Até a abertura da Copa do Mundo, publicaremos a série ‘Copa Puntero’, do Puntero Izquierdo, na íntegra – que você já pôde conferir em links na Trivela. A série traz 11 perfis de personagens que passaram pela história dos Mundiais; no sexto episódio, o ganês que teve o gol defendido pelas mãos de Suárez e, depois, ainda perdeu o pênalti no Soccer City. Para conhecer o projeto e apoiá-lo, clique aqui.

por Alexandre Rodrigues

Vinte e dois minutos às vezes não dão para nada, mas descobri, por exemplo, que com menos tempo, dezessete, dá para ser expedida uma aposentadoria fraudulenta — sobram cinco para um café. Não tem a ver, acho, mas também foram 22 minutos que no dia 7 de junho de 1978 ficou claro que algo tinha mudado no futebol brasileiro.

Quarenta anos depois, não recorri ao vídeo — mas meu olhar de garoto guarda a ação, então vai uma narrativa de memória. Era um Brasil x Espanha que terminou zero a zero na segunda rodada da Copa do Mundo da Argentina, em 1978. A seleção, que já tinha empatado com a Suécia, jogou mal. Por duas vezes o gol adversário foi evitado em cima da linha por Amaral, zagueiro do Corinthians, e foi assim, “Amaral!”, que guardei aqueles dois momentos. Mas o fato determinante é que do lado de fora, aos 16 minutos do segundo tempo, Jorge Mendonça deixou o banco para se aquecer.

Brasil e Espanha brigavam pela bola e lá estava Jorge Mendonça se aquecendo. Dentro de campo, Zico, Rivelino, Reinaldo, Nelinho e outros tentavam, mas a Espanha era melhor. Ao lado, ainda sem poder ajudar, Jorge Mendonça se exercitava, solitário. Depois de um certo ponto não importava tanto o que se passava em campo, pois Jorge Mendonça continuava a correr e saltar e girar os braços e a cintura e era nos movimentos dele que locutores, repórteres e a torcida pareciam prestar mais atenção.

“Não é possível, ele continua a se aquecer”.

“Deve ser um recorde mundial”.

O aquecimento, para resumir, durou os tais vinte e dois minutos, quase metade do segundo tempo. Jorge Mendonça finalmente entrou no lugar de Zico aos 38. Com sete minutos em campo, não teve muito o que mostrar e o Brasil foi para a terceira partida, contra a Áustria (que grupo dos infernos), precisando vencer.

Depois do jogo, o preparador físico tratou o procedimento como normal. “O técnico pediu e eu preparei o jogador, apenas foi um aquecimento mais prolongado”. Ainda culpou as baixas temperaturas, lembrando a experiência de um recente jogo em Paris, em que “os reservas da França se movimentavam a toda hora para se manterem aquecidos contra o frio”. Era o assunto do dia seguinte, mas o jogador não entrou na polêmica: “Cumpria ordens do preparador e do técnico. Foi muito bacana ficar me aquecendo na beira do campo. Não foi feio e nem vergonhoso. Mostrou que eu estava pronto para servir à seleção brasileira”.

No livro Veneno Remédio — o futebol e o Brasil, José Miguel Wisnik vê no episódio um sintoma de uma profunda e persistente mudança no papel do técnico. Jorge Mendonça não era qualquer jogador, mas um cracaço, meia do Palmeiras onde foi substituir, com brilho, ninguém menos do que Ademir da Guia. No Náutico, para onde foi depois de ser revelado pelo Bangu, foi goleador do título estadual de 1974, com 24 gols, e se notabilizou por ter marcado os oito da goleada sobre o Santo Amaro, por 8 a 0, em agosto daquele ano. Fez o gol do título do Palmeiras no estadual de 1976 e, um ano depois, assumiria a camisa 10 do Divino, que estava se aposentando. O fato de que mesmo assim era deixado no aquecimento com tanta despreocupação pelo técnico Claudio Coutinho foi uma demonstração de autoridade.

O linguajar complicado, a confusão entre ciência e cientificismo, os superpoderes de Vanderlei Luxemburgo em quase todos os clubes por onde passou, as grosserias de Dunga, o fascínio do treinador com diploma em contraponto ao boleiro — símbolo eterno de nosso atraso com sua mania de ir a campo de agasalho — têm algum parentesco com o debate que cercava o futebol quando o militar da reserva assumiu a seleção em 1978, após uma passagem pela seleção olímpica, dois anos antes.

Coutinho foi alçado ao cargo numa época em que vários nomes ligados ao regime acabaram no futebol — os delegados Antônio Lopes e Hélio Vígio, este atuante numa época sombria da polícia carioca, por exemplo, eram preparadores físicos do Vasco. O próprio comandante da CBD, antecessora da CBF, Heleno Nunes, era um almirante da Marinha. Já o então preparador físico pulou das fileiras do Exército para a comissão técnica do Brasil, que se preparava para a Copa do México, em 1970.

