O Manchester City de Guardiola também é o de David Silva, Sergio Agüero, Fernandinho, Leroy Sané, Raheem Sterling, Ederson e outros tantos jogadores fundamentais na conquista da Premier League. Uma campanha tão dominante só se torna possível por um coletivo tão forte. E não se nega pela maneira como os Citizens jogam, sufocantes, ofensivos, atacando incessantemente seus adversários – como foi, sobretudo, durante o primeiro turno. A orquestra sinfônica do Etihad, ainda assim, precisa de um maestro. E esta função se materializa por aquele que, entre tantas individualidades brilhantes, conseguiu destoar um pouco mais. Sob a batuta de Kevin de Bruyne no meio-campo, os celestes foram mais sonoros. Jogaram por música através de seus passes, sem dúvidas o grande diferencial em meio ao sucesso imenso.

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Lá se vão quase três anos que De Bruyne retornou à Inglaterra. Três anos da oportunidade de dar a volta por cima, depois de sua frustrada passagem pelo Chelsea. O prodígio comprado junto ao Genk nunca ganhou uma chance real em Stamford Bridge, embora não se mostre magoado com isso. Viu a Alemanha abrir as portas para o seu futebol. E depois de uma boa passagem pelo Werder Bremen, virou rei mesmo no Wolfsburg, melhor jogador da Bundesliga mesmo sem erguer a Salva de Prata. O suficiente para convencer o Manchester City. A levar os celestes a pagarem estratosféricos €76 milhões, um valor altíssimo para aquela época, mas condizente à maneira como o jovem era cortejado. De certa maneira, era uma aposta para se pagar por anos. Que não demorou tanto a render.

Em sua primeira temporada, De Bruyne não foi tão preponderante assim, até por seus problemas de lesão. Em um time que atravessava sua entressafra, os resultados no último ano de Manuel Pellegrini não foram tão bons, considerando a campanha morna na Premier League. Individualmente, ao menos, o belga já se provou. Acumulou bons números e foi decisivo principalmente na caminhada rumo às semifinais da Champions, com gols decisivos no duelo contra o Paris Saint-Germain. Então, na temporada seguinte, chegou Guardiola. E que ainda faltasse algo a mais ao Manchester City, sem competir com o Chelsea pelo título nacional, ficava bem claro que o motor nas novas engrenagens já funcionava em alta rotação. O meio-campista acumulou 18 assistências, grande regente do ataque celeste. Nada que não pudesse melhorar ainda mais.

O que De Bruyne faz nesta temporada é de encher os olhos. Não se torna uma questão de ver o que produz, de quantos gols marca ou de quantos passes decisivos distribui. O ponto é se deleitar com a qualidade imensa do camisa 17 para fazer o time orbitar ao seu redor. Para distribuir passes como bem entender, com uma precisão enorme. Para dar um lançamento com a naturalidade de quem joga uma bolinha de papel num cesto de lixo – mas com uma bola de verdade, usando os pés, a 40 ou 50 metros de distância, acertando um alvo móvel e tirando a pelota do alcance de um monte de defensores querendo rifá-la. Aí é que está a grandiosidade do belga na temporada. Aí que se concentra o fascínio que proporciona aos olhos.

São sete gols, 15 assistências, mais de 100 chances criadas, mais de 2,3 mil passes dados. Números que se tornam um adereço, quando se observa o que De Bruyne aprontou contra o Liverpool no primeiro turno. Ou contra o Chelsea. Ou contra o Tottenham. Ou os shows seguidos no returno, mesmo quando o time não rendia tão bem. O meio-campista beirou a perfeição em grande parte da campanha. E se complementando tanto aos demais destaques celestes, sobretudo Fernandinho e David Silva, seus comparsas na faixa central. Era como se jogassem por intuição, como se soubessem de cor o posicionamento. Entre a consistência oferecida pelo brasileiro e a inteligência do espanhol, o belga chegou ao seu melhor.

Há quem cobre De Bruyne, que acuse a necessidade de ser “mais decisivo”. E ainda que não seja exatamente um jogador de definição, há um bom número de jogos nos quais ele desequilibrou com gols ou assistências. Nesta Premier League, aconteceu sistematicamente, embora sua maior virtude se espalhe mais em 90 minutos do que se concentre em um rompante. As suas atuações pelo Campeonato Inglês foram suficientes para que ele seja aclamado por muito tempo, até pelo tanto de vez que deslumbrou.