Até a abertura da Copa do Mundo, publicaremos a série ‘Copa Puntero’, do Puntero Izquierdo, na íntegra – que você já pôde conferir em links na Trivela. A série traz 11 perfis de personagens que passaram pela história dos Mundiais; no oitavo episódio, o defensor do Espanyol, morto aos 26 anos, homenageado pelo autor do gol do título da Copa-2010. Para conhecer o projeto e apoiá-lo, clique aqui.

por Paulo Junior

Dani Jarque campeão do mundo. Onze meses depois da própria morte súbita, o zagueiro-central grafado no peito ajudou a equilibrar Andrés Iniesta no segundo tempo da prorrogação, chutando cruzado para deixar fugir o maior grito da história de um país apaixonado pelo futebol e jamais vencedor do torneio máximo. Esqueça Raúl, Villa, Torres, Butragueño, Di Stéfano. O lance síntese da melhor seleção espanhola já vista ou a cena de toda e qualquer busca por golo España resistirá perene com um protagonista insólito. Com as palavras, o dono do chute, ao menos segundo a súmula:

“Esse gol ficará para a história, mas Dani também será lembrado porque a imagem do gol, para mim, é quando tiro a camiseta”.

Ali mesmo, em Joanesburgo, mal entrou a batida de Iniesta e rasgavam-se os obituários do jovem defensor, morto na idade-auge, 26. De que valeriam, para o sempre, aqueles textos e memórias escritos no mês de contragosto do ano anterior? Agora ele era campeão do mundo, oras, co-autor do gol do título e homenageado com o nome escrito na camisa do corpo que tomara, Dani Jarque para siempre com nosotros, escancarada na festa pela única vez em que a rede balançou na final da Copa do Mundo de 2010 entre Espanha e Holanda.

Dani Jarque! Foi um espanto total. No estádio, vários dos jornalistas espanhois só viram Jarque, no peito de Iniesta, pela repetição da TV. Sabiam, sim, da amizade entre o meio-campista do Barcelona e o defensor do Espanyol, vítima de um ataque do coração na concentração do time na pré-temporada antecedente, mas a essa altura quem poderia prever a Espanha campeã do mundo com um gol de Andrés carregando Dani numa inscrição por debaixo da Roja?

Jessica, talvez. A esposa, que nunca mais havia assistido futebol desde viúva-grávida, resolveu abrir uma exceção para aquele 11 de julho seguinte. Melhor: antes do jogo, na companhia da filha, contou a sua mãe que tinha a sensação que Andrés marcaria o gol do título. Vá entender dessas coisas: no vestiário dum estádio na África do Sul, Iniesta pediu que o roupeiro da seleção preparasse a famosa camiseta. Voltou do aquecimento e quando tirava a roupa prévia, suada, deu de cara com o tecido riscado em tinta azul, e vestiu. O herói dali uns toques na bola faria o jogo mais importante de sua vida com Jarque colado ao peito.

Teriam um dia falado sobre uma noite de final de Copa? Difícil saber. Mas bons amigos conversam sobre essas coisas, podemos nos arriscar, é claro, ainda mais bons amigos que viajam regularmente. Dani Jarque nasceu nas primeiras horas de 1983 e foi o zagueiro titular da Espanha campeã europeia sub-19 de 2002, na Noruega, com a camisa 7; Andrés Iniesta, ano e meio mais novo, era o meia, com a 9. Não se encontraram na seleção principal, mas, tempos depois de rodarem a Europa nas equipes de base da Furia, compartilhavam da carona nos arredores de Barcelona. Dani vivia em Saint Boi de Llobregat, e passava na casa de Andrés, em Saint Feliu, para irem juntos aos treinos; à buzina, saía com a bolsa de mão o organizador de um dos maiores times do mundo, passageiro do beque central da camisa oposta local. Do papo no carro, logo se dividiam pela rivalidade histórica de clubes e torcidas que não se permitem muitos sorrisos para o lado de lá.

Lado que, aliás, por pouco não foi o mesmo. Aos 11 anos, Jarque batia sua bola no FC Cooperativa de Sant Boi, que compartilhou dum jogo com o Barça. No fim, o interesse inicial de La Masia acabou descartando o menino alto e de boa técnica para seus quadros. Rejeitado para ser culé, meses depois virou perico. Para sempre.

