Desta segunda até a abertura da Copa do Mundo, publicaremos a série ‘Copa Puntero’, do Puntero Izquierdo, na íntegra – que você já pôde conferir em links na Trivela. A série traz 11 perfis de personagens que passaram pela história dos Mundiais; no terceiro episódio, o zagueiro do Zaire que saiu da barreira e cobrou uma falta marcada para o Brasil — ‘deliberadamente’

por Igor Costoli

Quem vê a cena pela primeira vez costuma reagir de duas formas. O riso e o espanto (seguido de riso). A inesperada saída da barreira. Rivelino escapando por muito pouco de uma bolada. O gesto com as mãos, indicando que teria ouvido o apito. A expressão séria, mas desconfortável do árbitro. O narrador incrédulo sobre o que acabou de assistir.

Nesse vídeo de 1974 o apresentador John Motson se refere ao lance como “esse bizarro momento de inocência (da equipe) africana”. Como são várias, até hoje, as referências jocosas a esse lance como o perfeito exemplo do quão atrasado é o futebol da África.

Mesmo seus companheiros seguiram incrédulos por décadas. “Não faço a menor ideia do que passou pela cabeça dele”, disse o ex-atacante Kakoko Etepe em entrevista de 2014 ao site da FIFA. “Ele nunca se explicou de verdade e isso continua sendo um mistério para nós”.

Como foi possível que um jogador capaz de tamanha bobagem chegasse por acidente a uma Copa do Mundo? Bem, a resposta é simples: já em 1974 esse tipo de amadorismo não era possível. Mwepu Ilunga, o homem que saiu da barreira e entrou para a história, sabia o que estava fazendo.

O feito africano

O país que hoje é a República Democrática do Congo (também conhecido como Congo Kinshasa) era inicialmente o Congo Belga. Mas, de 1971 a 1997, ele era o antigo Zaire, nome com o qual se tornou a primeira nação da África subsaariana a jogar uma Copa do Mundo.

A quantidade de nomes é reflexo da instabilidade histórica da região, que teve países criados e divididos arbitrariamente entre colonizadores europeus e, posteriormente, deixados à própria sorte na mão de assassinos. No caso do Congo Belga, as mãos de Mobutu Sese Seko, descrito pela revista Time como “o típico ditador africano”.

Mobutu assumiu o poder com um golpe dado em 1965, mudou o nome do país em 71 e governou até seu exílio e morte em 97. Vale um parêntese para a tradução de seu nome completo para o português: “O Todo Poderoso Guerreiro que, Por Sua Força e Inabalável Vontade de Vencer, Vai de Conquista em Conquista, Deixando Fogo em Seu Rastro”.

Além do nome do país, o Todo Poderoso mudou também o apelido oficial da seleção zairense de Leões para Leopardos. Mobutu era fã do animal, tinha um de estimação, e adotou um chapéu de pele de Leopardo para compor sua imagem, peça que ele frequentemente combinava com outras do seu vestuário.

Mwepu Ilunga começou a carreira aos 17 anos no TP Englebert, que mais tarde viria a se chamar Mazembe (sim, aquele). Pelo clube, o lateral-direito conquistou por duas vezes a Liga dos Campeões africana, em 1967 e 68, além de dois vice-campeonatos, em 69 e 70. Foram quatro finais continentais africanas seguidas (feito depois igualado apenas pelo Al-Ahly com as finais de 2005 a 2008).

Esse período de ouro do futebol do Zaire que começou com o Mazembe coroou a seleção nacional com seu primeiro título da Copa Africana das Nações em 1968. Em 74, agora com 25 anos, Ilunga fez parte do time que conquistou o bicampeonato.

Os colegas descrevem Mwepu como um atleta de preparo físico acima da média, bom de desarme e que não perdia divididas. Ex-capitão daquele time, o zagueiro Tschimen Bwanga revelou aos risos o apelido do companheiro: Youda.

“Você sabe o que Judas fez com Jesus Cristo, certo? Bem, nós o chamamos assim porque quando ele estava no campo ele não tinha amigos ou irmãos (risos). Em campo, ele era um lobo, não estava para brincadeiras, frequentemente insultava os adversários para intimidá-los”, contou à revista francesa So Foot.

Além de Mwepu, dois atletas se destacavam naquele time. Um deles era o goleiro Mwamba Kazadi. O outro era o atacante Ndaye Mulamba, artilheiro da competição com nove gols, recorde que perdura até hoje. Guarde esses nomes.

