Corinthians x Palmeiras e o Dérbi do Grito, um clássico para ecoar por muito tempo

O grito é uma instituição do futebol. O futebol não existe sem o grito. A boca escancarada para soltar a vibração das cordas vocais, na verdade, reage à febre que toma a cabeça e a palpitação que retumba no peito graças à bola. Em São Paulo, particularmente, o grito se tornou um símbolo dos domingos de clássico. Em meio ao mar de concreto, ele ecoa. Seja por entre os prédios ou na viela de casebres sintonizados no mesmo canal, o silêncio tenso do jogo brigado só se rompe pela gritaria que exprime a paixão ou provoca o rival. É assim sempre. Foi ainda mais assim neste domingo, de Corinthians e Palmeiras decisivo. Em Itaquera, ouviu-se mais alto o berro aliviado dos alvinegros, pela vitória por 3 a 2, que afasta o fantasma verde e mantém o time nos trilhos pela conquista do Campeonato Brasileiro.

O grito saltava da boca desde o início da semana. E quem viu o desabafo do Neto sabe bem do que eu estou falando. Mas, antes de estourar os auto-falantes da televisão, ele vinha da alma de quem torce. Do palmeirense que mandava o aviso, “tô chegado”. Do corintiano que tentava expurgar os pensamentos ruins, com seu “vai, Corinthians”. Na véspera do Derby, o grito já tomava a atmosfera em Itaquera. Mais de 30 mil encheram a Arena para gritar e apoiar o time de Fábio Carille. Para, na base do grito, acordar o sono profundo do segundo turno do Brasileirão.

Neste domingo, o barulho era bem alto na Arena Corinthians, feito pelos 46,5 mil torcedores que quebravam o recorde do clube em jogos no estádio. Um ambiente trepidante, como tinha que ser em um clássico deste tamanho. O Derby viveria o seu maior jogo em anos. Para muita gente, o maior desde aquelas batalhas épicas na virada do século, em tempos de campeões da Libertadores contra campeões do Mundial. Era um grito preso na garganta. Em Itaquera, em toda a cidade de São Paulo, no resto do estado ou em qualquer parte do mundo onde havia um corintiano e um palmeirense por perto, o urro se tornava imperativo. Para demarcar território ou mesmo para tirar uma casquinha – como fizeram os alvinegros, berrando silenciosamente no mosaico que se leu antes que a bola rolasse, sobre os “bicampeões mundiais”.

Quando a bola rolou, veio a empolgação. E a apreensão. Afinal, um resumo das últimas semanas parecia exibido dentro de campo durante os cinco minutos inicias. O Palmeiras tinha atitude e não demorou a partir ao ataque. O Corinthians, se acuava. Foram duas excelentes chances dos palestrinos, mostrando que, pelo momento, tinham mais gás para buscar o resultado. Mas não demorou para que os corintianos respondessem. Rodriguinho chutou cruzado e Fernando Prass operou um verdadeiro milagre, espalmando a bola para escanteio. A deixa para o jogo de excelente qualidade que se seguiu no primeiro tempo.

As duas equipes queriam vencer. As duas equipes exibiam os seus predicados quando tinham a bola nos pés. O Palmeiras trocavam passes com velocidade e buscava atacar em profundidade, com Borja mais uma vez chamando a responsabilidade. O Corinthians, que mudou seu time titular, com as entradas de Clayson e Camacho, nem parecia o time do segundo turno. Combinava organização, atenção e vontade. Ameaçava mais a meta de Fernando Prass, especialmente pela maneira como conseguia explorar o jogo pelos lados – não apenas a participatividade de seus laterais, mas também a falta de proteção dos alviverdes por ali. E a partir dos 27 minutos, o grito saiu mais forte na Arena.

O Corinthians construiu uma grande jogada. Roubou a bola, Guilherme Arana avançou e passou a Rodriguinho. O meio-campista bateu cruzado e, no segundo pau, Romero apareceu para completar – encerrando seu jejum de cinco meses e anotando seu terceiro gol no Brasileirão, um contra cada rival. A torcida bradava de alegria. Mas também havia motivo para a gritaria do lado do Palmeiras, reclamando de um impedimento difícil de ser marcado, mas existente e, por isso, determinante para a irregularidade. O gol que abalou as estruturas dos palestrinos e logo impulsionou os corintianos. Prass evitou o segundo tento na primeira tentativa, mas não conseguiu espalmar o desvio de Balbuena após a cobrança de escanteio. Bola nas redes e o eco de um gol se emendou à explosão do outro.

