A mistura de competência, apostas certeiras e sorte que fez do Cruzeiro campeão em 2003 e 2013

Fazer apostar, investir em jogadores jovens, vislumbrar bons negócios. Não há uma fórmula para montar um elenco campeão, ainda mais nos pontos corridos. Ter dinheiro é um fator importante, porque no Brasileiro de pontos corridos, qualidade é também ter quantidade e quantidade depende, quase sempre, de contratar bons jogadores. Tanto em 2003 quanto em 2013, o Cruzeiro teve a combinação feliz de captar talentos e fazer muitas apostas que deram certo. Foram dois momentos muito distintos da história, caprichosamente separados por dez anos. Nos dois títulos, contratações certeiras foram essenciais na construção de um time campeão, mas foi fundamental também apostar, e apostar alto. Duas fórmulas que envolveram um técnico muito competente para armar o time, bom olho no mercado e, claro, como todo time campeão, alguma dose de sorte para aproveitar tudo isso com a máxima competência.

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2003: olho para contratações, competência do treinador, um craque e sorte

Eduardo Maluf, atual diretor de futebol do Atlético Mineiro, tinha feito um grande trabalho no Cruzeiro. Ele e a diretoria do time azul tinham a missão de superar 2002, quando não chegaram entre os oito primeiros e acabaram eliminado ainda na fase de classificação. Um dos pontos-chave foi conseguir trazer alguns jogadores que formaram a espinha dorsal vindo muito barato ou de graça. O mérito da formação do elenco é enorme, mas também tem uma boa dose de sorte. As apostas vingaram, o time engrenou e aí, com um técnico competente, Vanderlei Luxemburgo, capaz de armar um time forte, jogadores em boa fase e um craque para conduzi-los, Alex, o Cruzeiro se tornou um esquadrão. Mas ninguém poderia imaginar que o time seria tão dominante no início do ano.

Com um técnico que era um dos melhores do Brasil e boa organização financeira, o Cruzeiro conseguiu atrair jogadores importantes, o que acabou sendo fundamental para a formação do time. Entre os principais contratados, Claudio Maldonado, volante que deixou o São Paulo e chegou à Toca da Raposa sem custos; Deivid, que saiu do Corinthians em litígio e também chegou sem custos ao time azul e, no ano anterior, tinha contratado o meia Alex, o grande craque do time, de graça, depois do jogador se desligar do Parma e viver uma briga jurídica. Foi uma aposta pessoal do técnico Vanderlei Luxemburgo, sendo que o meia teve uma passagem ruim pelo time em 2001. Luxemburgo armou o time ao redor de Alex para tirar o melhor dele.

Esses eram os medalhões, mas houve uma boa dose de apostas que deram certo. Edu Dracena, por exemplo, chegou do Olympiacos, depois de ser revelado pelo Guarani, ainda jovem. Foi fundamental no título, especialmente porque Luisão acabou vendido no meio do campeonato. Leandro, lateral esquerdo, chegou ao Cruzeiro do Vitória, ainda em 2002, por US$ 1 milhão por 50% dos direitos do jogador, depois do Cruzeiro negociar Sorín com o futebol italiano. Aristizábal foi contratado, mas já não vivia o seu melhor momento na carreira. Em 2002 defendeu o Vitória e foi o artilheiro do time baiano no Campeonato Brasileiro com 11 gols. Era uma aposta em um jogador que, na época, tinha 32 anos. Foi o último grande momento do colombiano, que depois passou por Coritiba e voltou ao Atlético Nacional em 2005 para encerrar a carreira, em 2007.

Outros jogadores compunham o elenco e foram importantes, mas também chegaram como apostas. Zinho, por exemplo, era um veterano na época, com 36 anos. Foi reserva, mas importante em vários momentos como substituto, incluindo o jogo do título, contra o Paysandu, quando ele substituiu justamente o craque do time, Alex. Antes do início do campeonato, poucos times poderiam imaginar que o jogador seria tão importante. Martinez, volante que atualmente defende o Criciúma e passou por Palmeiras e Náutico, era uma aposta que chegou do Guarani e seria importante, mesmo sendo reserva.

