A crônica

SÃO LOURENÇO DA MATA - Niko Kovac reclamou – com razão – do pênalti que a arbitragem marcou a favor da seleção brasileira na primeira partida da Copa do Mundo. Chamou tudo que aconteceu de circo. Mas quem com circo é ferido, com circo também fere. Na última rodada da fase de grupos, o seu capitão Darijo Srna bloqueou um chute com as duas mãos e nenhuma infração foi marcada. O lance pareceu inflamar os mexicanos que, empurrados por uma torcida completamente maluca, começaram a marcar um gol atrás do outro, venceram por 3 a 1 e estão nas oitavas de final pela sexta vez seguida.

Em certo momento da partida, esteve muito próximo de assumir a primeira posição do grupo A. Bastava mais um gol contra a Croácia ou Camarões reduzir a derrota para o Brasil, no Mané Garrincha. Mas Fernandinho fez o 4 a 1 a favor do time da casa, e Perisic descontou para os croatas. Aqueles dois gols que deveriam ser validados contra Camarões fizeram falta. O México deixa o Chile para o Brasil e mede forças com a Holanda.

Quem decidisse mudar de canal na metade do segundo tempo, poderia ficar com a impressão que a partida foi fácil para o México, mas não corresponderia à verdade. Até o pênalti ignorado pelo árbitro uzbeque Ravshan Irmatov, as ações estavam razoavelmente equilibradas. Era Modric, postado um pouco à frente de Rakitic, quem tentava ditar o ritmo da Croácia. Isso quando conseguia se soltar da marcação do meio-campo forte e competente do México, com Vázquez mais recuado, Herrera pela direita e Guardado à esquerda.

A Croácia controlou a bola, girou-a, buscou os espaços, mas conseguiu ceder poucas chances açucaradas para Mandzukic. Nenhuma, na realidade: o atacante do Bayern de Munique não finalizou no primeiro tempo. Perisic, várias vezes, embora, ironicamente, em um lance em que preferiu cruzar para o meio da área, ignorando o fato de não haver companheiros naquela região, deveria ter chutado. Foi aos 14 minutos, lançado pela direita, nas costas da defesa mexicana, em um dos poucos buracos que ela permitiu na etapa inicial. O México levou mais perigo quando teve a bola. Héctor Herrera acertou um chute forte, da entrada da área, no travessão de Pletikosa, e Peralta ficou cara a cara com o goleiro croata, tentou finalizar de carrinho, mas ao invés disso emendou um chute que poucos presentes na Arena Pernambuco entenderam. O certo é que foi para fora, bem longe do destino que ele pretendia.

Foram aproximadamente cinco minutos de muita pressão mexicana, mas a Croácia foi pouco a pouco retomando o controle. Ameaçava de fora da área com Perisic, em dois lances muito parecidos nos quais a bola passou por cima do travessão de Ochoa. Após um escanteio para o México, o próprio Perisic puxou o contra-ataque e estava mano a mano com o ala esquerdo Miguel Layún. Eis que das profundezas, Rafa Márquez apareceu com um carrinho para desarmar o croata. Falta feia, por trás, que poderia ter sido punida com cartão vermelho. Irmatov contentou-se com o amarelo, em um lance no qual cabe muito mais interpretação do que o pênalti não marcado.

O México melhorou na segunda etapa, depois da entrada de Chicharito Hernández na vaga de Giovani dos Santos. Tomou posse da partida e abrir o placar parecia uma questão de tempo. Demoraria menos tempo se Irmatov marcasse falta de Srna, dentro da área, em uma bola rebatida que Guardado dominou no peito e chutou em direção ao gol. O capitão croata jogou-se para bloquear com as duas mãos e ainda ficou se contorcendo no gramado como se tivesse sido acertado em cheio no rosto.

Mas a vida extra que a Croácia ganhou logo se esgotou. Desta vez, foi o capitão mexicano quem entrou em cena e fez 1 a 0 de cabeça. Márquez agora marcou em três Copas do Mundo seguidas, igualando Cuauhtémoc Blanco. E os gols passaram a sair naturalmente. Guardado ampliou, três minutos depois, e Hernández fechou o caixão, antes de Perisic descontar, quando todos perceberam o inevitável, aceitaram a natureza e se lembraram do óbvio: é claro que o México está nas oitavas de final.

FICHA TÉCNICA

Croácia 1×3 México

Croácia

Stipe Pletikosa; Darijo Srna, Vedran Corluka, Dejan Lovren e Sime Vrsaljko (Mateo Kovacic, 13′/2T); Ivan Rakitic, Luka Modric e Danijel Pranjic (Nikica Jelavic, 29′/2T); Ivan Perisic, Ivica Olic (Ante Rebic, 24′/2T) e Mario Mandzukic. Técnico: Niko Kovac.

México

Guillermo Ochoa; Paul Aguilar, Francisco Rodríguez, Rafa Márquez, Héctor Moreno e Miguel Layún; José Juan Vázquez, Héctor Herrera e Andrés Guardado (Marco Fabián, 39′/2T); Giovani dos Santos (Javier Hernández, 17′/2T) e Oribe Peralta (Carlos Peña, 34′/2T).

Local: Arena Pernambuco, em São Lourenço da Mata

Árbitro: Ravshan Irmatov (UZB)

 Gols: Rafa Márquez (27′/2T), Guardado (30′/2T) e Hernández (37′/2T); Perisic (42′/2T)

Cartões amarelos: Rakitic (Croácia); Márquez (México)

Cartões vermelhos: nenhum

O cara

Andrés Guardado é o motor do México. Serve de ligação entre a defesa sólida e os dois atacantes. Leva a bola para ameaçar a meta adversária sempre com muita velocidade e precisão. Cavou o pênalti que o árbitro ignorou, mas depois não desperdiçou um rebote e deu tranquilidade para o seu time.

Os gols

 

27′/2T: GOL DO MÉXICO! Héctor Herrera cobrou escanteio na cabeça de Rafa Márquez, que testou sem chances para o goleiro Pletikosa, que ainda chegou a tocar na bola.

30′/2T: GOL DO MÉXICO! Contra-ataque para o México, Oribe Peralta rolou para Guardado, aparecendo pela esquerda, bater de chapa e fazer 2 a 0.

37′/2T: GOL DO MÉXICO! Mais uma bola cruzada e mais uma bola aérea. Rafa Márquez cruzou da direita e Hernández colocou a cabeça na bola para ampliar.

42′/2T: GOL DA CROÁCIA! Perisic havia tentado essa jogada algumas vezes e ela finalmente deu resultado: apareceu em velocidade pela esquerda e chutou cruzado.

 

 

 

A Tática

campinho CRO X MEX

O México entrou em campo com cinco defensores: Rodríguez e Moreno como zagueiros, Márquez de líbero, Aguilar e Layún pelas alas. À frente, Vázquez fez a proteção para liberar Guardado pela esquerda e Herrera pela direita. Na Croácia, Rakitic foi o meia mais recuado. Recuperava a bola e a cedia para Modric armar a equipe, sempre buscando Perisic pela direita.

A Estatística

 

6

Parou por aí em todos esses anos, mas impressiona a regularidade do México. Chega pela sexta vez seguida às oitavas de final da Copa do Mundo. Desde 1990, não falhou em nenhuma. Agora, o desafio, contra a Holanda, é alcançar as quartas, igualando seu melhor resultado, em 1970 e 1986, nas duas vezes em que sediou o torneio.