Texto originalmente publicado no Imortais do Futebol e cedido à Trivela. Acompanhe o site e também no Facebook.

* Por Guilherme Diniz

Nascimento: 10 de fevereiro de 1903, em Kozlov, Áustria. Faleceu em 23 de janeiro de 1939, em Viena, Áustria (à época, Alemanha Nazista).

Posição: Atacante

Clubes: ASV Hertha Viena-AUT (1918-1924) e Austria Viena-AUT (1924-1938).

Principais títulos por clubes: 2 Copas Mitropa (1933 e 1936), 1 Campeonato Austríaco (1926) e 5 Copas da Áustria (1925, 1926, 1933, 1935 e 1936) pelo Austria Viena.

Principais títulos por seleção: 1 Copa Internacional da Europa Central (1932) pela Áustria.

“O Homem de Papel”

Alto, magro e leve, ele tinha o aspecto tão frágil e suave que ganhou para sempre o apelido de “Homem de Papel”. Em campo, virava um artista, um Mozart, pois regia uma das maiores orquestras futebolísticas que o mundo já conheceu: o Wunderteam da Áustria do final dos anos 20 e início dos anos 30. E desafiou o nazismo, o Reich e Hitler. Matthias Sindelar foi um dos maiores e mais míticos atacantes de seu tempo, ídolo nacional e maior jogador da história da Áustria. Tinha agilidade nos pés e controle de bola marcantes, além de possuir o talento de um craque fora de série. Ganhou títulos importantes, comandou a Áustria numa Copa do Mundo emblemática em 1934 e faleceu sob circunstâncias misteriosas e trágicas em 1939. Mas a obra de vida e arte que Sindelar já havia construído nem a mais potente bomba conseguiria apagar. Era eterno. É hora de relembrar.

Rumo à capital

Sindelar nasceu em 1903, na pequena cidade de Kozlav, no então Império Austro-Húngaro. Descendente de tchecos, o jovem (que ganhou na infância o apelido de Motzi) se mudou bem cedo com sua família para a capital, Viena, onde conheceria o futebol. Aos 14 anos, perdeu o pai para a Primeira Guerra Mundial e virou o chefe da família, conciliando o trabalho como serralheiro ao de futuro futebolista. Como não tinha uma bola de couro, Sindelar jogava com bolas feita de trapos ou o que houvesse para compor uma esfera de chutar. Em pouco tempo, sua habilidade, agilidade e perfeição com a bola nos pés se notabilizou por Viena, levando o futuro craque ao Hertha Viena aos 16 anos. Depois de duas temporadas brilhantes nas categorias de base do time, foi promovido ao escrete titular com apenas 18 anos. Os anos foram passando e Motzi foi ganhando espaço, marcando gols pelo Campeonato Austríaco e virando absoluto no Hertha. Depois de um susto com uma lesão no joelho (solucionada após uma operação bem sucedida), o craque teve a chance de brilhar ainda mais em 1924, quando o Austria Viena lhe ofereceu a oportunidade de jogar pela equipe e se apresentar para grandes multidões.

 A fama em Viena

Naquela segunda metade da década de 20, Sindelar conduziu o Austria Viena na conquista do Campeonato Austríaco de 1926 e a um bicampeonato da Copa da Áustria em 1925 e 1926. Com faro goleador e uma qualidade impressionante, Sindelar virou ídolo instantâneo do país e, em 1926, foi convocado pela primeira vez para a seleção da Áustria, marcando um gol na vitória por 2 a 1 sobre a Tchecoslováquia. Rapidamente, o jovem virou garoto propaganda de inúmeras campanhas publicitárias, de relógios a laticínios. Muito habilidoso, Sindelar não foi uma unanimidade para o técnico da seleção na época, Hugo Meisl, que o deixou de fora da equipe até 1931. Nesse intervalo de tempo, Sindelar viu o Austria Viena passar por um período conturbado no campeonato nacional, brigando para não cair. Mas aquela fase complicada estava prestes a terminar com a chegada da década de ouro do atacante e do futebol austríaco.

Nasce o Wunderteam

Em 1931, a seleção da Áustria começaria a realizar façanhas memoráveis, muito graças ao futebol ofensivo proposto pelo técnico Hugo Meisl e pela volta do atacante Sindelar. Com o craque em campo a equipe ficou 14 partidas invicta entre abril de 1931 e dezembro de 1932. Nesse tempo, a Áustria conquistou a Copa Internacional da Europa Central de 1931/32, com grandes vitórias sobre a Suíça, por 8 a 1 (com um gol de Sindelar) e Itália por 2 a 1 (com dois gols de Sindelar).

O time venceu o torneio com quatro vitórias, três empates e uma derrota em oito jogos, marcando 19 gols e sofrendo nove. Era o primeiro show de Sindelar, Smistik e Nausch, ícones daquela equipe de toques rápidos e precisos que se apoiava nos ensinamentos do treinador inglês Jimmy Hogan, um dos precursores do jogo de passes na Europa Central e parceiro de Hugo Meisl na Áustria. Foi nessa época que a rivalidade entre Áustria e Itália ficou ainda mais evidente, com muito equilíbrio e jogos históricos, incluindo uma vitória por 4 a 2 dos austríacos em plena cidade de Turim.

