Nesta semana, a seleção peruana enfrenta a Nova Zelândia pela repescagem das Eliminatórias para a Copa do Mundo, tentando aproveitar sua maior chance de retornar a um Mundial depois de mais de três décadas. As memórias da última participação, em 1982, são ambivalentes. Sob o comando do veterano treinador brasileiro Tim, aquela equipe reunia um punhado de ótimos jogadores e brilhou nas Eliminatórias, batendo em Montevidéu um Uruguai que acabara de vencer o Mundialito. Depois, alternou vitórias históricas com exibições pífias na fase de preparação. Mas, na Espanha, a eliminação na primeira fase, com derrota por goleada diante da Polônia na última rodada, e em meio a uma grande crise no elenco, deixou um gosto amargo, que a geração atual luta para apagar.

Da Argentina para a Espanha

A seleção peruana saiu da Copa de 1978 com a reputação um tanto abalada pelo caso mais rumoroso daquele Mundial: a suspeita de ter facilitado, inclusive por meio de suborno, a goleada de 6 a 0 para a Argentina, dona da casa, para que a pressionada equipe dirigida por Cesar Luís Menotti avançasse à final do torneio, satisfazendo interesses do regime militar ditatorial vigente no país-sede. O imbróglio repercutiu de maneira particularmente péssima no Brasil, país que acabou fora da decisão com o resultado (no dia seguinte àquela partida, o Jornal dos Sports, tradicional diário esportivo carioca, estampou a manchete: “Peru sem vergonha!”).

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Além disso, a má campanha na segunda fase daquela Copa, com três derrotas em três jogos no grupo que serviu de semifinal (3 a 0 para o Brasil, 1 a 0 para a Polônia e os já citados 6 a 0 para a Argentina) acabou ofuscando o esplêndido desempenho da equipe do técnico Marcos Calderón na primeira fase. Pelo Grupo D, sediado em Córdoba e Mendoza, os Incas haviam vencido de virada a Escócia por 3 a 1 (com atuação decisiva do goleiro Quiroga, que defendeu um pênalti quando o placar era de 1 a 1), empatado com a atual e futura vice-campeã Holanda em 0 a 0 e goleado o Irã por 4 a 1. Terminaram em primeiro lugar na chave, e ainda viram seu craque Teófilo Cubillas encerrar a etapa como o vice-artilheiro do Mundial, com cinco gols.

A primeira chance para tentar se recuperar veio em outubro do ano seguinte, na Copa América. Os peruanos, agora dirigidos por José Chiarella, entraram na competição já nas semifinais – dado importante para a confiança da equipe, já que rememorava o feito glorioso da conquista do torneio quatro anos antes, e que agora rendia o privilégio. Mas o sonho de reter a taça acabou de maneira bem dolorosa, ainda naquela fase, com a eliminação para o arquirrival Chile de Elias Figueroa e Carlos Caszely, que venceu o jogo de ida em Lima por 2 a 1 e segurou um 0 a 0 na volta, uma semana depois, em Santiago.

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Ao contrário de 1979, em que a seleção disputou nada menos que oito amistosos, além dos dois jogos pela competição sul-americana, o ano de 1980 foi quase sabático: novamente com Calderón no comando, a Bicolor entrou em campo apenas duas vezes, em dois amistosos contra o Uruguai – um em julho, em Montevidéu, e o outro em novembro, em Lima – que terminaram em empates. E o início de 1981, por sua vez, foi desastroso, com derrotas para Tchecoslováquia (3 a 1) e Bulgária (2 a 1) na capital peruana, além de categóricos 3 a 0 impostos pelo rival Chile em Santiago.

O momento era tão ruim que, em fevereiro, após um jogo-treino na cidade de Huánuco, enfrentando o León local, os jogadores foram agredidos por torcedores com garrafas e pedras, além de socos e pontapés. Com a saída de Marcos Calderón, substituído interinamente a partir daquele mês por Alejandro Heredia, a federação demorou alguns meses, mas acabou apontando um novo treinador. Depois de falharem nas tratativas com Zagallo, na época dirigindo o Vasco e algoz do compatriota Didi na histórica campanha de 1970, os dirigentes optaram por outro brasileiro: Elba de Pádua Lima, o veterano Tim, 66 anos, que então comandava o São José, do interior paulista. Recém-promovido à elite estadual, a Águia do Vale investia alto naquele momento – em campanha que, já depois da saída do treinador, levou o time à final do segundo turno do Paulistão e garantiu presença na Taça de Ouro (a elite do Campeonato Brasileiro) em 1982.

