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Futebol é ópio do povo? Então Copa no centro de SP é overdose coletiva

SÃO PAULO - Faltavam poucos minutos para o início do último jogo do Brasil na primeira fase da Copa, mas o grupo de holandeses encostado na porta de aço no centro de São Paulo nem parecia se importar tanto com isso. Queriam mais era beber e encontrar um lugar para espreitar a partida. Todos devidamente vestidos de laranja e um deles pronto para o carnaval, com penas e plumas. Foi quando um mendigo parou para pegar latinhas. Tirou sarro do holandês num português malemolente, que respondeu com um sorriso franco e mais gozações. A língua era o que menos importava, já que a comunicação da farra era perfeita. Essa mistura, com um quê de realismo fantástico, é que fazia o Vale do Anhangabaú respirar a Copa do Mundo. A língua era só um detalhe.

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Se a Vila Madalena é o coração de São Paulo, cujas batidas não param nem por um instante durante a Copa do Mundo e se aceleram ainda mais durante os jogos do Brasil, o Vale do Anhangabaú é o pulmão – pronto para se encher, para absorver tudo. É como se a cidade tivesse dois buracos negros, ambos sugando todas as energias da cidade, cada qual a seu modo. A Vila Madalena, mais classe média. O centro, de tudo um pouco.

Podia dar errado? Podia, e muito

Há alguns momentos em que só um grande esforço faz com que as coisas deem certo.  Foi o que aconteceu comigo na segunda-feira. O metrô cheio ia de Itaquera ao Anhangabaú muito mais silencioso do que no caminho para o estádio, onde poucos minutos antes a Holanda tinha vencido o Chile. Os chilenos tinham estampada na cara a frustração pela derrota, o medo de enfrentar o Brasil logo nas oitavas de final. Os holandeses, respeitosos com a situação. E a maioria da multidão colorida em vermelho e laranja se dirigia para a Fan Fest paulistana, a alternativa para saber quem seriam mesmo seus próximos adversários. Frustaram-se, assim como eu.

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Nos portões do evento da Fifa, muitos policiais, até mesmo da tropa de choque. Imaginei que aquele excesso de força era para conter as manifestações que pudessem surgir – havia uma marcada para a Paulista naquele mesmo dia, pelo que eu lembrava. Na verdade, não. Estavam lá mesmo só para barrar o pessoal que chegou tarde demais para a Fan Fest. Havia muitas, muitas pessoas amontadas à espera de uma brecha no Vale do Anhagabaú. Confesse: quando você imaginou que leria essa frase? Pois é. Havia fila para entrar no Vale.vale

Eu não tinha credencial. Sequer tinha bateria no celular para avisar alguém na redação – o que, no fim das contas, me impediu de tirar fotos e fazer vídeos do muito que veria. Era mais um daquele povo perdido, solto na vida. Só entraria junto com eles. E fui me informar com os policiais. Depois de algumas caras fechadas, fiquei sabendo que seria praticamente impossível entrar ali.

No jogo anterior, contra o México, o portão só havia reaberto 40 minutos depois do apito final. E daquela vez nem tinha um show com tanto apelo para depois. Latino  foi a atração do dia na Fan Fest, no dia do jogo do Brasil. Ele tem o nosso respeito pelo eterno bundalelê, mas parece que as novas gerações não sabem apreciar o requebrado de um bigode mal feito. O espaço já estava lotado desde pouco depois das 14h pelas milhares de pessoas que estavam dispostas a ver o jogo do Brasil e por aquelas poucas que queriam ver o Latino (é justo). Somente alguns daqueles que tinham saído do jogo haviam conseguido estar entre os 25 mil da festa da Fifa.

Até pensei em voltar à redação para ver o Brasil. Mas, afinal, eu não era o único que queria ver a partida e tinha sido barrado na Fan Fest. Havia muitos holandeses, chilenos, pessoas das mais diversas nacionalidades e, é claro, uma multidão de verde e amarelo. Ficaria por lá mesmo e me viraria junto com eles. Em ruas de muitos comércios fechados, mas lotadas de gente. Pessoas que, mais do que assistir à Seleção, queriam viver a Copa do Mundo.

