Cristiano Ronaldo é ótimo para a Juventus. Mas o que significa para a Serie A como um todo?

Ao conquistar o seu quinto título de Champions League, no final de maio, Cristiano Ronaldo deu uma declaração enigmática: “Foi bonito estar no Real Madrid”. Não foi a primeira vez que o português deixou o seu futuro no Santiago Bernabéu em aberto. Outras ocasiões parecidas acabaram servindo como poder de barganha em negociações com o clube espanhol. A questão, portanto, era descobrir o quanto de desejo genuíno de ir embora estava embutido na frase de Ronaldo. A resposta, que naturalmente seria dada apenas depois da participação da seleção portuguesa na Copa do Mundo, veio nesta terça-feira: o máximo. O melhor jogador do mundo das últimas duas temporadas foi anunciado pelo Real Madrid como o novo reforço da Juventus.

A transferência de € 105 milhões, segundo o Marca, deve causar um efeito dominó no mercado europeu. Atual tricampeão continental, o Real Madrid perdeu não apenas o seu jogador mais decisivo. Mas também a sua maior estrela. O perfil do clube não permitirá que Cristiano Ronaldo vá embora sem uma reposição do mesmo nível – ou a mais próxima possível – em termos técnicos e, principalmente, midiáticos. Mbappé? Neymar? Hazard? Kane? Salah? Os clubes com craques seguram a respiração e olham com nervosismo para a tela do celular.

Mesmo que a Fiat, como noticia o jornal português Record, ajude a Juventus a bancar parte do salário de Cristiano Ronaldo, avaliado em € 30 milhões anuais, de modo a minimizar os problemas com o Fair Play Financeiro, a folha da Velha Senhora ainda ficaria muito carregada. Jogadores provavelmente sairão. O suspeito mais provável do momento é Gonzalo Higuaín. Seus vencimentos lideram a lista de contas a pagar em Turim e são altos demais para um jogador que pode vir a ser secundário. Ambos podem atuar juntos, mas Ronaldo avança cada vez mais para a posição de centroavante. Contratado por € 90 milhões, a venda do argentino ajudaria a amortizar a taxa de transferência paga para o Real Madrid.

A chegada de um nome como Cristiano Ronaldo bagunça com o panorama do futebol italiano. Antes dele, já estava difícil lutar contra a Juventus, atual heptacampeã nacional. Agora, os adversários precisam surfar a onda positiva que tomará conta da liga italiana para se reestruturarem e investirem em suas equipes, com a grana que deve vir de contratos melhorados de patrocínio e direitos de televisão atraídos por Ronaldo. A outra opção é não fazer nada e apenas observar enquanto a rival galga sozinha os degraus do futebol europeu, o que não parece uma boa ideia.

Por que Cristiano Ronaldo quis sair?

Cristiano Ronaldo, do Real Madrid (Photo by Gonzalo Arroyo Moreno/Getty Images)

“Creio que chegou o momento de abrir uma nova etapa na minha vida e por isso pedi para que o clube aceitasse minha transferência”, disse Ronaldo, em sua carta de despedida à torcida merengue, que pode ser lida na íntegra aqui. “Eu refleti muito e sei que chegou o momento de um novo ciclo”. Claro que uma mudança de ares pode ter influenciado a decisão do português, assim como a expectativa de se testar em outra liga forte e com um estilo diferente. Mas, por baixo dos panos, também há outros motivos.

O último contrato de Cristiano Ronaldo com o Real Madrid foi assinado em novembro de 2016, com uma multa de € 1 bilhão, dando-lhe o equivalente a € 21 milhões anuais. É um baita salário, mas ainda abaixo de Neymar e Messi, que levam, respectivamente, € 35 milhões e € 45 milhões, segundo o AS. Com todos os prêmios individuais dos últimos dois anos nas suas prateleiras, Ronaldo tem todos os motivos para avaliar que mereceria um vencimento mais próximo dessas duas grandes estrelas.