O jogador italiano Monti era um dos que mais “odiavam” Sindelar por ter que marcar o atacante nos duelos entre as seleções. O modo arisco e letal como jogava Sindelar fazia o argentino naturalizado italiano perder a cabeça muitas vezes. Dizem que o mesmo Monti pediu para Vittorio Pozzo, técnico da Itália, para não jogar contra a Áustria em uma determinada ocasião justamente por não suportar as dificuldades impostas pelo craque austríaco.

Além do título continental, a Áustria atropelou outros adversários antes da Copa do Mundo de 1934: fez 5 a 0 e 6 a 0 na Alemanha, 6 a 0 na Suíça e aplicou uma histórica goleada de 5 a 0 sobre a Escócia, na primeira derrota dos escoceses para uma seleção de fora do Reino Unido. O ponto alto foi um emblemático 8 a 2 na rival Hungria, com três gols de Sindelar e passes do gênio para os outros cinco tentos. Irresistíveis, os austríacos pareciam ser os grandes favoritos para o Mundial da Itália.

Pelo Austria Viena, Sindelar conseguiu fazer história ao conquistar a Copa Mitropa de 1933, torneio continental entre clubes da Europa Central. O time passou por Slavia Praga, Juventus e derrotou a Ambrosiana (atual Internazionale) de Giuseppe Meazza na final, perdendo o primeiro jogo por 2 a 1 e vencendo o segundo por 3 a 1. O feito inédito se juntou a mais uma Copa da Áustria, fazendo daquele ano um dos maiores para Sindelar.

Quando a Inglaterra tremeu

As taças dos anos de 1932 e 1933 foram importantíssimas, claro, para Sindelar e para o futebol austríaco, mas nada se comparou a uma derrota da equipe em 1932. Peraí, derrota? Isso mesmo! Foi uma derrota com importância simbólica para Sindelar e companhia, pois eles colocaram na roda e fizeram tremer a seleção da Inglaterra em uma partida em Londres, quando os ingleses venceram por 4 a 3, mas por pouco não perderam sua invencibilidade histórica jogando em casa contra equipes de fora das ilhas. Sindelar provou ser mesmo um gênio, quando pegou a bola no meio de campo e driblou todos os que apareceram à sua frente, antes de fuzilar o goleiro inglês, em gol antológico que poderia ser comparado ao de Maradona na Copa de 1986. Ele se imortalizou depois daquele jogo como um dos maiores craques de seu tempo.

O árbitro naquela ocasião, o belga John Langenus, descreveu na sua súmula o grande gol do atacante: “Zischek (jogador da Áustria) balançou as redes duas vezes, mas o gol de Sindelar foi uma verdadeira obra de arte, um feito que ninguém conseguiria alcançar contra um adversário como os ingleses. Nem antes nem depois dele. Sindelar pegou a bola no meio do campo e disparou com a sua incomparável elegância, driblando tudo que aparecia pela frente, e concluiu para o fundo do gol”. 

A primeira e única Copa

Até o verão de 1934, o Wunderteam da Áustria tinha vencido ou empatado 28 dos 31 jogos que havia disputado, feito que credenciou Sindelar e companhia ao favoritismo na Copa do Mundo daquele ano. Motzi era a grande arma de Hugo Meisl para que a Áustria levantasse o caneco. Mas não seria nada fácil, ainda mais por ter de jogar em território tão hostil quanto a Itália de Benito Mussolini, além de ter de enfrentar os anfitriões numa hipotética final.

A Áustria estreou na Copa contra a França e venceu por 3 a 2, após empate em 1 a 1 no tempo normal. Sindelar, Schall e Bican fizeram os gols dos austríacos. Na fase seguinte, duelo contra a grande rival Hungria e vitória por 2 a 1, gols de Horvath e Zischek. Menos matador, Sindelar mudou sua função naquela Copa se transformando no garçom do time ao armar jogadas e driblar os adversários com sua habitual precisão. Classificada, a Áustria tinha pela frente o tão esperado e temido confronto contra a Itália, na semifinal. Debaixo de muita chuva e num campo pesadíssimo e enlameado, os austríacos, mais técnicos e velozes, foram presas fáceis para a força dos jogadores italianos, que venceram por 1 a 0. Como esperado por Mussolini, a Azzurra estava na final. Já a Áustria teve de se contentar com a disputa pelo terceiro lugar, perdida, sem Sindelar, para a Alemanha por 3 a 2.

