Muitos dos protagonistas – que faziam de tudo dentro das emissoras, como costumeiro nos primórdios da tevê brasileira – teriam papel importante nesta história. Como Rui Viotti (1929-2009), mineiro que tentou até ser ator antes de merecer aposta como locutor e repórter na TV Tupi carioca. Ou então, um certo Sylvio Luiz Perez Machado de Souza – isso mesmo, o registro é “Sylvio” -, repórter de campo tanto na TV Paulista, onde começou a carreira em 1952, aos 18 anos, como na TV Record, para onde foi no ano seguinte, antes de passar pela Rádio Bandeirantes.

Sem contar os narradores, como Raul Tabajara (1918-1978), que já simbolizava o esporte na TV Record em São Paulo. Ou o histórico Ary Barroso (1903-1964), que da fama antológica no rádio veio para a TV Tupi carioca, nos anos 1950. Ou Luiz Mendes (1924-2011), que fora da Rádio Globo para a TV Rio e já se estabilizava nela (não só no futebol, mas também e principalmente narrando as lutas do “TV Rio Ringue”, noite semanal de boxe que fez fama no Rio de Janeiro entre 1956 e 1963).

Ou um colega de Luiz Mendes tanto na Rádio Globo quanto na TV Rio, apresentador do “TV Rio Ringue”, paulista de Cordeirópolis que emigrara para a capital carioca: João Baptista Belinaso Neto. “Belinaso Neto” era seu nome artístico, mas ao anunciá-lo na estreia pela Rádio Globo, em 1950, Luiz Mendes gaguejou e depois lhe disse, fora do ar: teria de mudar aquele nome. O paulista ofereceu algumas opções. Uma delas homenageava a irmã Leonilda, junto do “Batista”, sem o “p”. Foi a opção unanimemente escolhida. E Belinaso Neto virou Leo Batista – ativo até hoje, aos 85 anos, apresentando a faixa de memória “Baú do Esporte”, no SporTV, além das colaborações habituais na TV Globo em que marcou época.

Como se vê, todos nomes muito ligados ao rádio. Todo um cenário muito ligado ao rádio. E assim seria, nas três primeiras vezes em que a Copa do Mundo foi exibida na tevê brasileira.

1958 

A Europa já poderia assistir à Copa na Suécia ao vivo, por obra e graça da Eurovisão, união europeia de radiodifusão fundada em 1954. O Brasil teria de esperar mais um pouco. O que não significou que a tevê brasileira ficou fora da cobertura do primeiro título mundial brasileiro. Já em novembro de 1957, a Tupi carioca iniciava o “Panair na Copa do Mundo”, programa de entrevistas patrocinado pela estatal aérea brasileira, apresentado por Oduvaldo Cozzi (1915-1978), narrador da emissora – tanto na tevê quanto na rádio (é dele a foto principal deste texto, lá em cima).

Ainda naquele mês, o baiano José de Almeida Castro, diretor da TV Tupi, viajou a Estocolmo, capital sueca, para tentar obter um credenciamento a um câmera da emissora dos Diários Associados. Conseguiu mais: ganhou a exclusividade dos direitos de imagens daquela Copa – que custaram US$ 5 mil, preço inacreditável na realidade atual, pago pelos anunciantes da Tupi.

Claro, falar em “imagens televisivas” é modo de dizer. A Sveriges Radio, emissora estatal do país-sede, gravou algumas partidas em “kinescópio” de 16 milímetros (imagem de filme, formato anterior ao videoteipe, o popular “VT”). Alguns kinescópios exibidos na Europa traziam a íntegra das partidas, mas a maioria só tinham compactos – na campanha brasileira, por exemplo, só foram gravadas na íntegra a semifinal contra a França e a final contra a Suécia.

Fosse em compacto ou na íntegra, porém, a Sveriges Radio enviava os kinescópios das partidas da Seleção para o Rio de Janeiro, onde um enviado da TV Tupi esperava o pacote para prontamente levá-lo à emissora. O filme chegava e era exibido para os brasileiros, com os comentários de Rui Viotti sobre as atuações brasileiras. Na Suécia, Oduvaldo Cozzi narrava as partidas para a rádio Tupi e fazia as reportagens para a tevê, com os câmeras Ortiz Rubio e Orlando Abreu. E além da exibição simultânea pela Tupi paulista e pela TV Itacolomi, os aparelhos de tevê das cidades próximas a São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte conseguiam captar as ondas dos compactos.

