No Brasil, o Corinthian da Inglaterra é lembrado pela influência que deixou em sua primeira passagem por aqui, em 1910. As atuações impressionantes dos londrinos em Rio de Janeiro e São Paulo incentivaram a criação do Corinthians. No entanto, limitar a história dos londrinos ao surgimento de um dos clubes brasileiros mais bem sucedidos é muito pouco, diante de tudo o que fizeram. Porque o Corinthian realmente marcou época no futebol internacional. Não à toa, é considerado como o maior clube amador que já existiu.

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A fundação do Corinthian remete a um tempo em que o futebol começava a se dividir entre amadorismo e profissionalismo. Os londrinos surgiram justamente para defender os valores daqueles que não queriam jogar por dinheiro. Formavam um esquadrão de craques amadores, para desafiar qualquer time profissional que aparecesse pela frente. E, muitas vezes, humilhavam os campeões dos principais torneios da Inglaterra, em amistosos que eram levados muito a sério. Acabaram marcando os primórdios do futebol, respeitados pelos ingleses e reconhecidos mesmo no exterior.

O bastião do amadorismo no início do profissionalismo

O futebol vivia a sua primeira grande transformação na década de 1880. Cada vez mais, deixava de ser um esporte aristocrático, que servia para o exercício de valores morais e se limitava aos ricos estudantes de Londres. A partir daquele momento, passou a ganhar território na Inglaterra e a se tornar uma sensação também entre as massas populares. Era incentivado entre os trabalhadores da indústria, para distraí-los, discipliná-los e afastá-los das questões sindicais. E, em pouco tempo, jogar bem começou a ser visto como uma oportunidade de vida para as camadas mais pobres.

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A melhor mostra dessa transformação é dada pela Copa da Inglaterra, o torneio de clubes mais antigo do mundo . Em suas 11 primeiras edições, a competição foi dominada por equipes londrinas, formadas por estudantes. Porém, os clubes do norte começaram a equilibrar forças a partir da década de 1880. E conquistaram o primeiro título em 1883, com o Blackburn Olympic. Um processo inevitável, já que as equipes fabris se fortaleciam graças à contratação de proletários apenas pela qualidade no esporte. Em consequência, o profissionalismo foi permitido na Inglaterra em 1885, impulsionando a criação do Campeonato Inglês em 1888. Naquele momento, o futebol já não fazia mais distinção social, por mais que os times aristocráticos insistissem no amadorismo.

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É nesse contexto que o Corinthian surge, em 1882. Naquele ano, a Football Association proibiu a importação de jogadores da Escócia. Os escoceses eram conhecidos pela enorme qualidade técnica, mas também por já quebrarem as barreiras do amadorismo ilegalmente. Com o retorno de muitos craques à Escócia, a seleção local e o Queens Park (principal clube do país naqueles primórdios) se tornaram ainda mais fortes. E o Corinthian foi uma iniciativa dos partidários do amadorismo, que queriam formar uma equipe com os melhores jogadores vindos das escolas públicas de Londres, berço do futebol, para desafiar os escoceses.

A ideia de fundar o novo clube foi de N. L. Jackson, subsecretário da Football Association. O próprio nome da equipe era originado de uma palavra grega que significava “homens de estilo e prazer”, com a maioria dos jogadores sendo antigos estudantes da Universidade de Oxford, uma das mais tradicionais do mundo. Receber dinheiro para jogar estava proibido no estatuto, prevendo a expulsão de quem aceitasse. E, assim, o Corinthian começou a fazer viagens pela Inglaterra, sobretudo para enfrentar outras equipes amadoras.

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Aos poucos, o profissionalismo se arraigava na estrutura do futebol inglês. O Corinthian se recusou a entrar na FA Cup, que vivia uma debandada dos clubes amadores depois do sucesso do Blackburn Olympic. Naquele mesmo ano, 30 clubes do norte anunciaram a formação da British Football Association, diante da relutância da FA em permitir o pagamento dos jogadores. Uma queda de braço na qual o Corinthian estava exatamente do lado oposto da abertura que aconteceu, com o profissionalismo legalizado meses depois.