Entre as muitas apostas, a que mais vingou em 2003 foi o atacante Mota. Ele chegou por empréstimo do Ceará em janeiro daquele ano e acabou sendo o principal substituto de Deivid, vendido no meio da temporada para o Bordeaux, da Freança. Fez 15 gols, mesmo número de gols de Deivid, e o time não sentiu tanta falta assim do seu artilheiro. Márcio Nobre, que chegou do Paraná no meio do campeonato, depois de jogar no Kashiwa Reysol, foi outro que fez a torcida não sentir tanta falta assim de Deivid. Outro que chegou e foi muito útil no elenco foi Sandro, volante que veio do Criciúma, e também era uma aposta que acabou sendo um membro importante do elenco.

A campanha de 2003 foi histórica e foi construída graças a várias boas apostas que o time fez. Mas foram apostas, que poderiam também não ter dado o mesmo resultado. Mota, por exemplo, não conseguiu jogar mais no mesmo nível daquele ano e passou por diversos clubes, com várias passagens pelo futebol cearense, onde foi formado e se tornou ídolo do Ceará. Maurinho, bom lateral que veio do Santos, teve seu último grande ano, já que em 2004 perdeu a posição para Maicon, que já tinha entrado bem no time para substituir o próprio Maurinho várias vezes em 2003. Martínez sofreu com muitas lesões e não foi o jogador que se esperava, mesmo tendo uma carreira de respeito. O lateral esquerdo Leandro não viveu mais um momento tão bom quanto aquele. Apostas que valeram a pena e viraram, o que nem sempre acontece.

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2013, um time que custou caro, mas valeu cada centavo
Éverton Ribeiro, principal jogador do Cruzeiro no Brasileiro de 2013

Éverton Ribeiro, principal jogador do Cruzeiro no Brasileiro de 2013

Pode parecer que o time do Cruzeiro é um time barato, mas a verdade é que não é. O Cruzeiro fez boas contratações, apostou em jogadores que vinham bem em seus clubes, mas que não eram badalados. Por isso, acostumamos a ver o time celeste ser descrito como um time com grande elenco, mas sem estrelas. Mas foi um elenco que custou muito aos cofres do time, que apostou alto para se fortalecer. Na verdade, o brilho de jogadores que chegaram para serem coadjuvantes ofuscou quem chegou para ser estrela e o Cruzeiro se tornou um time com um elenco muito mais homogêneo do que se esperava.

Em parte, o time conseguiu fazer isso porque teve boas vendas e, assim, teve caixa. Eduardo Maluf mudou de lado em Minas e foi um dos responsáveis pela montagem do elenco do Atlético Mineiro vice-campeão brasileiro em 2012 e campeão da Libertadores em 2013. Quem comandou a montagem do elenco celeste desta vez foi Alexandre Mattos. Se em 2003 o time se recheou com jogadores contratados em negócios de ocasião e de graça, desta vez a palavra-chave foi apostar em quem estava bem, mas foi preciso gastar. Mas não basta gastar, e está aí o Corinthians com Alexandre Pato para provar. Aliás, o Cruzeiro gastou o mesmo que o Corinthians com Pato, próximo de R$ 40 milhões, só que para montar o elenco todo.

Aqui é preciso fazer uma ressalva. Em 2003, o cenário do futebol brasileiro era muito diferente. Os clubes não tinham a capacidade financeira atual e, mais do que isso, havia um entendimento muito diferente do mercado. Os clubes faziam negócios de ocasião porque poucos ainda tinham pleno entendimento da Lei Pelé e de como ela mudou a relação entre clubes e jogadores e a forma de contratação. O São Paulo de 2005 foi o primeiro supercampeão que percebeu isso.

