Convenhamos, a convocação da seleção brasileira era uma barbada. Quem tentou prever o que Tite faria e não acertou pelo menos 18 nomes chamados, ou não acompanhou o trabalho suficientemente, ou se iludiu achando que o treinador promoveria surpresas. Definitivamente, ele não promoveu. E naquelas que pareciam as posições incertas, o treinador manteve o evidente – seja por Cássio, Fágner, Danilo, Geromel, Filipe Luís, Fred ou Taison. Sim, Taison. A escolha do ponta do Shakhtar Donetsk é a mais movediça, por se ater mais ao nome do que a uma posição fixa. Nisso, entra o questionamento pela ausência de Arthur, do Grêmio.

Ao longo de seu tempo à frente da Seleção, Tite sempre ressaltou a importância da polivalência. De jogadores que permitissem variações táticas e atuassem em mais de uma posição, algo necessário em uma competição de tiro curto, na qual o treinador conta com opções limitadas ao elenco. E, assim, parecia sobrar um posto entre as 23 lacunas na lista de convocados. Irão três goleiros, quatro laterais e quatro zagueiros, ok. Dois homens de frente, como já definidos Gabriel Jesus e Roberto Firmino. Mas para configurar a faixa central, entre meio-campistas e pontas, a multiplicidade abre um leque de opções.

Fernandinho, por exemplo, pode entrar como cabeça de área no lugar de Casemiro ou um pouco mais à frente, na posição de Renato Augusto / Paulinho. Philippe Coutinho é uma peça para a faixa central ou para a ponta. E outros nomes se tornam adaptáveis dentro desta ideia. Assim, em dez nomes restantes, haveriam cinco podendo atuar em funções primordialmente centrais (Casemiro, Fernandinho, Paulinho, Renato Augusto e o provável Fred), enquanto outros quatro a princípio são as alternativas pelas pontas (Neymar, Coutinho, Willian e Douglas Costa). Sobraria um coringa. E aí é que entra a discussão.

Taison, como Tite indicou na entrevista coletiva desta segunda, pode atuar como ponta ou também pela faixa central – como vem fazendo no Shakhtar Donetsk. É uma opção de mais potência física e definição. Este coringa poderia ser Willian José, mais um centroavante, mas que possui um estilo físico totalmente diferente e poderia se associar com Firmino ou Gabriel Jesus. Ou poderia ser Arthur, um atleta para servir como mais uma opção aos meio-campistas, com virtudes técnicas um bocado diferente daquilo que a Seleção já teria à disposição.

A falta de rodagem de Arthur ou a lesão que o afastou dos gramados durante alguns meses podem ser consideradas empecilhos. Mas não quando se analisa o talento do garoto para conduzir o jogo e fazer o time orbitar ao seu redor. O Grêmio se encaixou rumo à conquista da Libertadores graças ao nível altíssimo apresentado pelo garoto e sentiu muito a sua falta durante o período no estaleiro, sobretudo no Mundial de Clubes. Já os atropelamentos recentes protagonizados pelos tricolores, afinal, têm muito a ver com o retorno do meio-campista, logo exibindo a melhor forma, independentemente do tempo ausente. A naturalidade com que conduz a fluidez no clube faz crer que, mesmo sendo um iniciante na seleção principal, poderia ser muito útil.

Arthur não chegaria com uma importância tão alta à Seleção, até por aquilo que Tite já realizou ao longo dos últimos meses, com raros testes para a sua base solidificada. Ainda assim, dentro do plano de jogo rumo ao Mundial, seria um acréscimo bastante interessante. Um atleta para determinar o ritmo da partida em duelos mais fechados e que acrescentasse por sua qualidade na criação, sem perder a combatividade. Seria, além de tudo, a preparação de um jovem para os próximos ciclos da equipe nacional, considerando que, aos 21 anos, tem bola e idade para render muito mais com a amarelinha.

Quando se pensa em Arthur, porém, há um detalhe importante que precisa ser analisado. O meio-campista é um jogador para que a equipe seja construída ao seu redor, mais do que uma cartada para ser usada apenas no segundo tempo. Obviamente, como já dito acima, o garoto pode oferecer variações ao próprio estilo de jogo da Seleção, por sua capacidade associativa. Mas não é necessariamente o cara que entrará em um momento de desespero, quando o time precisará de um gol. Neste sentido, a potência de Taison ou a presença de área de Willian José são mais compreensíveis. Ou mesmo a capacidade de definição de Luan. Ou ainda Giuliano, atuando de maneira mais centralizada no Fenerbahçe, e recuperando nesta reta final de temporada a fome de gols que se via no Zenit.

A diferença de Arthur para os demais jogadores convocáveis para ser este coringa é que, dentro da visão do garoto como um possível articulador, ele precisaria chegar já se encaixando um pouco mais no time titular. Poderia ser uma alternativa a Renato Augusto? Certamente, mas Tite não quebrará a confiança com um jogador que o ajudou durante toda a campanha nas Eliminatórias, que só tende a ser suplantado por alguém mais cascudo que ele, talvez Coutinho ou Fernandinho. Poderia, então, ser um concorrente a Fred – o único “reserva direto” a Paulinho e Renato Augusto? Também poderia. Entretanto, por seu estilo de jogo, Fred surge mais como um jogador de apoio direto ao ataque, não tanto de cadência – ou seja, um fator a mais para o desespero de uma mudança na pressa. Além do mais, é um atleta bem mais experimentado, por Tite ou nos clubes, o que certamente influencia.

É uma pena não ver Arthur na Seleção, porque Arthur é um jogador que não se vê todo dia no futebol – e não apenas no Brasil, como se percebe pelo próprio interesse do Barcelona. Se mantiver a sua curva de evolução e continuar atuando em alto nível, com tamanha propriedade sem sentir a pressão, o gremista será um jogador para mais de uma Copa do Mundo. Mas entre o que vê como opção e o que trata como gratidão, Tite preferiu deixá-lo de fora. O meio-campista tem qualidade para fazer o time crescer consigo e até para aprimorar o estilo de jogo da equipe nacional. Talvez o que falte seja mesmo tempo, em diferentes sentidos. Tempo que não deve ser problema ao futuro do goiano.