A goleada da Alemanha nas semifinais da Copa foi como um tapa na cara do Brasil. Um aviso de como o futebol que a Seleção apresentava era coletivamente arcaico, e que é preciso mudar o jeito de jogar nos próximos anos. Sobretudo do meio para frente, onde o Brasil sofreu pela falta de criatividade, falta de mobilidade e excesso de dependência em um jogador.

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O sucessor de Felipão (esse texto foi escrito antes da oficialização de Dunga) terá como missão dar mais fluidez e versatilidade ao setor ofensivo. E, se a ideia for fazer isso a partir de uma renovação do elenco nacional, seria bom olhar para o Campeonato Brasileiro. Afinal, do líder do torneio pode sair algumas ideias para a Seleção.

O Cruzeiro foi campeão brasileiro de 2013 com um pé nas costas e já tem cinco pontos de vantagem na edição de 2014. E fez isso mostrando um futebol ofensivo e atraente, com ataque bastante versátil, sobretudo pela capacidade de jogadores de armação aparecerem para finalizar (e bem). Não é um time do estilo de toque de bola paciente. É uma equipe mais vertical, o que também é moderno, por mais que o título da Alemanha na Copa deixe o futebol de toques em evidência.

Os dois jogadores-chave desse trabalho são Éverton Ribeiro, melhor jogador do Brasileirão 2013, e Ricardo Goulart, artilheiro do torneio em 2014. Ambos são meias que finalizam, sabem tabelar e compor jogadas pelos lados e pelo meio. Uma das coisas que o Brasil se ressentiu na Copa do Mundo.

Eles dificilmente teriam espaço no Mundial que acabou, pois Felipão já fechou 90% do grupo no final da Copa das Confederações. Não houve sensibilidade para identificar oportunidades que pintaram no futebol doméstico no último ano. Tanto que o clube nacional com mais espaço no Mundial foi o Atlético Mineiro, equipe que estava em mais evidência imediatamente antes da Copa das Confederações. Assim, Victor, Jô e Bernard (que depois se transferiu para o Shakhtar) foram lembrados, e ainda houve alguma pressão por Ronaldinho e Diego Tardelli.

O Cruzeiro de Marcelo Oliveira (outro que merecia mais consideração nacional) estourou depois dos 3 a 0 sobre a Espanha e não teve a mesma sorte. Com uma vitória contundente na conta, Scolari não abriria espaço para um nome sem experiência alguma com a Seleção (por mais que Éverton Ribeiro, como melhor jogador da Série A, merecia ao menos uma oportunidade para mostrar serviço). Ainda mais um jogador de um centro que não desperta tanto clamor da mídia nacional, por mais tradicional que seja.

Mas agora o Brasil está recomeçando. E, para um trabalho novo, seria interessante pegar o que já está pronto. O Cruzeiro tem um ataque eficiente e uma dupla de zaga talentosa. Mesmo que os jogadores em si não sejam chamados, observar e absorver o futebol praticado na Toca da Raposa pode ser um ponto de partida, principalmente no Desafio das Américas contra a Argentina, para o qual só poderá ser chamado quem atuar no futebol doméstico.

Com o tempo, todo esse Cruzeiro pode se mostrar inadequado e ficar pelo caminho. Mas é preciso iniciar o novo projeto de algum lugar, e o líder do Campeonato Brasileiro tem ideias que poderiam ser valorizadas nacionalmente.