Há um antigo mito babilônico, recontado no século XX pelo romancista, contista e dramaturgo inglês W. Somerset Maugham, com o nome de “Encontro em Samarra”, em que um mercador de Bagdá manda um servo ao mercado para que comprasse alguns mantimentos. Pálido e trêmulo, o servo retorna a seu mestre, afirmando ter visto a Morte enquanto fazia as compras, e que esta teria lhe feito um gesto ameaçador. Assustado, o servo foge para a cidade de Samarra, e o mercador vai até o mercado confrontar a Morte pela abordagem a seu lacaio. A Morte então diz que não havia feito nenhum gesto ameaçador, que havia apenas se surpreendido com a presença do servo ali em Bagdá, já que tinha um encontro com ele à noite em Samarra. A moral da história é que não há como fugir da morte. E esse conto combina muito com a situação de David Moyes no Manchester United.

Nesta quarta-feira, durante a incrível vitória do United sobre o Olympiacos, justamente pelo placar de que necessitava para avançar às quartas de final da Liga dos Campeões, um torcedor nas arquibancadas do Old Trafford esteve vestido de Morte, gritando ao técnico que iria atrás dele. Como o servo em Bagdá, Moyes fugiu para Samarra com o triunfo e a classificação inesperada, mas pode ser questão de tempo até que a Morte, no caso sua demissão, o encontre lá na frente.

As manchetes de quase todos os jornais ingleses têm contado como o escocês perdeu o comando do vestiário, com importantes nomes como Ryan Giggs e Rio Ferdinand insatisfeitos com a maneira como o clube tem sido administrado pelo ex-técnico do Everton. Antes do duelo com os gregos, pipocavam especulações de que o time de Manchester havia feito contato inicial com Louis van Gaal e também rumores de uma possível investida em Jürgen Klopp, do Borussia Dortmund.

Moyes pode ter enganado a Morte com a classificação, mas ela pode retornar para assombrá-lo, seja com algum tipo de revés vexatório contra o Manchester City na próxima terça-feira ou com o fracasso em classificar a equipe para a próxima Champions ao final da temporada, sendo este segundo cenário o mais provável entre os dois. A não ser que o escocês consiga operar algum tipo de milagre até o fim da temporada e mostre à diretoria que merece mais tempo para provar seu valor, reconquistar o grupo de atletas e recolocar o time na trilha de títulos em que Alex Ferguson o consolidou nos quase 30 anos em que esteve no comando.