Vida de árbitro definitivamente não é fácil. Você precisa domar 22 marmanjos em campo, tomar decisões milimétricas em frações de segundos e ainda lidar com os xingamentos de milhares de torcedores contra sua mãe, bem no seu cangote. Uma profissão que ainda não costuma ser remunerada bem o suficiente para que eles se dediquem a ela exclusivamente. A maioria dos juízes precisa se desdobrar na vida dupla entre os gramados e outro ofício qualquer. Sacrifício ao qual nem a nata da arbitragem, selecionada para apitar a Copa do Mundo de 2014, está a salvo.

Nesta semana, a Fifa divulgou os nomes dos 25 árbitros principais que participarão do Mundial do Brasil. Descobrimos as profissões de 24 deles e, desses, apenas um vive exclusivamente do apito: Yuichi Nishimura, do Japão, onde a estabilidade e o apoio dados à categoria são bem maiores. É óbvio que o salário para os juízes em alguns lugares do mundo é maior do que em outros. Ainda assim, a maioria absoluta deles prefere acumular funções. E as mais diferentes imagináveis.

Um exemplo? Howard Webb, árbitro da final da Copa de 2010, é sargento da polícia britânica. O carequinha se dedicava exclusivamente à carreira de árbitro, mas voltou a fazer parte da corporação neste mês, após cinco anos afastado. O inglês será uma espécie de embaixador junto a crianças – ‘não, ele não vai correr atrás de bandidos ou arrombar portas’, brincou um colega. O típico caso em que você não pode chamar o juiz de ‘ladrão’.

Outro caso curioso é o de Jonas Eriksson, da Suécia. Sabemos que a maioria dos jornalistas não ganha tão bem, mas o escandinavo tirou a sorte grande na profissão. Ele era dono de 15% da estação de TV na qual trabalhava e resolveu vendê-la há seis anos. Por € 7 milhões. Mesmo com a conta bancária gorda, o sueco prefere seguir no apito, sua grande paixão. Já o holandês Björn Kuipers possui três supermercados e um salão de beleza na cidade de Oldenzaal. “Trato Cristiano Ronaldo na Champions como um dos meus clientes no mercado”, já declarou certa vez.

A vida mais interessante, no entanto, provavelmente é a de Néstor Pitana. Por formação, o argentino é professor de educação física – algo comum a 20% dos árbitros da Copa. Entretanto, o sul-americano teve que se virar bastante até ter sucesso com o apito. Como esportista, atuou em categorias de base do basquete local e em equipes amadoras de futebol. Mas, para ganhar a vida, precisou trabalhar como segurança de boate, salva-vidas e até como figurante no filme ‘La Furia’, atuando ao lado do astro argentino Diego Torres.

O brasileiro Sandro Meira Ricci optou por uma vida nos escritórios. O mineiro é graduado em economia e possui uma carreira de respeito: trabalhou para a Fundação Getúlio Vargas, para a Universidade de Brasília, para o Itamaraty e até para a ONU, atuando hoje como analista no Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior. Já no resto do mundo, há ainda os exemplos do doutor em direito esportivo Felix Brych, do enfermeiro Djamel Haimoudi e do professor de matemática Mark Geiger. Na média, o Brasil está bem representado – dentro e fora de campo.

Confira as profissões de todos os árbitros da Copa de 2014:

kuipers

Ben Williams (AUS): Professor de Educação Física
Björn Kuipers (HOL): Dono de rede de supermercados
Carlos Velasco Carballo (ESP): Engenheiro industrial
Carlos Vera (EQU): Analista do Ministério dos Esportes
Cüneyt Çakir (TUR): Agente de seguros
Djamel Haimoudi (AGL): Enfermeiro
Enrique Osses (CHI): Técnico industrial
Felix Brych (ALE): Advogado
Howard Webb (ING): Policial
Joel Aguilar (ELS): Professor de Educação Física
Jonas Eriksson (SUE): Jornalista e empresário
Marco António Rodríguez (MEX): Professor de Educação Física
Mark Geiger (EUA): Professor de Matemática
Milorad Mazic (CRO): Administrador de empresas
Nawaf Shukralla (BAH): Procurador de justiça
Noumandiez Doué (CMA): Farmacêutico
Néstor Pitana (ARG): Professor de Educação Física
Nicola Rizzoli (ITA): Arquiteto
Pedro Proença (POR): Diretor financeiro
Peter O’Leary (NZE): Professor de Ciências
Ravshan Irmatov (UZB): Instrutor de futebol escolar
Sandro Meira Ricci (BRA): Economista
Wilmar Roldán (COL): Professor de Educação Física
Yuichi Nishimura (JAP): Árbitro profissional

* A profissão do árbitro Bakary Papa Gassama, de Gâmbia, não foi localizada