Neymar, do Paris Saint-Germain (Foto: Getty Images)

Da fusão a Neymar, a trajetória que trouxe o Paris Saint-Germain ao momento atual

Um desavisado pode achar que um clube que paga € 220 milhões pelo melhor jogador brasileiro da atualidade é um gigante tradicional da Europa. Não é bem o caso do Paris Saint-Germain. Outro desavisado pode achar que se trata de um clube artificial, bancado pelo dinheiro de um pequeno país do Oriente Médio. Também não é o caso do Paris Saint-Germain. Nem tanto ao céu, nem tanto à terra: o PSG, embora jovem, tem uma história rica em campos franceses e europeus antes mesmo do investimento do Catar, mas realmente nunca esteve na primeira prateleira do continente. Às vésperas da estreia na Ligue 1, nos primeiros passos de uma temporada crucial no futuro do clube, vamos contar a trajetória de 47 anos do clube da capital francesa.

O nascimento e o renascimento
Just Fontaine, lenda francesa que treinou o PSG

Just Fontaine, lenda francesa que treinou o PSG

O Paris Saint-Germain foi fundado em 12 de agosto de 1970, para atender a demanda por um clube da capital que fosse forte, importante. Na temporada anterior, de 1969/70, o único clube de Paris na primeira divisão era o Red Star, que havia conseguido apenas um medíocre 13º lugar, e nenhum havia sido campeão nacional desde antes da Segunda Guerra Mundial. A solução encontrada foi fundir o Paris FC, criado um ano antes para preencher esse vácuo, com o Stade Saint-Germain, do subúrbio Saint-Germain-en-Laye.

O Stade Saint-Germain era um time antigo, de 1904, que perambulou durante meio século pelas divisões mais baixas da França até chegar à terceira, em 1957. Às vésperas da fusão, conseguiu uma campanha de destaque na Copa da França de 1969, ao chegar às quartas de final, mas foi derrotado por 7 a 1 no agregado pelo Olympique Marseille, que viria a ser campeão daquele torneio. Foi o primeiro capítulo de uma rivalidade que pegaria fogo no futuro, um confronto entre representantes do norte e do sul do país, que pegaria fogo na década de noventa, quando dividiram títulos e jogadores na seleção. Colocar-se lado a lado com um dos incontestáveis grandes da França contribuiu para que o PSG crescesse de tamanho.

O novo clube surgiu com o entusiasmo e o apoio de empresários de Paris, aliados à cobertura extensiva da imprensa. Para mostrar força, contratou o defensor Jean Djorkaeff, do próprio Marseille, e regular na seleção francesa. Com elencos – a maioria dos jogadores do Stade Saint-Germain -, e torcidas unidos, o PSG imediatamente conseguiu o acesso à primeira divisão. Com direito a título: venceu o triangular final contra Monaco e Lille, com um empate e uma vitória. A estreia na elite, na temporada 1971/72, não foi tão charmosa quanto se esperava. O Paris Saint-Germain ficou na 16ª posição, pertinho da zona de rebaixamento. Era uma campanha para se estabilizar, com a expectativa de crescer gradualmente, mas isso não foi possível porque a prefeitura entrou no meio.

As autoridades de Paris queriam que o clube, fundado com o objetivo de ser um símbolo da cidade, tivesse um nome mais parisiense. Em francês claro: que reduzisse as referências a Saint-Germain-en-Laye. Na estratégia do porrete e da cenoura, ameaçaram cortar subsídios e ofereceram 800 mil francos. Mas o PSG se recusou e houve uma cisão. Parte do clube rompeu para refundar o Paris FC, que se manteve na elite. O PSG recebeu sanções e foi rebaixado à terceira divisão. E aí, dois homens apareceram para ajudar a reerguer o clube.

Um deles já estava lá: um dos empresários locais que ajudaram a financiar os primeiros passos do Paris Saint-Germain era o designer Daniel Hechter, que se tornou presidente do comitê de gestão, em 1973, e presidente de fato do clube, um ano depois. Foi ele quem bolou o desenho da camisa do PSG. Ao mesmo tempo, a lenda francesa Just Fontaine assumiu o comando técnico da equipe. O acesso de volta à terceira divisão não deveria ter sido imediato, uma vez que o clube ficou em segundo lugar no seu grupo, mas o Quevilly, líder da chave e finalista da Terceirona, retirou-se da liga e a vaga caiu no colo do PSG, que subiu com suas próprias pernas para a elite, na segunda divisão de 1973/74.

E chega de montanha-russa. O Paris Saint-Germain chegou de vez à Ligue 1, para a temporada 1974/75, e nunca mais caiu. Demorou um pouco para ser relevante, com campanhas médias no restante da década, mas buscou o protagonismo no mercado de transferências: trouxe Mustapha Dahleb, do Sedan, e Carlos Bianchi, do Stade Reims. Bianchi havia sido artilheiro da Ligue 1 três vezes pelo Reims e seria mais duas pelo PSG, emendando quatro temporadas seguidas como o melhor marcador de gols da França. Veio também uma dupla de estrelas do grande Saint-Étienne dos anos setenta, Dominique Bathenay e Dominique Rocheteau.

