Ser craque é um conceito extremamente subjetivo, que varia conforme o gosto do filósofo de botequim. Há aqueles que preferem atribuir a nobreza da palavra a poucos. Outros não a economizam. Mas fato é que o craque não precisa estar imbuído apenas de uma característica magnífica. Ele pode ter diferentes virtudes, desde que seja o cara que transforme um time, que ganhe uma partida, que faça o resto dos jogadores orbitarem ao seu redor. Craque não é só o maestro com a 10, o ponta driblador com a 7 ou o artilheiro com a 9. Há goleiros craques, há zagueiros craques, há volantes craques. E entre dois jogadores espetaculares em suas funções, diferentes e à sua maneira sensacionais, é que gira o primeiro duelo das semifinais da Copa do Mundo de 2018. O embate entre N’Golo Kanté e Kevin de Bruyne talvez seja o de mais alto nível que teremos no Mundial. Certamente decisivo para definir o destino de suas seleções rumo à final.

Por caminhos diferentes, Kanté e De Bruyne se consagraram. Ainda assim, as histórias de ambos possuem várias similaridades, a começar pelos percalços que passaram rumo à afirmação como grandes jogadores. Kanté atravessou anos em um dos melhores clubes formadores dos subúrbios de Paris, o Suresnes, sem que nenhuma grande equipe percebesse o seu futuro. Viam a inteligência tática e a combatividade do garoto, mas o descartavam pelo porte físico franzino. Na época em que já estourava a idade para permanecer no clube, o descendente de malineses precisou contar com a ajuda do presidente da agremiação para se transferir ao Boulogne, da segunda divisão. E, sem que definissem sua posição, improvisado na lateral e na ponta, teve que insistir um pouco mais até perceberem que poderia ser um baita volante, mesmo baixinho. Um novo Claude Makélélé surgiu, quando tantos desejavam um novo Patrick Vieira. Depois disso, sua carreira deslanchou, rumo ao Caen.

De Bruyne, em contrapartida, não encontrou grandes resistências nas categorias de base. O seu talento prevalecia como armador, primeiro no Gent, depois no Genk. Quando tinha 21 anos, virou alternativa ao Chelsea, contratado a peso de ouro. Pois justamente a grande oportunidade se tornou um empecilho. Depois de um bom empréstimo ao Werder Bremen, o belga retornou a Stamford Bridge. Procurado por Jürgen Klopp, chegou a acertar os termos pessoais de sua transferência ao Borussia Dortmund para ser o substituto de Mario Götze. No entanto, ouviu de José Mourinho elogios, sob as promessas do treinador que não iria a lugar algum. O maestro não foi, mas era um mero reserva nos Blues, criticado pelo técnico por uma atuação ruim contra o Swindon Town na Copa da Liga. O português afirmou que “não gostava como ele jogou e nem como ele treinava”. A gota d’água para o meia, que não parecia ter as características apreciadas pelo Special One. O garoto pediu uma reunião com o comandante, ouviu que não correspondia, retrucou que não receberia uma chance justa e quis sair. O Wolfsburg deu um novo começo.

Kanté e De Bruyne foram sublimes nas grandes chances para se confirmarem como craques. O francês chegou ao Leicester para substituir Esteban Cambiasso, em um time satisfeito ao escapar do rebaixamento de maneira heroica. Saiu como protagonista do campeão mais impossível do futebol europeu neste século, e talvez da história do Campeonato Inglês, com o meio-campista jogando muita bola. A saída do volante ao Chelsea uma temporada depois, e a consequente queda de produtividade das Raposas, só enfatizam como ele foi espetacular naquela campanha. Já De Bruyne viveu seu redescobrimento no Wolfsburg. A equipe não conseguiu a Salva de Prata, mas incomodou o Bayern de Munique enquanto pôde, impulsionada pelos passes do meio-campista. Independentemente do título, o belga terminou como o melhor jogador da Bundesliga, colecionando assistências. Sua ambição poderia ser maior, e foi, seguindo ao Manchester City.

Então, mais proximidade entre ambos na consagração, com os dois experimentando a glória máxima na Premier League. Uma temporada bastou para Kanté se tornar imprescindível ao Chelsea, motor do time em mais uma conquista nacional para o seu currículo. Fez de tudo um pouco, especialmente na marcação, a chave do sucesso aos londrinos em 2016/17. Se o time não manteve o nível de desempenho na última temporada, não foi por culpa do meio-campista, ainda assim jogando muita bola, preenchendo todos os cantos do campo. De Bruyne, por sua vez, esperou um pouco mais para se tornar a grande estrela do Manchester City. Foram duas temporadas, a primeira com Manuel Pellegrini, a segunda com Pep Guardiola. Seria na terceira, já com as engrenagens do catalão devidamente montadas, que o belga estourou. Jogou o fino da bola para conduzir o time à campanha histórica na liga, esmerilhando recordes. O melhor em um time de tantos grandes.

