No começo de 2013, o Palmeiras foi pego em uma emboscada por uma de suas torcidas organizadas, em Buenos Aires. Era um jogo da Libertadores, e atletas como Valdivia, Fernando Prass e Henrique sofreram com a fúria de um grupo violento que, agindo como uma falange de ódio, atacou pessoas que trabalham para um clube de futebol. O goleiro foi ferido e, se quisesse, poderia ter deixado facilmente o time. Naquela época, o presidente do clube, Paulo Nobre, rompeu com as organizadas – e teve de arcar com protestos e constrangimentos ao longo de todo o ano. No auge da confusão, Nobre tentou reunir os presidentes de outros clubes para uma ação conjunta contra as organizadas. Mas ninguém o apoiou. Restou aos torcedores comuns, da arquibancada, repudiar as organizadas e tentar cantar mais alto do que eles nas partidas. O Palmeiras teve de lidar sozinho com um pesadelo que afeta todos os outros clubes.

É complicado começar um texto sobre o Corinthians falando do Palmeiras, mas era preciso. Especialmente após uma invasão terrível ao ambiente de trabalho dos jogadores do clube. Nada justifica uma ação semelhante. Imagine que um grupo de pessoas que não gosta da sua empresa ou do seu trabalho invada o seu escritório e resolva quebrar tudo? É uma distopia típica do Ray Bradbury. É isso que acontece quando torcedores organizados invadem o centro de treinamento de uma equipe. É claro que não adianta tratar essas pessoas com mais violência – isso só cria mártires de uma causa errada e argumentos para fortalecer quem mais ganha com a pancadaria. Afinal, há uma ampla indústria de proteção, chantagem e medo nos lugares em que a violência se instala. Eles precisam de uma escalada de violência para justificar a sua existência. Se estiver curioso, leia, por exemplo, Gomorra, sobre máfia e crime na Itália

Para resolver o problema das organizadas, portanto, é preciso uma atitude calma, ponderada, bem estudada e articulada entre diferentes equipes. Ninguém vai resolver isso sozinho. Passa por corte conjunto de privilégios, abertura de processos civis e criminais, além da criação de incentivos para que as pessoas não sejam violentas nem entrem para as fileiras intolerantes das organizadas. Mas tudo isso só é possível se todos os envolvidos tiverem noção das suas próprias fraquezas e decidirem trabalhar juntos. Mas o Corinthians acreditou na sua autossuficiência, como ele fosse muito melhor que os outros e capaz de fazer o que ninguém mais é capaz. O resultado é conhecido. Assim como já aconteceu com o Palmeiras, num passado distante, e com o São Paulo e o Internacional, há poucos anos, o Corinthians se tornou vítima da bajulação alheia e da sua própria vaidade. O caso das organizadas é só o resultado mais evidente e dolorido de um longo processo de auto-engano, mas não se restringe a elas.

Nos últimos anos, por conta dos seus próprios méritos, o Corinthians deixou a segunda divisão e se tornou campeão do mundo em uma escalada vertiginosa rumo à elite da bola. Obviamente que nem todos os problemas da equipe se resolveram neste período: os conflitos no clube não desapareceram, a administração não foi profissionalizada, os processos não ficaram mais claros e estáveis. Mas quem leu relatórios e textos sobre o clube poderia, facilmente, se convencer de que o caminho era tranquilo e que, de repente, o time havia se transformado numa potência inabalável, uma força de dominação mundial nunca antes vista. A autossuficiência e a arrogância que cegaram os dirigentes de outros times, no passado, se infiltraram no dia-a-dia do Corinthians. O clube simplesmente se convenceu de que, uma vez no Parque São Jorge, lama vira ouro, pereba vira craque, nada vira dinheiro e torcida organizada vira massa de manobra facilmente manejável.