Houve outros momentos em que Ronaldo, ou pessoas próximas a ele, semearam a possibilidade de que ele estaria insatisfeito em Madri. O começo da última temporada foi um deles. É a tática mais batida da história para forçar uma renegociação salarial. Em janeiro, o jornal Marca, próximo ao Real, noticiou que o clube não planejava lhe dar um aumento porque a tinta do último contrato ainda nem havia secado.  Mas, em abril, o AS, também ligado aos merengues, informou que um final feliz aparecia no horizonte: Florentino Pérez preparava uma proposta que elevaria seus vencimentos para € 30 milhões mais bônus. A ideia era anunciar a renovação antes da Copa do Mundo.

A declaração de Ronaldo, depois da final de Kiev contra o Liverpool, já foi um indício de que as conversas, se aconteceram, não foram um sucesso. E, como sabemos, o craque não foi para a Rússia com um novo vínculo na bagagem. Na noite da quarta-feira da semana passada, segundo o Marca, houve uma reunião entre Mendes, Pérez e o braço direito do presidente José Ángel Sánchez para selar a saída do português. O Real Madrid pediu uma proposta de € 100 milhões para liberar o jogador, e o agente português garantiu que a traria. Durante a conversa, um aumento salarial mal foi discutido, o que, para o staff de Ronaldo, teria sido o sinal definitivo de que seu tempo no Santiago Bernabéu havia chegado ao fim.

A imprensa espanhola também aponta para uma certa falta de tato de Florentino Pérez com sua principal estrela. Em uma tentativa de deixá-lo satisfeito, em meio às especulações de que sairia do Real Madrid, Pérez teria dito a Ronaldo que ele poderia ir embora por € 100 milhões, um décimo da sua cláusula de rescisão, caso o destino não fosse um adversário direto – Barcelona e Paris Saint-Germain, por exemplo. Pérez tinha a Major League Soccer ou a China em mente. No entanto, o que era para ser um ato de boa fé acabou sendo interpretado por Ronaldo como um insulto. Meses depois de os franco-catarianos pagarem € 220 milhões em Neymar, o craque português sentiu-se sub-valorizado em apenas € 100 milhões, embora fosse ele próprio quem desejasse trocar de clube.

Falta de tato ou estratégia de Pérez, uma mente das mais espertas do futebol europeu? Porque ao mesmo tempo em que Ronaldo é uma garantia de retorno financeiro, seu potencial futebolístico tende a decrescer com o avanço da idade. Já tem quase 34 anos e sofreu para alcançar a melhor forma na primeira metade da temporada. Claro que apagou todas as más impressões com a quantidade sobre-humana de gols que marcou no semestre seguinte, mas por quantos anos ainda conseguirá manter o seu altíssimo nível? Apesar do terceiro título europeu, a temporada do Real Madrid teve todos os sinais que aparecem ao fim de um ciclo, com oscilações de rendimento e uma campanha pouco consistente no Campeonato Espanhol – além do mais claro, a saída do treinador Zidane.

É responsabilidade de Pérez preparar também o futuro, e ele pode ter aproveitado a oportunidade de vender Ronaldo, no momento em que ainda é possível arrecadar uma boa grana por ele, isentando-se o máximo possível da responsabilidade. Este foi um dos últimos pontos de negociação: o clube fez questão que Ronaldo expusesse que foi ele quem desejou ir embora, como aconteceu na carta aberta aos torcedores. Além de tudo, há os problemas com a Receita espanhola, que acusa Ronaldo de quatro crimes fiscais. Na altura da abertura da Copa do Mundo, o jornal El Mundo disse que o jogador havia chegado a um acordo com as autoridades, admitindo as infrações e se propondo a pagar uma multa próxima a € 20 milhões. Ele também aceitaria uma pena suspensa de dois anos de cadeia.

Tão esperto quanto qualquer outro, Ronaldo sabe que o tempo está acabando. Este parece ser o momento ideal para trocar a Espanha por uma liga em que ele pode brilhar mais sendo apenas o jogador no qual está se transformando: o especialista na definição, o homem do último toque na bola. Com seu talento acima da média, pode dominar as grandes áreas do futebol italiano pelos próximos quatro anos, tempo do seu contrato com a Juventus, e continuar sendo considerado um dos melhores jogadores do mundo, graças aos muitos gols que o centroavante definitivo provavelmente marcará na Serie A.