Por fim, viria a Copa do Mundo. A Kanté, seu primeiro torneio como um dos protagonistas da seleção, depois de uma Eurocopa na qual perdeu espaço. A De Bruyne, uma oportunidade perfeita para aproveitar o seu momento como regente dos Diabos Vermelhos, depois das frustrações em 2014 e 2016. Por enquanto, os dois vão correspondendo. Kanté concentrado em sua destruição máxima e na construção segura de jogo. De Bruyne, na construção criativa e no empenho também pela destruição sem a bola.

Kanté é a grande unanimidade na seleção francesa. Não dá para imaginar o sucesso dos Bleus sem a onipresença do camisa 13. Ao longo da fase de grupos, o único acima da crítica foi o volante, com três partidas excelentes em sua função, protegendo a defesa e fazendo o jogo fluir a partir da saída de bola simples. Contra a Argentina, viu-se um leão, capaz de anular Lionel Messi e permitir que o plano de jogo dos Bleus funcionasse tão bem, a partir dos contragolpes. Por fim, mais uma partidaça contra o Uruguai, em que ajudou a dar tranquilidade a uma seleção francesa que, se não foi brilhante, foi perfeitamente eficiente. Eficiência, aliás, deveria ser o sobrenome do meio-campista. Difícil ver o que ele não faz bem, dentro daquilo que se propõe.

De Bruyne, por outro lado, acaba compartilhando um pouco mais o protagonismo. Até porque o meio-campista precisa se sacrificar dentro do que pede Roberto Martínez, se desdobrando mais na marcação. Contra Panamá e Bélgica, teve os seus lampejos, com destaque à assistência fenomenal de trivela. Não era tão sublime quanto no Manchester City, mas ainda dominante. Já contra o Japão, as dificuldades do camisa 7 ficaram mais visíveis, até pelo drama que se desenhou na partida. Por isso mesmo, as mudanças realizadas para o duelo contra o Brasil foram essenciais. Mais livre das incumbências defensivas, o meia acelerou o jogo ao longo do primeiro tempo. Mandou no meio-campo. Criou ocasiões aos seus companheiros, aproveitou a liberdade de Romelu Lukaku e Eden Hazard, apareceu para definir. O golaço que ampliou a vantagem dos Diabos Vermelhos foi o retrato de seu ápice.

E, enfim, Kanté e De Bruyne se encontrarão nesta terça-feira. O posicionamento de ambos, aliás, será vital. Se Roberto Martínez mantiver a tática usada contra o Brasil, corre o risco de deixar o seu maestro à sombra do leão azul, aquele volante preparado para anular qualquer craque. Por outro lado, ninguém parece tão capaz de destrancar o cadeado francês do que o camisa 7, algo que pode ser facilitado se jogar um pouco mais recuado. Fato é que, independentemente de onde o belga entrar, ambos se cruzarão várias vezes dentro de campo. Medirão forças com constância. Tentarão se sobrepor no mais alto nível. Por clubes, são quatro encontros, com duas vitórias de Kanté (ambas pelo Chelsea), um empate e uma vitória de De Bruyne, a mais recente.

Mesmo mentalmente, será um excelente embate. Kanté é um rapaz sereno, de poucas palavras e longe da postura enérgica que se imagina a alguns volantes. Prefere responder na bola. Em compensação, seu nível de concentração assusta. Tanto quanto a capacidade física, a maneira como preenche todos os cantos do campo também depende de sua atenção e da leitura que faz do jogo. O camisa 13 prima nestas lições. De Bruyne costuma ser gelado. Segundo os estudos feitos pelo Manchester City, seu nível de estresse é tão baixo que chega ao negativo, o que explica a calma para escolher sempre a melhor jogada. Todavia, quando estoura… O camisa 7 é conhecido por seus estopins. Por um gênio difícil que não economiza palavras, a ponto de peitar técnicos desde os oito anos de idade e de desafiar estrelas assim que se tornou profissional. Hoje em dia, sabe bem mais como as explosões podem prejudicá-lo. Mas é este espírito com fome de vitória que ajuda a mudar a história em uma Copa.

Cada um à sua maneira, Kanté e De Bruyne são jogadores fora de série. Ídolos em seus clubes, protagonistas em títulos importantes, melhores do mundo em suas funções. Uma Copa, porém, pode ser o rito de passagem a qualquer jogador rumo ao Olimpo da bola. É o que tentarão provar em São Petersburgo. Muito provavelmente, um precisará se sobrepor ao outro. E você só consegue ser reconhecido como o maior, afinal, superando os melhores.