Parece que eu acertei

Não demorei muito para perceber que era realmente a decisão mais acertada. Porque nem a Fan Fest, sendo de graça, deveria contar com um ambiente mais diverso do que aquele que eu presenciava - que também era de graça e, coisa linda, não tinha grades e bem menos polícia. Gringos, em peso, descobrindo novas ruas. Uma galera da periferia de São Paulo que tinha ido ver o Latino, mas que não estragaria a diversão só por causa de um portão fechado, como muitos que já devem ter visto na vida – no sentido figurado ou não. O pessoal que mora e que trabalha no centro, buscando fugir da rotina que os aguarda a quarteirões de distância. E os moradores de rua, a realidade mais evidente de uma capital que não esconde suas mazelas, tamanha as diferenças sociais.

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Cercada por tapumes e grades, a Fan Fest não dava muitas alternativas para se assistir ao Brasil. No máximo, ouvir a voz de Galvão Bueno em alguns lugares muito limitados, e com gente só de passagem. Ninguém queria miséria. A fartura era se amontoar na porta do Bar do China, da Lanchonete Cheese Cake, do Restaurante por Kilo e de tantos outros comércios com uma televisão em suas portas, de não mais do que 32 polegadas, para tentar ver algum lampejo de Neymar. Para aquelas centenas, não parecia ser o problema.

Para começar o jogo, parei em uma lanchonete com a calçada lotada. O pessoal estava ali pelo jogo, mas também por uma bateria de escola de samba que fazia todo mundo pular. Os dois casais de holandeses do meu lado olhavam tudo aquilo com um sorriso no rosto. Os egípcios, que apareceram logo atrás, tiravam fotos com a galera que vestia a camisa do Brasil. Não havia muitas trocas de palavras entre o inglês e o português. Mas a festa não tem limite. A Copa do Mundo é a língua oficial do país em junho e julho.

Neymar e o dogão com purê 

Neymar começava a arrebentar com o jogo, mas só foi mais celebrado do que a bateria quando fez o gol. Todo mundo pulou, se abraço, gritou. Os rojões e as cornetas faziam ainda mais barulho. Foi quando percebi dois japoneses do meu lado – que, é claro, não tinham passado despercebidos por uns garotos que foram fazer farra com eles. Era a primeira Copa do Mundo deles, mesmo com o Japão recebendo o Mundial de 2002. Tinham vindo para o Brasil só pelo que aconteceria nas ruas, não pelos estádios. E como viam todo aquele ambiente? “Muito bom. Incrível”, disseram em um inglês muito difícil de entender, embora também não estivessem compreendendo muito do que eu falava.

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Mais à frente, os casais de holandeses já tinham caído no samba. Quando um deles parou para descansar, fui puxar papo. O que mais chamava atenção naquilo tudo? “A paixão do brasileiro pelo futebol. E não só pelo futebol, por esse clima”. Reconhecia que na Holanda o povo também ama o esporte, mas não como aqui.vale2

Resolvi andar um pouco. Quando cheguei ao início da avenida Prestes Maia, parei só para ver os holandeses saciando a fome. Comiam um dogão honesto por R$ 2,50 e se lambuzavam com a mistura, muito paulistana, de purê de batata e salsicha (vale lembrar que em outros Estados o dogão não leva purê, o que me parece um enorme desperdício de energia vinda da batata). E não estavam nem ligando muito para o jogo, já que na pequena lanchonete nem tinha televisão. A mais próxima, um pouco ao lado, o que dava para ver pela janela do primeiro andar de um prédio residencial. Um chileno estava solitário vendo por ali, com o rosto pintado e uma coroa de rei. E comemorou demais quando Camarões empatou a partida.

Era Éder. Toda essa vibração é medo do Brasil, cara? “Por supuesto. O nosso time é bom, mas é freguês de vocês. É melhor esperar por outro adversário.” O rapaz tinha tirado férias em Santiago e vindo ao Brasil só para ver os jogos da Roja na primeira fase. Voltaria à capital chilena dentro de dois dias, porque já não tinha mais dinheiro para os ingressos. “São muito caros e, agora que acabou, estão abusando no preço.” Ficou se hospedando com os amigos pelas cidades, para economizar dinheiro. E se encantava tanto pelas pessoas quanto pelo futebol que via no Brasil.

Vale tudo? Vale, sim

Caminhei um pouco mais. Os moradores de rua continuavam ali, encostados nos tapumes da Fan Fest. Um deles tentava dormir em meio aos rojões, com a cabeça coberta, em vão. Parecia atordoado, e não só pelo barulho. Outros sambavam junto com a música que brotava de cada canto, mesmo com o som bem distante. Também são parte do Brasil, também são parte da Copa. Mas tinha quem preferia ficar alheio, olhando. Com sua garrafa de cachaça em punhos, só observando algo que talvez fuja da nossa compreensão da realidade.

