Vivaldão

[Ditadura] Da criação do Brasileirão aos elefantes brancos, como o futebol entrou no Plano de Integração Nacional

O Campeonato Brasileiro (na essência de sua origem, antes da unificação promovida pela CBF em 2010) possui 43 anos de história. Um menino, diante dos 126 anos do Campeonato Inglês, os 123 anos do Argentino ou os 114 anos do Uruguaio. A dimensão do país ajuda a explicar esse abismo, com a organização regionalizada. Afinal, o Paulistão é um senhor de 112 anos. Dos 22 estados brasileiros em 1971, só duas tiveram estaduais surgidos após a década de 1920 – Goiás e Mato Grosso (sem contar, claro, o Brasiliense, pois o atual Distrito Federal não existia na década de 1920).

>>> Tema da semana: Como a ditadura militar se apropriou do futebol brasileiro
>>> Parte 1: O futebol também foi uma obra faraônica dos militares
>>> Parte 2: Onze vozes que se rebelaram nos anos de ditadura
>>> Arquivo: O estádio transformado em prisão pela ditadura militar
>>> Impedimento: Confira os especiais sobre os 50 anos do golpe

O motivo principal eram as distâncias entre as grandes cidades brasileiras. O problema não era a existência de voos. Afinal, a aviação civil estava consolidada já na década de 1950 (quando havia 16 empresas realizando voos) e tinha a segunda maior rede do mundo em volume de tráfego (atrás dos Estados Unidos) nos anos 60. A questão era quem pagava a conta.

O governo militar tinha a motivação política necessária para responder a essa pergunta. O contexto da época era de vender o espetáculo do Milagre Econômico, do Plano de Integração Nacional, das obras gigantescas. Daí a usar o futebol para mostrar como esses conceitos se aplicavam foi um pulo.

Os precursores do Brasileirão

Os primeiros campeonatos regulares que rompessem as fronteiras regionais surgiram na década de 1950. A pioneira foi a Taça Brasil, nascida em para indicar o representante brasileiro na Copa dos Campeões das Américas, a futura Libertadores. Um torneio em mata-matas, com os campeões estaduais, longe de representar uma verdadeira integração nacional. Já o Torneio Roberto Gomes Pedrosa tornou-se uma expansão do Torneio Rio-São Paulo. Em sua primeira edição, em 1967, agregou clubes de Rio Grande do Sul, Paraná e Minas Gerais, enquanto no ano seguinte também começou a contar com representantes de Bahia e Pernambuco. O protótipo do Brasileirão.

Apesar da abrangência, o Robertão não era visto como o verdadeiro Campeonato Brasileiro. Os times disputavam até 19 jogos em um intervalo de apenas três meses de competição. Em outubro de 1970, a Revista Placar publicou a matéria intitulada ‘O Robertão é quase um Campeonato Nacional. O Campeonato Nacional é nossa grande solução’. Nela, os técnicos de alguns dos principais clubes brasileiros reclamam da falta de viabilidade financeira e das viagens desordenadas. Além disso, havia uma discussão latente sobre a falta de abrangência do campeonato, com escolhas sem critérios dos times.

Jarbas Passarinho

No entanto, vários outros elementos além dos campos contribuíram para o surgimento do Brasileirão. “O Campeonato Brasileiro foi criado em 1971. Ali nasce a competição. A unificação que a CBF promoveu depois é uma aberração, a Taça Brasil e o Robertão”, analisa Daniel de Araújo dos Santos, historiador especializado em futebol e política – e com uma tese analisando a criação do Brasileiro. “A criação do campeonato faz parte de um processo. Em 1969, a loteria esportiva é lançada pelo governo para promover ideias de otimismo, de ficar rico. Já a Copa de 1970 foi bastante usada por Médici. A partir da conquista, houve uma pressão pela CBD feita pelos meios de comunicação pela criação do Campeonato Brasileiro, especialmente a Placar e os grandes jornais. E isso chegou até o ministro da educação e cultura, Jarbas Passarinho (foto), que apresentou sugestões para mudar as estruturas do esporte. Diante da pressão, a CBD prometeu um novo calendário para 1971.”

Dentro dessa evolução, a conquista do tricampeonato tem um papel fundamental. É neste momento que o regime militar usa de maneira mais aberta os resultados do futebol em sua própria máquina de propaganda. Quem explica é Gerson Wasen Fraga, historiador com doutorado voltado ao estudo do futebol, com vários artigos relacionando esporte e política no período da ditadura: “Aproveitaram muito mais um elemento novo que foi a vitória na Copa de 1970 do que planejaram o campeonato. Antes da Copa já existia a ideia de que, se o Brasil fosse campeão, isso seria aproveitado. O governo sabia que poderia capitalizar com o futebol, uma percepção muito antiga, anterior à ditadura”.

