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A Copa que lavou a alma das Copas do Mundo

A Copa do Mundo de 2014 não acabou. Exatamente, ela não acabou. Você viu o Brasil dar vexame nas semifinais, a Alemanha vencer a Argentina na final, Lahm levantar o troféu, as placas na beira do Maracanã mostrarem um “nos vemos na Rússia”. Viu tudo o que pode caracterizar o encerramento do torneio. Mas o Mundial não acabou. E ainda demorará muito para acabar.

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Muita gente já está olhando para o que ocorreu no último mês e concluindo que estivemos diante de uma das melhores Copas de todos os tempos, talvez a melhor. O Brasil teve resultados surpreendentes na organização, ainda que jamais devamos esquecer os diversos erros cometidos. A população brasileira também ajudou, criando clima de hospitalidade e festa dificilmente igualáveis. Mas o que realmente marcou neste Mundial foi o que ocorreu dentro dos estádios.

A Copa do Mundo estava com dificuldade para se justificar tecnicamente falando. As três últimas edições, justamente as que coincidiram com a internacionalização completa do futebol, foram fracas. Em 2002, o excesso de zebras matou a possibilidade de jogos épicos entre grandes potências. Em 2006 e 2010, o defensivismo foi a tônica, e alguns jogos de alto nível técnico se misturavam com os ruins pelo denominador comum: a falta de gols.

Não foi raro, nesses momentos, pessoas defenderem o fim do futebol de seleções, dizerem que a Copa do Mundo estava morrendo com a globalização dos clubes, que o torcedor não tinha mais a mesma conexão com aquilo tudo, que era um modelo em decadência. Nem alguns bons sinais em Eurocopas, como a edição de 2008, serviam de consolo.

O Mundial de 2014 acabou com isso. Dentro de campo, as seleções apresentaram estilos ofensivos. A média de gols beirou os 3 ao final da primeira fase. O índice caiu no mata-mata, mas não por renúncia das equipes em buscar o placar a seu modo. Se Copas do Mundo mostram tendências – na verdade, o mais justo é dizer que elas reforçam as tendências já existentes nos clubes – para o futebol, a sensação é que o momento é dos ataques. Novas formações ofensivas, novas estratégias para propor o jogo ou para explorar os buracos do adversário. Já tem sido assim na Champions League. No final, a Copa terminou igualando o recorde de gols em números absolutos (171, empatado com 1998).

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A grande novidade, porém, veio das arquibancadas. Os Mundiais viraram uma ode à assepsia da Fifa. Tudo bonitinho, tudo organizadinho, tudo asséptico. Esse padrão foi repetido no Brasil, mas nem a entidade conseguiu impedir o furacão latino-americano. E isso deu um molho extra ao torneio.

Para mexicanos, costarriquenhos e sul-americanos, um Mundial no Brasil é uma oportunidade raríssima de ver o torneio in loco. E foram diversas marés. As amarelas de Equador e Colômbia, a verde do México, as azuis de Argentina e Uruguai, as vermelhas de Costa Rica e Chile. Os brasileiros, ainda que com comportamento errático em alguns momentos, entraram na brincadeira. Não se abstiveram de secar os grandes, tirar sarro, saudar os grandes craques. E, nos confrontos entre sul-americanos, pudemos ver grandes duelos de torcedores.

O som de fundo da Copa foi diferente. As arquibancadas jogavam. Os hinos viraram armas como a haka do rúgbi neozelandês. A torcida procurava desestabilizar. Tirar sarro era obrigação moral. E, enquanto o jogo rolava, as cidades paravam. O planeta viu a paixão brasileira pelo futebol, viu a paixão latino-americana pelo futebol. O mundo do futebol precisava disso.

Em 2014, o futebol retomou contato com o segundo continente mais vitorioso do esporte, com o continente que revelou algumas das melhores equipes da história. Retornou a uma de suas paradas preferidas, e se sentiu novamente em casa. A Copa do Mundo precisava disso. Ela ganhou um novo fôlego, um novo ar. E isso não será esquecido. Por isso, o Mundial do Brasil não acabou. Porque o que aconteceu no último mês servirá de referência para o que pode ser o futebol de seleções.

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