O que Cristiano Ronaldo significa para a Juventus?

Buffon e a taça da Champions, depois da final de 2017 (Photo by Matthias Hangst/Getty Images)

Desde que Giuseppe Marotta e Andrea Agnelli assumiram as rédeas da Juventus, o clube trabalha com um único objetivo em mente: tornar-se um dos gigantes da Europa. Há o dinheiro dos patrocinadores, principalmente da Fiat, as receitas do novo e moderno estádio, o mais rentável da Itália, e os direitos de transmissão. Dentro de casa, o negócio está resolvido. A Velha Senhora ganhou os últimos sete títulos nacionais, e, mesmo antes da contratação de Cristiano Ronaldo, não havia clube que pudesse competir com ela – o Napoli suou sangue para fazer uma excelente campanha de 91 pontos e, mesmo assim, teve que se contentar com o segundo lugar.

No entanto, os critérios para ser aceito no primeiro patamar da Europa são um pouco mais exigentes. Não basta dominar o seu próprio país. Precisa também ganhar a Champions League de vez em quando e sempre chegar entre os quatro primeiros. A Juventus teve um sucesso relativo nessa empreitada: jogou a decisão duas vezes nos últimos quatro anos. Mas perdeu ambas. E, entre elas, caiu nas oitavas e nas quartas de final. Evidentemente, contratar o craque do atual tricampeão europeu é um ganho técnico imensurável.

Mas vai além. Cristiano Ronaldo é uma máquina de produzir dinheiro, com um potencial midiático global. Graças à idade e às circunstâncias, chega por um valor razoável para o seu tamanho dentro do mundo do futebol – € 105 milhões é menos do que o Barcelona pagou por Ousmane Dembélé ou Philippe Coutinho. Seus 34 anos permitiram que a taxa de transferência fosse menor, mas também são a única incógnita. O risco, porém, é bem calculado: Ronaldo cuida muito do próprio corpo e tem um físico invejável para um atleta veterano. Caso ele consiga se manter em alto nível pelos quatro anos do contrato, uma probabilidade real, sua contratação deve se pagar com sobras, vendendo camisas e atraindo contratos polpudos de publicidade e direitos de transmissão – o aumento do preço das ações é outra história, como explicou o amigo Rodrigo Capelo nesta sequência.

A taxa de transferência não deve ser um problema para a Juventus, que desembolsou valor parecido por Higuaín e preparava-se a gastar ainda mais por Sergej Milinkovic-Savic, da Lazio. Os salários, porém, podem ser uma questão. Os vencimentos de um jogador como Cristiano Ronaldo, de € 30 milhões por ano, segundo a imprensa italiana, são três vezes maiores do que os recebimentos dos atletas mais bem pagos da liga italiana, tanto que existe a possibilidade de a Fiat bancar parte deles, para não ferir as regras do Fair Play Financeiro. Contudo, há mais uma questão. Na hora de contratar outros atletas, ou de renovar com os importantes coadjuvantes de Allegri, eles aceitarão ganhar menos de um terço do que o dono do time? É uma situação delicada, que Marotta e Agnelli terão que conduzir com muito cuidado.

A mensagem que a Juventus manda é poderosa. Ninguém duvidava que ela era a dona do futebol italiano, mas agora há um símbolo gigantesco do quão distante o clube está dos seus concorrentes. A supremacia juventina inteira representada pela figura de Cristiano Ronaldo. É, também, uma convocação a outros craques do futebol europeu: há coisas interessantes ocorrendo em Turim, das quais vocês talvez queiram fazer parte.

O que Cristiano Ronaldo significa para a Serie A?