A batalha das Eliminatórias

Ex-atacante do Botafogo de Ribeirão Preto e do Fluminense nos anos 1930 e 1940, titular da Seleção na Copa do Mundo de 1938, Tim iniciara a carreira de treinador no Olaria, clube no qual pendurara as chuteiras, por volta de 1947. Sua reputação de astuto estrategista e de profundo conhecedor do estilo de seus jogadores e dos adversários foi desenvolvida basicamente no Rio, onde comandou também os seis principais clubes. Mas merecem destaque especial suas passagens pelo Bangu (entre diversas idas e vindas, venceu o Torneio Internacional de Nova York em 1960), pelo Fluminense (campeão carioca de 1964) e pelo Vasco (campeão carioca de 1970, tirando os cruzmaltinos de uma fila de 12 anos).

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Fora do futebol carioca, fez trabalhos marcantes no Guarani e no Coritiba, onde foi campeão paranaense na década de 1970, além do San Lorenzo, clube que levou ao título argentino invicto em 1968, o primeiro sem derrota da história do profissionalismo no país, no qual se destacavam jogadores históricos dos azulgranas, Rodolfo Fischer e Roberto Telch. Escolhido entre outras opções brasileiras, Tim deixou o interior de São Paulo, quando já mirava a aposentadoria e o descanso em sua casinha em Rio das Ostras, para estrear no comando da seleção do Peru em 24 de maio de 1981, derrotando o Espanyol, de Barcelona, por 1 a 0 num amistoso em Lima.

Curiosamente, a fase de preparação seria marcada por vários jogos contra clubes, especialmente brasileiros. De lá até junho do ano seguinte, os peruanos enfrentariam, entre outros, Bangu, Cruzeiro, Palmeiras e Grêmio, além de Talleres de Córdoba, Borussia Dortmund, Cosmos, Fiorentina, um combinado Milan-Inter, Deportivo La Coruña, Paris Saint-Germain e Seraing, da segunda divisão belga. O primeiro jogo oficial contra uma seleção seria em 26 de julho, já pelas Eliminatórias da Copa do Mundo de 1982, enfrentando a Colômbia dirigida por Carlos Bilardo no estádio El Campín, de Bogotá.

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Os peruanos tiveram a chance de abrir o placar no começo da etapa final, quando Cubillas – disputando sua única partida naquelas Eliminatórias – foi derrubado na área. Porém, o próprio Cubillas desperdiçou a cobrança, chutando fraco para defesa fácil de Zape. Pouco depois, os colombianos marcaram, num chute de fora da área de Hernán Herrera que repicou no montinho à frente de Quiroga e morreu no fundo das redes. O empate veio a quatro minutos do fim do jogo, quando Barbadillo cruzou da direita e La Rosa acertou uma testada firme, inapelável, garantindo um ponto precioso.

O favorito do Grupo 2 sul-americano, no entanto, era o Uruguai treinado pelo ex-goleiro Roque Máspoli, que havia conquistado o Mundialito em Montevidéu em janeiro daquele ano. Na renovada equipe celeste, despontava uma espinha dorsal formada pelo goleiro Rodolfo Rodríguez, o zagueiro Hugo de León, o meia Rubén Paz e o atacante Valdemar Victorino. Os uruguaios, entretanto, sofreram na estreia contra a Colômbia no Centenario: perdiam por 2 a 1, de virada, até os 34 minutos da etapa final. Mas o atacante Julio César Morales se converteu em herói marcando duas vezes, a segunda cobrando um pênalti aos 42 minutos, para decretar a vitória suada por 3 a 2.

No dia 16 de agosto, o Peru voltou a campo, agora em casa contra os colombianos – que na época usavam um curioso uniforme com camisas laranjas (por vezes trazendo as cores da bandeira numa faixa diagonal), calções pretos e meiões também laranjas – e com La Rosa, o herói do empate em Bogotá, no time titular em lugar de Cubillas (e Uribe passando do comando do ataque ao meio-campo). Precisando da vitória, a equipe dirigida por Tim dominou inteiramente a partida e abriu a contagem. Jaime Duarte cobrou escanteio, a zaga colombiana afastou e o rebote sobrou para Chumpitaz, que lançou Oblitas na esquerda. O ponta foi à linha de fundo e cruzou. Zape não conseguiu cortar, e Barbadillo cabeceou para as redes, inaugurando a festa nas arquibancadas do Estádio Nacional de Lima.