A seleção dos amadores começa a fazer fama

Por mais que os escoceses fossem aclamados pela técnica no futebol, não dava para negar as virtudes dos estudantes londrinos. Afinal, o jogo tinha sido formalizado graças a eles, e os anos de domínio eram muitos até a primeira conquista dos operários do norte do país. Por isso mesmo o Corinthian era tão temível, como uma seleção do que havia de melhor entre os antigos jogadores de Londres. E em uma época na qual o esporte ainda estava sendo levado para outras regiões do mundo, em que ninguém ousava questionar a superioridade britânica.

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A primeira turnê do Corinthian pela Inglaterra aconteceu em dezembro de 1884. Seguiram justamente ao norte do país, onde havia a maior resistência em prol do profissionalismo, para mostrarem a superioridade amadora. E dá para dizer que os londrinos tiveram sucesso na empreitada, ao desafiar os melhores times da região. O primeiro jogo foi contra o Blackburn Rovers, que havia conquistado a FA Cup naquele ano. E o Corinthian goleou por 8 a 1 aquele que era considerado o melhor time da Inglaterra. A viagem não foi feita apenas de triunfos e os londrinos foram derrotados por outros rivais, como o Darwen, o Bolton, o Preston North End e o Notts County. Além disso, bateram o Sheffield, clube mais antigo do mundo, e empataram com o Blackburn Olympic por 4 a 4.

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Em Londres, os jogadores do Corinthian desfrutavam a vida de nobres. Tanto quanto um clube de elite, também era extremamente elitista. Os atletas participavam de banquetes no Grand Hotel, jantares com o Bispo de Durham e festas regadas a champanhe. Dentro de campo, em compensação, eram os mais finos no trato da bola. Tanto que os corintianos passaram a ser convocados para a seleção inglesa. Em 1886, em um amistoso contra a Escócia, nove jogadores representaram o país no empate por 1 a 1. Não à toa, o Corinthian também passou a carregar o mesmo apelido, Three Lions. E o clube chegou a contar com todos os 11 jogadores em campo pela Inglaterra, em duas partidas contra Gales entre 1894 e 1895 – uma goleada por 5 a 1 e um empate por 1 a 1.

Ao mesmo tempo, o Corinthian se mantinha fiel aos seus princípios. Depois da aprovação do profissionalismo em 1885, deixou de disputar amistosos contra as outras potências nacionais. Chegou a receber o convite para participar da primeira temporada da Football League, em 1888/89, mas se negou. Talvez a sorte do Preston North End, que conquistou o título de maneira invicta e ainda hoje é considerado um dos maiores esquadrões da história da Inglaterra, tivesse sido diferente com o Corinthian pelo caminho.

O estilo de jogo marcante

Mais do que uma ideologia, o Corinthian também representou uma atitude particular dentro de campo. Seu estilo de jogo era considerado uma grande influência na época. Os londrinos atuavam de maneira vertical, com os jogadores se espalhando pelo campo para passes mais longos. Além disso, era um time que se caracterizava por arriscar muito a gol e por apresentar muito vigor físico na marcação.

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Além disso, vários jogadores se consagraram com a camisa do Corinthian. Arthur Dunn foi um dos jogadores amadores mais conhecidos de sua época, após fazer nome no Old Etonians campeão da FA Cup de 1882. William Cobbold era considerado o melhor driblador já visto no esporte, enquanto era acompanhado no ataque por Robert Gosling, o “homem mais rico a ter jogado pela seleção inglesa”. O principal nome, entretanto, era o de Charles Burgess Fry, conhecido também como político, professor, jornalista, jogador de críquete e ex-recordista mundial de salto em distância. Diante do sucesso que fez com o Corinthian, C. B. tornou-se jogador profissional, defendendo Southampton e Portsmouth.

O Corinthian começa a ganhar o mundo

Sem disputar jogos contra os profissionais, o Corinthians estava limitado à série de amistosos amadores que fazia. O clube chegou a incentivar a criação da Amateur Cup em 1893, uma FA Cup limitada aos clubes não-profissionais, mas não entrou na disputa por estar acima do nível – e, na primeira decisão, os futuros parceiros do Casuals foram vice-campeões. Contudo, os ingleses expandiram suas fronteiras em 1897, quando fizeram sua primeira viagem internacional, rumo à África do Sul.