O Espanyol de Jarque

Comparações no futebol são sempre complicadas e não podem ser levadas como verdades absolutas, mas, como este repórter não se recorda de ter visto Dani Jarque atuando pelo Espanyol, foi feita uma pergunta insistente para dois jornalistas locais sobre que jogador tem um estilo parecido com o de Jarque, para se ter como referência.

Ambos citaram Piqué, quatro anos mais jovem que Dani. Quique Iglesias, da Rede Cope, relata uma boa saída de jogo, com muito empenho e determinação. Toni Padilla, do jornal ARA e da revista Panenka, diz que a escola é parecida com a do zagueiro do Barça, com domínio de jogo aéreo e bom posicionamento. “A diferença é que era muito calado. Dizia poucas palavras, somente as palavras exatas para ser capitão, já que não gostava de ser o centro das atenções”.

Função de capitão que não teve tempo de exercer. Era julho de 2009, e o técnico Mauricio Pochettino convenceu Raúl Tamudo a deixar a faixa depois de oito temporadas. Se tratava simplesmente de substituir o cara com mais jogos e mais gols com a camisa azul e branca, e único jogador do Espanyol a atuar nos três estádios que o clube teve — o Sarriá, aquele; o Estádio Olímpico Lluís Companys, remodelado para os Jogos de 1992 e sede do Espanyol a partir de 1997; e o Estádio Cornellà-El Prat, cuja inauguração é simbólica para essa história: em 2 de agosto daquele 2009, na vitória por 3–0 sobre o Liverpool que abriu as portas da nova casa, Jarque usou pela primeira e última vez a braçadeira. Morreu seis dias depois, num hotel em Florença, na Itália, dividindo um quarto com o colega Ferran Corominas.

Seria o início de sua oitava temporada nos profissionais do clube, ainda que as duas primeiras, na faixa dos 20 anos, tenham sido se alternando com o time de jovens. Em 2004 começou a ser mais utilizado, e se firmou de vez nos anos seguintes, sendo titular do time no título da Copa do Rei de 2006, sobre o Zaragoza, e na final da Copa da UEFA do ano seguinte, derrotado para o Sevilla nos pênaltis depois de um empate por 2–2 em Glasgow, na Escócia.

Chegavam ofertas, mas Jarque não quis trocar o clube por camisas com objetivos parecidos e, à medida que as janelas de transferência se fechavam e as sondagens embrulhavam peixes, o zagueiro ia criando mais identificação. “Cada verão vinha com um rumor que colocava Jarque fora do Espanyol, mas já havia sido considerado um símbolo do clube, e parecia que ficaria no Espanyol por toda sua vida, como um one club man”, lembra Quique Iglesias.

As chances na seleção principal, porém, não vieram. Falava-se no nome de Jarque, principalmente pelo fato de Piqué e Ramos serem mais jovens. Quique acredita que, seguramente, Jarque seria convocado um dia; Toni Padilla recorda que ele tinha o mesmo nível de alguns nomes que foram chamados por Luis Aragonés [técnico entre 2004–2008], mas às vezes, em momentos importantes, estava no banco de reservas do Espanyol. Não deu.

O amigo de Iniesta

As homenagens a Dani Jarque são inúmeras, antes e depois do gol de Iniesta no Soccer City: ele é o nome da porta 21 do estádio Cornellá-El Prat, onde também foi inaugurada uma estátua e na cancha em que a torcida local aplaude por todo o 21º minuto de cada jogo, em referência ao número usado pelo ex-capitão. A Espanha entrou em campo num jogo das Eliminatórias com uniformes com seu nome, Fábregas levantou uma camiseta após um gol pelo Arsenal e lembranças também foram feitas na conquista da Euro 2012 pela equipe nacional. No Espanyol, uma camiseta com seu rosto vestiu o troféu Ramon de Carranza conquistado, entre outros momentos em que o zagueiro nunca esteve ausente quando se trata do clube que defendeu por toda a vida.

Mas voltemos a falar de Andrés Iniesta.

A morte de Jarque veio num momento em que as coisas já não estavam tão fáceis para o craque espanhol. Ele foi campeão europeu de 2009 controlando uma lesão, e talvez só um jogador como ele pode entrar em campo numa final continental com a recomendação de evitar chutar a bola ao gol. Faz isso não só com discrição ímpar, como com elegância rara.

