Por anos, a Colômbia conviveu com a violência. Os cartéis do narcotráfico e os grupos paramilitares ditavam as regras em um território em estado de guerra. É verdade que ainda hoje o problema persiste no país, mas em intensidade menor. Por décadas, principalmente entre os anos 1980 e os 2000, o medo e o dinheiro do crime dominavam o cotidiano dos colombianos, inclusive do futebol. Potências locais eram financiadas pelos chefões, enquanto alguns craques tinham suas ligações escusas.

O momento mais emblemático nesse contexto foi a morte de Andrés Escobar. No dia 2 de julho de 1994, o zagueiro da seleção martirizado pelo gol contra na Copa do Mundo, baleado por traficantes que teriam apostado alto no sucesso dos Cafeteros. Um passado que a atual seleção tenta deixar para trás, cumprindo 20 anos depois a sonhada grande campanha em um Mundial. Por mais que alguns jogadores também sejam marcados por tragédias pessoais ligadas à violência no país. Entre eles, Juan Guillermo Cuadrado, um dos protagonistas do time.

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Cuadrado nasceu na pequena cidade de Necoclí, próxima à fronteira com o Panamá, considerada uma das mais perigosas do mundo. O município fica no coração de Urabá, região que é rota dos narcotraficantes por sua localização estratégica (com ligações ao Oceano Pacífico e ao Mar do Caribe) e foco das forças paramilitares que diziam combater a guerrilha – mas que, além disso, também derramava o sangue do povo local, em especial de indígenas e afrodescendentes, e tirava campesinos de suas terras. O pai do garoto, então com apenas quatro anos, foi uma das vítimas.

Guillermo era motorista de caminhão de refrigerantes e foi morto dentro de casa. Escondido embaixo da cama, como seus próprios pais haviam lhe ensinado a se proteger em meio a essa guerra, Juan Cuadrado ouviu os tiros. Era o ano de 1992, meses antes de outros dois assassinatos que marcaram o país: o de Pablo Escobar, chefe do Cartel de Medellín; e o de Andrés Escobar.

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Sem o pai, Cuadrado acabou criado pela mãe. O menino mirrado desenvolvia seu futebol nas praias de Necoclí, enquanto a mãe garantia o seu sustento trabalhando em uma fábrica de bananas. A violência, no entanto, continuava em seu entorno. Foi criado pela avó durante um tempo, quando sua mãe mudou-se para Apartadó fugindo do clima de guerra que se estabelecia. Cuadrado a acompanhou um tempo depois, mas ela ainda voltaria para Necoclí, de novo temendo os crimes, enquanto o prodígio começava a deslanchar para o futebol. Na época, Urabá dava a origem ao grupo neoparamilitar ‘Los Urabeños’, um dos mais influentes e violentos do país.

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Tanto quando a violência, o próprio desenvolvimento físico foi um entrave para Cuadrado vingar no futebol. Apesar dos muitos gols nas categorias de base, não conseguia se firmar nos times causa do físico frágil. Até que um pai no futebol lhe apareceu. Nelson Gallego, renomado formador colombiano, tomou a tutela da promessa e o levou para o Deportivo Cali. O garoto, que media 1,35 m com apenas 13 anos, começou a desenvolver-se no clube, mas não ficou por tanto tempo. Rodou mais um pouco durante a adolescência e chegou a ser reprovado em testes por clubes argentinos, incluindo o Boca Juniors. Através do próprio Gallego, foi indicado ao Independiente Medellín, onde realmente vingaria.

Juan Jose Pelaez foi o técnico que o lançou na equipe principal do DIM. Porém, o comandante de Cuadrado em seu auge no futebol colombiano era Santiago Escobar. Sim, o irmão de Andrés Escobar, também responsável por formar um dos principais talentos da seleção colombiana que ajuda a superar o trágico assassinato. O treinador teve papel importante no senso tático da promessa, o ajudando a jogar na lateral direita e a se tornar tão completo. Foi vice-campeão colombiano em 2008, em uma equipe que também contava com Jackson Martínez. No ano seguinte, acabou atraindo o interesse dos clubes italianos. Chegou à Udinese, despontou no Lecce e chegou ao ápice com a camisa da Fiorentina.

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Dois dias depois dos 20 anos da morte de Andrés Escobar, Cuadrado volta a campo. Talvez o jogador mais marcado pela violência na Colômbia desde o ex-zagueiro. E tentando escrever uma história ainda mais grandiosa justamente contra o Brasil, que sempre admirou. “Dois fenômenos como Ronaldo e Ronaldinho eram os que me inspiravam na infância. Tinham uma capacidade diferente para driblar e eu sempre gostei do futebol alegre. Eu tratava de imitá-los”, comentou na saída do jogo contra o Uruguai, ao já ter certeza de quem seriam seus próximos adversários.

Pelo estilo de jogo, não seria difícil de imaginar Cuadrado vestindo a camisa da seleção brasileira. Afinal, o “Rei do Drible” foi quem mais honrou a ponta direita do Estádio Mané Garrincha, o maior ponta direita da história das Copas. Sua atuação contra a Costa do Marfim foi a melhor das boas quatro partidas que fez no Mundial, no qual já soma quatro assistências. E enquanto muita gente se preocupa com James Rodríguez, é bom a defesa brasileira não se descuidar de Cuadrado. A partidaça que fez no amistoso em 2012, quando marcou o gol cafetero no empate por 1 a 1, foi um prenúncio. A alegria de uma nova Colômbia, que não se esquece da violência, mas precisa caminhar para frente. De preferência, com a habilidade e a velocidade de Juan Guillermo Cuadrado.