Tudo era festa para os Leopardos. O voo de volta após conquistar o continente foi no avião do próprio Mobutu. Os atletas foram tratados como membros da realeza e cada um ganhou um carro de presente. As promessas eram de muito dinheiro por uma boa Copa.

Anos depois, Mwepu contou que “os generais de Mobutu sentiram tanta inveja dos presentes que depois ele precisou comprar um carro para cada um para acalmá-los”. Hoje, essa passagem parece menos uma demonstração do poder e dos caprichos de um ditador africano e seu entourage e mais o início da desgraça que se abateu sobre a seleção.

O malfeito africano

O Zaire não foi mal no seu primeiro jogo em uma Copa do Mundo. A derrota por 2×0 para a Escócia era um resultado até previsível para um time de estreantes. Mas os atletas que viajaram sonhando fazer história e, talvez, riqueza na volta ao Zaire foram então informados após o jogo que não receberiam premiação. Foi aí que uma guerra estourou nos bastidores.

O ditador zairense não viajou com o grupo para a Alemanha, mas grande parte da delegação era formada por ministros e membros do exército. Os jogadores ficaram furiosos, acreditando que estavam sendo roubados pelos agentes do governo.

Não era uma conclusão absurda. Fora o episódio dos carros, Mobutu tinha desejos de grandeza para sua imagem no exterior. Só naquele ano, o país realizou um enorme festival de música e sediou a histórica luta Muhammad Ali vs. George Foreman no país. E o futebol era parte importante desse projeto de divulgação nacional. “Mobutu era como um pai para a gente”, Ilunga teria dito segundo matéria da BBC.

Só que 1974 não era 2014, em que o mundo inteiro soube que as seleções de Gana, Nigéria e Camarões protestavam por seu direito às premiações. A comunicação e a cobertura jornalística melhoraram muito — ainda que, em contraste, a situação das seleções africanas se mostre tristemente a mesma.

Os atletas do Zaire não tinham redes sociais nem acesso à imprensa. O que eles tinham era um Mwepu Ilunga, um dos líderes do grupo que por muito pouco não abandonou a Copa.

Apesar das mais de quatro décadas, foi só há cerca de 20 anos (os últimos dez, em especial) que o assunto começou a ser apurado com mais atenção. O efeito dessa janela temporal é a existência de versões (e declarações) com detalhes ligeiramente (ou bastante) diferentes.

Essa é a primeira delas. Alguns dizem que o próprio time acabou convencido de que o certo seria jogar. Outros, que a organização do Mundial teria pago uma quantia aos jogadores temendo que eles cumprissem a ameaça e manchassem a imagem do torneio.

Chegou então o segundo jogo, contra a Iugoslávia. Na véspera da partida, o técnico dos Leopardos, o também iugoslavo Blagoje Vidinic, foi proibido de dar entrevista coletiva. Em seu lugar, falou um representante do governo:

“Temos razões para acreditar que autoridades iugoslavas convenceram nosso técnico a revelar nosso plano de jogo, por isso o colocamos em isolamento e faremos algumas mudanças”, disse o emissário.

Nunca ficou claro o papel do técnico nos protestos, mas ter sido impedido de falar abre margem para imaginar que estivesse ao lado dos atletas. De qualquer forma, perdura até hoje a tese de que o problema de Vidinic com seus superiores começa quando ele manda embora os feiticeiros (os melhores do país, segundo algumas fontes) que foram enviados com a delegação para tratar os jogadores durante o Mundial.

Aos 18 do primeiro tempo, já com os iugoslavos vencendo por três gols, Vidinic realizou a primeira substituição de goleiro em toda a história das Copas que não foi motivada por lesão. Tirou Kazadi do jogo e mandou a campo o reserva Dimbi Tubilandu. Seu primeiro toque na bola foi buscar o quarto gol na rede.

Alguns jornais colocam essa e outras trocas na conta do Ministro dos Esportes do Zaire, que durante o jogo exigiu que fossem a campo jogadores que seriam da preferência do ditador Mobutu. Hoje é possível especular se o grupo estava dividido entre jogar ou protestar, o que explicaria as estranhas substituições.

Não dá para saber ao certo se houve um boicote geral, parcial ou se não havia condição psicológica após tantos problemas. Fato é que, sem saber o que acontecia nos bastidores, o mundo viu uma seleção nem melhor nem pior que aquela Escócia da estreia fazer 9×0 contra os africanos.

Além da substituição de um goleiro por outro que levou mais seis gols, esse jogo foi marcado por outro lance curioso. Ao contrário do que diz a locução do vídeo, Ndaye Mulamba não foi expulso por reclamação. O até hoje maior artilheiro da Copa Africana de Nações recebeu o cartão vermelho porque o árbitro colombiano Omar Delgado atribuiu a ele um chute que levou na bunda.