Veio a pré-temporada, a notícia da perda do amigo, e Iniesta desabou. Ele conta em seu livro, O Artista, que as coisas iam muito mal, seja física ou mentalmente. Pep Guardiola o liberava de alguns treinos, pode só correr em volta do campo, e para um cara deste nível o rendimento nos jogos não vinha sendo o supra-sumo que se esperava dele em seu ápice. Andrés procurou os médicos do Barcelona de forma privada, sem alarde diante dos colegas de time, em busca de ajuda para um momento psicológico vulnerável e novo. No livro, ele não define aquele período exatamente com a palavra depressão, mas chega a dizer que conseguiu entender como algumas pessoas vão ao limite de cometer uma loucura. Pesado.

Mas veio a redenção maior, a volta do prazer de jogar e a certeza de que as coisas podiam ser divertidas novamente: a final da Copa do Mundo da África do Sul. O gol do título lavou a alma do artista e levou ao mundo a memória do amigo morto. Iniesta recebe de Fábregas, domina e bate cruzado, fazendo 1 a 0 para a Espanha, contra a Holanda, já nos minutos finais do segundo tempo da prorrogação para arrancar a camisa 6 e correr para as arquibancadas — e câmeras — com a regata branca de letreiro à caneta:

DANI
JARQUE
SIEMPRE
CON
NOSOTROS

Em minutos, a Espanha seria campeã do mundo pela primeira vez, ufa!, coroando a mais talentosa e influente de suas gerações de boleiros. Toni Padilla, das tribunas de imprensa do estádio da decisão, recorda que a turma de jornalistas espanhois demorou a ver o detalhe da homenagem. “Foi como um gol muito devagar, em câmera lenta” — quem não se lembra de um gol que cega, estaciona o tempo? Quique Iglesias, à época enviado do Diario AS para a cobertura do Tour da França, assistiu ao jogo com outros compatriotas direto de Morzine, nos alpes franceses — “uma surpresa total, uma experiência inesquecível”, diz, ao lembrar do Dani Jarque estourando a tela da TV.

Desde então, Iniesta é o jogador barcelonista mais amado da história do rival. Não haveria tempo aqui para entrar em muitos detalhes sobre a rivalidade entre Barça e Espanyol, mas o parêntese é indispensável. Dualidade essa relacionada aos tamanhos, à disputa local, ao número de títulos, à repercussão internacional mas, acima de tudo, às questões políticas históricas, quando o Barcelona se torna desde os tempos do general Franco uma base de resistência catalã. O Espanyol, primeiro time do país formado majoritariamente por nascidos na Catalunha, acabou ficando para trás nessa construção da imagem de ligação ao território autônomo, consumando uma percepção de associação a Madri e, por exemplo, só nos anos 1990 voltando a ter um nome em catalão. No fim, são vários tons de cinza numa relação complexa, como por exemplo o fato de torcedores do Espanyol reconhecerem no clube o legítimo representante catalão, time do atleta da Catalunha com mais gols na primeira divisão — Raúl Tamudo — e do jogador que mais vezes defendeu a seleção catalã — Sergio González. Muitos questionam o marketing culé sobre a causa, e lamentam que, mundo afora, resistência nacionalista por lá signifique solamente Barça.

Dito isso, nesse contexto de narrativas em confronto, Iniesta convive com uma idolatria inédita. Ao tempo que o impasse catalão ganhou novos capítulos, o Espanyol e sua torcida o veneram. Ernesto Valverde, atual técnico do Barcelona, por exemplo, jogou e treinou os Blanquiazules, e então frequenta o carinho e o respeito pelo passado com a camisa e o boné do clube. Pelo passado do lado de cá, registra-se. Com Iniesta o negócio é atemporal, imperecível. E olha que, ainda que não seja Ronaldinho Gaúcho ou Neymar, Andrés representa também a era do Camp Nou midiático, milionário, cadeira cativa da Champions League, representa exatamente esse Barça que se vende como ‘mais que um clube’ — e que os pericos não suportam.

Mas, enfim, Andrés, depois de ajudar a rasgar os obituários e reviver Dani Jarque na África do Sul, agora guarda numa gaveta no litoral da península todas as diferenças entre os clubes que protagonizam uma das mais sensíveis rivalidades do mundo. Modera o antagonismo com a leveza de quem já controlou, ao seu pulso sereno, toda espécie de jogo grande que já se viu. Abrigou homenagens, foi reverenciado pela diretoria em atos oficiais e acabou, nos anos seguintes, ovacionado sempre que pisou no Cornellà. Um representante do maior símbolo catalão que deu o título mundial à Espanha e é amado pelo seu rival local em Barcelona. E fez, dum amigo saudoso, campeão do mundo. Histórias do futebol, no fim das contas, siempre con nosotros.