De Keegan a Gerrard: relembre as sete finais que o Liverpool já disputou na Champions League

O torcedor do Liverpool que aprecia a numerologia deve gostar do número sete. Foi a camisa de Ian Callaghan, de Kevin Keegan e de Kenny Dalglish, e de Luis Suárez. Era também o número de vezes que o clube havia chegado à grande decisão da Copa dos Campeões ou da Champions League. O total sobe para oito com a final marcada para Kiev, em 26 de maio, contra o Real Madrid.

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Do bicampeonato do final da década de setenta, com Keegan em um título e Dalglish no outro, ao primeiro encontro com os gigantes da Espanha em 1981. Três títulos sob o comando do gênio silencioso Bob Paisley. Fagan, seu sucessor, ficou apenas duas temporadas no cargo e chegou à final em ambas. Derrotou a Roma no Estádio Olímpico da capital italiana e perdeu para a Juventus, na tragédia de Heysel, que durante muitos anos foi o ponto final da trajetória europeia do Liverpool.

A tradição foi resgatada por Rafa Benítez, já no novo século. Com uma equipe modesta, esforçada e organizada, o espanhol levou o Liverpool a Istambul, palco de um dos grandes milagres da história do futebol. E dois anos depois, mais reforçado, sofreu com a vingança do Milan. O oitavo capítulo ainda não foi escrito, mas considerando o potencial ofensivo dos times de Klopp e Zidane, certamente teremos mais história para contar no futuro.

1976/77

Estádio Olímpico de Roma: Liverpool 3 x 1 Borussia Monchengladbach

Vogts, do Borussia Mönchengladbach, dá um carrinho em Keegan, do Liverpool, na final da Champions de 1976/77

O Liverpool estava em sua quarta participação na Copa dos Campeões, mas já tinha uma experiência europeia considerável para a época. Havia sido semifinalista da competição em 1964/65, finalista da Recopa Europeia e havia conquistado a Copa da Uefa, em 1972/73, contra o mesmo Borussia Monchengladbach que enfrentaria na decisão de Roma, e a de 1975/76. Os alemães eram um time fortíssimo. Haviam ficado entre os três primeiros lugares do Campeonato Alemão todos os anos, entre 1967 e 1978, com exceção de uma temporada, conquistando cinco títulos e dois vices. Contavam com jogadores como Allan Simonsen e Jupp Heynckes. 

A equipe do Liverpool já era uma mistura entre jogadores estabelecidos por Bill Shankly, como Kevin Keegan, Steve Heighway e Ian Callaghan, com outros descobertos por Bob Paisley, seu sucessor. Terry McDermott, Phil Neal e Ray Kennedy passariam de 300 partidas pelo Liverpool e jogaram a final de Roma, que seria o último jogo de Keegan com a camisa dos Reds. 

Aos 28 minutos do primeiro tempo, Heighway trouxa da direita para o meio e achou lindo passe para McDermott, que bateu no canto para abrir o placar. Em erro de Jimmy Case, Simonsen encontrou-se na entrada da área e bateu cruzado para empatar. O segundo gol vermelho surgiu no jogo aéreo. Heighway cobrou escanteio, e Tommy Smith, próximo da aposentadoria após 15 anos de casa, marcou o 2 a 1. Já no fim, Keegan sofreu pênalti, que Phil Neal converteu para selar a primeira conquista do Liverpool na Copa do Campeões. 

1977/78

Estádio Wembley, Londres: Liverpool 1 x 0 Club Brugge 

Terry McDermott e Kenny Dalglish com a taça de 1978

No ano seguinte, o Liverpool estava de volta à grande decisão europeia. Havia perdido o título inglês para o Nottingham Forest, de Brian Clough, e sido eliminado precocemente da Copa da Inglaterra. A final da Copa dos Campeões era a oportunidade de salvar a temporada, que poderia terminar sem títulos relevantes para o clube de Anfield pela primeira vez em muito tempo. 

Mesmo em pouco tempo, a equipe havia passado por mudanças relevantes. Após a saída de Keegan, Paisley foi ao mercado em busca de um substituto e conseguiu convencer o Celtic a vender Kenny Dalglish. Alan Hansen foi contratado do Partick Thistle, e Graeme Souness chegou do Middlesbrough em janeiro. Os três escoceses, pilares do Liverpool nos anos seguintes, começaram jogando em Wembley. 

