Podem existir ídolos maiores, outros momentos grandiosos, títulos tão importantes quanto. Mas não há emblema maior sobre o que é o Grêmio do que aquela imagem. Do que a fotografia de Hugo de León, rosto ensanguentado, erguendo a Taça Libertadores em 1983. Um símbolo que traduz muito do sentimento e da vivência como tricolor. E que eterniza também uma entidade mística do gremismo: o capitão responsável por liderar a conquista da América. De León, por si, foi um mito que encarnou o espírito e desbravou fronteiras. Doze anos depois, caberia a Adílson assumir a braçadeira. Outro zagueiro de qualidade muito acima do comum, capaz de capitanear um time de tantos xerifes, de personalidades tão fortes. E o Olimpo tricolor ganhou seu terceiro representante de Apolo nesta quarta: Pedro Geromel, um senhor defensor no tricampeonato continental.

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No atual elenco do Grêmio, Geromel está entre aqueles que dão um passo à frente para serem chamados de ídolos. Houve quem desconfiasse da contratação de um zagueiro que nunca tinha atuado no futebol brasileiro. Que limitava sua carreira a sucessos a Vitória de Guimarães e Colônia, embora naquele momento já não servisse ao Mallorca, na segunda divisão espanhola. A resposta do defensor, então, se deu como se repetiria ao longo dos últimos três anos: em campo, com soberania e influência por tudo o que se desdobrava no campo de defesa tricolor.

Geromel angariou a segurança dos gremistas. E a qualidade técnica excepcional para um zagueiro, sobretudo pelo senso de antecipação e pela classe no trato com a bola, deixou claro aos torcedores que ali havia um jogador que não se vê sempre. Que, no fim das contas, se transformou em um grande achado da diretoria tricolor. Que não demoraria a receber o apelido de “mito”, fazendo por merecer toda a adoração devotada a ele na Arena. Entre os melhores defensores do Brasileirão em 2015 e 2016, seria ainda mais aclamado pela glória na Copa do Brasil. O título que encerrou a seca do clube e abriu o caminho para o camisa 3 se alçar ao panteão.

Geromel viveu uma Libertadores respeitabilíssima. Ao contrário de outros capitães, não precisa ser o tradicional caudilho que manda no grito, ainda que também tenha voz de comando. A sua liderança nasce mais na imponência de seu futebol. Um estilo de jogo essencialmente limpo, de domínio pelo alto e precisão pelo chão. De capacidade para cobrir os espaços, organizar o sistema. E que por vezes também gera frutos mais à frente, seja pelas aparições na área ou especialmente por sua capacidade para sair jogando – que chegou a ser decisiva nesta campanha continental, como bem se viu diante do Godoy Cruz.

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Fundamental ao Grêmio, Geromel não pôde estar em campo a todo momento. Não jogou em parte da fase de grupos e foi ausência bastante sentida em um dos jogos contra o Botafogo, privado do time por uma lesão. Voltou a tempo de, mesmo recuperando o ritmo, eliminar os alvinegros em Porto Alegre. Até que terminasse de sublinhar sua grandeza perante Barcelona de Guayaquil e Lanús. A atuação do zagueiro em La Fortaleza, aliás, também foi parte importante da noite irrepreensível atravessada pelos tricolores. Firme, o capitão se tornou dono de sua área para anular a insistência dos grenás. Demonstrou suas virtudes, especialmente pelo senso de colocação, para desfrutar do triunfo.

Obviamente, o sucesso de Geromel e do Grêmio da Libertadores não está completo sem se citar o seu parceiro de zaga. Jogando sério e até sendo mais o próprio caudilho, Kannemann é o seu complemento perfeito. Difícil encontrar uma dupla de zaga que se complete tão bem, seja por gênio ou por estilo de jogo. Nesta quarta, porém, um dos maiores motivos de preocupação dos gremistas era a ausência do argentino, substituído por Bressan – que nem sempre fez por merecer a confiança dos torcedores, ainda mais em uma ocasião como a final continental. Mas os temores passaram longe desta vez. O substituto emulou o estilo físico e de poucos rodeios do titular suspenso. Também viveu uma partida excelente, digna de seu parceiro, até precisar deixar o campo ao se lesionar.

Festa consumada, coube a Geromel subir ao grande palco. Curiosamente, com a boca sangrando após um corte sofrido. Não tão evidente quanto De León, mas já um elemento místico suficiente para atiçar os gremistas. Ao lado do inseparável Kannemann, pôde erguer aquela que se mira e, enfim, se toca. A Taça Libertadores se encaixou perfeitamente em suas mãos. Em um time de tantos jogadores rodados, de outros atletas mais tarimbados nos próprios corredores do Grêmio, coube a ele ser capitão graças a sua hierarquia natural. Ninguém parece melhor moldado para, assim, se colocar ao lado de De León e Adílson. Uma trinca de zagueiros, uma trinca de líderes, uma trinca de lendas. Por sua figura e por sua altivez, proclama-se Don Pedro Geromel de América.