Enquanto a Euro 2016 já corre em campos franceses, resta à Holanda esperar pacientemente pelo começo da temporada 2016/17. Nessa espera, nem mesmo o mercado de jogadores está aquecido. Até agora, somente se ouviu falar de contratações do Ajax, ambas vindas da Colômbia. A primeira está praticamente acertada: o atacante colombiano Mateo Casierra, 19 anos, vindo do Deportivo Cali. E também avançaram bem as negociações dos Ajacieden com Davinson Sánchez Mina, 20 anos, zagueiro do Nacional de Medellín, para vestir a camiseta alvirrubra após o fim da campanha dos Verdolagas na Copa Libertadores. Sem contar a possibilidade da volta de Klaas-Jan Huntelaar.

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Deste modo, sem muita coisa acontecendo, resta lembrar um dos episódios mais confusos da história recente da seleção holandesa. Nesta semana, completaram-se 20 anos de uma das mais conhecidas brigas internas vividas na Laranja. Durante a primeira fase da Euro 1996, explodiu um conflito que crescera gradativamente. E até hoje, acredita-se fortemente no racismo e na divisão entre jogadores brancos e negros como a principal causa da forte turbulência vivida pelos holandeses na Inglaterra, país-sede daquela Euro.

O fundo étnico é claro, mas houve mais coisas dentro daquele desentendimento. Por isso, a decisão por uma coluna explicando em tópicos (para tentar facilitar) o que aconteceu naquelas semanas turbulentas.

Como começou a briga?

Jogadores do Ajax comemoram o título da Champions League em 1995 (AP Photo/Luca Bruno)

Jogadores do Ajax comemoram o título da Champions League em 1995 (AP Photo/Luca Bruno)

Não há uma data certa para marcar o início do racha. Talvez haja uma época certa: a segunda metade de 1995, quando o Ajax era possivelmente o melhor time do mundo, como campeão europeu, invicto desde março (e ficaria até janeiro de 1996). Uma geração formidável de jogadores despontava nos Amsterdammers. Muitos deles, de ascendência surinamesa, ou até nascidos na antiga colônia holandesa: Michael Reiziger, Winston Bogarde, Edgar Davids, Clarence Seedorf e Patrick Kluivert. Todos eles, apegados às raízes. A ponto de Bogarde ter dito “é para você, Suriname”, enquanto levantava a taça da Liga dos Campeões conquistada em maio.

Técnico da seleção holandesa desde janeiro daquele ano, Guus Hiddink fez daquele Ajax a base da Laranja. Foi o que o ajudou a superar uma campanha difícil nas eliminatórias da Euro 1996, em que a Holanda só garantiu a vaga na repescagem, contra a Irlanda. E foi justamente no jogo único que definiu o lugar no torneio continental que aquela geração começou a brilhar com a camisa da seleção: dos onze titulares, nove estavam na equipe de Louis van Gaal que espantava o futebol mundial.

Patrick Kluivert fez os dois gols na vitória (2 a 0) que colocou a Holanda na Euro, num jogo único em campo neutro (Liverpool), em 13 de dezembro de 1995. E aquele resultado consolidou o destaque dos descendentes de surinameses. E a vinculação deles seria batizada involuntariamente numa entrevista de Seedorf, Davids e Kluivert após o jogo, à NOS, emissora pública holandesa de tevê. Kluivert descreveu a situação em sua autobiografia: “No hotel em que estávamos, Frits Barend e Henk van Dorp [jornalistas holandeses] queriam uma entrevista com Clarence, Edgar e eu. Sentamos lado a lado, e durante a entrevista surgiu o termo “kabel”. Estávamos orgulhosos, sendo três rapazes surinameses, e enfatizamos nossa ótima relação”. E assim surgia a ideia de um grupo de jogadores negros, involuntariamente batizado como… “De Kabel” – em holandês, “o cabo”, “a linha”. Como se ambos estivessem unidos e isolados do restante do elenco.

Aí começa a polêmica sobre a suposta presença de racismo na seleção holandesa. Kluivert lamentou a repercussão da entrevista à NOS: “Ela foi tirada do contexto, e foi entendida por muitos como um racha entre brancos e negros na seleção holandesa. Um racha absolutamente inexistente”. Falando a um documentário feito especialmente sobre a participação da Holanda na Euro 1996, feito em 2008 para o programa “Andere Tijden Sport”, também da NOS, Winston Bogarde foi mais sucinto, lembrando da maioria negra no time que vencera a Irlanda, ainda em 1995: “Você tem de escalar os melhores jogadores. E estava claro que os negros eram os melhores, naquele momento”. Também ouvido no documentário de 2008, Ronald de Boer teorizou: “Eles [surinameses] sentiam-se importantes, subiam no pódio com a bandeira do Suriname… talvez fosse um modo inconsciente de dizer ‘somos irmãos, é hora de mostrarmos que o futebol holandês veio de lá’”.