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Parei no Bar do China. Lá, o clima de balada era bem maior. Um chileno pegava o telefone de duas garotas brasileiras. Um grupo de gays rebolava com a batida da bateria e, quando viu uma equatoriana perto, botou ela para requebrar também. Gringo beijava brasileira. Brasileira beijava gringo. Homem beijava homem, mas ali também valia homem com homem e mulher com mulher. A liberdade era evidente. A cerveja, o principal combustível. Era um ambiente intocado pela Lei de Gil.

Foi zanzando que vi dois holandeses brindando com latinhas de Brahma. “Cheers!”. Não tinha como passar ao lado deles e não vê-los. Altos, vestindo um terno laranja, como muitos que foram ao jogo contra o Chile. E, desde o estádio, tirando muitas fotos e brincando com a galera. A cerveja brasileira é boa? “Claro”. E tão boa quanto a holandesa? “Aí também não, nem tanto”. Nigel parecia o Van Nistelrooy – impressionantemente, como muitos de seus compatriotas, que me deixaram em dúvida mais de uma vez. Parece que a Holanda é um país de Van Nistelrooys. Estava em sua quinta Copa do Mundo. “Cada Copa é diferente. Mas o Brasil é especial. Ninguém gosta tanto de futebol quanto vocês.” E mais goles na cerveja para refrescar.

Vinho que passarinho não bebe

Os ambulantes se aproveitavam dos gringos, vale registrar. Torcer pelo Brasil é bom, mas ganhar um dinheiro é ainda melhor. E não era só cerveja que vendiam. “Dois vinhos por dez reais, é dois por dez”. Não era bem um vinho requintado do Chile, que muitos ali conheciam bem, mas o tal de vinho químico. Uma droga feita com álcool quase puro e só com o tom de um bom Chapinha envelhecido durante dois meses num recipiente plástico em algum recanto de Jundiaí. Chapinha ali era Romanée-Conti, e vinho químico era o Chapinha. E não era pouca gente que bebia isso – e ia muito mais longe.

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Vi e senti o cheiro de maconha. Um garoto baforando um frasco de loló ao meu lado. Nos cantos, gente se escondendo com os cachimbos de crack. Até um holandês sentado em uma pedra, tranquilo, enrolando um baseado de haxixe e pensando que São Paulo era tão livre quanto Amsterdã. Ainda que a legislação não aponte isso, naquele momento era. As drogas eram uma alternativa mais rápida do que o álcool. Mas também era impossível, mesmo para quem estava sóbrio, não entrar em transe junto com aquela multidão. Se alguns letrados dizem que o futebol é o “ópio do povo”, o centrão em dia de Copa é pura e simplesmente overdose coletiva.

Eu continuava com cara de babaca. Não acreditava naquelas cenas dadaístas. Uma mendiga passando com um carrinho de compras. Dentro, um cachorro enlouquecido, latindo sem parar. E os gringos se assustaram? Que nada. Até mexiam com o cachorro, provocavam mais. Tinham menos medo da cidade, nova para eles, do que a maioria das pessoas que vivem aqui faz anos.

Medo de Camarões

Estava ao lado de dois venezuelanos quando Neymar marcou o segundo gol. E comemoraram como se tivesse nascido aqui, como se fosse o camisa 10 da Vinotinto. Óscar encontrou uma brechinha na empresa onde trabalha, em Caracas, só para ver três jogos da Copa. “Não é o Mundial do Brasil, é da América Latina. É uma oportunidade que temos que aproveitar. Mesmo porque não sei quando a Venezuela vai para a primeira Copa.” Outro impressionado com o Brasil e que não reclamou nem dos problemas de infraestrutura, para quem já estava em sua terceira cidade.

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Perto, dois colombianos, Rafael Alejandro e Andrés. O jeito de puxar papo era sempre o futebol. Dei parabéns pelo jogadorzaço que é Juan Guillermo Cuadrado e eles me falaram de outras promessas da seleção. O jogo do campo, no entanto, era só um pretexto àquilo que interessava a todos: a Copa muito além das quatro linhas. “É muito lindo. Ainda mais pela alegria das pessoas, sem brigas. Em Cali, todo mundo fica bêbado e acaba em violência.” As notícias de mortes recentes em comemorações relacionadas ao futebol não os deixam mentir. Vale3

No Anhangabaú, tudo na santa paz. Até podia ter gente mal intencionada ali, algo que você suspeitava pelos olhares. Mas não vi um só problema de roubo, um único atendimento dos vários policiais espalhados pelas ruas. Ainda assim, temi pela vida em um momento. Foi no intervalo, quando vi um grupo de camaroneses. Arranhando o francês, pedi desculpas por tudo o que Neymar estava fazendo. Caras fechadas e um “não queremos conversar” foram suficientes para que eu saísse rápido, antes que eu apanhasse de um monte de caras com porte físico de zagueiros dos Leões Indomáveis.