No segundo tempo, o Peru continuou criando chances de ampliar o placar, enquanto a Colômbia tentava se defender com violência. Na metade da etapa final, o meia Otero atingiu Uribe e foi expulso. E, aos 26, após troca de passes pela direita do ataque, o lateral Duarte invadiu a área cafeteira e foi derrubado. Na cobrança, Uribe bateu forte e rasteiro, tirando de Zape. A bola bateu na trave e entrou, para alívio dos peruanos. Ainda houve uma grande chance com Uribe, salva em cima da linha pelo zagueiro Francisco Maturana, mas os 2 a 0 já eram o suficiente para que os Incas assumissem a liderança do grupo.

Uma semana depois, viria o maior desafio de todos: a visita ao Uruguai em Montevidéu. Um empate já seria considerado um ótimo resultado pelos peruanos, que receberiam a Celeste em Lima no próximo jogo. Mas a seleção de Tim conseguiu mais do que isso. Aos 40 minutos da primeira etapa, abririam o placar. Curiosamente, numa jogada de inversão de posições: Uribe desceu pela ala esquerda e entregou no meio a Oblitas. O ponta passou na diagonal para La Rosa, que invadiu a área e fuzilou Rodolfo Rodríguez.

Logo no início do segundo tempo, aos dois minutos, os peruanos se aproximaram ainda mais da vitória: Velásquez trocou passes com a defesa e recebeu de Duarte na meia direita. Arrancou pelo flanco, descendo na diagonal e, ao se aproximar da área, tabelou com Barbadillo. A bola sobrou para Uribe, que chegou feito um foguete pelo centro para outra vez vencer Rodolfo Rodríguez. Com os uruguaios em desvantagem dentro de casa, os ânimos ficaram exaltados e houve um princípio de confusão após uma falta em Cueto.

Aos 22 minutos, os uruguaios descontaram com um gol irregular, em que Victorino recebeu cruzamento da direita, ajeitou com o braço e finalizou vencendo Quiroga. Mesmo com o protesto dos peruanos, o lance foi validado. Pressionando, a Celeste chegou a empatar, com Rubén Paz em posição duvidosa emendando um chute cruzado vindo da esquerda, mas a jogada acabou anulada por impedimento. Resistindo bravamente até o fim na defesa e tocando bem a bola, o Peru foi premiado com um resultado histórico: era a primeira vitória da Bicolor sobre o Uruguai em Montevidéu em todos os tempos, e a única até 2004.

A partida de volta, a última dos peruanos naquele grupo, aconteceu no dia 6 de setembro e terminou num empate em 0 a 0. O placar não refletiu, entretanto, o maior volume de jogo dos donos da casa, que criaram várias chances de gol e só não venceram por pecarem nos arremates e pelas brilhantes intervenções de Rodolfo Rodríguez. Acovardados, os uruguaios não mostraram nem sombra do futebol do Mundialito, apelando para a violência em alguns lances e tendo De León expulso ainda no fim da etapa inicial. Ao apito final, as ruas de Lima explodiram em festa e comemoração pela classificação à Copa.

Uma seleção peruana à brasileira

A mudança radical, tanto do ponto de vista técnico quanto do tático e do psicológico em relação aos maus momentos do início daquele mesmo ano de 1981, se deveu fundamentalmente a Tim. Técnico de perfil ‘boleiro’, gostava da conversa franca com os jogadores, não os prendia com disciplina em excesso e utilizava a mesa de futebol de botão para explicar suas estratégias. Conseguiu fazer a seleção jogar um futebol solto, descomplicado e de ótimo toque de bola, ainda que baseado numa estrutura bastante simples.