Em 2013, o futebol brasileiro vive um momento de muito dinheiro no caixa com os contratos de TV, uma economia no país fortalecida e dos europeus e asiáticos – os principais compradores de jogadores – enfraquecida desde a crise mundial de 2008. Com tudo isso, montar um elenco só com jogadores contratados de graça, nos moldes que o Cruzeiro fez em 2003 e o São Paulo fez em 2004 e 2005 não é mais possível. Clubes e jogadores estão mais precavidos, os contratos melhor amarrados e, com mais dinheiro, os clubes pedem mais alto para liberar seus jogadores para concorrentes. Ainda mais com o entendimento mais claro que o Campeonato Brasileiro por pontos corridos exige um elenco maior e mais forte do que era até 2003. O Cruzeiro arriscou, gastou e montou o elenco mais caro da sua história para conseguir se tornar forte. E conseguiu.

Primeiro, o Cruzeiro tratou de faturar. Vendeu Walter Montillo, que tinha sido seu principal jogadores nas temporadas anteriores, ao Santos por R$ 24 milhões. E ainda trouxe de volta o volante Henrique, que não foi bem no time da Vila Belmiro, como contrapeso na transferência. Foi o primeiro grande negócio do clube celeste: Montillo rendeu um bom dinheiro e já não vinha sendo o mesmo jogador, como não foi no Santos, e o clube ainda ganhou Henrique. Se nos primeiros meses o jogador continuou não rendendo o mesmo, tornou-se uma peça importante do elenco que acabaria sendo tão elogiado justamente por ter boas opções no banco.

Começava ali uma revolução no elenco do time que, em 2012, ficou no meio da tabela, em nono lugar. A reformulação mudou 70% do elenco, contratando um grande número de jogadores. O time abriu os sofres: trouxe Dedé do Vasco por R$ 14 milhões, Dagoberto do Internacional por R$ 7 milhões, Ricardo Goulart do Goiás por R$ 5 milhões, Éverton Ribeiro do Coritiba por R$ 4 milhões e Nílton do Vasco por R$ 2 milhões. Dedé foi uma contratação estelar, jogador de seleção brasileira e Dagoberto chegou depois de passagem sem tanto brilho no Inter, mas ainda assim com um nome. Todos os demais foram apostas.

Claro, foram apostas bem pensadas de jogadores que vinham se destacando e tinham um grande histórico. Éverton Ribeiro já vinha bem há pelo menos dois anos no Coritiba, que foi vice campeão duas vezes da Copa do Brasil. Mesmo assim, ainda não tinha explodido como o grande maestro que se tornaria no Cruzeiro e não tinha como saber se daria certo. Não chegou com status de estrela. Ricardo Goulart fez um grande Campeonato Brasileiro na Série B pelo Goiás em 2012 e despertou interesse de outros clubes, mas já tinha passado sem sucesso pelo Internacional e ainda gerava alguma desconfiança. Valeria o investimento? Os dois são, atualmente, os melhores jogadores do time. Valeram.

Apesar da impressão de um time sem estrelas, elas foram contratadas. Diego Souza chegou do Al Ittihad de graça, depois de uma batalha jurídica do meia com o clube do Oriente Médio. Apesar de ter chegada de graça, os seus salários eram altos. Dedé e Dagoberto também encheram a folha salarial celeste, além de terem custado um bom dinheiro. Ceará veio de graça do Paris Saint-Germain, mas com salários altos. Borges foi outro a chegar de graça, vindo do Santos, mas também com salários altos. Caso parecido com Júlio Baptista, que chegou de graça do Málaga, mas com salários altos. Willian, que se destacou pelo Corinthians, veio por empréstimo do Metalist, da Ucrânia, mas os salários também eram altos. Todos foram importantes na conquista celeste.

Além desses, chegaram outros jogadores que eram apostas que pouca gente faria. Egídio, lateral esquerdo, chegou do Flamengo, onde não tinha espaço e tinha sido emprestado para o Goiás, clube pelo qual jogou o Brasileiro da Série B em 2012. A chuva de críticas que recebia na Gávea o rotulava como um jogador irregular, para dizer o mínimo. E acabou sendo o melhor lateral esquerdo do Brasileirão de 2013. Foi uma aposta pessoal de Marcelo Oliveira, que viu o bom campeonato que Egídio fez pelo esmeraldino, mas era uma aposta de alto risco. Bruno Rodrigo chegou com o fracasso no Santos no currículo, apesar de passagem melhor pela Portuguesa. Ninguém esperava que o zagueiro fosse destaque do Cruzeiro, mas ele foi. Até melhor que Dedé, a contratação estelar – e o ex-jogador do Vasco foi bem. Foi outra aposta arriscada que o Cruzeiro fez, mas que valeu a pena.