Conexão África-Holanda

De peruca colorida e camisa laranja, Wolfgang (ou outro nome incompreensível do tipo) parecia tão interessado em observar as pessoas quanto eu. Isso acontece em Amsterdã? “Também. Eu estava lá na semana passada e vi o jogo contra a Austrália em um parque. Foi fantástico, mas diferente.” Nas ruas de Amsterdã, são mais jovens. No Brasil, são famílias, pessoas dos mais diferentes tipos. Gente do povo. E isso era o que mais lhe interessava.

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De todos os bares abertos ali na região, só um era “diferenciado”, mais chique. Grades nas portas, para impedir que a multidão se aproximasse tanto. Muitas pessoas com camisas de clubes brasileiros lá dentro, como eu tinha visto no Itaquerão, mas não naquelas ruas, onde parecia haver um exército de “Neymar Jr” com o 10 nas costas – homens, mulheres, crianças e idosos. Coincidência ou não, foi lá que eu ouvi o primeiro “Eu sou brasileiro, com muito orgulho, com muito amor”, que só se repetiria em outros cantos depois do jogo.

Aquele bar não tinha a mistura humana que eu procurava. Depois de passar por holandeses fantasiados de Gullit, parei de novo ao lado da bateria. A música que cantavam xingava Maradona, e Fred fez o terceiro gol. A partida era só detalhe. Foi quando desencanei dela totalmente. Queria conversar com as pessoas. E não era o único.vale1

Cheguei ao lado de um moleque holandês e perguntei se ele não queria trocar Fred por Van Persie. Pena, não quis. Ele esteve no Rio de Janeiro e disse que a atmosfera era ainda mais impressionante do que em São Paulo. Mas não podia negar que aquela festa também era gigantesca. Ao lado, um grupo de africanos. Um deles chegou ao lado para entender o inglês-holandês e o inglês-português que falávamos. Emendou um inglês-nigeriano.

Começamos falando sobre futebol, mas logo eles rasgavam elogios aos brasileiros. Essa receptividade que não tinham visto em outro lado do mundo, essa amizade tão fácil de ser fazer. Os três concordavam. O nigeriano também deixou clara a preocupação com a tabela da Copa. Queria saber a minha opinião as chances de Gana. “Nós, africanos, não temos só uma seleção, temos cinco. Queremos o sucesso da África.” É uma fraternidade que só a Copa consegue explicar.

“Klose é da Alemanha, seu burro”

O papo foi interrompido quando Fernandinho fez o quarto gol. Todo mundo começou a vibrar, os dois estrangeiros até mais empolgados do que eu. Sumiram sem nem eu perguntar o nome, saber mais da história de vida deles. Só vi o holandês de novo, trocando a sua camisa da Oranje por uma do Brasil e tirando fotos com uns garotos. “Robben? Aeeeeee! Van Persie? Aeeeee! Klose? Aee… Não, pera mano, o Klose é da Alemanha, cê é burro?”, mas não paravam de dar risadas, todos.

O jogo já chegava ao fim quando fui perguntar o resultado do México para um fanático tricolor, com máscara de luta livre e tudo. Falou da vitória azteca até ali, mas a máscara impedia que trocássemos muitas palavras. Fui, então, brincar com dois rapazes chilenos que comiam um dogão, Léo e Arturo. Meus pêsames. “É, a gente sabia que viria o Brasil, mas só de estar na Copa do Mundo já vale.” Os dois estavam na Fan Fest, mas saíram para comer. O preço fora era bem mais camarada. E onde estava melhor, dentro ou fora? “Aqui fora, com certeza. Lá tem muito controle da polícia, da Fifa. Aqui estão se divertindo mais, as pessoas estão se misturando mais”. Ali, tive certeza de que ter sido barrado da Fan Fest tinha sido o melhor que me acontecera naquele dia.

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O fim do jogo se aproximava quando o tino comercial aparecia mais ainda. A churrasqueira já estava armada ao lado do Bar do China, com a carne de gato esquentando na grelha. O samba tocava ainda mais forte, com as brasileiras no meio da roda, descendo até o chão, no meio de tantos gritos. Mais beijos, mais bebidas, mais drogas. Um americano enorme de gordo passava com um cachecol do Team USA esticado. As bombinhas estouravam do meu lado e também perto de um grupo de belgas, que tomaram um susto tão grande quanto eu.