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O desenho tático da equipe armada por Tim nas Eliminatórias se assemelhava muito aos times brasileiros dos anos 70 e 80. Era um 4-3-3, com posições e funções bem definidas. À frente do goleiro Ramón Quiroga, argentino naturalizado, jogava uma defesa firme. Os laterais Jaime Duarte e Roberto Rojas eram bons marcadores, mas não se furtavam a subir para o apoio quando necessário, na base da técnica (no caso de Duarte) ou da velocidade (no caso de Rojas). O veterano Héctor Chumpitaz, remanescente da Copa de 1970, no México, comandava o setor, atuando como uma espécie de líbero. Enquanto Rubén Toribio Díaz era o responsável pela marcação individual no miolo de zaga.

No meio-campo, novamente os papeis eram bem demarcados: José Velásquez era o primeiro volante. Cobria a entrada da área e iniciava a saída de jogo, embora nem sempre tivesse muita precisão nos passes e parecesse um tanto desengonçado. Tinha também o costume de se projetar ao ataque (marcou expressivos 12 gols nos 82 jogos em que atuou pela seleção), especialmente quando o meia-armador recuava para ter uma percepção mais clara das jogadas. Este armador era César Cueto, jogador de técnica refinada, ótima visão de jogo e qualidade nos passes e lançamentos.

Fechando o setor, havia Julio Cesar Uribe, a maior revelação do futebol do país no período pós-Copa de 78. Eleito o terceiro melhor jogador da América do Sul em 1981 na votação organizada pela revista argentina El Gráfico, atrás apenas de Zico (primeiro) e Maradona (segundo), o jovem de 24 anos era um ponta-de-lança clássico: muita habilidade e velocidade nas arrancadas a partir do meio-campo para se juntar ao meio do ataque. Cobiçado por diversos clubes europeus, era talhado para suceder o ídolo Teófilo Cubillas.

Na frente, Gerónimo Barbadillo era um ponta-direita forte, veloz e de boa técnica. Pelo meio, jogava o centroavante Guillermo La Rosa, que costumava fazer boas combinações com Uribe, fosse na função de pivô, ou tabelando, ou como homem de área clássico. Já pelo lado esquerdo jogava Juan Carlos Oblitas, ponta inteligente e muito habilidoso. Em suma, era uma equipe afinada e bastante experiente – dos 11 titulares na fase de classificação, apenas Barbadillo e Uribe não haviam estado no elenco do Mundial anterior. As chances de fazer um bom papel na Espanha eram grandes.

Com desfalques, uma preparação turbulenta

Nos meses que separaram a classificação nas Eliminatórias e a Copa do Mundo propriamente dita, muitas mudanças aconteceram, porém. A começar pela defesa. Héctor Chumpitaz, 37 anos, zagueiro do Sporting Cristal e capitão da seleção, fez contra o Uruguai em Lima sua 105ª partida pela Bicolor. A princípio, para ele, seria sua última aparição, como havia anunciado na imprensa dias antes do jogo. Tanto que, após o apito final e a confirmação da classificação, foi imediatamente carregado nos braços pela torcida em reverência, dando uma volta olímpica completa pelo gramado.

Semanas depois, entretanto, já cogitava se colocar novamente à disposição da seleção até a Copa (que seria sua terceira). Isso até dezembro, quando sofreu ruptura do tendão de Aquiles da perna esquerda numa partida contra o Coronel Bolognesi em Tacna, precisando engessar a perna por 90 dias, afastando suas chances de retornar a tempo de disputar o Mundial. Tim então o substituiu por Salvador Salgueiro, beque do Alianza, passando a braçadeira para o outro zagueiro titular, Toribio Díaz.

O primeiro semestre de 1982, por sua vez, foi marcado por longuíssimas negociações entre a Federação Peruana e os clubes estrangeiros pelos quais atuavam alguns jogadores considerados indispensáveis por Tim na seleção, e que tinham sua liberação negada com frequência para integrar a equipe em amistosos e excursões pelo exterior. Eram os casos de Cueto e La Rosa (Atlético Nacional, da Colômbia), Barbadillo (Tigres, do México), Oblitas e o atacante Percy Rojas (Seraing, da Bélgica), Velásquez (Toronto Blizzard, que disputava a NASL, liga norte-americana) e Cubillas (Fort Lauderdale Strikers, também da NASL).

