Poucos craques possuem uma história como a de Ronaldo. Não é apenas sobre o sucesso do Fenômeno nos gramados. Não é apenas sobre os lances deslumbrantes do artilheiro ou sobre a carreira vitoriosíssima, que fez tantas crianças sonharem em ser como o camisa 9. É, sim, sobre a superação de quem enfrentou momentos duríssimos, das lesões seguidas no joelho à convulsão na final da Copa de 1998, mas deu a volta por cima. A Copa do Mundo de 2002 foi a apoteose do centroavante. A conquista que o afirmou no Olimpo da bola. Que faz os olhos de tanta gente brilharem só com a lembrança, por todos os momentos mágicos vividos com a seleção brasileira.

Nesta quinta, Ronaldo foi mais um jogador de futebol a assinar um texto sobre sua trajetória no site americano The Players’ Tribune. Não fala de exatamente todos os momentos da carreira, se concentrando principalmente em seu sonho de se tornar jogador, na transferência à Europa e nas três primeiras Copas do Mundo. Abaixo, reproduzimos alguns trechos. Para ler o artigo completo, clique aqui.

A Vida de Dadado 

Quando eu penso a respeito da Copa do Mundo, a primeira coisa que me vem à mente é tinta.

Pequenas latas de tinta, na verdade, em azul, verde e amarelo.

As cores mais vibrantes que você pode imaginar.

No Brasil, existe essa tradição a cada quatro anos quando a Copa do Mundo está para começar. Você vai lá e pinta as ruas da sua cidade. É um tipo de competição à parte para ver quem fica com os muros e as ruas mais bonitas. Então, na Copa do Mundo de 1982, assim como todos os moleques do Brasil, eu fui lá e pintei a minha rua junto com os outros meninos que eram meus vizinhos. Todo mundo na minha cidade participava disso, e então os murais estavam em todo  lugar … em todos os tipos de cores e desenhos – pássaros, a bandeira do Brasil e os jogadores da Seleção Brasileira.

Depois que nós terminávamos de pintar, tinha um vizinho mais velho, o seu Renato, que recebia todo mundo para assistir aos jogos. Eu não consigo me lembrar muito a respeito dele, a não ser pelo fato de que ele parecia muito grande quando eu era muito pequeno. Ele tinha se aposentado da Aeronáutica,  ou algo do tipo, e comprava para a gente todo tipo de salgadinhos, batata frita e refrigerante. Aquilo era grande coisa. A gente não tinha oportunidade de comer aquele tipo de comida o tempo todo. É esse tipo de coisa que faz com que as lembranças sejam especiais … batata frita e refrigerante … sentado com seus amigos na frente da TV, assistindo futebol, pensando, talvez … um dia … aquele pode ser você … um jogador de futebol profissional.

cannavaro ronaldo

Fui criado em Bento Ribeiro, que fica no subúrbio do Rio de Janeiro. É um bairro de classe média baixa. Então, não existiam comunidades ou algo desse tipo, ou amontoados de casas que você sempre vê na televisão. Era somente nossa … casa. E não havia um dia sequer em que o futebol não estava na cabeça de todo mundo.

E pra ser sincero, aos cinco anos de idade, eu já via a minha vida em torno do futebol. Eu não sei como posso explicar isso, mas eu simplesmente me conectei com o esporte imediatamente. Estava lá … dentro de mim. Parece tão fácil dizer quando você é mais jovem. Eu quero ser um jogador de futebol. Mas, como criança, você não sabe verdadeiramente o que isso significa.  Você realmente não compreende a grandeza disso. A realidade não é algo que possa ser compreendida quando você é pequeno e está sonhando.

E eu definitivamente não sabia o que isso significava quando eu ainda tinha cinco anos de idade … enquanto eu mergulhava o pincel na lata de tinta. Eu não sabia onde o futebol ia me levar … enquanto o azul escorria pelos meus pulsos e pelos meus braços, enquanto eu ficava lá com meus amigos na nossa rua. Enquanto um novo retrato do Zico nos observava.

Eu não tinha ideia do quão rapidamente as coisas iam acontecer. Do quão rapidamente um sonho se tornaria … vida.

Para todos os efeitos, eu era apenas mais um entre tantos garotos na nossa cidade conhecido por jogar futebol.

E, quero dizer, jogar o tempo todo.

Olhando para trás, talvez tenha sido isso que me fez diferente dos demais garotos no Brasil que queriam ser jogadores de futebol. Eu não estava apenas sonhando em ser o maior; estava verdadeiramente acreditando nisso.

Aquilo que eu realmente queria ser … um dos melhores que já jogaram.

Eu dou risada quando penso nisso, porque eu não sei de onde foi que isso veio, ou mesmo quando esse pensamento começou.