Emlyn Hughes foi deslocado à lateral esquerda, para que Hansen fizesse a dupla de zaga com Thompson. Souness entrou no meio-campo no lugar de Callaghan, em seu último ano em Anfield, e Dalglish compôs o ataque com David Fairclough, escolhido por Paisley à frente de Heighway, que voltava de lesão no quadril. 

A coincidência era o adversário. O Liverpool havia vencido duas edições da Copa da Uefa enfrentando o Borussia Monchengladbach, em 1973, e o Club Brugge, em 1976. E depois de conquistar a Copa dos Campeões contra o Gladbach, enfrentaria o próprio Club Brugge na final de 1978. Os belgas, comandados por Ernst Happel, haviam eliminado Atlético de Madrid e Juventus para chegar a Wembley. 

O Liverpool comandou as ações ofensivas do primeiro tempo, mas o goleiro Birger Jensen só precisou fazer duas grandes defesas, em bomba de Jimmy Case e uma cabeçada de Hansen. Ray Kennedy perdeu a chance mais clara: sozinho e na pequena área, se desequilibrou na hora de finalizar e mandou para fora. Depois do intervalo, McDermott arrancou, ficou cara a cara com Jensen, que conseguiu abafar. Dalglish, em uma daquelas cobranças de falta rápidas, teve ótima oportunidade, mas bateu cruzado para fora. 

O gol saiu aos 19 minutos do segundo tempo, em uma jogada de quase £ 800 mil libras – valor alto para a época. Souness achou um passe rasteiro entre dois marcadores para Dalglish que, desta vez, encontrou uma cavadinha para encobrir Jensen e fazer 1 a 0. O Brugge quase empatou em um erro de Hansen. Clemence saiu do gol para abafar, e a sobra ficou com Jan Simoen. Phil Thompson precisou cortar em cima da linha para garantir o bicampeonato europeu ao Liverpool.

 1980/81

Parque dos Príncipes, Paris: Liverpool 1 x 0 Real Madrid

Alan Kennedy, autor do gol do título de 1981 (Foto: Getty Images)

A contratação de Alan Kennedy foi bancada por Bob Paisley. O treinador do Liverpool conhecia a mãe do lateral esquerdo do Newcastle, que trabalhava na loja de peixes em que Paisley comprava refeições em Hetton-le-Hole, cidade onde nasceu, nas proximidades de Sunderland. Chegou em 1978, aos 24 anos, a um elenco cheio de estrelas e demorou para ganhar confiança. Sua estreia foi contra o Queens Park Rangers, pelo Campeonato Inglês. Depois de um péssimo primeiro tempo, voltou ao vestiário esperando ouvir palavras reconfortantes do seu técnico. Em vez disso, ouviu de Paisley uma referência ao assassinato do ex-presidente americano John Kennedy: “Jesus Cristo, atiraram no Kennedy errado”. Eventualmente, conseguiu se firmar e disputou mais de 350 partidas pelos Reds. 

A temporada de 1980/81 foi difícil para o clube inglês. Alguns jovens estavam surgindo, como Ian Rush, mas os principais nomes ainda eram os mesmos da década passada, envelhecidos, suscetíveis demais a lesões, o que sempre irritou Paisley, e incapazes de produzir boas atuações com consistência. O Liverpool sofreu em âmbito doméstico. Foi apenas quinto colocado no Campeonato Inglês, a pior campanha em 11 anos, e foi eliminado na quarta rodada da Copa da Inglaterra. Conseguiu levantar o troféu da Copa da Liga, contra o West Ham. 

Por outro lado, a trajetória europeia acabou sendo brilhante. Teve um 10 a 1 sobre o Oulun Palloseura, da Finlândia, na primeira fase; um encontro com o Aberdeen de Alex Ferguson na sequência; e uma eliminatória tensa contra o Bayern de Munique nas semifinais, decidida nos gols fora de casa, com um tento de Ray Kennedy, aos 38 minutos do segundo tempo – Rummenigge, cinco minutos depois, empatou. O confronto da decisão, no Parque dos Príncipes, seria contra o Real Madrid, comandado pelo meia Juanito. O hexacampeão europeu retornava à final pela primeira vez desde o título de 1965/66. 

Prova de como o Liverpool tinha um time envelhecido, a escalação titular foi muito parecida com a do jogo contra o Club Brugge. Haviam apenas três diferenças: Alan Kennedy começou na lateral esquerda no lugar de Hughes, que já havia deixado o clube. O jovem Sammy Lee, então com 21 anos, compôs o meio campo na vaga de Jimmy Case, que estava no banco de reservas. David Johnson foi a dupla de ataque de Dalglish em vez de David Fairclough, que nem foi relacionado.