E, de fato, a seleção peruana entrou em campo – dentro e, principalmente, fora do país – mais de uma dezena de vezes naquele período de preparação. Além dos já citados amistosos contra clubes, enfrentou duas vezes o Chile, em Santiago e Lima, antes de embarcar no começo de abril para uma excursão de pouco mais de um mês, passando por Estados Unidos, Europa e norte da África, durante a qual colheu resultados irregulares. No primeiro jogo, em Nova York, foi goleada pelo Cosmos por 5 a 1, com os jogadores se queixando muito do duro piso sintético do Giants Stadium e do frio.

Ao chegar ao Velho Continente, no entanto, as coisas melhoraram no começo: venceram logo de saída a Fiorentina (1 a 0), o combinado Milan-Inter (2 a 0) e a seleção da Hungria – também garantida na Copa – Budapeste (2 a 1). Depois de um empate com o Deportivo La Coruña (1 a 1) na Espanha, foram a Argel enfrentar a seleção argelina, também classificada para o Mundial. No jogo que terminou em nova igualdade por um gol viria a segunda baixa importante na equipe: numa dividida com Lakhdar Belloumi, o lateral Roberto Rojas caiu e lesionou o tornozelo da perna esquerda. Estava também fora da Copa.

Sem Rojas, jogador do Alianza e titular indiscutível da seleção pela boa capacidade de marcação e pela velocidade no apoio, Tim decidiu improvisar, deslocando Jorge Olaechea, volante apoiador do mesmo Alianza e que costumava entrar durante as partidas em sua posição de origem, para fazer a lateral pelo lado esquerdo. Além da troca por lesão, o treinador também realizou algumas experiências táticas durante o giro internacional, como a entrada dos armadores Germán Leguía e Eduardo Malásquez nas pontas (os chamados “punteros mentirosos”), no lugar de Barbadillo e Oblitas, mais ofensivos, mas ausentes por não terem sido liberados por seus clubes.

A experiência deu certo em alguns jogos, com Leguía em especial atuando muito bem. Assim aconteceu, por exemplo, na vitória histórica sobre a França em Paris, num amistoso disputado em 28 de abril. Mesmo com o adversário alinhando vários de seus astros como Michel Platini, Jean Tigana, Dominique Rocheteau, Manuel Amoros e Maxime Bossis, os peruanos jogaram de igual para igual e venceram em pleno Parc des Princes com gol de Oblitas (então já incorporado à seleção) a oito minutos do fim, após receber um lançamento primoroso de Cueto e invadir a área pelo lado esquerdo do ataque.

O triunfo parisiense, entretanto, seria seguido por um total anticlímax quando o Peru foi derrotado pelo modesto Seraing, time da segunda divisão belga sediado em Liège, ao qual pertenciam Oblitas e Percy Rojas. Dali, com o elenco finalmente completo, a seleção seguiu para Colônia, na Alemanha Ocidental, onde ficaria dez dias concentrada antes do embarque para a Espanha. Numa medida que levantou polêmica, Tim decidiu programar apenas treinos físicos, sem qualquer contato com bola, às vésperas da Copa. A logística da concentração também estava longe de ser a adequada, segundo revelaria o meia Germán Leguía: “A alimentação era de uma pensão universitária, não para uma delegação de esportistas”.

O dilema Cubillas

Houve ainda outra questão que interferiu bastante no jogo da equipe. Maior craque da história do futebol peruano, o meia Teófilo Cubillas já contava 33 anos quando chegou ao Mundial. Nas Eliminatórias, havia participado apenas da partida de estreia, contra a Colômbia em Bogotá, na qual desperdiçara um pênalti. Embora talento e qualidade técnica não o faltasse, vivia então seu período de declínio na carreira. Para piorar, atuava na pouco competitiva liga norte-americana, ela própria também já em decadência (seria desativada dois anos depois). “El Nené” não estava, portanto, no mesmo ritmo do restante da seleção.

Mas Cubillas era Cubillas. Ídolo nacional e ainda o grande chamariz da seleção, teve sua convocação para a Copa e sua escalação na equipe praticamente impostas pela mídia, pelos dirigentes e pelo público. No Mundial, foi fixado na ponta de lança e recebeu a camisa 10, posição e número que desde as Eliminatórias vinham sendo de Uribe, o talento ascendente do país. Para que começassem as intrigas, brigas de ego e golpes de vaidade, a medida foi definitivamente o prato cheio.