Porém, como já alertava o escritor inglês G.K. Chesterton, o hospício está cheio de pessoas que confiam muito nelas mesmas – a ponto de acreditar que, de um dia para o outro, são capazes de encarnar Napoleão. O Corinthians foi comprando riscos cada vez mais altos, ignorando os problemas, exagerando os eventuais benefícios e desprezando seus rivais. Em vez de olhar para seu próprio modelo, identificar suas falhas e aprimorar suas virtudes, o time ouviu seus bajuladores no mercado, na mídia e no mundo. A partir disso, criou sua própria narrativa de time imbatível. E então passou a se comportar como um apostador, em um cassino, que só vê à sua frente um futuro maravilhoso – afinal, o que justifica gastar o tamanho do dinheiro que o clube gastou em Pato, imaginando que ele pudesse ser um novo Ronaldo? Até que, um dia, a casa cai e você tem de ficar pensando onde foram parar todas aquelas promessas de um futuro glorioso.  O funil de erros foi apertando. O Campeonato Brasileiro foi um alerta. Mas nada foi feito. E então veio a pressão das organizadas, e o time continuou achando que o problema se resolveria facilmente porque, afinal, aqui é Corinthians. Até a invasão do CT, e a constatação de que não, não existe um modelo corintiano de lidar com as organizadas. Nem dá para disfarçar que as organizadas são um problema só de outros times.

No auge da soberba, o Inter se convenceu de que contratar estrangeiros, revelar atacantes e contar com um programa vitaminado de sócio-torcedor seria o bastante para esmagar o Grêmio no Rio Grande do Sul. Não deu certo, e quase foi rebaixado. O São Paulo passou o trator em todos os times paulistas, aliciando jogadores, criando desavenças e transformando o seu centro de treinamento em um rehab de atletas problemáticos – afinal, quem não se transformaria num lorde uma vez instalado no CT da Barra Funda? Também quase caiu em 2013. O Palmeiras se embriagou de dinheiro da Parmalat, se encantou com o brilho do clube-empresa e, quando perdeu os milhões da multinacional italiana, entrou numa espiral de autodestruição que durou mais de uma década. E o Corinthians resolveu implodir, via seu então presidente, Andrés Sanchez, o Clube dos 13 – justamente a única entidade capaz de articular os times do Brasil e, talvez, arrumar meios de proteger as equipes. O Corinthians incentivou o cada um por si no futebol brasileiro, e agora sofre as consequências. E, de novo, para não deixar dúvidas: as organizadas são só o resultado mais evidente. O que não se vê, no caso do Corinthians, é o mais preocupante. Será que o clube finalmente está olhando para dentro e tentando entender, sinceramente, que erros cometeu no futebol, no marketing, na relação com a torcida e com os adversários? Não dá para saber.

A lição que fica ao Corinthians, no meio desse furacão, é daquelas mais simples da vida – presentes na Bíblia, na literatura, em uma canção dos Racionais. Escute os elogios, agradeça generosamente por cada um deles, mas nunca se deixe encantar por quem te coloca no lugar mais alto do pódio. O caminho mais curto entre o sucesso e o fracasso é acreditar que você, realmente, fez por merecer os elogios que recebe. Humildade, no final das contas, é o maior antídoto contra o doping da soberba.

No fim, a conclusão que resta é que, sim, dá tempo de o Corinthians sair dessa. O time é gigante e essa é mais uma crise que pode se transformar, com o perdão do clichê, numa grande oportunidade. Mas isso passa pela constatação de que os clubes são diferentes em uma série de aspectos, mas nenhum deles é tão especial a ponto de se colocar num Olimpo inatingível. Colaboração e respeito pelos adversários é a melhor maneira de resolver problemas que são comuns a todos eles. Porque ninguém, sozinho, vai resolver a escalada de violência das torcidas organizadas – nem negociar contratos de TV, enfrentar as péssimas condições dos campos da Libertadores, criar tetos salariais e mais um mundo de desafios que os clubes têm. É uma ótima oportunidade para que um novo fórum dos principais clubes do Brasil, mais eficiente e útil, nasça. E sem bajulação, por favor.

Quem já viu “O Poderoso Chefão” sabe que humildade não é só uma postura elogiável na vida. É um sinal de sabedoria.