Chegou a Euro 1996, na Inglaterra. A não ser por Marc Overmars e Frank de Boer (este cortado às vésperas da estreia, por uma grave lesão no tornozelo), todos os protagonistas holandeses do Ajax estavam lá, de Edwin van der Sar a Kluivert, passando por Danny Blind, Seedorf e Davids. Para a estreia, em 10 de junho, contra a Escócia, em Birmingham, Danny Blind, capitão do Ajax, veterano (34 anos), começou no banco. Guus Hiddink escalou Davids mais recuado, como volante, enquanto Seedorf foi o armador no meio. Não deu muito certo: a Oranje decepcionou, empatando sem gols.

Após o jogo, foi aceso o pavio de uma divisão imprevista. Hiddink criticou as atuações de Davids e Seedorf, consideradas imaturas: “Eles precisam jogar menos com o coração e mais com a cabeça”. Seedorf, 19 anos à época (mas já considerado maduro e ousado), replicou: “Eu questiono isso que ele falou, não sou um jogador burro”. Davids não falou nada. Nem precisaria, diante do que viria.

O pavio explodiu em 13 de junho de 1996, durante e após a segunda partida da Oranje na Euro, contra a Suíça, novamente em Birmingham. Davids começou no banco, e Seedorf iniciou jogando como volante recuado. Também não deu certo: sem muita velocidade, o meio-campista tinha dificuldades para conter os avanços dos suíços (principalmente do armador Ciriaco Sforza e do atacante Kubilay Türkyilmaz). Seedorf levou cartão amarelo já aos 14 minutos do primeiro tempo. Bastou: com apenas 26 minutos, Hiddink o tirou de campo, dando lugar ao zagueiro Johan de Kock. A Holanda ganhou por 2 a 0 – e Davids só entrou em campo nos dez minutos finais.

Mas o que merece destaque foi o que ocorreu no banco de reservas, durante o jogo: após sair, Seedorf ficou ao lado do colega Davids, conversando. Até hoje não se sabe qual foi o conteúdo. Mas Guus Hiddink não tem dúvidas, conforme escreveu em sua autobiografia: “Clarence saiu do campo, e obviamente estava irritado. Foi se sentar ao lado do amigo dele [Davids]. Fiquei ligado no jogo, mas olhava rápido atrás de mim e via aqueles dois. Gesticulando exageradamente. Sabendo que as câmeras estavam neles. Era desrespeitoso, era provocador. Aí pensei: ‘Podem esperar, vocês vão se ver comigo’”. Depois da partida em Birmingham, na zona mista, Seedorf ouviu as perguntas de um jornalista holandês sobre a alteração precoce e irritava-se: “Isso não é pergunta que se faça”.

Mas coube a Davids explodir tudo. O meio-campo falou a um jornalista alemão: “Ele deveria parar de lamber o saco dos jogadores brancos, para ver melhor o time”. Mark van den Heuvel, jornalista holandês, passava por ali, gravando as entrevistas. Ouviu Davids e perguntou: “A quem você se refere?” “Ao técnico.” Com a fita gravada, Van den Heuvel entregou à NOS, que divulgou o áudio da entrevista. Foi o suficiente: no dia seguinte, 14 de junho de 1996, Hiddink cortou Davids da delegação holandesa. A briga estava aberta.

A divisão entre brancos e negros era geral?

Guus Hiddink, técnico da Holanda (AP Photo/Peter Dejong)

Guus Hiddink, ex-técnico da Holanda (AP Photo/Peter Dejong)

Tudo leva a crer que não. Nem mesmo os jogadores negros de destaque estavam totalmente envolvidos na briga. Se é possível escolher protagonistas da questão, estes foram: Davids e Seedorf de um lado, contra Danny Blind e Ronald de Boer de outro. Até hoje não se sabe a verdade, mas há a versão de que Blind e Ronald estiveram na reunião da comissão técnica que definiu o corte de Davids. De resto, é impossível dizer que havia uma divisão entre todos os brancos e todos os negros da seleção holandesa.