Contudo, houve um contratempo para a emissora já na estreia brasileira. José de Almeida Castro o descreveu, em seu livro “50 anos de TV no Brasil”: “O Brasil estreou em Uddevalla e venceu a Áustria por 3 a 0. Um cabograma de Ortiz Rubio (…) trouxe a informação de que a tevê sueca nos remetera o jogo. Armamos todos os esquemas para correr atrás do filme no aeroporto, na alfândega e nos escritórios das linhas aéreas. Felizmente, não havíamos anunciado o dia da exibição. No dia 11, era véspera do segundo jogo do Brasil na Copa e nada havia chegado, para nosso desespero. A grande surpresa foi ver no ar um filme sobre o primeiro jogo em nosso concorrente, a TV Rio. (…) Apurados os fatos, a explicação: o pacote vindo por colis postaux urgente para ‘TV Rio-Brasil’ e eficientemente entregue pelo correio ao canal 13, a emissora que, sim, se chamava TV Rio”.

Só a TV Tupi exibiu imagens dos jogos brasileiros na Copa de 1958, mas Luiz Mendes deu um jeito na TV Rio

Por falar nela, mesmo sem os direitos, além do vídeo inesperado da estreia brasileira, a TV Rio também cobriu a Copa do Mundo. Em março de 1958, lançou o telejornal “Copa do Mundo”, que contava com três debatedores: o narrador Raul Longras, o comentarista Benjamin Wright (pai do futuro árbitro José Roberto – e provável autor do clichê da “caixinha de surpresas”) e Luiz Mendes. Este viajou à Suécia, pela rádio, e deu seu jeito de também obter imagens exclusivas, conforme contou a Alberto Léo no livro “História do jornalismo esportivo na TV brasileira” (Rio de Janeiro, Maquinária, 2017): “Mandamos imagens gravadas. (…) Eu fui lá fazer reportagens com meu cinegrafista Augusto Rodrigues, que usava o Auricon, máquina que antecedeu o videotape, pois gravava o som simultaneamente. Nós compramos ingressos para ficar na arquibancada, do lado oposto de onde ficavam os jornalistas. A câmera Auricon, que não era pequena, a gente deixava numa bolsa que tinha comprado na Suécia. Ela ficava lá dentro, enchíamos a parte de cima da bolsa com sanduíches e refrigerantes. (…) Na hora do jogo, o Augusto tirava a máquina, que já estava com filme, e fazíamos algumas imagens”.

Voltando à Tupi, o mal entendido de Brasil x Áustria foi resolvido. Do segundo jogo em diante, os kinescópios da Sveriges Radio eram enviados à emissora certa. Na vitória da Seleção sobre o País de Gales, nas quartas de final, o “Repórter Esso” (já então, tradicional noticiário) mostrou telefotos do gol de Pelé que definiu o 1 a 0 brasileiro. Seguiam-se os compactos apresentados por Rui Viotti, dias depois das partidas. Finalmente, se a decisão contra a Suécia não foi exibida ao vivo, nem por isso a emoção deixou de ser vivida naquele 29 de junho de 1958: no Rio de Janeiro, os Diários Associados colocaram a narração de Oduvaldo Cozzi para a Rádio Tupi como áudio da tevê, enquanto filmavam a mobilização popular acompanhando o jogo na Cinelândia carioca – e a óbvia festa depois do título. Ou seja: pode não ter sido o primeiro jogo da Seleção Brasileira  exibido ao vivo numa Copa, mas Cozzi, de certa forma, foi o “narrador” da primeira conquista que a televisão brasileira mostrou no torneio.

1962 

Se durante toda a preparação para a Copa o Chile conviveu com as dúvidas sobre sua capacidade para sediar o torneio – dúvidas ainda maiores depois dos violentos terremotos por que passou em 1960 -, não seria diferente no tocante às telecomunicações. O estado rudimentar da televisão chilena era mais uma entre as várias desconfianças com que tinha de lidar Carlos Dittborn, presidente do Comitê Organizador daquela Copa. Aí entrou a Fifa – e um personagem que voltaria a se destacar anos depois: Emilio Azcárraga Milmo (1930-1997), mexicano nascido nos Estados Unidos, magnata das telecomunicações naquele país, simplesmente o fundador do Telesistema Mexicano (hoje, a conhecida Televisa).

O Telesistema se responsabilizou – ou melhor, Azcárraga o fez: tudo de que o Chile precisasse para possibilitar a transmissão dos jogos pela televisão seria enviado do México. Mão-de-obra, equipamentos, tecnologia… e assim foi. Os videotapes com a íntegra dos jogos eram gravados, e de lá iam para toda a América Latina. O que incluía o Brasil. Que por pouco não viu a Copa ao vivo: segundo noticiou a “Revista do Rádio”, em julho de 1962, técnicos brasileiros e norte-americanos estudaram a possibilidade de que um avião-laboratório, equipado com retransmissores, recebesse os sinais acima da Cordilheira dos Andes para os enviar ao território brasileiro. Só os altos custos inviabilizaram o projeto.

