No final das contas, o Liverpool estava falando sério. A esperança do Barcelona e do entorno de Coutinho de que o clube inglês recusava proposta atrás de proposta para negociar um preço melhor não se comprovou. Não era jogo duro: era uma genuína vontade de manter o seu principal jogador. O brasileiro continuará em Anfield, pelo menos até janeiro. E agora a batata quente está no colo principalmente de Jürgen Klopp, que terá que recuperá-lo dentro da equipe e junto aos torcedores.

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A legitimidade do desejo que Coutinho nutre por defender o Barcelona foi atingida pela maneira como ele conduziu o negócio. Embora o interesse dos catalães seja de conhecimento público há bastante tempo, assinou um contrato de cinco anos sem multa rescisória em janeiro, entregou um pedido de transferências, um dia antes da primeira rodada da Premier League, e foram plantados rumores, não confirmados, de rusgas entre ele e o técnico Klopp.

E tem as tais dores nas costas que, convenientemente, surgiram bem na hora em que Neymar foi vendido para o Paris Saint-Germain e a temporada do Liverpool estava prestes a começar, e desapareceram assim que o futebol europeu parou para a Data Fifa. Na última quinta-feira, Coutinho atuou sem nenhum problema físico evidente contra o Equador e marcou um gol, que foi comemorado com um “desabafo”, como se ele fosse vítima de uma situação e não o agente responsável por ela.

O Liverpool teve um duelo muito difícil na fase preliminar da Champions League, contra o Hoffenheim. Uma derrota seria catastrófica para a temporada, impedindo o acesso à fase de grupos da competição europeia. No fim, os Reds passaram com sobras, mas isso não apaga que, em um momento crucial, tiveram que se virar sem o seu principal jogador. O torcedor não é idiota. Sabe que Coutinho forçou a barra para ir embora e não conseguiu.

Esbarrou principalmente nas ambições esportivas do Liverpool, que não podia mais uma vez mandar a mensagem para o mercado e para os seus próprios jogadores de que é um clube vendedor. Mas uma questão pessoal também esteve envolvida neste negócio, como reporta o Independent. Um dos homens tocando as transferências do Barcelona chama-se Pep Segura. Segura trabalhava nas categorias de base do Liverpool e recebeu a promessa de John Henry, dono do Fenway Sports Group, empresa que administra os Reds, de que seria promovido a diretor de futebol. No entanto, foi na mesma época em que Brendan Rodgers foi contratado, e o norte-irlandês não ficou confortável com a estrutura que colocaria outro profissional técnico acima dele na hierarquia. Rodgers pediu que Segura retornasse às categorias de base. O espanhol tentou entrar em contrato com Henry para esclarecer a situação e não conseguiu. Pediu demissão em julho de 2012.

Foi difícil para Segura entrar em contato com Henry porque o empresário não participa do dia a dia do Liverpool. Ele é dono de um grupo amplo, do qual o clube inglês é apenas uma parte dos faturamentos. Por isso, causou certa estranheza a quem acompanha os Reds de perto perceber que Henry envolveu-se pessoalmente na permanência de Coutinho. O comunicado oficial negando que ele seria negociado teve o dedo do dono do Boston Red Soxs. Isso porque, segundo o Independent, a contratação do brasileiro tornou-se uma missão pessoal para Pep Segura, insatisfeito com a maneira como saiu do Liverpool. E, da mesma maneira, mantê-lo em Anfield virou questão de honra para Henry.

E, obviamente, ainda mais importante, é a questão técnica. Em 2014, o Liverpool havia acabado de ser vice-campeão inglês quando liberou Luis Suárez para o mesmo Barcelona e, com um mercado muito ruim, foi eliminado ainda na fase de grupos da Champions League e caiu para o sexto lugar na Premier League. Acabou dando dois passos para trás depois de ter dado um para frente. Desta vez, não perdeu nenhuma peça crucial e se reforçou, apesar de não ter conseguido melhorar a defesa. Os sinais, agora, são da manutenção do crescimento que o clube tem tido desde a chegada de Klopp.

Por mais que fosse importante se reafirmar como um clube de grandes ambições, o Liverpool não quis manter Coutinho apenas por isso. Quis porque ele é um excelente jogador, ainda com potencial de melhorar. Tem a capacidade de decidir jogos, de improvisar para quebrar defesas, e isso pode ser a diferença entre um título ou mais uma decepção. Klopp terá que reintegrá-lo aos poucos ao time, que começou a temporada voando. Não deve colocá-lo imediatamente entre os titulares para não prejudicar esse bom momento, não premiar um comportamento profissionalmente reprovável e até mesmo para preservá-lo, enquanto o assunto esfria um pouco.

Coutinho também precisa jogar. E jogar bem. É ano de Copa do Mundo e uma temporada ruim ou afastado pode prejudicar o que neste momento é uma vaga quase certa como titular na Rússia. A torcida sempre gostou dele e pode perdoá-lo se ele voltar a mostrar comprometimento com a causa. Com exceção de uma transferência em janeiro – o que é improvável, por ser uma janela de ajustes e poucas grandes contratações -, o brasileiro ficará pelo menos mais um ano em Liverpool, e não é inteligente para ninguém, nem para o clube, nem para ele e nem para a torcida, que passe esse período brigando com todo mundo.