Quando o jogo acabou, muitos gringos começaram a ir embora. Os brasileiros pulavam como malucos na frente de uma câmera da TV estrangeira. Vi um pessoal saindo da Fan Fest, quando já dava para ouvir o Latino cantando um “Baby, me leva” qualquer. Até tentei entrar, mas o policial me confirmou que não abririam mais o portão por aquele dia. Nem precisava mais. Já tinha visto muito mais do que eu imaginaria.

Adiós, Vale

Estava próximo da Estação São Bento, quando resolvi pegar o metrô na Estação Anhangabaú, só para ficar um pouco mais na rua. Vi dois torcedores da Argentina, que não podiam passar batidos. Martín e Gervásio, que vinham de carro desde Buenos Aires e já tinham cruzado o Sul do país, só parariam no Rio de Janeiro. Sem um ingresso sequer, só pelo ambiente. “Porto Alegre é uma cidade fantástica, muito receptiva aos argentinos. Apesar da rivalidade, todo mundo é muito amistoso”. E as brigas entre brasileiros e argentinos? “O problema é quando estão muitos argentinos juntos. E a provocação acaba estourando isso”. Vale4

A gente falava sobre a violência quando chegou Sammy, pedindo uma foto. De onde? “Gâmbia! Vocês conhecem?”. Definitivamente, a Copa é de todo mundo. E fomos lá eu, os dois argentinos, o gambiano e até uma vendedora de cerveja para a foto. O africano só queria registrar o momento, e já se foi. Enquanto isso, os argentinos estavam lá para aproveitar a noite. “É feriado hoje no Brasil?”. Jogo do Brasil é como se fosse, caros. A noite é longa e eles partiriam do centro para a Vila Madalena.

Fui caminhando e via mais jovens, que não se importavam com a falta do Latino para curtir. Moleques zica sem camisa, meninas de shortinho rebolando. Prostitutas travestis tentando fisgar algum cliente. Moradores de rua fazendo um dinheirinho com tantas latinhas deixadas nas ruas. Gringos tentando descobrir alguma outra particularidade do Brasil. E eu, caminhando e observando tudo aquilo, voltando no tempo. Tudo era uma grande festa no Parque da Cidade, como tantas que eu fui quando morava no interior. A galera do Pinheirinho, da periferia, e o pessoal dos bairros ricos se misturando. Tudo em tamanho gigantesco, e tendo o futebol como pano de fundo.

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Quando cruzava o Viaduto do Chá, ouvi um pedaço do show do Latino. Tocava “Tô nem aí”, desses sucessos dos anos 2000 que marcaram tanto quanto a seleção de Senegal e tiveram vida tão longa quanto. Um hino, na verdade, de quem estava do lado de fora da Fan Fest. O pessoal se abraçava, bebia, fumava, tirava fotos, ocupava as escadarias do Teatro Municipal. E não vi uma briga, uma confusão, um problema sequer. Só festa. “Pode ficar com seu mundinho, eu não tô nem aí”.

Quando ia chegando à Estação Anhangabaú, resolvi voltar à São Bento. Queria ver mais um pouco daquilo tudo, daquela grande quermesse cheia de estrangeiros que se chama Copa. Deu tempo de me encantar com dois garotinhos chilenos chutando uma garrafa de plástico vazia. Vai Vidal, vai Sánchez! Eles nem me deram bola, só o pai me acenou. Quando olhei para trás, um menino com a camisa do Brasil já tinha se juntado aos dois.

Longe daquilo tudo, a satisfação era imensa. No mesmo dia, tinha assistido a um jogo de Copa do Mundo dentro do espetáculo armado pela Fifa. E também junto de muita gente que fica longe daquilo tudo. Os dois momentos especiais, para mexer muito. Por mais que estar no Itaquerão tenha sido um sonho, não teve o impacto daquelas três horas no Vale do Anhangabaú. Da mistura de culturas. De gringos e brasileiros de peito aberto a que viesse, sem medo de sorrir.

Saí de lá sem saber se o Brasil tinha vencido mesmo por 4 a 1, talvez tivesse perdido algum gol no meio da bagunça. Muito menos sabia se o time do Felipão tinha jogado bem. A única certeza é que nunca havia visto um jogo da Seleção tão incrível quanto aquele. O mais fantástico desta Copa.