E ainda a realidade econômica vivida pelo país era mais uma forma de tentar impulsionar o Brasileirão entre a população. Em tempos do chamado Milagre Econômico tão aclamado pelos militares, os meios de comunicação e a loteria esportiva atuaram em conjunto para que o campeonato nacional ganhasse o público, especialmente na década de 1970, quando os estaduais ainda eram unanimidades. A loteria esportiva começou a chamar atenção de quem também não estava tão ligado no futebol. E os meios de comunicação embarcaram na ideia, até mesmo como tática para aumentar as vendas. Enquanto a Placar acompanhava a todos os jogos da loteca e ajudava nos palpites, o Fantástico, em um momento no qual as famílias começavam a ter um acesso maior aos televisores, criou o famoso quadro da ‘zebrinha’ durante a veiculação dos gols da rodada.

O Plano de Integração Nacional

O momento de evidência do futebol veio a calhar para o governo de Médici. Em 16 de julho de 1970, menos de um mês depois de Carlos Alberto Torres levantar a Taça Jules Rimet no estádio Azteca, o presidente assinava o decreto-lei que dava início ao Plano de Integração Nacional, o PIN. O projeto visava criar uma unidade maior entre as diferentes regiões do Brasil e também fomentar o crescimento de áreas antes isoladas. E, assim como a aplicação de políticas desenvolvimentistas, o futebol também faz parte desse processo.

“O Médici vê no futebol a chance para mostrar na prática o seu discurso de integração. Era um período de expansão da fronteira agrícola, de construção da rodovia Transamazônica. E o Campeonato Brasileiro servia para corroborar esse processo. O governo viabilizou o torneio através do Ministério da Cultura, com ajuda financeira. Na época, as maiores questões eram quanto aos custos das grandes viagens. E o poder público passou a custear esses traslados e as estadias. Antes disso, sem a intervenção do governo, esse diálogo que era próprio da CBD não existia”, explica Daniel dos Santos.

O apoio financeiro foi a chave para a realização do Brasileiro. Em uma época na qual a logística das viagens era muito mais complicada, havia o apoio para que os clubes tornassem real a competição. A primeira edição do campeonato, no entanto, pareceu muito mais com o velho Robertão do que com uma competição que realmente integrasse o país. Ceará, Coritiba e América Mineiro foram os únicos clubes acrescentados, sendo que só os cearenses representavam um Estado diferente. Além disso, a fórmula seguia parecida com a de seu precursor, com 20 clubes divididos em dois grupos, com 12 avançando para a segunda fase e, depois, em um triangular final. O Atlético Mineiro, de Telê Santana, se sagrou campeão.

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Entretanto, alguns clubes resolveram tornam pública a sua insatisfação com o privilégio que a CBD deu a determinados estados. Também em 1971, o presidente do Goiás, com o apoio do governador, teve a ideia de criar o Torneio de Integração Nacional – um nome com clara referência aos planos de Médici. Seis clubes goianos entraram no certame, acompanhados por representantes de outros dez estados, incluindo quatro que não estavam no Brasileirão.

Não dá para dizer que este torneio marginal foi o principal motivador do primeiro aumento no número de clubes no Campeonato Brasileiro, mas certamente influenciou. Afinal, o Torneio de Integração Nacional expunha justamente que a principal liga do país não era totalmente integradora, que havia estados excluídos da elite do futebol nacional. Para corroborar o discurso do governo, o Campeonato Brasileiro de 1972 ganhou mais seis times, com a inclusão de cinco estados (Alagoas, Amazonas, Pará, Rio Grande do Norte e Sergipe) – sendo dois da região Norte, que ainda não tinha equipes.

Do Brasileirão para integrar o país ao exagero

Aquele foi o primeiro passo no processo de integração promovido pelo governo Médici, através do Campeonato Brasileiro. Em 1973, a competição saltou para 40 clubes, naquele que parecia ser o número ideal – no ano seguinte ele se manteve, enquanto apenas mais dois times foram incluídos em 1975. Enquanto isso, vários outros estados passaram a ser contemplados. Distrito Federal, Espírito Santo, Goiás, Maranhão, Mato Grosso, Piauí e Santa Catarina ganharam equipes já em 1973. Por fim, a Paraíba completou a lista em 1975 – em 1979, com a criação do Mato Grosso do Sul, 21 dos 22 estados passaram a contar com representantes. O Acre ficou de fora porque se profissionalizou apenas em 1989.

O problema é que, a partir desse momento, a política passa a ter influência direta no equilíbrio do Brasileiro. O fracasso da Arena nas eleições de 1974, vendo o MDB conquistar 37,8% das cadeiras na Câmara e 16 das 22 do Senado, foi determinante para o inchaço da liga. “Em 1974, Geisel tentava buscar a legitimação do processo de abertura nas urnas, mas o resultado desestabiliza isso, com uma necessidade de fortalecer a Arena. É quando Heleno Nunes chega ao poder e dava-se um jeito para incluir times de diferentes locais no Brasileiro. O presidente da CBD tentava justificar que aquilo era ‘para mais times pequenos participarem da festa’, mas havia uma clara politização, uma intenção de conseguir votos. Era um trampolim para a Arena no interior”, analisa Daniel dos Santos. “Em alguns lugares, havia efeitos práticos para a Arena. Mas o MDB também se beneficiava. No interior, essa diferença entre os partidos era mais nebulosa. Além disso, o futebol é um dos elementos nesse processo, mas não era o principal”.