Vieram outros coadjuvantes, embora nem todos tenham feito sucesso. Luan chegou do Palmeiras e foi um reserva importante. Martinuccio, aquele, ex-Peñarol, chegou por empréstimo do Fluminense, onde não era aproveitado. No Cruzeiro, foi útil, também vindo do banco. Outros acabaram não indo bem, como Lucca, que veio do Criciúma por empréstimo e acabou jogando pouco. Ananias também acabou não dando certo e deixou o clube no meio da temporada.

O Cruzeiro montou um time cheio de apostas, de jogadores que se destacaram, mas também com estrelas, mesmo que elas não tenham sido protagonistas. Júlio Baptista é um reserva de luxo e Dagoberto também se tornou ao longo da temporada. E o Cruzeiro, assim como em 2003, contou com jogadores da base para o sucesso do time. Mayke surgiu como um furacão na lateral direita, tornando-se uma grande opção por aquele lado. Lucas Silva virou titular durante a campanha em um time que tinha muitos jogadores para a posição, mesmo sendo muito jovem. Vinícius Araújo foi titular em muitos jogos, substituindo Borges à altura, com sete gols marcados. Borges fez 10. Willian fez 7, assim como o volante Nilton e o meia Éverton Ribeiro. Ricardo Goulart fez 10. Tudo funcionou, e foram poucas as apostas que o time fez e não deram em nada.

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Mudança de política
Éverton Ribeiro e Egídio comemoram um gol do Cruzeiro contra o Defensor, na Libertadores de 2014 (AP Photo/Bruno Magalhaes)

Éverton Ribeiro e Egídio comemoram um gol do Cruzeiro contra o Defensor, na Libertadores de 2014 (AP Photo/Bruno Magalhaes)

Um ponto fundamental para que toda essa política de contratações acontecesse foi a mudança na diretoria. Os irmãos Perrella se notabilizaram por ter como meta vender jogadores. O Cruzeiro não costumava segurar suas estrelas e usava essas vendas para tornar a operação do clube lucrativa. A entrada do presidente Gilvan Tavares mudou essa postura. O clube contratou muitos jogadores e conseguiu segurá-los de um ano para outro, além de seguir contratando.

Para manter o clube faturando, além das cotas de TV, o Cruzeiro conta com um programa de sócio-torcedor atualmente com 59 mil sócios – atrás, em número, apenas de Grêmio, com 77,5 mil, e Internacional, 119 mil – e uma boa arrecadação de bilheteria. No segundo semestre de 2013, o time tinha 40 mil. O investimento para aumentar esse número e o sucesso em campo estão ajudando o time a faturar cada vez mais com o programa e com bilheteria. Aliás, foi o campeão em arrecadação média por jogo em 2013, com R$ 1.346.081. Na arrecadação total, foi o segundo, com R$ 39.036.349, atrás apenas do Flamengo (R$ 43.979.718).

No fim, as apostas funcionaram e prever esse tipo de coisa é bem complicado. Mesmo fazendo tudo certo, às vezes o título não vem. Que o digam o Internacional, como já mostramos, e outros casos, como o Palmeiras de 2009. Às vezes, simplesmente não acontece. Outras, como no caso do Cruzeiro, tudo foi feito pensando em brigar lá em cima, se trabalhou para isso e, além de tudo, as coisas funcionaram, a maioria das apostas deu certo e surgiram jogadores na base que ajudaram a compor um elenco de qualidade. Aí foi correr para o abraço. E, com a continuidade da política de contratações nesta temporada, com o técnico fazendo um grande trabalho e os jogadores em grande fase, 2014 vai dando pinta que pode repetir 2013. Bom para o Cruzeiro.

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