O Liverpool impôs seu estilo de jogo característico em duelos europeus, tocando a bola com paciência, sem desperdiçar posses, e buscando as laterais com frequência. O primeiro tempo terminou sem grandes chances. Após o intervalo, José Antonio Camacho escapou livre e tentou encobrir Clemence da intermediária. Errou por pouco. Aos 37 minutos do segundo tempo, Ray Kennedy cobrou lateral pela esquerda e encontrou o xará Alan dentro da área. O outrora inseguro lateral encarou com coragem a tentativa de desarme de Rafael García Cortés, venceu a dividida e se encontrou livre, cara a cara com Agustín Rodríguez. Bateu cruzado, correu para a torcida e entrou para a história. 

1983/84

Estádio Olímpico de Roma: Liverpool* 1 x 1 Roma

Grobbelar, ex-goleiro do Liverpool (Foto: Getty Images)

Bob Paisley se aposentou em 1983 e passou o bastão para o seu auxiliar Joe Fagan, como Bill Shankly havia feito com ele. O Liverpool havia perdido um dos maiores treinadores da sua história, mas a filosofia e os métodos que o tornaram tantas vezes campeão nas últimas duas décadas continuariam. A prova disso é que, em dois anos como treinador principal, Fagan chegou à decisão da Copa dos Campeões em ambas.

Fagan não conquistou a Tríplice Coroa naquela temporada, eliminado pelo Manchester United no replay das semifinais da Copa da Inglaterra. Mas conseguiu o que nem Shankly e nem Paisley haviam conseguido: três troféus importantes – excluindo Supercopas – na mesma época. Completou o tricampeonato seguido da liga inglesa, o único da história dos Reds, e levantou a quarta Copa da Liga em sequência, com direito a derrotar o Everton na final. Faltava apenas a Copa dos Campeões. Contra a Roma. No estádio Olímpico da capital italiana. 

A renovação do time era iminente, e alguns novos atletas já se firmavam entre os titulares. Bruce Grobbelaar assumiu a meta. Os irlandeses Mark Lawrenson e Ronnie Whelan foram peças importantes. Sammy Lee estava mais experiente. E Kenny Dalglish ganhou um valoroso companheiro de ataque em Ian Rush, que marcou 47 gols em todas as competições naquela temporada. Até hoje, é o recorde de tentos de um jogador dos Reds em uma única época. Mohamed Salah, com 43 e ainda três partidas pela frente, tenta superá-lo. 

O Liverpool chegou invicto ao confronto final no Estádio Olímpico, com sete vitórias e um empate contra Odense (Dinamarca), Athletic Bilbao, Benfica e Dínamo Bucareste. Enfrentaria uma Roma altamente qualificada. A equipe comandada por Paulo Roberto Falcão e treinada pela lenda sueca Nils Liedholm era a atual campeã italiana e, naquela temporada, seria segunda colocada da Serie A e campeã da Copa Itália. Contava com outros grandes nomes como Bruno Conti, Roberto Pruzzo, Francesco Graziani e Toninho Cerezo. 

Falcão havia machucado o joelho na semifinal contra o Dundee United e não estava 100%. O Liverpool encarou toda a hostilidade de um Estádio Olímpico naturalmente favorável à Roma. O placar foi aberto pelos visitantes logo aos 13 minutos. Tancredi disputou um cruzamento da direita pelo alto com Ronnie Whelan e deixou escapar. Nappi tentou afastar e acertou o próprio goleiro. Phil Neal estufou as redes com o rebote. Pruzzo empatou de cabeça e os dois goleiros evitaram que o placar se mexesse novamente. Após uma prorrogação arrastada, disputa de pênaltis. 

Grobbelaar lembra que, antes da primeira batida, Fagan aproximou-se e disse que ninguém o culparia se ele não conseguisse defender uma cobrança. Por algum motivo, aquilo encheu o goleiro de confiança. Enquanto se distanciava, Fagan acrescentou: “Tente tirar a concentração deles”. A solução de Grobbelaar foi ao mesmo tempo maluca e brilhante: “Pensei: ‘Estou em Roma, o prato nacional é o espaguete, então vou fazer as pernas de espaguete’”.  Balançando as pernas, Grobbelaar conseguiu desconcentrar dois jogadores da seleção italiana. Tanto Conti quanto Graziano chutaram por cima do travessão. E o Liverpool foi campeão. 