A ascensão do nazismo e as últimas glórias

Depois da Copa, Sindelar viveu seus últimos momentos de glória com o Austria Viena, com os títulos da Copa da Áustria de 1935 e 1936 e de mais uma Copa Mitropa, também em 1936. Venceu o Sparta Praga por 1 a 0 na finalíssima em plena Tchecoslováquia, após empate sem gols no primeiro jogo, na Áustria. Naquele ano, Sindelar viu de longe sua seleção disputar as Olimpíadas de Berlim e ficar com a medalha de prata na final contra a Itália. Foi nessa época que o craque começou a sentir na pele a chegada dos nazistas em território austríaco e ver os alemães tomarem gosto pelo futebol, querendo agregar os craques da Áustria ao selecionado alemão. Vários colegas judeus de Sindelar foram perseguidos e expulsos do Austria Viena com a crescente ocupação nazista, que se sacramentou em 1938, ano de Copa e que a Áustria não participou por já fazer parte do Terceiro Reich. Mas Sindelar mostraria, em campo, que jamais se submeteria à suástica.

Esnobando Hitler

Antes de a seleção austríaca ser dissolvida, uma partida contra a Alemanha foi marcada para “celebrar a reunificação da Áustria com o império alemão”. Os militares de Hitler deixaram bem claro para os austríacos que a Alemanha é quem venceria o jogo disputado em Viena. Mas Sindelar não deu ouvidos aos nazistas, comoveu seus companheiros com um inflamado espírito de luta e fez com que a Áustria, muito superior, derrotasse a Alemanha por 2 a 0. Sindelar marcou o primeiro gol e foi celebrar bem na frente das tribunas onde estavam as autoridades nazistas. Era a vitória do Homem de Papel sobre o nazismo. Uma vitória na bola, no futebol, na arte. E sem disparar um tiro sequer.

 Anos de amargura e o trágico fim

Mesmo depois da provocação épica, os alemães queriam Sindelar na seleção germânica, mas o craque sempre se negava (mesmo a Alemanha tendo no comando Sepp Herberger, que seria campeão mundial com a equipe na Copa de 1954), ora dizendo estar velho, ora alegando contusão. O jogador se manteve no país e foi espionado pela Gestapo por sua rebeldia. Aos poucos, tudo o que ele mais amava foi sendo destruído. Os clubes austríacos foram desmantelados pelas autoridades germânicas e o seu Austria Viena, tratado como “clube de judeus”, passou a ser um mero figurante nas ligas regionais do Campeonato Alemão. Vários amigos e colegas do craque tiveram de tomar novos rumos e deixaram o país.

Sindelar não se conformou e abandonou o futebol, abrindo uma cafeteria e vivendo dela até o começo de 1939, quando uma fatalidade aconteceu: em janeiro, com apenas 35 anos, foi encontrado morto em seu apartamento junto ao corpo de sua namorada, Camila Castagnola, após intoxicação com monóxido de carbono. Até hoje, várias histórias e conspirações tentam desvendar a morte do jogador, mas nenhuma conseguiu ser aceita como a oficial.

Uns dizem ter sido suicídio pelo fato de Sindelar viver triste e depressivo por ter largado o futebol. Outros afirmam que as raízes judias do craque foram delatadas às autoridades nazistas, causando sua captura e morte. Há ainda a lembrança do episódio de Sindelar no épico 2 a 0, algo que não saiu da memória dos nazistas. Mesmo com tanta nebulosidade, o jogador foi enterrado com honras de estado – o que, segundo um amigo, em entrevista a documentário produzido pela BBC em 2000, só foi possível por conta de um suborno a uma autoridade, determinando a razão da morte como acidente, e não suicídio. Mais de 20 mil pessoas acompanharam, aos prantos, o funeral do mito. Terminava de maneira triste e misteriosa a vida de um dos maiores ídolos da Áustria e do futebol, um encantador de plateias leal ao seu país e ao futebol. A cidade de Viena homenageou o craque com a Sindelarstraße, rua do goleador onde soam as palavras do poema dedicado a ele pelo austríaco Friedrich Torberg:

“Jogava futebol como ninguém

Tinha graça e fantasia

Tinha um toque fácil e alegre

Sempre jogava e nunca lutava”.

Seis décadas após sua morte, Sindelar foi eleito o maior jogador de futebol do século XX da Áustria, um prêmio mais do que merecido a um homem que derrotou, na bola, o nazismo. E deixou para a eternidade obras primas para serem escritas no mais nobre e suave papel, como foi o “Homem de Papel” Matthias Sindelar. Um craque imortal.

Números de destaque:

Disputou 43 jogos pela seleção da Áustria e marcou 27 gols.

 Leia mais sobre a Áustria de Sindelar clicando aqui.

 

*Sobre o autor

Guilherme Diniz é jornalista desde 2009 e decidiu criar o Imortais do Futebol em 2012, ao perceber que não existia em nenhum lugar informações detalhadas sobre times, seleções e craques sem ser em revistas esporádicas (e incompletas), textos dispersos na wikipedia ou em sites diversos. Com isso, ele criou o blog e foi alimentando-o dia após dia até transformar um hobby em um árduo trabalho que chegou a mais de 370 textos em apenas dois anos. Desde então, mais e mais pessoas acompanham os textos, que já viraram até fonte de pesquisa e de artigos, e curtem a página do blog no Facebook.