A clássica foto logo  (de autoria do holandês Guus Dubbelman), tirada sob protestos de Guus Hiddink, é criticada até hoje por muitos jogadores daquele elenco. A foto mostra brancos e negros divididos na hora do almoço: numa mesa, Aron Winter, John Veldman, Gaston Taument, Kluivert e Bogarde, aparentemente separados dos outros brancos – aparentemente, porque Richard Witschge estava junto deles. E nas outras, os jogadores brancos.

A foto é criticada por indicar que a cisão era mais profunda do que de fato era. Começando por Kluivert, em sua biografia: “Fiquei muito irritado. Se o dono da câmera prestasse atenção, teria notado que no dia anterior eu tomara o café da manhã me sentando com Van der Sar, Frank de Boer e Blind. E almoçara com Jordi Cruyff, Peter Hoekstra e Youri Mulder. Colocaram uma bomba no ambiente da Oranje, e não tinha nada a ver com a realidade”. Finalmente, o ex-atacante lembrou a entrevista de 1995 em que a história do “Kabel” começou: “Não eram nada mais do que três jovens de ascendência surinamesa, que tinham expressado seu orgulho”.

E as acusações de racismo também foram rechaçadas fortemente, desde 1996. Entrevistado pelo diário inglês “The Guardian”, o atacante reserva Youri Mulder acrescentou: “Kluivert era meu colega de quarto, e eu nunca senti isso dele [queixas de racismo]”. Van der Sar também comentou sobre o assunto, em sua autobiografia: “Muito barulho foi feito sobre aquela foto. É verdade que eles sempre se sentavam juntos, mas nós fazíamos isso também, [Arthur] Numan, [Jaap] Stam, Ronald de Boer, Jordi Cruyff e eu. Era assim no Ajax, também. Mas, do nada, virou assunto. Não tinha uma separação tão grande. Tanto no Ajax quanto na seleção holandesa, a gente se dava bem. Todo mundo se juntava nos quartos, brancos e negros, para jogar. Definitivamente, não havia reclamações sobre racismo”.

A partir da foto, também viraram assunto as diferenças culturais. A influência delas na formação desses grupos também foi lembrada por Mulder: “Almoçávamos no jardim. Tínhamos um cozinheiro na delegação, e ele também fazia comidas típicas do Suriname. É claro que os jogadores negros gostavam”. A iniciativa foi lembrada por Van der Sar: “Eu imagino que os descendentes de surinameses reclamassem da histórica preferência por pratos holandeses na seleção. Quando você come arroz quatro vezes por semana, fica chato comer batata cozida toda noite, de uma hora para outra. Eles comentaram sobre isso. Beleza. Hiddink concordou: ‘Eu sei, a partir de hoje vocês também comerão seus pratos preferidos’”. Finalmente, Michael Reiziger sintetizou a vinculação que unia seus colegas de ascendência, time, seleção e geração: “Nós nos falamos com facilidade, porque pensamos do mesmo jeito, viemos da mesma cultura, fazemos as mesmas brincadeiras”.

Mas qual teria sido a outra causa, mais forte do que racismo?

Talvez a causa mais forte do racha na seleção holandesa dentro da Euro 1996 tenha surgido após a expulsão de Davids por Hiddink. No dia seguinte, o técnico ordenou que os 21 jogadores remanescentes na delegação fizessem uma reunião, uma típica lavagem de roupa suja. Na autobiografia lançada em 2011, Van der Sar sintetizou bem o clima: “Eu estava chateado por Davids não estar mais lá [ambos são amigos], mas não tinha a impressão de que havia uma crise. Eu não sabia sobre o que estava ouvindo, até aquela reunião. Estávamos numa salinha, com umas mesas, e o técnico disse: ‘Podem começar’. Quando Hiddink saiu, explodiu uma tremenda discussão sobre os salários no Ajax. Reiziger começou, e Blind retrucou…”.

Numa entrevista à revista “Profiel”, em 2006, Winston Bogarde (o mais temperamental dos membros do eventual “Kabel”) confirmou: havia certa diferença salarial no Ajax entre negros e brancos, ordenada em três categorias salariais. No documentário de 2008, já mencionado aqui, Maarten Oldenhof, diretor comercial do Ajax na época, reconheceu a grande defasagem existente entre uma categoria e outra: “Havia a categoria A, para os melhores jogadores; a B, para os medianos; e a C, para aqueles que vinham de fora, ou das categorias de base”.