1984/85

Estádio de Heysel, Bruxelas: Liverpool 0 x 1 Juventus

O ápice negativo do hooliganismo foi Heysel, com a morte de 39 torcedores (Foto: AP)

O Liverpool buscava mais um bicampeonato europeu na Bélgica. Como em outras ocasiões, era a chance de salvar a temporada, depois de perder o título inglês para o rival Everton e ser eliminado da Copa da Inglaterra pelo outro rival Manchester United. Enfrentaria a poderosa Juventus de Boniek, Tardelli, Paolo Rossi e Michel Platini. Tinha time para fazer frente, mas os eventos das arquibancadas ofuscaram qualquer coisa que aconteceu em campo naquela noite trágica no estádio de Heysel. 

Heysel era um estádio caindo aos pedaços, com estrutura precárias e avesso a manutenções. A torcida da Juventus ficou atrás de um dos gols, e a do Liverpool, atrás do outro. No entanto, havia um setor adjacente à torcida inglesa reservado para torcedores neutros. Os organizadores da partida esqueceram que a Bélgica é um país com forte comunidade italiana. Muitos fãs da Velha Senhora compraram ingresso para aqueles assentos e, quando viram uma horda de hooligans ingleses correndo em sua direção, ficaram apavorados. Fugiram para longe da divisão, em direção a um muro de concreto. Cerca de 600 pessoas ficaram feridas e 39 morreram amassadas contra a parede. 

Aquilo foi o resultado de uma sequência de casos de hooliganismo do futebol inglês que se agravou na temporada 1984/85. Houve 81 feridos em uma briga generalizada entre Luton e Millwall e 56 mortos em um incêndio no Valley Parade. A própria torcida do Liverpool havia sido protagonista de muita violência nas ruas de Roma na decisão do ano anterior. Apesar da negligência das autoridades, o clube assumiu responsabilidade pelo ocorrido e acatou a suspensão de cinco anos de competições europeias imposta a todos os times do país. 

A Uefa, sabe-se lá por que, decidiu dar seguimento ao jogo, apesar da morte de quase quatro dezenas de pessoas. A partida foi naturalmente travada, tensa e com poucas emoções. Aos 11 minutos do segundo tempo, Platini sofreu pênalti e cobrou ele mesmo para marcar o único gol daquela noite. O título era da Juventus, mas havia pouco a ser comemorado. E foi a última vez que o Liverpool compareceu ao grande palco do futebol europeu pelos próximos 20 anos. 

2004/05

Estádio Olímpico de Istambul: Liverpool* 3 x 3 Milan

A apresentação do troféu ao Liverpool, em 2005, ainda no gramado (Foto: Getty Images)

Os milagres do Liverpool de Rafa Benítez começaram antes do segundo tempo em Istambul. Após Heysel, os Reds conseguiram manter a hegemonia em âmbito doméstico, mas outra tragédia, a de Hillsborough, foi um divisor de águas na história do clube. Muita coisa mudou de repente: Kenny Dalglish pediu para sair, Souness não se deu muito bem de treinador, e o Campeonato Inglês virou Premier League, com novas injeções de dinheiro e dinâmicas para montar equipes campeãs. O último título inglês de Anfield foi em 1990. E o clube só retornou à agora repaginada Champions League em 2001/02, muitos anos depois de expirar a punição pelas mortes em Bruxelas. 

A equipe comandada por Benítez era fraca. Mesclava jogadores esforçados com um ou outro acima da média, como Gerrard e Xabi Alonso. Mas também participaram daquela campanha nomes mais modestos como Steve Finnan, Stephen Warnock, Djimi Traoré, Milan Baros, Harry Kewel e outros que nunca se aproximaram do que se costuma imaginar de um time campeão europeu. A classificação às oitavas foi um parto, conquistada no confronto direto contra o Olympiacos graças a um golaço de Gerrard, aos 41 minutos do segundo tempo. 

O Liverpool, em seguida, passou fácil pelo Bayer Leverkusen e conseguiu eliminar a Juventus, com vitória em casa e um bravo 0 a 0 em Turim. Nas semifinais, ninguém marcou, nem Luis García, já que o seu gol “fantasma”, que valeu a classificação à final, nunca cruzou a linha de Anfield. A caminhada até a decisão já era honrosa para o que Benítez tinha em mãos. Ninguém imaginava que o Liverpool conseguiria lidar com um esquadrão: Dida, Cafu, Nesta, Maldini, Pirlo, Seedorf, Kaká e Shevchenko. Stam, Gattuso e Crespo completaram o time escalado por Ancelotti. 