A história completa da relação entre a ditadura e o futebol ainda está por ser totalmente contada. Mas o fato é que o regime soube usar o esporte como propaganda, seja na conquista do tri no México, a criação do Campeonato Brasileiro, em 1971, ou o famoso slogan “Onde a Arena vai mal, um time no Nacional”, que inchou a competição aos inacreditáveis 94 clubes de 1979.

Seria injusto atribuir a presença de Coutinho só a seus laços com a ditadura, mas poucas vezes uma ascensão foi tão fulminante. Tinha apenas seis meses de experiência em 1977, quando seu nome foi anunciado. Também é curioso olhar o cenário de como a figura do técnico se transformou entre a Copa da Alemanha, em 1974, e a da Argentina, quatro anos depois.

Em 1970, João Saldanha foi retirado do cargo ao responder à sugestão do governo Médici de convocar Dario. Diz-se que Feola, campeão em 1958, fora ter enfrentado a sublevação de alguns jogadores como Didi e Nilton Santos, para escalar Pelé e Garrincha, dormia durante as partidas. Um treinador havia muito não era mais quem entregava a camisa de titular aos melhores, mas não estava tão longe.

Em 1974, no entanto, Rinus Michels apareceu com a ideia de futebol total e o status do técnico de futebol saltou a um novo patamar. Não se tratava mais tanto das habilidades individuais e coletivas de um grupo de jogadores. Um treinador era capaz, feito um estrategista, de vencer um jogo como generais vencem batalhas. O Brasil, na semifinal, foi uma das seleções abalroadas pelo esquema holandês, caindo por 2 a 0 na semifinal. Naquela partida, perante o “Carrossel”, a seleção pareceu desorganizada e, pior, antiquada.

O Brasil, além de tudo, ainda vivia o fim do “milagre” econômico, liderado uma equipe de tecnocratas, Delfim Netto à frente. Coutinho, jovem, atlético, tinha a figura, o discurso e a personalidade para conduzir a modernização que todos desejavam. Mesmo a chocante opção de não convocar Falcão, um dos maiores jogadores de sua geração, para a Copa, fazia parte desses novos conceitos — Chicão, o volante do São Paulo escolhido para o seu lugar, era a prova de que o futebol agora se praticava com a ocupação de espaços.

É um contexto em que tudo converge para a eternidade que Jorge Mendonça passou no aquecimento ao lado do campo. É claro que Coutinho tinha suas razões, mas, sejam quais forem, deixar um dos maiores jogadores do futebol brasileiro de então naquela espera era algo que não aconteceria em outra época, mas aconteceu naquela. E aconteceu naquela porque um treinador podia fazer.

A chegada de Coutinho à seleção significou algumas inovações, como o overlapping, com o apoio do lateral, os meias polivalentes ou as jogadas para o “ponto futuro”, a bola ser lançada em um espaço ainda por ocupar. Mas a verdade é que na única Copa em que comandou o Brasil as novidades não fizeram diferença e o futebol burocrático só melhorou mesmo com Jorge Mendonça no time. No lugar de Zico, virou titular na partida seguinte, vitória de 1 a 0 contra a Áustria.

Os jornalistas e torcedores estrangeiros agora se perguntavam quem era o jogador driblador e de passes precisos. O Brasil terminou em terceiro, depois de perder a chance de ir à final pelos estranhos 6 a 0 da Argentina sobre o Peru. Na volta, Claudio Coutinho declarou o Brasil o campeão moral do torneio.

Passada a Copa, Coutinho conseguiu no Flamengo botar seus conceitos em prática, conquistando um tricampeonato carioca e um Campeonato Brasileiro com o time que seria campeão mundial no ano seguinte. Morreu quando praticava pesca submarina em 1981. No mesmo ano, Jorge Mendonça, que ainda ficou no Palmeiras até 1980, entre muitas brigas e desentendimentos, foi primeiro para o Vasco substituir ninguém menos que Roberto Dinamite, que fora vendido (mas voltou e tomou a vaga no ataque), depois para o Guarani, onde teve o melhor ano da carreira, marcando 38 gols no Campeonato Paulista e 58 no total.

Era de esperar que fosse lembrado por Telê Santana para a Copa de 82, mas desde o Palmeiras tinha uma relação difícil com o técnico, que o considerava indisciplinado e pouco marcador. Telê foi o responsável por sua dispensa no clube após um jogo contra o Flamengo, no Rio, em que o meia deixou a concentração para se divertir na noite carioca. A segunda Copa do Mundo seria um prêmio para seu talento, porém acabou de fora da lista. O choque foi tanto que ele nunca se recuperou.

Começava a fase de decadência que durou até a morte, em 2006, depois de um longo problema com o alcoolismo e a depressão. Ainda como jogador, passou por Ponte Preta, Cruzeiro, Rio Branco (ES), Colorado (PR) e Paulista (SP) antes da aposentadoria, em 1991. Morreu pobre e esquecido, apesar de ter apenas 51 anos.

Com a seleção, teve 7 vitórias e 4 empates, sem perder nenhuma vez. Nunca mais disputou um Mundial.