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Como era de se esperar, o Corinthian demoliu quem aparecesse pela frente. Foram 21 vitórias e dois empates nos 23 jogos que disputou, com 113 gols marcados e apenas 15 sofridos. E isso com apenas 14 jogadores à disposição, enfrentando longas jornadas pelo país e estádios rústicos. O único time a conseguir parar os londrinos foi a seleção sul-africana, em empates por 1 a 1 e 2 a 2.

A abertura para enfrentar equipes profissionais começou na mesma época. Em 1897, o Corinthian desafiou o Celtic, então campeão escocês. E os londrinos golearam por 4 a 0. Já no ano seguinte, a Inglaterra passou a realizar a Sheriff of London Shield, torneio amistoso disputado entre um clube amador e outro profissional. A primeira edição da taça colocou frente a frente Corinthian e Sheffield United, campeão inglês em 1897/98. E os dois times acabaram compartilhando o troféu, já que o clube do norte do país abandonou o campo ao discordar das decisões da arbitragem. Já em 1900, o Corinthian voltou a participar da copa e venceu o Aston Villa, então bicampeão nacional, por 2 a 1.

Quando o Real Madrid se tornou branco

A influência do Corinthian era enorme na época. Até 1902, 17 jogadores do clube londrino foram convocados à seleção inglesa. Entre eles, o atacante Gilbert Smith, que ganhou a braçadeira de capitão e foi o primeiro atleta do país a passar das 20 partidas pela equipe nacional. E a fama não se limitava à Grã Bretanha ou aos territórios sob influência da coroa. Naquele mesmo ano, o Madrid Football Club foi fundado na Espanha. E os criadores daquele clube que se tornaria dez vezes campeão europeu eram admiradores do Corinthian. Por isso mesmo, copiaram os ingleses no uniforme, escolhendo camisas brancas como primeira opção.

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Já na Sheriff of London Shield, o Corinthian acumulou três tropeços seguidos. Entre 1901 e 1903, perdeu os três confrontos com os profissionais do Aston Villa (1 a 0 na revanche), do Tottenham e do Sunderland. A redenção dos londrinos no torneio nacional só veio em 1904, e em grande estilo. O Corinthian massacrou o Bury, então dono da FA Cup, por 10 a 3. E, prova inegável de sua força, disputou amistoso contra o Derby County, vice-campeão da copa e time de Steve Bloomer, um dos maiores goleadores da história da Inglaterra. Porém, quem goleou mesmo foram os amadores, 6 a 0 no placar. Naquele ano, os londrinos ainda surraram o Manchester United por 11 a 3, naquela que ainda hoje é a maior derrota já sofrida pelos Red Devils.

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Contudo, a força local do Corinthian começava a diminuir na metade final da década de 1900. O clube não teve mais convocados para a seleção a partir de 1902, enquanto acumulou outra sequência de três derrotas seguidas na Sheriff of London Shield, superados por Sheffield Wednesday, Liverpool e Newcastle. Com a aposentadoria de muito de seus craques e o profissionalismo cada vez mais arraigado na Inglaterra, era natural que os londrinos entrassem em declínio. Ainda assim, tinham forças para fazer grandes exibições em outros países.

Um esquadrão itinerante

A segunda excursão do Corinthian aconteceu em 1903, novamente pela África do Sul, desta vez viajando ao lado do Southampton. E os resultados espantosos se repetiram, com 22 vitórias e apenas uma derrota em 25 partidas realizadas, mesmo com a evolução dos sul-africanos no esporte. No ano seguinte, as duas primeiras sequências de amistosos na Europa continental. Foram nove partidas e nove vitórias no antigo Império Austro-Húngaro, goleando algumas das melhores equipes locais, como o First Vienna e o Slavia Praga. Semanas depois, os ingleses também rodaram pela Escandinávia, passando por cima de clubes locais. Depois da visita extraordinária, húngaros e suecos ficaram tão maravilhados que passaram a contar com copas nacionais batizadas de “Corinthian”.