A Internazionale anunciou Radjan Nainggolan, ex-Roma (Foto: Internazionale)

O Campeonato Italiano já foi o grande polo do talento do futebol mundial. Entre os anos oitenta e noventa, recebeu os principais craques, de Falcão a Sócrates, de Maradona a Batistuta, de Michel Platini a Zinedine Zidane, de Lottar Matthäus a Jürgen Klinsmann, de Marco Van Basten a Ruud Gullit. Esse tempo glorioso ficou para trás. Hoje em dia, a liga enfraquecida tem dificuldades para atrair os maiores nomes do jogo. O último melhor do mundo a chegar à península foi Ronaldo Fenômeno, em 1997. Nesse sentido, Cristiano Ronaldo é uma grande notícia. Quebra um paradigma.

“A chegada do Cristiano muda completamente o patamar do campeonato”, afirma à Trivela o jornalista Andersinho Marques, comentarista da emissora de televisão italiana Premium Sport. “Com ele, o telespectador vai querer ver até Juventus e Frosinone. Com certeza vai atrair mais interesse, não apenas do torcedor juventino, mas também de outros torcedores. E de patrocinadores”.

A opinião é compartilhada por Leonardo Bertozzi. O comentarista da ESPN Brasil classifica o momento como “histórico” para o futebol italiano, que nos últimos anos deixou de ser um destino para os craques e se tornou uma plataforma intermediária para as ligas mais fortes, como da Espanha e da Inglaterra. “O interesse pela liga cresce consideravelmente, valorizando direitos de transmissão e acordos de patrocínio – em um momento em que vários clubes sofrem um duro baque pela proibição da publicidade de agência de apostas, algo que ainda tentam reverter”, explica.

Mas, se por um lado a contratação de uma grande estrela coloca a Serie A nos holofotes, por outro a tendência é aprofundar um desequilíbrio já latente. A Juventus venceu as últimas sete edições do Campeonato Italiano e as últimas quatro da Copa Itália. Agora, com Cristiano Ronaldo, quem conseguirá fazer frente à Velha Senhora? A Internazionale conduz um bom mercado, mas com nomes mais modestos, como Radja Nainggolan, Lautaro Martínez e Stefan de Vrij. A Roma, sob o comando de Monchi, está sendo recheada por promessas ou jogadores experientes e baratos. O Napoli contratou Carlo Ancelotti para o lugar de Maurizio Sarri e dá início a um novo ciclo. O Milan está bem encrencado, suspenso da Liga Europa por violar as regras do Fair Play Financeiro, e mudando de dono.

“A chegada de Ronaldo é uma resposta à contratação de Ancelotti pelo Napoli e ao bom mercado da Internazionale. A Juve mostra que não quer diminuir de jeito algum a vantagem sobre os adversários”, argumenta Nelson Oliveira, da Calciopédia, site brasileiro especializado em futebol italiano. Para ele, a chegada de Ronaldo é a cereja do bolo da recente recuperação da liga italiana. Além dos timaços da Juventus, a Serie A impressionou com o Napoli de Sarri, a Roma semifinalista da Champions League e a adoção do assistente de vídeo antes de outros campeonatos. “Um craque dessa magnitude só tem como puxar a liga para cima, valorizar contratos de televisão e patrocínio. Não apenas para a Juventus, já que há uma gama de times grandes e médios de tradição e extensa torcida no país. Arrisco até a dizer que a própria liga e os rivais queriam que o português fechasse com a Juventus. Valorizaria ainda mais uma eventual quebra de hegemonia”, acrescenta.

A visão dos rivais da Juventus tem que ser de médio prazo: embarcar no otimismo que tomará conta do Campeonato Italiano para se fortalecerem. Evidentemente que, para a próxima temporada, o favoritismo da Juventus é monstruoso. Mas, como lembra Leonardo Bertozzi, ele já era antes da contratação de Cristiano Ronaldo. “O Napoli conseguiu fazer 91 pontos, uma campanha histórica, e ainda assim não foi capaz de evitar mais um título”, afirma. “Entendo que os outros clubes também aproveitarão a visibilidade para convencer outros jogadores importantes a se juntar ao campeonato”.