Oldenhof sustentou que havia promoção entre as categorias do elenco, com o óbvio aumento salarial. Mas Bogarde trouxe a grande complicação, em 2008: “Eu vim de fora, mas eu sabia o problema: os rapazes [negros] tinham um salário muito baixo. Todos eles: Michael [Reiziger], Edgar [Davids], Patrick [Kluivert], Finidi, Kanu…”. E a revista “Voetbal International” revelara, em 1995, alguns desses salários: Blind recebia cerca de 510 mil florins (moeda holandesa), assim como os irmãos De Boer. Davids recebia 100 mil florins; Seedorf e Kluivert, 80 mil florins.

Obviamente, a defasagem causava irritação. Ainda mais porque Blind e os irmãos Frank e Ronald de Boer representavam o elenco junto a diretoria, para questões salariais. E tal posto, somado aos números, levou à acusação (ainda hoje não comprovada) de que eles eram levados mais em conta do que o resto dos jogadores – incluindo Seedorf e Davids, dois jovens que já mostravam o espírito de liderança que teriam na carreira. Na época, Ronald de Boer elogiava ambos: “Seedorf e Davids já são mais experientes e se desenvolveram mais do que eu quando tinha a idade deles [nota: em 1996, Ronald tinha 26 anos; Davids, 23; e Seedorf, 20]. Deve-se levá-los a sério, ouvir o que têm a dizer”.

Depois daquela Euro, a discussão amainou um pouco. Reiziger e Davids deixaram o Ajax rumo ao Milan, e Seedorf já deixara o clube logo após o título europeu de 1995. Ainda assim, os destaques que ficaram no Ajax viveram outra turbulência por razões financeiras: na temporada 1996/97, a Croky (fabricante belga de batatas fritas estilo “chips”) quis pagar os jogadores do clube para que suas imagens estampassem figurinhas, a serem distribuídas nos pacotes. Como representantes do elenco para as questões financeiras, Danny Blind e Ronald de Boer acertaram o contrato. Por 500 mil florins, a Croky ganhou os direitos de imagem de todo o elenco.

O problema: Blind e Ronald fizeram a negociação sem reuniões com os outros jogadores. E três dles negaram-se a assinar o contrato, inicialmente: Bogarde e Kluivert, além de John Veldman (que não era parte do “Kabel”, embora fosse negro e estivesse na Euro 1996). Bogarde justificou a negativa: “Não era pelo dinheiro. Era puramente pela maneira como o assunto foi conduzido. Eles se deram o direito de fazer o negócio em nome do grupo. Eles determinavam quanto cada um iria receber. E a gente que ficasse satisfeito”. Coincidência ou não, o Ajax terminou a Eredivisie 1996/97 apenas na quarta posição. E Kluivert e Bogarde deixaram o clube no final daquela temporada, acompanhando Louis van Gaal em direção ao Barcelona.

Como acabou a discussão?

Alquebrada psicologicamente nos dias após a expulsão de Davids, a Holanda foi facilmente goleada pela Inglaterra, no último jogo da fase de grupos (4 a 1). Ainda assim, ficou com a vaga nas quartas de final, por marcar dois gols a mais do que a Escócia. Dali por diante, o clima foi sintetizado por Bogarde, em 2008: “Eu sabia do problema, eu apoiava os outros jovens negros, mas eu tinha uma meta: vencer a Euro”. Assim, a Oranje se recompôs minimamente para as quartas, contra a França. E fez um duelo tenso contra os Bleus, sendo eliminada nos pênaltis após 0 a 0 em 120 minutos – no 5 a 4 após as cobranças, o único chute perdido foi de Seedorf, que jogou normalmente.

Encerrada aquela turbulenta participação na Euro, já se previa que a divisão interna no elenco não iria longe. Por duas razões. A primeira cabe num parágrafo escrito pelo jornalista Simon Kuper, na revista inglesa “When Saturday Comes”, em agosto de 1996: “Os jogadores brancos não estão muito interessados. Blind e De Boer alegam ter aconselhado Hiddink a escalar Davids contra a Suíça. Aos 35 anos, Blind não deverá ter muito mais tempo na seleção. E todos os outros brancos dizem que não é da conta deles. Dennis Bergkamp e Edwin van der Sar são daquela raríssima linhagem de jogadores holandeses que detestam discussões (…) E os irmãos De Boer têm carisma de menos para se envolverem em debates”.

