Cristiano Ronaldo, do Real Madrid (AP Photo/Andres Kudacki)

Cristiano Ronaldo, por se tornar cada vez mais humano, reforça sua imagem como imortal

“O Cristiano Ronaldo? Ah, esse cara não joga nada, é puro marketing”. Por mais que discorde dela, você já deve ter ouvido essa frase alguma vez na vida. E ela é até natural. Afinal, Cristiano Ronaldo vai muito além de ser um mero jogador de futebol. Tanto quanto a qualidade com a bola nos pés, o português se destaca por sua imagem. Só que, muitas vezes, o símbolo se sobrepôs ao atleta. Era o rapaz que só se olha no telão, não o craque indiscutível. Uma percepção que, aos poucos, o atacante tem conseguido mudar. Não apenas pelas atuações fantásticas nos últimos meses, mas também pela forma como têm se portado.

As aparições do Cristiano Ronaldo ‘vaidoso’ ou ‘convencido’ na mídia entraram em extinção. Por mais que muita gente seja fã do camisa 7 por esse estilo, a transformação em sua postura é evidente. Ele ainda é o cara autêntico que bate no peito para comemorar um gol ou pede silêncio para a torcida rival. Entretanto, bem mais maduro em suas declarações e atitudes fora de campo. E isso tem conquistado a simpatia de muitos que torciam o nariz para a ele.

O ano de 2013 foi de partidas espetaculares e, é claro, por isso Cristiano Ronaldo ganhou a Bola de Ouro. Mas, também nos últimos meses, o atacante têm demonstrado uma sensibilidade que não lhe parecia costumeira. Seu discurso deixou de lado o individualismo para valorizar o bem coletivo. Vários foram os episódios em que o craque foi extremamente boa gente – por exemplo, esse aqui ou esse outro. Quando foi feroz, o fez dentro de campo, aonde consegue ser mais eloquente, como na resposta às críticas de Joseph Blatter.

A última mostra dessa mudança, talvez a mais concreta de todas, veio em entrevista à France Football. Ronaldo se retratou da frase ‘têm inveja de mim porque sou jovem, bonito e rico’, dita na saída do jogo contra o Dínamo Zagreb em 2011, quando foi vaiado pelos croatas e sofreu com as pancadas: “Não sou perfeito. Sou um ser humano, de carne e osso. Choro, rio, tenho meus problemas. Quando digo algo inconveniente, peço perdão. Com o tempo, aprendi com os meus erros. Falei aquilo depois de uma partida em que não marquei. Posso dizer coisas que depois não gosto mais. Prefiro mais o que se passa em campo do que fora dele. Tenho a impressão que o público me compreende melhor, que se dá conta que eu trabalho muito”.

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De fato, o público compreende melhor. As vaias no Santiago Bernabéu, que eram constantes em outros tempos, cessaram. Mais do que isso, se transformaram em mensagens ainda mais frequentes de apoio ao atacante, especialmente na corrida pela Bola de Ouro. E o mito do futebol foi totalmente humano na entrega do prêmio. Apareceu ao lado do filho, foi aplaudido pela irmã e pela mãe, chorou ao receber o troféu. A obsessão antiga virou sonho cumprido. O demérito dos outros agora era fruto de seu trabalho.

E isso não quer dizer que Cristiano Ronaldo mudou de hábitos totalmente. Ele ainda gosta de carrões, de andar ao lado de belas mulheres, de fazer caretas em campo. Mas, ao se reafirmar de carne e osso, o craque egocêntrico se tornou ‘apenas’ marrento. Permanece com a autenticidade que o faz adorado por muitos, um sujeito ímpar em um futebol cada vez mais pasteurizado. Mas sem se autopromover ou depreciar os outros, o que incomodava tanto seus opositores.

O Cristiano Ronaldo que encantava continuou aparecendo dentro de campo, mas o que irritava por suas atitudes fora dele sumiu. Os anos lhe fizeram perceber que se colocar como um  deus nunca ajudou – muito pelo contrário. Concentrado no que sabe fazer melhor, o camisa 7 é inquestionável. Talvez ainda exista quem pense que Cristiano Ronaldo é apenas fruto do marketing. Só que agora, não mais de um marketing pessoal do próprio craque.