Da Iugoslávia, veio a impulsão às glórias
Susic é considerado um dos melhores estrangeiros da história do futebol francês

Susic é considerado um dos melhores estrangeiros da história do futebol francês

Safet Susic estreou no time profissional do Sarajevo, aos 18 anos, e rapidamente se destacou como um dos jogadores mais talentosos da Iugoslávia. Era criativo, imprevisível, tinha o drible e o passe para armar as jogadas para os seus companheiros. E sabia fazer gols, tanto que foi artilheiro do Campeonato Iugoslavo de 1979/80, com 17 tentos marcados. Dois anos depois, chegou ao Paris Saint-Germain para ajudar o clube a modificar a sua história e se firmar no primeiro patamar da França.

A década de oitenta foi de afirmação para o PSG. Mesmo antes de contratar Susic, que viria a ser um dos melhores estrangeiros que a Ligue 1 já viu, o clube conquistou o seu primeiro título. Eliminou Olympique Marseille, Bordeaux e o Tours, nos pênaltis, antes de alcançar a decisão da Copa da França de 1982, contra o Saint-Étienne. Rocheteau empatou a partida em 2 a 2, no último minuto da prorrogação, e o PSG foi campeão nos pênaltis. No ano seguinte, defendeu o seu título batendo o Nantes na final.

A temporada do bicampeonato foi a melhor do Paris Saint-Germain até aquele momento de sua história. Além do troféu, foi terceiro colocado na Ligue 1, sua melhor posição àquela altura, e estreou em competições internacionais com uma boa campanha na Recopa Europeia. Eliminou o Lokomotiv Sofia, da Bulgária, e o Swansea, no caminho às quartas de final, nas quais sofreu uma pesada derrota para o Waterschei Thor. Quem com ferro fere com ferro será ferido: depois de vencer por 2 a 0 na França, levou 3 a 0 na Bélgica, com o terceiro gol saindo na prorrogação.

O PSG disputou competições europeias por três anos consecutivos, mas, depois dessas quartas de final, foi eliminado duas vezes na segunda rodada, em outra campanha na Recopa e na Copa da Uefa. No âmbito doméstico, continuava forte. Chegou a uma terceira final de Copa da França em quatro anos, em 1985, mas foi derrotado pelo Monaco. Na temporada seguinte, conquistaria o seu primeiro título francês. Com 20 gols de Rocheteau, e excelentes atuações de Susic, conseguiu uma sequência de 26 partidas invicto e foi derrotado apenas cinco vezes.

Estreou na Copa dos Campeões da Europa na temporada seguinte, de maneira melancólica: perdeu para o Vítkovice, da Tchecoslováquia, logo na primeira rodada. O declínio, inclusive, foi se acentuando. De primeiro colocado, o PSG caiu para sétimo e, em seguida, para 15º, brigando contra o rebaixamento (salvou-se por dois pontos). Recuperou-se com o vice-campeonato de 1988/89.

Nesta mesma época, também houve problemas com o hooliganismo. Como é natural em clubes jovens, houve certa dificuldade para reunir torcedores em volta do PSG, visto como artificial. A diretoria criou promoções de ingressos baratos e conseguiu atrair o público da periferia, com pouco poder aquisitivo para gastar com jogos de futebol. Isso, porém, colocou grupos de extrema-direita nas arquibancadas do Parque dos Príncipes. O mais famoso era o Boulogne Boys, inspirado nas firms inglesas, como contamos neste texto de 2015.

O time da TV

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O dinheiro que o Paris Saint-Germain usa para contratar craques nos últimos anos sai do bolso dos seus donos catarianos, e esta não é a primeira vez que um parceiro externo oferece ajuda para que o clube se torne mais forte que os concorrentes. No começo da década de noventa, com o boom das TVs por assinatura, o Canal Plus tinha euros sobrando, comprou o PSG e o encheu de craques: David Ginola, Bernard Lama, Raí, George Weah, Valdo e Youri Djorkaeff, o filho da primeira grande estrela contratada pelo clube, aproximadamente vinte anos atrás.

O PSG viveu uma era dourada. Ficou seis temporadas seguidas entre os três primeiros colocados da Ligue 1, com o seu segundo título nacional conquistado em 1994, depois de outra grande campanha, na qual perdeu apenas três vezes em 38 rodadas. Ganhou três Copas da França e duas Copas da Liga, com direito a dobradinhas em 1995 e 1998. Ainda arrebatou duas Supercopas e teve sete anos seguidos disputando competições europeias.