Ndaye acabaria injustamente se tornando um dos vilões da derrota. Isso porque, apesar de levar a punição, o autor do chute nas nádegas do juiz foi outro. Acertou quem disse o nome de Mwepu Ilunga.

Se Mobutu sabia ou não dos protestos, com o vexame internacional isso não fazia mais diferença para seu ego. A própria Guarda Presidencial foi enviada ao hotel para dar o recado aos jogadores: se perdessem o último jogo por quatro ou mais gols eles não voltariam para casa (“com vida”, acrescentam alguns textos, no que mais parece um exagero causado por erro de tradução). O próximo adversário era o então campeão do Mundo, o Brasil.

O medo africano

O Brasil começaria a partida em terceiro lugar do grupo, um ponto atrás da Escócia e da líder Iugoslávia, que tinha saldo de nove gols. O atual tricampeão havia empatado seus dois primeiros jogos e estava fora da zona de classificação.

Os zairenses sabiam o que os esperava: precisando vencer e dar uma resposta, a seleção brasileira viria para golear. 3×0 era, ao mesmo tempo, o mínimo que o Brasil precisava para se classificar sem depender do outro jogo e o máximo pelo qual o Zaire poderia perder para voltar para casa.

Jairzinho abriu o placar logo aos 12 minutos. Mas desta vez os Leopardos mostraram seu potencial. Resistiram bravamente e impuseram muita dificuldade para o Brasil entrar em sua grande área.

A solução brasileira veio de fora dela. Aos 21 do segundo tempo, Rivelino acertou um petardo sem a mais remota chance de defesa para Kazadi. Mas, aos 34, o goleirão falhou em chute cruzado de Valdomiro.

O Brasil estava classificado e o Zaire precisava gastar tempo. Era preciso segurar aquele placar. Mirandinha foi então derrubado na entrada da área minutos depois do terceiro gol. Falta de boa distância, com Jairzinho e Rivelino discutindo quem iria para a batida.

Foi quando Mwepu Ilunga deu o seu show.

Salto para o futuro

O jogo terminou mesmo 3×0. Alívio zairense. Os jogadores puderam voltar ao país, mas os problemas não haviam acabado. Foram todos mantidos reféns no Palácio Presidencial por quatro dias, até que Mobutu decidisse o seu destino.

Não há relatos de que tenham sofrido violência física. O fato de terem sido liberados pode indicar que Mobutu aceitou que o problema tenha partido de seus agentes.

Só que o estrago na reputação do país já estava feito. Com três derrotas, 14 gols sofridos e nenhum marcado, o Zaire fez a pior campanha da história das Copas naquele que é até hoje seu único Mundial disputado.

Mobutu desistiu do esporte e cortou todos os recursos do futebol. Impediu, inclusive, que participassem das Eliminatórias para a Copa de 78, sob o argumento de que os atletas “não eram patriotas o bastante”.

Os heróis de 68 e 74 se tornaram infames e muitos caíram no esquecimento. O goleiro Mwamba Kazadi morreu na pobreza. Em 2010, uma equipe de TV encontrou o atacante Ekofa Mbungu trabalhando como taxista ao volante do carro que ele e seus companheiros receberam de Mobutu. Ndaye Mulamba jogou até os 38 anos, chegou a treinar um clube na África do Sul, mas hoje vive em Kinshasa, numa situação financeira bastante limitada. Kakoko Etepe trabalhou numa fábrica da Mercedes até 77, ano em que foi enviado para fazer cursos na sede da montadora. Foi sua sorte. Quando o VfB Stuttgart descobre que havia ali alguém que jogara o Mundial, Etepe retorna ao futebol por mais alguns anos até se aposentar na Alemanha.

Em 2013, Ilunga e Tshimenu Bwanga fizeram um protesto e reivindicaram ao então Ministro do Orçamento o pagamento de uma ajuda financeira aos heróis de 1974. Foi acertado um soldo mensal de $500 a todos os ex-integrantes da primeira seleção negra africana a disputar uma Copa do Mundo. Foram pagos apenas quatro meses…

Mwepu jogou no Mazembe até 1980 e passou a trabalhar com a formação de atletas. De perfil rígido e disciplinador, rodou pelas categorias de base de outros clubes de Kinshasa até 2004, quando recebeu convite para voltar à seleção como membro da comissão técnica. Apesar da fama de bravo, de vez em quando algum atleta deixava a barreira nos treinos e chutava a bola longe para risos de todos. Não se sabe se ele achava graça também.

