Durante quase sete décadas, a seleção islandesa teve relevância mínima no cenário internacional. Podia até representar um país simpático, mas não era competitiva. Nada além de um mero figurante nas eliminatórias da Euro ou da Copa do Mundo. Um cenário que se transformou ao longo dos últimos anos. Contando com a melhor geração de sua história, os islandeses passaram a surpreender desde as categorias de base. Ficaram a um triz de avançar ao Mundial de 2014, caindo apenas na repescagem para a Croácia. Até que a maior proeza da história do futebol na Islândia se consumasse neste domingo: pela primeira vez, o país disputará um torneio de elite, classificado à Euro 2016.

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O empate sem gols contra o Cazaquistão, dentro de casa, não é um resultado que impressione. Ainda assim, a Islândia se garante com duas rodadas de antecedência em um grupo disputado. E este foi só o segundo tropeço na boa campanha. Enquanto Turquia e Holanda lutaram pela vaga na repescagem, a única derrota dos islandeses veio na visita à República Tcheca, também classificada à fase final do torneio. Já entre os resultados positivos, destaque para as duas vitórias sobre os holandeses, inclusive a da última quinta, dentro de Amsterdã.

A façanha se faz imensa para a Islândia não apenas pelo ineditismo. Em um país cuja temperatura mínima, em média, se mantém negativa durante metade do ano, a prática do futebol não é das mais simples. O campeonato nacional, que beira o amadorismo, só é disputado entre maio e outubro. Enquanto isso, o material humano para se formar jogadores também é mínimo, em um país que não passa de 330 mil habitantes – uma população comparável à da cidade de Blumenau. Das 54 federações filiadas à Uefa, apenas cinco têm populações menores: Andorra, Ilhas Faroe, San Marino, Liechtenstein e Gibraltar. Não à toa, a densidade demográfica é baixíssima, apenas a 233ª no mundo, com mais de um terço das pessoas concentradas na capital, Reykjavík. Não à toa, o número de jogadores registrados não passa de 21,5 mil, contra, por exemplo, 1,1 milhão na Holanda.

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Entre as razões do sucesso da Islândia, está o bom trabalho nas categorias de base. Mesmo sem ser uma potência nacional, o Breidablik formou boa parte dos talentos da atual geração. Além disso, o intercâmbio desde cedo com outros países, em especial a Holanda e a Inglaterra, também contribuiu no crescimento dos jogadores. No entanto, há outras razões peculiares, específicas à história islandesa. Como, por exemplo, o maior investimento em quadras aquecidas de futebol a partir dos anos 1990, o que não limitava mais os garotos a treinarem apenas por um semestre. Quase todas as escolas da ilha, hoje, possuem um campo de grama artificial para os treinamentos. Além disso, a crise financeira de 2008, que quase quebrou o país, obrigou muitos clubes alçarem jogadores ao profissional mais cedo. Por vias tortas, deu certo.

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O resultado mais notável desse processo veio em 2011, com a classificação para a fase decisiva da Euro Sub-21. Os islandeses foram um dos oito finalistas, mas caíram na primeira fase. Dos 23 convocados para aquele torneio, 18 chegaram à seleção principal. Entre eles, muitos dos destaques atuais: Sigurdsson, Gudmundsson, Gunnarsson, Sigthorsson e Finnbogason – todos com 26 anos ou menos, o que promete alongar o ciclo dourado por mais algum tempo. Na época do torneio sub-21, 16 atletas já jogavam fora do país, boa parte deles vendidos ou ascendidos aos profissionais durante a crise econômica nacional.

Já outro passo fundamental para a ascensão da Islândia aconteceu também em 2011, mas no comando técnico. A federação trouxe o sueco Lars Lagerbäck, treinador da Suécia por quase uma década e responsável por classificar os escandinavos para duas Copas do Mundo, além de três Eurocopas. O desempenho competitivo dos islandeses cresceu demais a partir de então, sobretudo depois que o assistente Heimir Hallgrimsson se juntou ao trabalho. Após montar um ataque produtivo, baseado nos talentos à disposição do meio para frente, a Islândia tem se destacado na atual campanha da Euro pela força de sua defesa. São apenas três gols sofridos em oito jogos, a quarta melhor equipe no quesito nesta competição.

Para quem nunca tinha vencido uma seleção campeã do mundo até 2004, quando superou a Itália, os islandeses têm feito bom papel contra seleções mais representativas da Europa – o que se nota mais pelos resultados oficiais do que nos amistosos. Assim, dá para acreditar que o país não será mero figurante na Euro 2016, podendo até sonhar com os mata-matas. Mas, neste momento, os islandeses merecem comemorar. O maior feito de sua história está cumprido, e o que vier é puro lucro ao pequeno país.