Sem problemas: mesmo que só fossem exibidas as partidas da Seleção Brasileira (e mesmo que isso não ocorresse ao vivo), a comodidade já foi maior em 1962. As TVs Record e Tupi fizeram um pool – ou seja, uma união para divisão de custos e transmissão em conjunto -, bancaram os direitos e mostraram a Copa para o Brasil. Jogos realizados e videotapes gravados, as fitas viajavam do Chile para o Brasil, chegavam às emissoras e eram exibidas – em seu livro, Alberto Léo redigiu que isso acontecia no dia seguinte; na sua série de e-books “A grande história dos Mundiais”, Max Gehringer falava em dois dias após a partida.

Walter Abrahão se tornou conhecido na tevê brasileira. E o caminho começou na Copa de 1962

E as duas TVs revezavam suas equipes. Pela Record, Raul Tabajara era o narrador, com Paulo Planet Buarque comentando. Na Tupi, uma dupla paulistana: o comentarista Ary Silva (1917-2001) e o narrador Walter Abrahão (1931-2011). Em sua primeira Copa, Abrahão se converteria num símbolo da Tupi – e num criativo narrador. Partiu dele, por exemplo, a expressão “oxo”, para o placar em 0 a 0. Essas duas duplas faziam a transmissão exibida em cadeia por 20 emissoras de televisão em todo o Brasil. As imagens eram as mesmas. O áudio, também.

A não ser na TV Rio, na primeira partida. Novamente, Luiz Mendes deu seu jeito. Na estreia da Seleção que seria bicampeã, contra o México, em Viña del Mar, o gaúcho radicado no Rio buscou um gravador. De posse dele, gravou os 90 minutos de narração nos 2 a 0 da equipe brasileira. Mandou o áudio para a capital carioca, de avião, às pressas. Resultado: enquanto todas as outras 19 emissoras exibiam a narração das duplas Tabajara-Planet Buarque e Abrahão-Silva, Luiz Mendes era ouvido na TV Rio. Mais vantajoso: o “delay” já existente fez com que a voz de Mendes saísse segundos antes dos gols. Para muitas pessoas, passou por “vidente” – história que sempre contou com bom humor.

Assim como ocorreu em 1958, o fato de ver os jogos um dia após tê-los ouvido no rádio não diminuiu nem um pouco a empolgação dos brasileiros com a exibição na televisão. A vitória sobre a Espanha teve ótima audiência. E a exibição da final contra a Tchecoslováquia, um dia depois do bicampeonato conquistado, deu até certa sequência à festa.

(Imagens da TV Tupi para o VT de Brasil 0x0 Tchecoslováquia, pela primeira fase da Copa de 1962. Arquivo do Banco de Conteúdos Culturais da Cinemateca Brasileira, postado no YouTube por Êgon Bonfim)

1966

Aos poucos, a televisão se valorizava junto ao futebol. Pela primeira vez, a Fifa se responsabilizou pela negociação direta dos direitos de transmissão. E pela primeira vez, estes foram comprados com antecedência: já em 1962, a EBU (European Broadcasting Union, a União Europeia de Transmissão) pagou 800 mil libras (US$ 2,2 mi) para ter a exclusividade dos direitos. Como previsível numa Copa sediada na Inglaterra, a BBC se responsabilizou pelos serviços de programação, transmissão e engenharia, em quatro andares de seu prédio, em Londres. Lá mesmo as imagens iam para a sala de controle – e de lá, não só iam imediatamente para os países afiliados da Eurovisão, como também para os países da América do Norte, graças ao satélite Early Bird, lançado em abril de 1965. De quebra, o centro da BBC ainda cedia espaços para as equipes de transmissão, além das cabines nos estádios. Tudo para a exibição dos jogos… em preto e branco: o sinal da BBC só se tornaria colorido em 1967.

E no Brasil? O número de emissoras se ampliava. Em 1959, surgia a TV Continental, no Rio de Janeiro, e a TV Piratini, no Rio Grande do Sul – esta, mais uma emissora dos Diários Associados. 1960 fora o ano de lançamento da TV Excelsior – e da TV Itapoan, retransmissora dos Diários Associados na Bahia. Sem contar uma certa emissora fundada em abril de 1965: uma certa TV Globo… ainda assim, os direitos foram comprados pelos Diários Associados, novamente com exclusividade. Mas os custos já estavam bem maiores do que os distantes e módicos 5 mil dólares de 1958: US$ 680 mil – na moeda da época, Cr$ 1,5 bilhão, bancado em parte pelo governo (porque os anunciantes não se interessaram em pagar por algo que estaria em todos os canais).