Clubes e estados representados no Brasileiro – 1971-83

A partir de então, a máxima “Onde a Arena vai mal, mais um time no nacional” passou a reger a organização do Campeonato Brasileiro. A liga saltou para 54 participantes em 1976 aos assustadores 94 participantes em 1979, um recorde absoluto. Nanicos como Leônico (BA), Tiradentes-PI e Dom Bosco (MT) estavam representados. “Inserir o time no campeonato nacional significava integrar a comunidade. Por mais que a cidade fosse pequena, não tivesse recursos financeiros, não fosse populosa, tentava-se criar o sentido que estava plenamente inserida através do futebol. É parecido com o que a Copa do Brasil começa a fazer depois”, explica Gerson Fraga. E a visibilidade se ganhava também com o nome na loteria esportiva, as matérias publicadas pela imprensa e os gols transmitidos pela televisão.

Os gigantes de concreto para marcar presença

Não era apenas com o acréscimo de clubes minúsculos no Brasileiro que o projeto de integração da ditadura se fazia sentir através do futebol. Como objetos incontestáveis da força econômica que o governo queria passar, eram construídos estádios. Aos montes. A maioria com capacidades enormes, exageros para clubes que quase sempre concorriam pela torcida com os grandes do Rio de Janeiro e de São Paulo. Segundo Gerson Fraga, por meio dos estádios, a grandeza do futebol se alinhava à grandeza do projeto político: “Eles eram construídos em bolsões do país que não estavam em pleno desenvolvimento, muitos no Norte e no Nordeste. Eram obras gigantescas para dar visibilidade, uma forma para o governo marcar presença”.

Os números evidenciam bem isso. Foram construídos ou ampliados consideravelmente 52 estádios significativos durante o período da ditadura militar, 32 deles durante a década de 1970, quando Médici e Geisel conduziram uma política bem mais clara de investimento ao futebol nacional – embora alguns deles sejam de projetos anteriores ao Golpe de 1964. E conta não inclui o gigantesco Pinheirão, que deveria ser o segundo maior do país, mas que só ficou pronto em 1985 e com uma capacidade bem inferior ao prometido. Em tempos nos quais não havia controle dos gastos públicos, os rombos nos cofres para distribuir agrados políticos não podiam ser medidos.

Estádios Ditadura

* Estádios ampliados significantemente, mas inaugurados antes do início da ditadura

E, dentro deste processo não dá para eximir nem mesmo os estádios particulares, como o Morumbi (inaugurado em 1960, mas com ampliação concluída em 1970) e o Beira-Rio. Por mais que todo ou quase todo o dinheiro investido destas obras tenha vindo dos clubes, o embalo de construções de estádios pelo país serviram de motivação. As construções eram símbolos de grandeza e modernidade.

Ainda assim, ter grandes estádios não era garantia plena de sucesso. Os estádios tinham bons públicos, mas raramente em partidas locais. A população seguiu fiel aos clubes dos centros mais tradicionais e só quando um deles estava por lá é que havia lotação. Além de, claro, em jogos da Seleção, que realizava amistosos em muitas dessas obras recém-inauguradas. “O governo não estava preocupado com o conforto dos estádios, queria colocar a população em contato com a seleção, fazer com que as pessoas vissem a representação da nacionalidade através do futebol”, conclui Gerson Fraga.

A derrocada do projeto e a herança

A partir de 1980, o futebol brasileiro começa a viver um novo momento. A crise econômica faz a fonte de dinheiro das federações secar. Os estádios também deixam de ser construídos. E, com as mudanças políticas vividas na recém-criada CBF, o Campeonato Brasileiro é enxugado. Em 1980, a liga teve 44 times, embora todos os estados continuassem presentes.

O fracasso do Brasileirão de 1979, o mais inchado da história, foi um dos motivadores desse processo. Mas houve outras questões. A crise do petróleo foi o golpe final para derrubar a economia brasileira, e fez a ditadura perder um de seus pilares. Além disso, o custo dos combustíveis subiu rapidamente, encarecendo as viagens. “Outro fator que pode ser mencionado é o aumento da transmissão dos jogos ao vivo, que começou a crescer no final da década de 1970 e se tornou mais comum no início dos anos 1980. Não interessava para a televisão transferir seus equipamentos para pequenas cidades, havia um custo muito grande”, comenta Daniel dos Santos.

Enquanto o dinheiro dos direitos televisivos e do marketing começava a pingar no futebol brasileiro, os grandes estádios começavam a se tornar grandes ônus para o poder público, além de estigmas para os times menores. A herança de tudo isso? Explicamos de maneira mais detalhada na primeira parte do especial desta semana.