E o Liverpool, de fato, não conseguiu lidar com o Milan. O recado veio com menos de um minuto. Pirlo cobrou falta pela direita, e Maldini abriu o placar. Kaká puxou três contra-ataques de manual. Shevchenko completou o primeiro, mas estava impedido. No segundo, o ucraniano cruzou para Crespo fazer 2 a 0. No terceiro, o lindo passe longo e rasteiro do brasileiro encontrou o argentino nas costas da defesa: 3 a 0, ainda no primeiro tempo. 

Benítez obviamente mexeu na equipe. Mas não foi com tudo para a frente. Colocou o volante Hamann no lugar do lateral direito Finnan para liberar Gerrard. Liberado, o capitão do Liverpool entrou na área para cabecear o cruzamento de Riise e dar início ao que Ancelotti classificaria de “seis minutos de pura loucura”. Porque, dois minutos depois, Smicer descontou de fora da área. Quatro minutos depois do segundo gol vermelho, Gerrard sofreu pênalti. Dida ainda defendeu a cobrança de Xabi Alonso, mas o espanhol conferiu o rebote para empatar. 

Um desses jogadores modestos e esforçados era Dudek. O goleiro polonês fez duas defesas absurdas nos acréscimos. Shevchenko cabeceou da marca do pênalti e já deveria ter marcado, mas parou nas mãos do arqueiro. O ucraniano pegou o rebote e, a menos de trinta centímetros do gol, encheu o pé. Dudek defendeu novamente, espalmando para os céus. Antes da disputa de pênaltis, Carragher evocou Grobbelaar em uma conversa íntima com Dudek. O polonês tentou as pernas de espaguete apenas contra Kaká, que converteu sua cobrança. Mas pulou descontroladamente na frente de Serginho, Pirlo e Shevchenko. Os três erraram, e o Liverpool completou o milagre. 

2006/07

Estádio Olímpico de Atenas: Liverpool 1 x 2 Milan

Gerrad e Kaká, em Atenas (Foto: Getty Images)

Dois anos se passaram. O palco agora era Atenas. Os clubes, porém, eram os mesmos. O Milan não imaginava que teria a chance de se vingar de uma das derrotas mais doloridas da sua história tão rápido. A distância entre os times era menor: os italianos estavam ligeiramente menos poderosos, e os ingleses, ligeiramente melhores. O Liverpool já tinha Reina no gol, Agger na defesa e Mascherano no meio-campo. O ataque contava com mais opções, com Kuyt e Peter Crouch. Jermaine Pennant ainda era um promissor ponta-direita inglês quando foi titular na final da Champions League de 2006/07. 

O Liverpool crescia com Benítez. Disputava a Champions League pela terceira vez seguida, o que não acontecia desde o começo dos anos oitenta. Ganhou a vaga com o terceiro lugar na Premier League e teve uma caminhada menos tortuosa rumo à final europeia. Liderou com tranquilidade o grupo que tinha PSV, Bordeaux e Galatasaray. Passou pelo Barcelona nos gols fora de casa, despachou o PSV e novamente derrotou o Chelsea nas semifinais. Desta vez, nos pênaltis. 

Era possível ter esperanças de mais um título no reencontro com o Milan porque o time italiano havia envelhecido dois anos e perdido peças importantes. Não havia mais Shevchenko e Crespo no ataque, agora formado por Inzaghi e Kaká. As laterais foram ocupadas por Oddo e Jankulovski, muito distantes da qualidade de Cafu e Serginho, que ficaram no banco de reservas. Ambrosini entrou no meio-campo para adiantar Kaká. E Maldini já estava com seus 38 anos. 

O Liverpool teve mais ações ofensivas no primeiro tempo. Ameaçou com Pennant, Kuyt, Xabi Alonso, Gerrard e Riise. Mas quem abriu o placar foi o Milan. Pirlo cobrou falta, e Inzaghi apareceu no meio do caminho para desviar com o rosto. Gerrard perdeu uma grande chance no segundo tempo. Entrou na área, após jogada individual, e ficou cara a cara com Dida. Mas bateu fraco, sem problemas para o goleiro brasileiro. O castigo veio rápido: Kaká liberou Inzaghi, que driblou Reina e fez 2 a 0. Aos 44 minutos, em cobrança de escanteio, Agger desviou e Kuyt descontou, mas não havia mais tempo para outro milagre.