O retorno à Copa dos Campeões, agora já Champions League, foi na temporada 1994/95, e o PSG fez uma excelente campanha. Passou do seu grupo com seis vitórias em seis partidas – duas sobre o Bayern de Munique – e despachou o Barcelona nas quartas de final. Foi, porém, presa fácil para o Milan, que seria derrotado pelo Ajax, na final. O grande brilho veio na Recopa Europeia: na temporada seguinte, eliminou o Parma e o Deportivo La Coruña no caminho para a final, em que derrotou o Rapid Viena, por 1 a 0. Na sequência, voltou à final, desta vez contra o Barcelona, que se vingou e venceu pelo placar mínimo, gol de Ronaldo, batendo pênalti.

Na segunda metade da década, o Paris Saint-Germain passou a ter dificuldades para manter as suas principais estrelas. Disputar ligas mais fortes, como a italiana ou a inglesa, passou a atrair os seus jogadores. Djorkaeff, por exemplo, ficou apenas uma temporada antes de seguir caminho para a Internazionale. George Weah foi contratado pelo Milan. David Ginola e Bernard Lama resolveram jogar a Premier League, por Tottenham e West Ham, respectivamente. E, no meio disso tudo, Raí voltou para o São Paulo.

Luis Fernández, ex-jogador do clube e técnico de quatro títulos na década de noventa, retornou ao comando técnico na virada do século e montou uma nova equipe. Anelka voltou ao Parque dos Príncipes, acompanhado, no ano seguinte, por uma baciada de brasileiros: Aloisio Chulapa, Alex Dias e um gaúcho chamado Ronaldinho. A melhor campanha saiu na temporada 2001/02, com o quarto lugar da liga francesa e a classificação à Liga Europa, na qual perdeu para o Rangers, nos pênaltis, na terceira rodada.

Fernández ainda teve uma boa campanha na Copa da França, mas perdeu a final para o Auxerre. O treinador foi substituído por Vahid Halilhodžić, que se livrou da maioria dos brasileiros do elenco – André Luiz e Paulo César também haviam sido contratados -, inclusive Ronaldinho Gaúcho, e trouxe Pauleta do Bordeaux. O português seria uma máquina de gols nos anos seguintes, sempre próximo da marca dos 20 por temporada, e o PSG voltou a fazer uma grande campanha na liga francesa, com o segundo lugar de 2003/04. Na Copa da França, retornou à final e, desta vez, foi campeão.

Mas Halilhodžić não conseguiu evitar que o PSG caísse para o meio da tabela. Foi nono colocado na temporada seguinte e deixou o clube. Em 2006, o Canal Plus também se foi: vendeu o Paris Saint-Germain para um grupo de investidores, o que deu início a um período de vacas magras. Ficou duas vezes seguidas próximos do rebaixamento até a virada da década, quando somou mais dois títulos de copa para o seu currículo – a da Liga Francesa, em 2008, e da França, em 2010 – e recuperou-se na liga com campanhas medianas e um bom quarto lugar em 2010/11.

E aí, o Catar resolveu começar a gostar de futebol: virou sede da Copa do Mundo, patrocinou o Barcelona e comprou o Paris Saint-Germain.

Euros, euros e mais euros
Ibrahimovic elevou o PSG de patamar, depois do investimento do Catar (Foto: Getty Images)

Ibrahimovic elevou o PSG de patamar, depois do investimento do Catar (Foto: Getty Images)

A aquisição do Paris Saint-Germain e patrocínio ao Barcelona são parte do projeto da introdução do Catar ao mundo do futebol, uma maneira de dar credibilidade ao país que sediará a Copa do Mundo de 2022. Em maio de 2011, quando o contrato foi assinado, o PSG já mostrava potencial de crescimento, mas foi catapultado pela cachoeira de euros do seu novo dono, o Qatar Sports Investment. De primeira, conseguiu atrair Carlo Ancelotti, que deixava o Chelsea. Gastou € 100 milhões em reforços como Gameiro, Thiago Motta, Sissoko, Ménez, Alex, Matuidi e Pastore, o mais caro deles, a € 42 milhões.

O PSG voltou a ser vice-campeão francesa na primeira temporada de Ancelotti e dos donos catarianos, recuperando o título no ano seguinte, quando já contava com os serviços de Zlatan Ibrahimovic. As contratações continuaram vultuosas: mais € 42 milhões em Thiago Silva, outros € 40 milhões em Lucas Moura, quase € 30 milhões em Lavezzi. E o excelente negócio de Marco Verratti, que custou apenas € 12 milhões. Foram pilares da hegemonia do Paris Saint-Germain, que conquistou a França quatro vezes seguidas. Nesse mesmo período, tentou a glória europeia, mas parou sempre nas quartas de final.

Emendou também três dobradinhas nas taças nacionais, apesar de ter sido destronado pelo Monaco, na última temporada. Foi um período de ruptura no clube: saiu Ibrahimovic, grande estrela da companhia, e Laurent Blanc, substituto de Ancelotti, foi substituído por Unai Emery. O PSG está no começo de um novo projeto, com o objetivo de recuperar o domínio no âmbito doméstico e finalmente conseguir colocar o seu nome entre os grandes da Europa. Foi para isso, para colocar o clube que nasceu para ser sinônimo de Paris no mais alto patamar do continente, que chegou Neymar.