Muitas das emissoras entraram no clima de otimismo antes da Copa, com vários programas especiais. Em São Paulo, a partir de abril de 1966, a TV Excelsior mostrava “Na trilha do tri”, no qual Geraldo José de Almeida (narrador da Rádio Excelsior, que migrara para a tevê em 1964) debatia com os colegas de emissora Carlos Eduardo Peirão de Castro (1930-1989) e Oswaldo Sargentelli (1924-2002), mais alguns convidados: Mauro Pinheiro, o “Senador”, comentarista da Rádio Bandeirantes; Doalcei Bueno de Camargo (1930-2009), narrador da Rádio Tupi; Ricardo Serran, do jornal “O Globo”; Mozart di Giorgio, dirigente da CBD; e Armando Marques, o juiz brasileiro naquela Copa.

Mesmo ainda incipiente, a Globo também pensou num programa especial: “Viva a Copa com a TV Globo”, apresentado por Luiz Alberto, com a participação de Raul Longras. Indo para o Rio Grande do Sul, não só a TV Piratini exibia o “Campanha do Tri”, como a TV Gaúcha (futura RBS) apostava no debate “Três no tri”. Finalmente, no Rio de Janeiro, a TV Rio tinha dois debates. No “Bate-Pronto”, havia a primeira participação televisiva de um sujeito que já fizera história em campo (e ainda faria mais): Zagallo, convidado às pressas para ocupar a lacuna de João Saldanha, então viajando pela Europa. Já às vésperas da Copa, a emissora lançou o “Ducal na Copa do Mundo”: patrocinado pela marca de roupas que o nomeava, tinha como debatedores o jornalista Cláudio Mello e Souza (1935-2011), o advogado e político Rafael de Almeida Magalhães (1930-2011) – muito vinculado ao futebol por toda a sua vida -, Fernando Barros, e dois que dispensavam apresentações: Zagallo e Nelson Rodrigues (1912-1980).

Por sinal, o dramaturgo e escritor era um dos membros fundamentais no debate carioca que mais faria falta na Copa – e que até hoje, 52 anos depois, é considerada a grande mesa redonda da história televisiva brasileira: a Grande Resenha Facit. Interrompida em junho de 1966, deixando a TV Rio onde começara em 1963 e indo para a TV Globo, ela acompanhou as discussões sobre a preparação brasileira para o Mundial. E era impossível deixar de lado o magnetismo exercido pelos participantes da mesa, cada um defendendo seu clube. Nelson Rodrigues, obviamente, do lado do Fluminense, desprezando objetividades; o repórter Vitorino Vieira, pelo Vasco; José Maria Scassa, flamenguista fanático; João Saldanha (1917-1990), botafoguense histórico; mediando tudo, Luiz Mendes. Sem contar as participações comentando o futebol do exterior, com Hans Henningsen – o espanhol que recebeu de Nelson Rodrigues o apelido de “Marinheiro Sueco” – e o jornalista francês Alain Fontan.

Tudo muito bom, tudo muito bem, mas… e os jogos da Copa? Foram exibidos como em 1962: em VT, após o dia dos jogos, pelo pool da Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão. Ainda diretor da Tupi, José de Almeida Castro relatou em seu livro “25 anos de TV via satélite” (Edipromo, 1997) como foi o caminho das fitas, de Londres até o Brasil: “Em julho de 1966, a cobertura em videotape demandou uma trabalhosa e cansativa operação. A TV Tupi do Rio de Janeiro comandava o pool, encarregando-se de recolher as fitas magnéticas enormes, na Inglaterra. (…) Convertidos em tempo recorde pela própria BBC, logo após o final dos jogos (…), os tapes deveriam ser entregues, antes da meia noite do dia do jogo que se realizava à tarde, a um tripulante da extinta Panair do Brasil. (…) Chegando ao Rio de Janeiro, na manhã seguinte, os tapes eram duplicados para serem distribuídos, via aérea, às emissoras de todo o Brasil. A exibição, no período noturno, era feita em horário comum a todos, previamente estabelecido. A operação funcionou com o mínimo de falhas, até o final da Copa”.

No caso da TV Cultura paulista (fundada em 1960), ainda havia uma vantagem adicional: na hora da exibição dos jogos, tendo acesso ao áudio da Rádio Tupi, a Cultura veiculava a narração de Pedro Luiz Paoliello e os comentários de Mário Morais, enquanto gráficos simulavam a posição dos jogadores em campo.

Assim, pela primeira vez o público brasileiro viu outras partidas, além das da Seleção Brasileira – do 12 de julho, um dia após Inglaterra e Uruguai abrirem a Copa com um 0 a 0, até a final. Sem contar a decepção com o fracasso brasileiro, eclipsando totalmente o otimismo nos debates televisivos. Só faltava ver tudo isso ao vivo. Por enquanto, isso só ocorria no rádio. Algo que mudaria para sempre no país a partir da Copa de 1970.

Na próxima parte: a transmissão brasileira da Copa de 1970. Em cores para poucos, o que era para ser um monopólio da Tupi vira parceria – com a Globo tendo “a voz do tri” em Geraldo José de Almeida