Era simplesmente … vida … do momento que eu chutei a bola pela primeira vez.

Ronaldo em ação no Goodison Park, em Liverpool, em partida do Brasil contra o Japão pela Copa Umbro em 1995 Mandatory Credit: Chris Cole/ALLSPORT

Mas, para ser sincero, eu nem mesmo me recordo qual foi o primeiro jogo do Flamengo que eu fui assistir com meu pai no Maracanã. É estranho, mas a única coisa com a qual eu consigo comparar é com andar pra frente, sabe? É claro que houve um tempo quando você não andava, mas você não conhece a vida sem isso. E eu simplesmente não conheço a minha vida sem futebol.

Mesmo meu apelido vem de um tempo do qual eu não consigo me lembrar.

Sempre que eu marcava um gol contra os meus irmãos mais velhos, eles gritavam “Dadadoooo!

E quando eu era pequeno, eu tinha dificuldade em pronunciar Ronaldo. Sempre vinha com o som mais ou menos de Dadado … então, ficou Dadado.

Quando meu irmão entrava em casa, eu ficava do lado de fora com a minha bola, dando chutes e mais chutes. Perna esquerda, perna direita, perna esquerda. Eu adorava jogar bola no quintal da nossa casa. Nós não tínhamos uma casa muito grande, e eu dormia no sofá a maior parte do tempo. Mas a coisa boa era o fato do terreno ser enorme. E isso era tudo que eu precisava: espaço para jogar futebol.

Como era no Brasil, eu estava cercado por todas essas árvores frutíferas … havia mangas, goiabas, jabuticabas. Então, eu driblaria até as árvores se meus irmãos me deixassem.

Enquanto eu estava lá fora, eu estava pensando comigo mesmo: eu vou ser o maior jogador de futebol de todos os tempos.

*****

Três anos depois da minha contusão mais grave, e quatro anos depois de perder a final da Copa do Mundo em 1998, eu tinha novamente a bola aos meus pés na Coréia do Sul, jogando a Copa do Mundo pelo Brasil.

E, pouco antes da final contra a Alemanha, uma coisa surpreendente aconteceu.

Quando nós entramos no vestiário antes do jogo, nosso técnico, Luiz Felipe Scolari, tinha algo para nos mostrar na televisão. Nós meio que nos entreolhamos, sem saber ao certo o que estava por vir. Um aparelho de TV nos vestiários não era uma coisa comum.

“Sentem-se,” disse Felipão. “Tem algo aqui que eu gostaria que vocês vissem.”

Ronaldo, artilheiro da Copa de 2002 pelo Brasil, vence Kahn, da Alemanha (Photo by Stu Forster/Getty Images)

Ele ligou a TV. Era uma gravação da Globo. Nós não conseguíamos assistir às notícias do nosso país porque estávamos jogando no Japão, então, era a primeira vez que nós víamos e ouvíamos informações do Brasil.

Mas não era uma transmissão qualquer. Naquele programa, eles foram até a cidade de cada um dos jogadores para mostrar como os bairros e os estados estavam comemorando. Evidentemente,  eles foram até Bento Ribeiro … e logo ali na minha frente … eu vi as ruas onde cresci … eu vi os muros contra os quais eu chutava a bola.

E eu vi algumas crianças de pé ao lado dos murais que eles pintaram para nós, assim como eu mesmo costumava fazer.

Foi a última coisa que nós vimos antes de entrar em campo naquele dia.

*****

Eu quero ter certeza que esses garotos que estão crescendo agora – onde quer que eles estejam – veem o futebol da mesma forma que eu vi. Mas as cidades estão se transformando. Quando eu estava crescendo, havia campos de futebol em todos os lugares. Agora, existem prédios e outros empreendimentos ocupando um tanto daqueles espaços, assim você não vê mais tantos garotos nas ruas jogando futebol por aí.

Para mim, um campo de futebol é a coisa mais perfeita do mundo. Pode ser um estádio, numa praia, ou num quintal de grama com árvores frutíferas. Não importa. Quando você é criança, você pode olhar para o campo e ver o seu futuro.

Uma das coisas que mais me faz feliz é quando eu ouço gente como Messi, Neymar, Cristiano Ronaldo ou Ibrahimović dizer que eu fui influência no futebol, em como eles jogam, nas lembranças e nos sonhos de crescer e se tornar um jogador de futebol. Pense nisso… Eu era apenas um garoto pintando os muros e sonhando em ser como o Zico. Eles eram apenas garotos no Brasil, na Argentina, em Portugal e na Suécia sonhando em ser como eu. Nós somos ligados por esse sentimento, entende?

Isso é lindo para mim. Isso é o futebol para mim.