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A primeira viagem à América aconteceu em 1906, mas limitou-se a Canadá e Estados Unidos. Foram 14 vitórias e dois empates em 17 partidas, incluindo goleadas por 19 a 0, 18 a 0, 12 a 0 e 11 a 1. Pelos resultados, aquele é considerado pelo próprio clube como o seu time mais espetacular, que ainda acumularia vitórias em quatro jogos na Alemanha e na Holanda.

Entretanto, o Corinthian sofreu um racha em 1907. O clube se filiou à Amateur Football Alliance, o que lhe impedia de disputar amistosos contra equipes profissionais. Alguns jogadores se desligaram dos londrinos, e a viagem à África do Sul naquele ano não foi tão bem sucedida, com cinco derrotas na campanha. Ainda assim, o time tinha força para se impor em outros países onde sequer existia o profissionalismo. Entre 1908 e 1909, foram seis vitórias em sete jogos na França, na Tchecoslováquia e na Suíça.

As passagens pelo Brasil

Foi em 1910 que o Corinthian cruzou o Atlântico para a primeira viagem ao Brasil. Sem piedade alguma dos times que enfrentariam pelo país. O desembarque aconteceu no Rio de Janeiro, onde os amadores fizeram 10 a 1 sobre o Fluminense (então campeão carioca), 8 a 1 na seleção local e 5 a 2 em um combinado de jogadores brasileiros. Já em São Paulo, mais vitórias elásticas: 2 a 0 na Associação Atlética das Palmeiras, 5 a 0 no Paulistano e 8 a 2 no SPAC, de Charles Miller. Como legado, a vitória sobre a AA das Palmeiras influenciou um grupo de operários do Bom Retiro a fundar uma nova equipe. Em 1º de setembro, surgia o Corinthians Paulista.

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O Corinthian passou por Canadá, Estados Unidos, Espanha e Tchecoslováquia nos anos seguintes, enfileirando goleadas. Contudo, o Slavia Praga impôs aos ingleses a sua primeira derrota para um time da Europa continental em 1912. Já entre 1913, a segunda vinda ao Brasil, considerada pelos próprios historiadores do clube como a “a maior aventura da história do clube”. Em meio à turnê, houve um casamento, um nascimento e duas mortes na delegação. Entre Rio de Janeiro e São Paulo, os londrinos foram derrotados duas vezes, para a seleção do futebol carioca e AA das Palmeiras, e venceram quatro duelos.

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Ainda haveria uma terceira passagem do Corinthian pelo Brasil, em 1914. Todavia, enquanto o clube cruzava o oceano, a Primeira Guerra Mundial estourou na Europa. O navio precisou até mesmo desviar seu caminho, já que os alemães tinham uma embarcação de guerra na rota regular. Quando o elenco desembarcou em Pernambuco, quatro jogadores que eram soldados da reserva precisaram retornar imediatamente ao Reino Unido. Na volta, todos precisaram se alistar ao exército britânico. E, em meio às preocupações, a equipe não disputou nenhum amistoso, mesmo visitando o Rio de Janeiro.

O fim de uma lenda

A Primeira Guerra deixou a terra arrasada no Reino Unido. E o conflito foi um marco no fim do Corinthian como grande representante do amadorismo no futebol inglês. O clube voltou a viajar ao exterior na década de 1920, passando por Alemanha, França, Holanda, Dinamarca, Canadá e Estados Unidos. Os resultados, porém, já não eram tão imponentes. Além disso, os londrinos abriram mão de um de seus princípios e começaram a participar da FA Cup em 1922/23, mas nunca foram além dos 16-avos de final.

Já na década de 1930, o fim do Corinthian ficou ainda mais claro. O clube sequer passava da primeira fase quando resolveu juntar forças com outra equipe amadora, o Casuals. Em 1939, surgiu o Corinthians-Casuals, clube que faz as histórias do antigo esquadrão sobreviverem ainda hoje. O novo time chegou a voltar ao Brasil, disputando amistoso contra o Corinthians em 1988, quando Sócrates defendeu o lado brasileiro e o inglês. No entanto, as glórias ficaram limitadas às lembranças, com os amadores figurando atualmente a oitava divisão inglesa.