A segunda foi mais prática: logo após a Euro 1996, em agosto, Guus Hiddink instituiu uma cartilha. Batizada popularmente como “Manifesto de Noordwijk”, tratava-se de uma relação de dez normas de comportamento para todos os jogadores, em relação à imprensa e à torcida (que, claro, culpava os jogadores pela decepção na Euro). Paralelamente, como punição, Hiddink deixou Davids por mais de um ano fora das convocações da Laranja, alegando que não poderia garanti-lo como titular. E adotou um estilo mais restrito, até autoritário, como treinador daquela seleção. Deu certo: aquela geração de jogadores voltou a jogar sem levar mágoas para dentro de campo. Já em 1998, Hiddink decidiu chamar Davids de volta, por reconhecer que não poderia prescindir do volante, vivendo uma de suas grandes fases: “Edgar chegou, nos saudou amistosamente, leu a cartilha e disse: ‘Tudo bem, na Juventus também fazem isso’”.

E o clima foi o melhor possível na Copa de 1998. A opinião é unânime, entre torcida, imprensa e atletas: naquele torneio, a Oranje teve um grupo bem concentrado e focado. Já durante aquela Copa, Seedorf explicou à imprensa sobre a mudança desde a Euro: “Desde então, os jogadores cresceram. Às vezes, o técnico faz escolhas que parecem prejudiciais a alguns, mas eles logo se recuperam de novo. Isso dá uma sensação positiva. Não é só o fato de Davids estar de novo incluído no grupo. O fato de termos vencido um jogo por nos esforçarmos muito, após um longo tempo, diz muito sobre a harmonia nesta seleção”, comentou o camisa 10 da Oranje naquele torneio, sobre a vitória nas oitavas de final, sobre a Iugoslávia.

O curioso é que foi justamente uma cena na comemoração do triunfo dramático sobre os iugoslavos (com gol de Davids, nos acréscimos do segundo tempo) que levou a imprensa a especular sobre novos problemas entre brancos e negros. Logo após o apito final no estádio de Toulouse, todos os jogadores se abraçaram no meio do campo. Por trás, Bogarde e Phillip Cocu abraçaram Van der Sar, que se incomodou e socou o zagueiro – que, por sua vez, olhou feio para o goleiro. Só em 2011 Van der Sar explicou direito, em sua biografia: “Na comemoração, veio um braço direto na minha goela. Eu não conseguia respirar, e soquei o braço. Parecia o braço de Bogarde, e eu realmente fui para cima dele. Mas era o braço de Van Hooijdonk, depois notei. Aí,  na zona mista, os jornalistas começaram a falar sobre isso. Virou assunto. Quando um repórter começou com a história de problemas étnicos, eu fiquei furioso: ‘Que problemas de raça? Não tem nada disso atualmente!’”.

Nos dias seguintes, Van der Sar reconheceu à imprensa: “Não deveria ter reagido daquele jeito. Falei com Winston [Bogarde] ainda no vestiário”. Ao biógrafo, o ex-goleiro lembrou: “No dia seguinte ao jogo, eu cheguei rápido a Bogarde antes do treino: ‘Winston, há algum problema, há algo que queira falar?’. Ele: ‘Não tem nada. No que me diz respeito, está tudo bem, podemos seguir normalmente’. E eu: ‘Boa, então tudo certo’”. Perguntado sobre o incidente, também na zona mista, Guus Hiddink chegou até a rir sobre a hipótese de aquilo significar um grande problema. O resultado da união e do foco holandeses na Copa de 1998 é sabido: ótimas atuações naquele torneio, resultando na doída e marcante eliminação para o Brasil, nas semifinais.

E talvez a grande prova de que as mágoas tenham sido restritas à Euro 1996 é que os jogadores que haviam começado juntos no Ajax até hoje mantêm relação cordial. Basta lembrar o reencontro da maioria daqueles jogadores, na festa de encerramento da carreira de Van der Sar, em agosto de 2011. De todos, envolvidos e não-envolvidos na “questão Kabel”, brancos e negros, apenas Seedorf não pôde estar presente, por estar em pré-temporada com o Milan.

O que se pode concluir?

Que a cisão na Euro 1996 teve componente étnico, claro. Mas foi apenas uma causa, não a principal. Cabe citar, novamente, Simon Kuper: “Nenhum dos negros quis sugerir que Hiddink, De Boer ou Blind foi deliberadamente racista. Eles só pensam que o técnico foi insensível. Acham que ele os vê como negros talentosos, de uma cultura semelhante à do rap, não como líderes. Claramente Hiddink subestimou o pedido deles por respeito”. Acabado o torneio, os ânimos se acalmaram, e cada um daqueles jogadores tocou sua própria carreira ao longo dos anos. Como em vários times marcantes de futebol.