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No Mundial, os peruanos foram sorteados no Grupo 1, sediado em Vigo e La Coruña, e que tinha como cabeça de chave e favorita a Itália, ainda que a Azzurra vivesse momento conflituoso com a torcida e a imprensa em seu país e chegasse com resultados e futebol bem pouco empolgantes. A Polônia, renovada em relação a 1978, ainda que mantivesse veteranos como Lato, Szarmach e Zmuda, era uma incógnita. Seu astro agora era Boniek, mas era uma equipe imprevisível. E havia a relativamente desconhecida seleção de Camarões, da qual esperava-se três derrotas. O Peru, segundo os analistas, brigaria pela segunda vaga, ainda que um pouco atrás na disputa com italianos e poloneses.

O primeiro tropeço

Assim, em 15 de junho, dia seguinte ao empate sem gols entre Itália e Polônia que abriu aquele Grupo 1, o time peruano estreou naquele Mundial contra Camarões no Riazor, em La Coruña. Tinha Quiroga no gol, Duarte, Toribio Díaz, Salguero e Olaechea na linha defensiva, Velásquez, Cueto e Cubillas no meio, Leguía como ponta-direita recuado, compondo o meio-campo, Uribe deslocado para o comando do ataque e Oblitas pelo flanco esquerdo. Durante o jogo, aos 12 minutos da etapa final, Tim fez entrar Barbadillo e La Rosa nos lugares de Leguía e Cubillas, respectivamente, retornando à escalação ofensiva padrão da fase de classificação. Mesmo assim, o Peru fez má partida.

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O jogo peruano se revelou demasiado lento, improdutivo, com toques em excesso, além de algo apático, num nítido contraste com o estilo mais vibrante e objetivo dos camaroneses. A verdade é que o treinador e seus comandados se surpreenderam com o nível do jogo dos adversários, menosprezado já na chegada. “Não tínhamos informações, em primeiro lugar, de quem enfrentaríamos e como teríamos que enfrentá-los, e isso é absolutamente grave. Nós nos demos conta de quem era Camarões quando estávamos cantando o hino nacional”, lembrou Uribe em entrevista.

E os Leões Indomáveis estiveram mais perto da vitória no primeiro tempo: acertaram a trave logo aos oito minutos de jogo, quando Roger Milla cabeceou falta levantada na área, e tiveram um gol anulado por impedimento duvidoso, também com Milla, após tabela com N’Guea. Já os peruanos ameaçaram num escanteio fechado cobrado por Leguía que acertou o travessão e numa ótima jogada individual de Cubillas passando por três defensores e parando em N’Kono quando já havia perdido o ângulo para o chute. Houve ainda uma boa chance no segundo tempo com Barbadillo em chute cruzado. Mas foi pouco.

Além das oportunidades de gol criadas de parte a parte, o jogo ainda ficou marcado pela entrada dura de Toribio Diaz em Milla, que fez o atacante camaronês deixar o jogo (e o estádio) carregado por seus companheiros e pela comissão técnica. E pelo momento insólito já perto do fim, aos 43 do segundo tempo, quando um cachorro invadiu o gramado, flagrado inclusive pelas câmeras de transmissão, mas o árbitro austríaco Franz Woehrer preferiu deixar o jogo correr.

Contra a Itália, empate na raça

Para a partida seguinte, contra a Itália no Balaídos, em Vigo, Barbadillo ganhou a posição na ponta direita em lugar de Leguía, com Uribe mantido como centroavante e Cubillas na ponta-de-lança. Com seu estilo tradicional de pressionar e não ceder espaço aos adversários, a Itália esteve melhor em boa parte do primeiro tempo e abriu o placar logo aos 18 minutos com um bonito gol de Bruno Conti, recebendo passe de Antognoni, limpando Velásquez e chutando de fora da área no ângulo de Quiroga.

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Com a equipe peruana um tanto desnorteada após o gol italiano, o volante Velásquez protagonizaria um lance que arrancou gargalhadas do estádio (aqui na narração de Galvão Bueno), ao atropelar o árbitro alemão-ocidental Walter Eschweiler, que rolou pelo gramado, fazendo voar os cartões amarelo e vermelho, e deslocando a dentadura. Um outro golpe sofreu o lateral Duarte, que se chocou com Graziani numa jogada aérea, abriu o supercílio e precisou deixar o jogo para ser atendido.