O Palmeiras precisava acordar. Gritar entre si. E os alviverdes não demoraram a se levantar, partindo para pressão em busca da reação. O Corinthians precisava ter consciência que restava mais uma hora de jogo, que o nível de concentração precisaria ser altíssimo durante todo o tempo. Justamente o que faltou na sequência da partida. Aos 33, Borja foi travado na pequena área após cobrança de escanteio. Um minuto depois, novo tiro de canto. Ninguém tomou o cuidado que se pede com Mina. O zagueiro saltou livre e cabeceou para dentro, descontando ao Palmeiras. Os gritos de “chupa”, desta vez, eram palestrinos.

O Corinthians, ao menos, não demorou a reagir. Dois minutos depois, Jô invadiu a área e sofreu o pênalti após o contato com Edu Dracena – em lance que gerou alguma reclamação dos alviverdes, apesar do também flagrante erro do zagueiro durante a marcação. Na cobrança, o centroavante partiu para a bola e chutou com segurança, em seu canto de confiança, com Fernando Prass caindo para o outro lado. O Palmeiras não se deu por vencido e seguiu em alta voltagem durante os minutos finais, tentando encurtar as distâncias. Os corintianos permaneciam atentos. Ao apito final, uma certeza: o jogo tinha a grandeza que pedia um Corinthians x Palmeiras decisivo.

O intervalo, de qualquer forma, apaziguou os ânimos. A vibração do primeiro tempo deu lugar ao sussurro tenso no segundo. O Palmeiras vinha com uma mudança, Roger Guedes no lugar de Keno, o que desagradou muitos torcedores. E o Corinthians voltou mais aceso, com dois ataques perigosos, antes de se fechar um pouco mais. Era a postura natural. Os palestrinos é que precisavam dos gols, enquanto a solidez defensiva foi um dos trunfos corintianos durante boa parte da campanha.

O jogo esfriou à medida que os minutos passavam. O Palmeiras se impunha no campo de ataque e buscava os espaços, mas o Corinthians conseguia se safar com tranquilidade. Pesava muito mais a maneira como a bola mal rolava, com muitos lances truncados, paralisações e discussões. Por isso, foi necessário que Moisés, um dos mais lúcidos do lado alviverde, botasse fogo no jogo. Depois de uma bola mal afastada pela zaga, o meio-campista apareceu para emendar e anotar o segundo gol, aos 22 minutos. Na comemoração, fincou o seu cajado imaginário no gramado da Arena. Gritou escancaradamente, diante da multidão alvinegra.

Mais ofensivo, o Palmeiras trabalhava melhor a bola, especialmente após a entrada de Guerra. O Corinthians buscava as ligações diretas e, assim, conseguiu assustar por duas vezes, parando em boas defesas de Prass. Nos 15 minutos finais, de qualquer forma, preponderou o berro agônico entre quem buscava o empate e quem tentava segurar o placar. Os palestrinos eram melhores. Os corintianos, se empenhavam a gastar o tempo. Faltava um pouco mais frieza aos alviverdes na conclusão das jogadas, como nos chutes a esmo de Egídio. Os cinco minutos de acréscimos viraram seis, em meio à confusão gerada por cada disputa, e com direito a um cartão vermelho (um bocado exagerado) a Deyverson.

Quando o relógio já batia próximo dos 50 minutos, a última chance do Palmeiras. Roger Guedes avançou a linha de fundo e cruzou. Cássio ergueu os braços para fazer a defesa em dois tempos. Agarrou a bola da vitória. Dentro da área, Mina esbravejava pela falta de visão de seu companheiro. Apito final. Abraços em campo. Vozes de 46,5 mil em Itaquera e outros tantos milhões de alvinegros. Alviverdes engoliam a seco.

O Corinthians 3×2 Palmeiras deste domingo continuará ecoando. Vai ser o combustível das provocações amanhã, no resto da semana e até o final do campeonato. Mais do que isso, será um jogo para ficar marcado na história do Derby e ser por muito tempo recontado. Os corintianos gritarão a vitória sobre os rivais em um momento de tamanho sofrimento, no qual se reinventaram. Os palmeirenses, a maneira como a arbitragem influenciou, especialmente no primeiro gol. Fato é que o time de Fabio Carille sai revigorado por aquilo que aconteceu nos últimos dias, pela maneira como a torcida o empurrou e pela mudança de postura, especialmente no primeiro tempo. Dá para jogar melhor nas últimas seis rodadas. O Palmeiras fica oito pontos atrás, mas não pode dar a disputa por perdida. Segue em ótima forma. E segue com potencial para se aproximar, se os rivais voltarem a fraquejar.

Será tudo uma questão de como cada alvinegros e alviverdes se imporão na sequência da competição. Qual zumbido que fica na cabeça depois do clássico. Quem, por fim, dará o grito de campeão.