“Injustiça”. As palavras de Cristiano Ronaldo eram muito claras na noite daquele 27 de junho, há quase seis anos. Portugal enfrentava a Espanha nas semifinais da Euro 2012. Após a eliminação nas oitavas da Copa de 2010, tinha a chance de se vingar contra a Roja de Vicente del Bosque. E, de fato, merecia mais sorte no duelo em Donetsk. Foi um jogo tenso, de poucas oportunidades de gol, mas as melhores estiveram nos pés dos Tugas. O placar zerado se arrastou por 120 minutos e, nos pênaltis, os espanhóis conquistaram a classificação à final. Cristiano Ronaldo, designado à quinta cobrança dos lusitanos, sequer chegou a chutar. Depois de duas grandes atuações, contra Holanda e República Tcheca, voltava para casa.

Cristiano Ronaldo esperou seis anos para se reencontrar com a Espanha em uma competição internacional. As duas seleções se frustraram em 2014, até que a glória chegasse aos portugueses na Euro 2016. Então, o sorteio foi generoso ao desejo de revanche do camisa 7. Logo na estreia, os espanhóis apareciam no caminho da Seleção das Quinas. E com que fome CR7 encarou a oportunidade me Sochi. O artilheiro viveu uma das melhores partidas de sua carreira e, mais do que isso, protagonizou um dos grandes jogos recentes das Copas do Mundo. Chamou a responsabilidade e marcou três gols, buscando o empate por 3 a 3 com uma pintura aos 43 do segundo tempo. Se queria justiça, o monstro a fez, e com os próprios pés.

A história de Cristiano Ronaldo em Copas do Mundo, até então, estava abaixo do que sua qualidade poderia sugerir. Os melhores momentos aconteceram em 2006, quando ainda era coadjuvante na seleção portuguesa, mas alcançou as semifinais. Em 2010, não conseguiu fazer a diferença como se esperava, desgastado fisicamente, criticado por “olhar demais no telão”. E os problemas físicos realmente minaram a sua campanha em 2014. Após o épico contra a Suécia nas Eliminatórias e meses desgastantes ao conquistar a Liga dos Campeões, não rendeu na visita ao Brasil. Já nas últimas temporadas, CR7 tem se poupado bem mais. Mesmo se empenhando ao tricampeonato da Champions, chegou à Copa do Mundo em grande forma, física e técnica. Algo que se evidenciou ao longo da noite em Sochi.

Quatro minutos bastaram para Cristiano Ronaldo marcar a diferença, ao sofrer um pênalti e convertê-lo, abrindo o placar em Sochi. E diante de uma Espanha desencontrada, que não criava no ataque e se expunha na defesa, o camisa 7 infernizava. Puxava os contra-ataques, buscava o jogo, criava espaços aos companheiros. Qualquer ação ofensiva necessariamente passava por seus pés, sedento para maltratar a defesa adversária. Uma pena que Gonçalo Guedes, seu principal parceiro na noite, errou quase tudo que tentou. Os Tugas poderiam ter aberto uma vantagem maior, mas num lance isolado, precisaram aceitar o empate em jogadaça de Diego Costa. Os portugueses eram claramente melhores até aquele momento. CR7, excepcional em todas as suas ações.

Portugal se retraiu um pouco mais com o empate. A Espanha não exibia o mesmo nervosismo. Contudo, uma noite especial também pode ter uma pitada de sorte. E como não agradecer aos deuses da bola, quando um dos melhores goleiros do mundo oferece um presente tamanho? Quando um chute sem tanta potência ou direção, no meio do gol, acaba nas redes? David de Gea segurou as penas, em diferentes significados que a palavra pode ter. O gajo se satisfazia da mesma maneira e, pouco antes do intervalo, colocava Portugal novamente à frente no placar.

Durante o segundo tempo, Cristiano Ronaldo não conseguiu aparecer tanto. A Espanha cresceu no jogo e, pressionando no campo de ataque, arrancou a virada. Portugal demorou a reagir. Apenas nos minutos finais é que passou a ameaçar. Pois aos 42 minutos, em uma disputa com Gerard Piqué na entrada da área, o camisa 7 sofreu a falta. Levantou-se, botou a bola sob os braços e fez um movimento afirmativo com a cabeça a um companheiro que chegava. Raphaël Guerreiro também estava por perto. Mas ali, naquele momento, ficou bem claro quem bateria. Que os últimos anos não tenham sido generosos a Ronaldo nas cobranças, aquela era a bola dele.

Dois jogadores de Portugal se posicionavam ao lado da barreira e atrapalhavam a visão de De Gea. Iria Cristiano Ronaldo encher o pé e soltar as suas costumeiras bombas neste tipo de situação? Não foi o caso. O camisa 7 demonstrou uma categoria diferente ao bater na bola. Uma maestria digna do craque que é, por mais que seja rara nos vários golaços de sua carreira. Desta vez, ele resolveu adicionar uma pintura singular à sua vasta galeria. O chute caprichoso pegou uma curva pelo lado de fora da barreira. Sergio Busquets pulou e esticou o seu pescoço, mas não conseguiu interromper o projétil perfeito. Certeiro. Que não tenha ido tão no ângulo, o desenho traçado à mão por sua trajetória não permitiu a defesa de De Gea. Gol antológico para decretar o empate aos 42 do segundo tempo.

Quase ainda houve outra virada. Ricardo Quaresma, logo em sua estreia em Copas do Mundo, do alto de seus 34 anos, por pouco não anotou um golaço. E o próprio Cristiano Ronaldo ficou a centímetros de assinalar o quarto. Nada que frustrasse sua vibração ao apito final. Logicamente, todas as câmeras se direcionaram ao craque. “Vamos, caralho!” era a frase proferida, de punhos cerrados, antes do abraço em Quaresma. Já na entrevista posterior, além de ressaltar o seu esforço, o artilheiro apontou que o resultado foi “justo”. Justo, seis anos depois.

Cristiano Ronaldo havia feito três gols em suas Copas anteriores, todos na fase de grupos – contra Irã (2006), Coreia do Norte (2010) e Gana (2014). A noite espetacular contra a Espanha valeu por todo o seu passado na competição, e com alguns recordes de quebra. Ao lado de Pelé, Uwe Seeler e Miroslav Klose, CR7 é um dos únicos atletas a balançarem as redes em quatro edições diferentes do Mundial. Seu hat-trick é o 51° da história da competição, mas nenhum dos 50 anteriores foram anotados por um jogador tão velho, aos 33 anos. Além disso, os três tentos foram suficientes para igualar Ferenc Puskás como o maior artilheiro de uma seleção europeia em todos os tempos. São 84 gols para cada, embora a média do Major Galopante seja maior. É a segunda maior marca do planeta, abaixo apenas dos 109 tentos do iraniano Ali Daei.

Nunca se sabe o que acontecerá no futuro. Cristiano Ronaldo possui idade e físico para disputar mais uma Copa do Mundo, mas têm consciência que o tempo se esvai. E o passado ele conhece muito bem, algo que talvez martelasse sua mente, entre decepções no torneio e eliminações ante aos espanhóis. Desta vez, a história foi outra, para a história. CR7, enfim, surge como a lenda que é aos Mundiais. Já se torna um grande personagem nesta edição do torneio e um claro candidato à artilharia. “Vamos acreditar até ao fim”, disse o camisa 7, na saída em campo. Quando acredita em si, o artilheiro sabe o que pode causar. Nesta sexta, veio o impacto profundo, em três atos.