De maneira surpreendente, entretanto, o técnico Tim preferiu não queimar uma substituição, e mandou o time à frente. Seguindo com dez até o fim daquela etapa, os peruanos passaram a pressionar a defesa italiana, equilibrando as ações (ainda que a Azzurra tenha perdido uma chance clara com Scirea nos minutos finais). No intervalo, Enzo Bearzot trocou Paolo Rossi pelo experiente meia Franco Causio, no intuito de compactar mais o time, além de melhorar a troca de passes. Mas aconteceu o efeito inverso: o time italiano recuou demais, cedendo terreno aos peruanos, então já com Duarte de volta.

Os sul-americanos fizeram ali seus melhores 45 minutos naquele Mundial, passando a ocupar mais a área e a intermediária italianas. Aos 18, Barbadillo e Uribe foram substituídos por Leguía e La Rosa. Aos 20, houve um pênalti claro de Scirea, que calçou Oblitas, não marcado pelo árbitro. Aos 21, Zoff teve trabalho em cobrança de falta de Toribio Díaz. Aos 27, após confusão na área, La Rosa perdeu a maior chance do jogo, com o arqueiro caído e o gol praticamente aberto, ao chutar torto e para fora.

Até que houve uma cobrança de falta indireta perto do bico da área, na ponta direita do ataque peruano, aos 39 minutos. Oblitas rolou para o meio, e Toribio Díaz outra vez veio de trás batendo rasteiro. A bola resvalou em Collovati e enganou Zoff. Embora fruto da sorte, o empate peruano já era mais do que merecido. “Assim como nós merecíamos a vitória contra a Polônia, o Peru, pelo que jogou no segundo tempo, fez por merecer uma vitória contra nós”, reconheceu o técnico italiano Enzo Bearzot.

Diante do empate em 0 a 0 entre Polônia e Camarões (que levou o técnico Tim a comentar que talvez seu resultado contra os africanos na estreia não tivesse sido tão ruim assim, diante do surpreendente nível técnico dos Leões Indomáveis), a partida da última rodada contra os poloneses seria crucial para as pretensões peruanas naquela primeira fase. Com os mesmos dois pontos do time de Boniek, mas com vantagem no número de gols marcados, os sul-americanos praticamente se garantiriam na próxima fase com um empate. Nesse caso, torceriam por haver um vencedor no confronto do dia seguinte entre Itália e Camarões, ou mesmo um 0 a 0.

A debacle anunciada

O ambiente na delegação peruana, entretanto, era dos piores, com o elenco rachado pela disputa de protagonismo entre o veterano Cubillas e Uribe e as frequentes discussões e desentendimentos, mesmo após o bom resultado colhido diante dos italianos. “Houve muitos conflitos antes de entrar em campo. Situações impronunciáveis. Conflitos entre companheiros antes de ir para o jogo. Naquele momento, nosso técnico, o Tim, já havia perdido o grupo”, revelaria o jovem talento peruano, que, em que pese o fato de ter argumentos plausíveis para o mau rendimento geral da seleção, também em nenhum momento chegou a mostrar no Mundial o futebol que dele se esperava.

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O meia começou no banco no jogo contra a Polônia, que esteve até equilibrado, lá e cá, durante boa parte da primeira etapa. Houve uma bola na trave de Díaz para o Peru em cobrança de falta, um gol de Boniek anulado por impedimento de Smolarek e um empurrão em Oblitas em cima da linha da área polaca muito reclamado pelos peruanos. Mas perto do fim, a Polônia já massacrava: Boniek, após ótima jogada de Smolarek, e Buncol, concluindo ótima jogada coletiva, também acertaram a trave aos 36 e 42 minutos.

Para tentar recuperar o controle em campo, Tim pôs em campo Uribe e Barbadillo nos lugares de Cubillas e Oblitas no início da etapa final. Mas, para o azar deles, logo aos dez minutos os poloneses seriam presenteados com uma falha individual grotesca de Velásquez, errando um passe curto bem na frente da área. Kupcewicz interceptou e entregou para Smolarek avançar pela área e abrir o marcador.

A partir de então, os peruanos viveriam seu próprio “apagão de seis minutos”. Aos 13, Lato aproveitaria um contragolpe para tocar por baixo de um desesperado Quiroga, que saíra da área para tentar cortar o lance. E aos 16, Boniek completou, sem marcação, uma jogada ensaiada em cobrança de falta, ampliando para 3 a 0. O quarto gol também não tardaria, marcado aos 23 minutos por Buncol, após troca de passes maravilhosa, encerrada com uma assistência de calcanhar de Boniek.

