Frank de Boer conquistou quatro títulos nacionais seguidos com o Ajax. Parecia um técnico promissor, capaz de montar equipes que gostam da bola, como ditam as suas principais influências – principalmente Van Gaal, que o treinou na Holanda e no Barcelona. No entanto, ele tem falhado em algo muito básico: nos dois projetos que empreendeu longe de Amsterdã, não conseguiu resistir a três meses no cargo antes de ser demitido. O último fracasso foi no Crystal Palace, que o mandou embora após quatro derrotas em quatro jogos sem marcar nenhum gol.

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De Boer ficou 77 dias no Selhurst Park, oito a menos do que a sua passagem pela Inter, ano passado. Claro que nos dois casos houve muito pouca paciência por parte dos empregadores, que deveriam saber o que estavam contratando, mas, quando acontecem duas demissões relâmpago com o mesmo profissional, em um espaço tão curto de tempo, identificamos o começo de um padrão. Também vale a pena refletir sobre o que o holandês de 47 anos está fazendo de errado.

Tanto na Itália quanto na Inglaterra, a confiança no trabalho de De Boer deteriorou-se muito rápido. O atacante Éder chegou a dizer publicamente que o holandês havia perdido o grupo da Internazionale, e a diretoria mandou-o embora após sete derrotas em 14 partidas. O roteiro no Crystal Palace foi parecido. Houve uma quebra de confiança entre as partes e o relacionamento de De Boer com seus chefes rapidamente tornou-se ruim, com culpa nos dois lados.

O holandês não gostou do roteiro da pré-temporada, definido antes da sua chegada, que levou a equipe a Hong Kong, e ficou insatisfeito com o mercado de transferências. A sua missão no Selhurst Park era modificar o estilo do Palace, de um jogo mais rígido e direto para um time que soubesse o que fazer com a bola. Para isso, seria naturalmente necessária uma mudança drástica no elenco, montado pelos antecessores de De Boer, todos técnicos da escola britânica de raiz: Tony Pullis, Alan Pardew, Sam Allardyce, entre outros.

No entanto, o Crystal Palace fez apenas duas contratações definitivas. Vieram os zagueiros Jairo Riedewald, do Ajax, e Mamadou Sakho, do Liverpool, que já havia passado os primeiros seis meses de 2017 no clube, por empréstimo. Ruben Loftus-Cheek e Fosu-Mensah foram emprestados, por Chelsea e Manchester United, respectivamente.

Ao chegar ao Palace, De Boer prometeu “evolução” e não “revolução”, mas também desagradou a diretoria ao tentar mudar o estilo de jogo profundamente rápido demais, sem apresentar alternativas para quando as coisas davam errado, e não estava conseguindo explicar com clareza o caminho que percorria com os seus treinamentos.

Parecido com o Manchester United de Van Gaal, o Palace de De Boer tinha a bola – oitava maior posse da liga nas quatro primeiras rodadas, atrás apenas dos seis clubes mais ricos, City, United, Arsenal, Liverpool, Tottenham e Chelsea, e do Southampton -, mas não tinha urgência em marcar os gols. Os resultados foram péssimos: derrotas por 3 a 0 para o Huddersfield, 1 a 0 para o Liverpool, 2 a 0 para o Swansea e 1 a 0 para o Burnley, no último domingo, quando pela primeira vez abandonou os três zagueiros e tentou um mais ortodoxo 4-2-3-1 no meio da partida.

O presidente do Palace, Steve Parish, disse que havia contratado De Boer para dar “um passo à frente” no desenvolvimento do clube, que tinha um estilo de jogo ainda enraizado na segunda divisão inglesa, na qual “é mais barato jogar no contra-ataque”. Agora, com jogadores mais técnicos, esperava um futebol que passasse mais confiança. “A  primeira missão de Frank é reduzir a minha ansiedade e a dos torcedores”, afirmou, quando o holandês foi contratado.

Isso parece ter ficado definitivamente para trás porque o favorito para assumir o Crystal Palace é Roy Hodgson, ex-técnico da Inglaterra e outro entusiasta de um estilo mais rígido, defensivo e reativo. A diretoria do clube tem muita culpa no cartório por ter fraquejado nas suas convicções, não dado tempo e nem condições para De Boer desenvolver o que lhe pediram. É impossível mudar o estilo de uma equipe em menos de três meses. Por outro lado, o holandês precisa se perguntar por que, pela segunda vez seguida, a confiança depositada no seu trabalho ruiu tão rapidamente.