Em janeiro de 2015, ele esteve na Guiné Equatorial com a República Democrática do Congo que disputou a Copa Africana das Nações. Foi quando o fígado mostrou os primeiros sinais de doença hepática. Depois de longo período internado, Mwepu Ilunga faleceu em 8 de maio de 2015, em Kinshasa, aos 66 anos.

O mistério africano

Voltemos ao lance de 1974 e entremos uma última vez no campo da divergência histórica.

Autor do livro Death or Glory — The Dark History Of The World Cup (sem tradução para o português), o escritor britânico Jon Spurling passou anos conversando com jogadores, dirigentes, jornalistas e torcedores ao redor do mundo em busca de respostas para casos obscuros do esporte, como o papel da ditadura argentina na Copa de 1978, por exemplo.

Um dos temas que pesquisou foi justamente a participação do Zaire na Copa da Alemanha. Segundo Spurling, a atitude de Ilunga teria sido, na verdade, um ato bem calculado para fazer cera. Naquela época, um jogo não tinha tantas bolas para reposição como hoje.

“Você acha que eu me faria passar por idiota deliberadamente? Você precisa lembrar que estávamos jogando por nossas vidas”, disse Ilunga em entrevista para o livro.

Mas há uma resposta diferente que BBC Britânica e The Guardian creditam ao mesmo Ilunga, numa entrevista dada em 2010. “Eu fiz aquilo deliberadamente. Eu tinha noção das regras. O que eu não tinha era razão para continuar jogando e me machucando enquanto aqueles que se beneficiavam financeiramente assistiam de suas coberturas. Conheço as regras muito bem, mas o árbitro foi brando e me deu apenas o cartão amarelo”, explicou.

Entre as duas declarações, o único ponto comum é a palavra “deliberadamente”.

Há um detalhe importante na entrevista de Kakoko Etepe para o site da FIFA. A matéria (com texto apenas em francês) sobre o aniversário de Brasil x Zaire ignorou completamente o que aconteceu nos bastidores da delegação africana.

No melhor estilo não-misturar-futebol-com-política (já misturando) da entidade, a frase “anos depois, Ilunga justificou seu gesto alegando um ato de protesto” foi a única sobre o assunto nos mais de 5 mil caracteres do texto. O que sugere uma tentativa de apagamento do pano de fundo histórico.

O herói desastrado tentando salvar sua equipe. O homem que protestou até o fim. Afinal, qual destes é Mwepu Ilunga? Um pouco de cada e nenhum dos dois.

Mwepu não aguentava mais falar sobre o assunto quando, em 2014, deu à revista So Foot a sua última palavra: “nós perdemos os dois primeiros jogos”, ele começou, com a voz cansada. “Não tínhamos mais pelo que jogar, estávamos cumprindo tabela, ninguém tinha motivação e os brasileiros continuavam discutindo quando o árbitro apitou. Aquilo me irritou, então eu saí da barreira e isolei a bola. Eu queria ser expulso, mas o juiz só me deu cartão amarelo”, lamentou.

No fim das contas, histórias de heróis e vilões no futebol podem ser opostas, mas elas partem do mesmo lugar: todos ali estão tentando o seu melhor. Ainda que você possa sair de uma semifinal no Mineirão como Toni Kroos ou David Luiz, sua intenção inicial era de se apresentar bem, de mostrar o máximo que fosse possível.

Ao “errar deliberadamente”, Ilunga viveu o mesmo, talvez da pior maneira possível. Foram décadas até que ele e seus colegas tivessem sua história contada. Mwepu foi um agente do caos, na expulsão do colega e no lance inédito, jamais repetido. Colocou as duas partidas na história das Copas com um protesto que ninguém entendeu (ou que só foi entendido por quem realmente importava).

O ditador Mobutu não era o único que tinha um nome incrível. Em 2004, “Ilunga” apareceu no topo de uma lista elaborada por cerca de mil linguistas como a palavra mais intraduzível do mundo. Seu significado: “Uma Pessoa Que Está Pronta Para Perdoar Qualquer Ofensa Pela Primeira Vez, Tolerar Uma Segunda Vez, Mas Nunca Uma Terceira Vez”.

Para Mwepu Ilunga, a ofensa já havia ultrapassado o limite. Sua vingança foi eternizar o momento mais várzea já visto em toda a história do maior evento esportivo do planeta. Fosse por razão nenhuma, já não seria pouca coisa.