O massacre foi finalmente concluído aos 32 minutos, quando o veterano Lato desceu mais uma vez como uma flecha pela ponta direita e cruzou para trás, para a chegada do reserva Ciolek, que venceu Quiroga com um chute forte e rasteiro no canto. O gol marcado por “El Tanque” La Rosa, ganhando de dois defensores poloneses e batendo com força, aos 38 minutos, serviu apenas como uma nota de pé de página no jogo. Tristemente, para os peruanos, aquele seria o último da seleção Bicolor numa Copa.

Uma ressaca de 35 anos

Apesar da eliminação traumática na Espanha, boa parte daqueles jogadores seguiram na seleção e estiveram bem perto de levar o Peru a uma terceira Copa seguida, no México, sob o comando do antigo craque Roberto Challe. No grupo eliminatório, que contava ainda com Argentina, Colômbia e Venezuela, a Bicolor bateu o time de Diego Maradona em Lima por 1 a 0 e vencia por 2 a 1 em pleno Monumental de Nuñez na última rodada, até que um gol de Ricardo Gareca (ironicamente o atual técnico da seleção peruana) a menos de dez minutos do fim deixou tudo igual e encaminhou a vaga direta aos argentinos.

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Os peruanos ainda tiveram uma segunda chance na repescagem sul-americana, diante do rival Chile, segundo colocado do Grupo 2, mas perderam as duas partidas: 4 a 2 em Santiago e 1 a 0 em Lima. Nesta última partida, Quiroga, Duarte, Velásquez, Cueto, Uribe, Barbadillo e Oblitas ainda figuravam no time titular. Toribio Díaz, Olaechea, La Rosa e alguns reservas de 1982 também atuaram ao longo da campanha. A derrocada começaria mesmo quatro anos depois, na fase de classificação para o Mundial de 1990, quando a equipe perdeu todos os jogos no Grupo 1, em casa e fora, contra Uruguai e Bolívia.

Após o Mundial de 1982, o técnico Tim cumpriu a decisão tomada meses antes do torneio e se aposentou de vez. Mas não sem antes polemizar: “Vou morrer sem saber como César Cueto não deu nenhum passe bom naquela Copa”. O treinador faleceria dali a dois anos no Rio de Janeiro. O meia – que havia sido um dos destaques da equipe nas fases de classificação e de preparação, mas sumiu no Mundial – rebateu a acusação em 2002, numa entrevista: “Por que Tim não se perguntou o quanto o Peru mudou sua forma de jogar das Eliminatórias até o Mundial? Minha virtude sempre foram os passes longos para explorar as arrancadas de Oblitas e Barbadillo como ponteiros, e na Copa nos enchemos de volantes”.

Cueto permaneceu idolatrado não só no Peru, onde é conhecido como “El Poeta de La Zurda” (“o poeta do pé esquerdo”), como também na Colômbia, onde foi campeão no Atlético Nacional e no América de Cali. Barbadillo e Uribe alçaram voos ainda maiores: depois da Copa, transferiram-se para a galáctica Serie A italiana. O primeiro atuaria por quatro boas temporadas no Avellino, antes de ser recrutado para ocupar o posto vago pela saída de Zico na Udinese. O segundo seguiria para o Cagliari, mas, num clube à época pior estruturado, não teve o mesmo sucesso: foi rebaixado na primeira temporada e, após duas campanhas na Serie B, retornou ao seu Sporting Cristal.

Uribe ainda hoje é frequentemente questionado em entrevistas sobre as histórias daquele Mundial, especialmente quanto à polêmica com Cubillas. Em 1999, os dois se reencontraram em uma entrevista para a revista El Gráfico Perú. Ambos foram diplomáticos: negaram qualquer animosidade e ainda se declararam admiradores mútuos. Anos depois, entretanto, Uribe sentenciou em outra entrevista o motivo o qual apontava para a debacle da seleção na Espanha: “Nas Eliminatórias fomos espetacularmente unidos. E no Mundial, fomos asquerosamente desunidos”. Trinta e cinco anos depois, as feridas do fiasco peruano em sua última participação numa Copa ainda não cicatrizaram.